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Nada passa

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Vão te dizer que tudo passa, que tempo e distância curam tudo, que matam o bom e o mau, como quimioterapia, e os deixam no passado imemorial. É mentira. Nada passa.
Mesmo aquilo de que não lembramos não cessa de nos definir, como trauma, aprendizado ou um tipo de atavismo tardio. As lembranças menos insidiosas nos habitam diante dos nossos olhos. Assim, sabemos o que fazer com elas, mesmo que muitas vezes saber o que fazer esteja muito longe de fazer.
Tudo se acumula. O passado pode deixar de nos ferir, mas sempre estará ali. Podemos não viver no passado, mas o passado nunca deixará de viver em nós.
Então esqueça as soluções fáceis, feche os ouvidos para os conselhos gentis e fantasiosos. A vida cobra muito mais caro.
Vão dizer que você pode exorcizar seus fantasmas, mas você não pode. Acostuma-te a eles e aprende como não assombrar mais a sua vida. Eles estarão sempre ali, para te assustar. Talvez um dia não te assustem mais, mas não espere que eles partam. Eles nunca partirão.

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Dama de ouros

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Você é uma dama. Aquela que a cartomante virou na mesa e disse:
– Há uma loira em sua vida.
Óbvio que eu não acreditei, cético.
Umas se ganha; outras se perde. A cartomante estava certa. Só não contou que a dama de ouros ia estar tão longe do valete de paus.
– Você acredita em destino?
– …
– Nem eu. Mas acredito em vontade.

Obs.: Esta foi a primeira carta que escrevi para uma mulher, numa seqüência planejada de 14. É de outubro de 1991. O debut de um sedutor de papel.

Sedutor de papel

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Viver e morrer por escrito será possível? Senti o cheiro da tinta cedo, menino sem ter o que fazer, me apeguei a ler livros, histórias fantasiosas, como Xisto ou contos de Edgar Alan Poe. Nunca li Edmond Rostand, mas banquei a Roxane e me apaixonei por Cyrano, o narigudo, sem conhecê-lo muito bem.
Desde então, desde muito cedo, me perguntei se era possível conquistar alguém por cartas, por palavras, por belezas que se dizem e se sentem. Me perguntei se era possível viver por escrito. E então me quis fazer de Cyrano, tal era minha paixão, que nele me anulei.
Para que servem cartas afinal, se toda dor de poeta é fingimento, seja dor ou não? Para que servem tantas letras, se escondo meu nariz e minhas feiúras na beleza das palavras? Se confesso meu crime apenas para realizá-lo novamente?
Vivi por escrito, sedutor de papel, de amores literários, mulheres que inventei, apaixonado, a partir de mulheres que existiam fora do meu mundo de papel. Foram minhas correspondentes. Invariavelmente, elas corresponderam pela metade. Se eu tivesse me entregado menos e não acreditado nas minhas mentiras, como elas acreditaram, teria dado certo, talvez. Mas caí em auto-engano.
Por fim, então, conheci Goethe, outro ser de papel, um sedutor profissional, sem necessidade de CEPs ou endereços. E Werther foi meu mestre. Eu, seu inepto aprendiz.
Escrevo epístolas. Todo amor que vivi foi de papel, toda sedução foi ensaio, até que, no mundo real, parei de escrever cartas de lascivo sentimento. Parei de profanar juras de amor e promessas de vingança.
Este é o último refúgio de sedução que ainda alimento, até que esgote o que fui, até que todas as cartas que não mereçam ser queimadas conheçam meu novo universo. Este, onde elas, alienígenas, existam sem papel, retratos do ocaso de um sedutor.

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