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Navalha

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Trabalha, navalha.
minha cara, retalha.
No corte um sorriso entalha,
pois é o que me calha.

Depois, não falha!,
enche meu peito de palha,
meu coração estraçalha.
E o resto… empalha.

Me faz muralha,
como ela, canalha.
Então espalha:
Sou passado, mortalha.

Trabalha, navalha.
Trabalha.

Obs.: Parafraseando Walter Franco, em “Canalha”:

É uma dor canalha
Que te dilacera
É um grito que se espalha
Também pudera
Não tarda nem falha
Apenas te espera
Num campo de batalha
É um grito que se espalha
É uma dor
Canalha.

Os dias simples

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De manhã, ela acorda sorrindo, entre sono e sonho, mas não quer sair da cama.
De tarde, ela descansa do almoço, vê um filme, lê um livro, ouve música, arruma os restos da noite, junto comigo. Quando o sol diminui, passeamos no parque e deitamos na grama. Cochilo; ela divaga.
De noite, misturamos vinho e narguile com cinema. Eu ouço o que ela diz sobre os atores. Concordo ou discordo, mas é tudo irrelevante diante do que importa de verdade: ouvir sua voz.
Depois, ela quer dançar.
– Danço contigo, minha nuvem.
Danço até que os corpos, cansados, queiram ir para casa. Tua silhueta quer descansar ou dançar de novo, de madrugada e de manhã, até a exaustão. Totalmente expostos, não respeitamos nenhum ritmo, exceto o nosso próprio desejo.
Os dias são simples quando tu estás comigo.

Sete Vidas e Gran Torino

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Fazia tempo que eu não escrevia sobre filmes. Bem, não tinha motivos. Nunca escrevo sobre grandes filmes, mas sobre filmes que me tocam, de alguma forma, sejam grandes ou não. Nem sempre o melhor é o que mais carrega sentido para nós. Coisas pequenas… sim, minúsculas, podem carregar todo sentido. Escrevo sobre como vi os filmes, não sobre eles mesmos.
Vi Sete Vidas ao lado da Paula, alguém cuja passagem pela minha vida deixará cicatrizes onde havia feridas, tal qual bálsamo. E ela nunca, de fato, passará, mas nada será como antes. E chorei, copiosamente, para usar uma palavra antiga. Minha separação, recente, tinha me colocado diante de um ser focado no seu próprio prazer, incapaz de fazer qualquer coisa por mim e que tinha me desrespeitado, como homem e como marido. Qualquer gesto de generosidade, de altruísmo me capturava, gravemente.
Filmes falam de coisas grandes, às vezes de forma pequena. Os que falam de coisas pequenas não merecem ser incluídos na categoria cinema. Sete Vidas fala de altruísmo, de forma hollywoodiana. Não é, como filme, lá grande coisa. Piegas, por vezes; grandioso em certas cenas. Filme feito para estimular, como ensina Adorno, sentimentos, não para representar sentimentos. Não é, também, dos piores, com certeza. Só não é grande, como Gran Torino.
Entregar-se a si mesmo, em pedaços, como sugere o nome original de Sete Vidas (Seven Pounds) até o limite da vida, apenas para se redimir, é ato extremo, irreal, nobreza a moda de hollywood. Eu sou piegas; andava piegas e emotivo. Todo sentido estava ali, à frente e ao lado.
Gran Torino é mais recente. Minha pieguice aplacada, emoções representadas, personagem forte (Walt Kowalski), direção segura e bom texto. Um grande filme, muito maior que o premiado Quem quer ser um milionário. Kowalski, um veterano da guerra na Coréia, perde a esposa e inicia um caminho de redenção. Conhece Thao, um coreano radicado nos Estados Unidos que tenta roubar seu Gran Torino 1972. Com ele, vai purgar seus pecados cometidos na guerra, vai criar vínculos afetivos com a família coreana do jovem, por quem nutria apenas desprezo, fundado em preconceito. Mas será com aquelas pessoas que ele vai estabelecer vínculos familiares, como nunca conseguiu ter com seus próprios filhos.
Tudo gira, aparentemente, em torno do Gran Torino, mas filmes falam de coisas grandes. O Gran Torino não se enquadra nesta categoria. O filme trata de redenção. Diferente de Sete Vidas, o personagem central não é reto, decidido desde o princípio a fazer o que vai fazer ao longo de todo filme. Ele muda. Kowalski se entrega como o cordeiro de Deus, confesso, pronto para o sacrifício que trará algum prêmio. Mas ele próprio já foi salvo, já foi perdoado. Doente, em vias de morrer, antecipa sua morte para dar algum sentido a ela.
O Gran Torino é legado, em testamento, ao jovem Thao. Mas o carro é apenas um adereço. Ele carrega algo maior: o amor de uma nação pelos automotores e, cheio de sentido, é o ícone do amor de um velho veterano de guerra por um jovem coreano, que o salvou.

Tão ternamente
A história
Nada mais
É o que você vê
Ou o que você fez
Ou o que soubemos
Permanecendo forte
Lidando com tudo
Na sua pele, só imaginando
Gerando na boca carinhosos suspiros
Suspirando pelo meu Gran Torino
Apitando pelo pneu uma canção
Motor ligado e melhores sonhos crescem
Eu trancado dentro do Gran Torino
Ele bate um ritmo solitário a noite toda
Ele bate um ritmo solitário a noite toda

Dói porque estou vivo

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Para ti

Às vezes a dor é lancinante. Minhas rugas se aprofundam. Minhas cãs proliferam. Meu corpo treme, como se tivesse sido cortado fundo. Mas não há corte. Meus olhos latejam, ardem, molham meus gritos. Brotam a mais pura e mais amarga substância, feita só de sofrimento. Então desejo morrer. Ninguém tem piedade. Continuo vivo.
Dura pouco este sentimento. Recobro a consciência e prefiro viver assim, doendo, a não viver. Lembro de Adélia Prado, que queria ficar com a cara mais enrugada que maracujá de gaveta, de tanto sofrer, de tanto amar. Dói porque estou vivo. Agradeço ao universo.
Não importa o quanto me firam. Quando cansar destas dores, estarei morrendo. Então, não blasfemo mais contra a vida. Meu coração é um mundo. Eu invento os monstros que podem assombrá-lo. Do mesmo jeito como os crio e a eles me afeiçôo, posso matá-los. Mas ninguém chegou perto do meu lado que sangra sem minha permissão.
Então, segue em paz, sádica. Você só existe para me lembrar que sofrer é parte da vida. Você só existe porque eu quis.

Ps.: Escrito há muito, muito tempo para alguém cujo nome deixei de mencionar até que esqueci.

As mãos do artesão ou A arte de vencer a morte

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Vou a ti, vestido de branco. Pureza é o que posso te levar. Meu coração sofre, puro, a mais sincera saudade de ti.
Vou a ti, lembrando das tuas mãos fortes, da cabeça sem fios, do sorriso raro, que ocupam toda a minha memória.
Vou a ti, ver-te pela última vez, depois de ter acreditado que teria tempo, de ter desistido de me preparar para tua morte.
Vou a ti, retrato de mim mesmo, agora que sou a segunda geração, pois tua partida lembra a minha, pois morro um pouco contigo.
Minha alma carrega as marcas dos teus dedos fortes, das tuas mãos gigantes, do teu coração amável. Tua história nunca me abandorá, nunca deixarei de esquecer que sou parte de ti, que sou a história que escrevestes, que sou seu filho em dobro, seu primeiro neto.
Vou a ti, como quem procura um anjo, um norte, um sentido para existir. Tu estás lá, exemplo de vida. Aceito, mas nego tua morte, pois vives comigo, em mim, no que sou. Sou eterno perante ti; em mim, tu se eterniza também.

Ele morreu perante mim, mas eu nunca vou morrer perante ele. Eu sou eterno para meu vô, cujas marcas em minha personalidade são indeléveis como as ranhuras das mãos do artesão no barro que ele transforma em arte. Assim, ele vence a morte de dois jeitos em mim: pelo que carrego dele eternamente e porque ele nunca terá que ver minha morte. Assim, eu o prolongo, eu o eternizo.

PS.: Meu vô morreu em 17 de abril de 2009, menos de uma semana depois da última vez que eu o vi vivo. Ele melhorou na quarta e pediu a camisa que dei para ele, para sair do hospital. Reclamou que tinha uma boa camisa, mas não um bom sapato. Disse que eu dei um “presentão” para ele (a camisa e o pijama). Nunca usou nenhum. Na quinta ele piorou. Sexta viu o único filho de quem não tinha se despedido. Menos de uma hora depois, morreu.

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