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Pó vermelho

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É quase quatro da manhã. Estou numa pequena cidade do interior do Paraná. Um cara que conheci há algumas horas me oferece cocaína. Declino. Não gosto de tomar nem antibióticos, o que dirá pó. Na minha cidade natal, em outra noite, não me oferecem nada, mas garantem que posso conseguir tudo, de maconha a crack ou LSD.
O que aconteceu que alastrou as drogas pelo interior do Paraná não entendo, mas há uma geração drogada de pés vermelhos. Não deve ser diferente em outras cidades pequenas. Como tudo num mundo capitalista, as drogas viraram uma indústria, comércio, produção de vício para ganhar dinheiro.
A contracultura tinha uma relação ideológica com as drogas. Nem por isso seus expoentes ficaram imunes às suas tragédias. A cena eletrônica tem uma relação cultural com as drogas sintéticas. Isso também não a livra nem a livrará dos danos.
No interior, no entanto, o consumo é simplesmente para acelerar a vida. É o retrato de uma juventude vitimada pelo mercado do prazer ao extremo.

Curitiba, de costas

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Olho Curitiba, de costas. Sinto saudades. É estranho partir deste lugar e sentir falta. Curitiba foi feita para ser abandonada, cidade chata, modorrenta, sem identidade cultural, sem um povo caloroso. Cidade sem nada. Não importa. Sinto saudades.
Cheguei há muitos anos. Vivi antes numa cidade muito pequena (5 mil habitantes) e em outra muito grande (mais de 10 milhões de habitantes). Curitiba foi uma escolha apenas conveniente. Só isso. Mas, com o tempo, virei seu filho.
Falo mal de Curitiba, o que é muito curitibano. Reclamo do trânsito. Prefiro a cidade calma onde cheguei pela primeira vez. Não consigo definir o que é ser curitibano. Mas amo este lugar, porque não há cidade onde se é mais livre de estereótipos. Não há uma música curitibana. Aleluia… Não há uma cultura curitibana. Viva…
Somos tudo e nada no mundo. Isto é o que nos singulariza. Todas as culturas, todos os sons, todas as misturas vivem em um curitibano ciente de si.
Tenho pena dos que estão presos à imagem que fazem de si mesmos: mineiros, paulistas, gaúchos, baianos, sertanejos, etc, etc, etc. Só um curitibano de coração é livre.
Eu sou livre. Apesar das saudades.

O bonsai e a pimenteira

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Eles eram lindos: o bonsai e a pimenteira. Um verde, frondoso; outra vermelha, cheia de frutos rubros. Levei-os comigo, para minha casa, para cuidar deles, para trazer vida ao lar, para ensaiar os cuidados com quem em tudo de ti depende.

Porém, por mais zeloso que fosse, por mais que tentasse acertar, o bonsai amarelou e todas as folhas caíram. Ficou um pedaço sem vida de mini-árvore, galhos retorcidos sem verde. A pimenteira também deixou cair seus frutos, feneceu diante dos meus olhos, como cena acelerada do cinema. E o vermelho sumiu.

A casa carregava uma energia pesada, algo estranho presente no ar dali, quase irrespirável. Desesperado, retirei o bonsai e a pimenteira e os levei para o campo, para a casa dos que me amam. Não queria que minhas crianças morressem, mas pareciam cansadas de viver e recusavam a fotossíntese.

Passou o tempo e, então, aconteceu. Um dia, sem motivo aparente, aquela energia se dissipou. Havia caído uma tempestade no dia anterior, mas o céu amanheceu limpo, claro, solar, pronto para produzir vida novamente.

Senti saudades e fui para o campo. Cheguei de noite, na penumbra de um céu limpo e sem lua, pois que a dona redonda se preparava para iniciar um novo ciclo. No céu, vi estrelas cadentes. Várias, como nunca tinha visto. Parei o carro, fiz pedidos, rindo, com a fé que nunca tinha tido.

Foi quando vi, com olhos brilhantes de quem vê um milagre. Ao meu redor, centenas de vagalumes. Sempre amei vagalumes, mas os perseguia em pares, trios, nunca havia sido cercado por centenas deles. Estavam ali, piscando, em torno de mim, num anel de luz.

Há sinais de vida por todo lado. Não sei como não conseguia vê-los. Meu bonsai está verde; minha pimenteira, vermelha; todo dia, vejo vagalumes; e espero, confiante, a realização dos pedidos que as estrelas quiseram me conceder.

Creio em Nelson

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Para ti

Prostitutas, proxenetas, aliciadores, pedófilos, adúlteras, todos pagam seus pecados nos textos de Nelson Rodrigues. No mundo rodriguiano, as regras morais não poupam ninguém, nem os que, por ligeira fraqueza, pecam. Nelson se definia como um escritor moralista. Deus de seus personagens, infligia-lhes duros castigos.

Creio em Nelson. Como um recém-convertido, repito as palavras que ele escreveu. Que o mundo repita a literatura. Que os adúlteros paguem, da forma pior que um moralista pode imaginar.

sem nome

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Para ti

Quantas vezes cobrastes que postasse no meu blog, contasse o quanto te amava. Perdoa-me. Nunca fiz deste lugar seu altar.

Mas não imagines que tento remendar o que não fiz. Volto agora porque preciso escrever, me reconhecer, falar de sentimentos comuns a tantas pessoas. Escrevo por mim, não por ti.

Estou de luto. Choro tua partida. Por um tempo, viverei um rito de despedida. Será um tempo curto, pois me fizestes o favor de matar dentro de mim tudo que amava em ti, tudo que sempre justificou tentar de novo. Agora, tudo é pouco, tudo é vago, tudo é impreciso. Esqueço os motivos que me fizeram ficar.

Como sempre tivestes dificuldades para perceber quando os textos te visavam, te avisarei, publicando uma epígrafe “Para ti”, caso algum texto seja para você. Não espere muitos.

Desculpa não dizer teu nome. É para esquecê-lo, por fim. Como não carregas meu nome, como nunca me carregaste em ti, na tua vida, em teu futuro, pois que vives só o presente, será fácil esquecer, mas é bom não profanar palavras, pois que podes voltar se eu tanto te evocar.

Assim, de hoje em diante, te chamo de “sem nome”.

Tu, fêmea

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Tu, que finges ser carinho os teus gestos que despertam cobiça, desconfio de ti. Tu anuncias ser franqueza o que parece ser vaidade. Tu inventas nomes bonitos para os medos comuns de toda gente. Tu não és livre, como ninguém é. Por isso, não exagere teu próprio poder.

Por que seduzes e finges não ver? Por que excitas e então partes?

Tu és fêmea, sereia eterna feita de brumas e encantos, linha torta, sinuosa, incompreensível. Tu és mulher e não sabes onde quer chegar.

Eu, obtuso macho, não te entendo, mas vejo que jogas. Queria jogar, mas, neste mundo que é você mesma, sou sempre derrotado. Se aceito tuas regras, tu vences; se não jogo, tu não vences, mas perco do mesmo jeito.

Então, aceito a derrota num jogo que não entendo. Nem quero jogar.

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