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Resistir e sonhar

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O que aconteceu com a juventude?

Por que não admiram os jovens que lutaram a vida inteira, aqueles que entregaram a vida por uma causa, aqueles que foram para as ruas ou para as prisões em defesa das suas crenças ou que viveram os grandes festivais, que romperam esteticamente, os que apanharam calados na Itália, sem revidar, porque o amor era sua arma, os que seguiram Gandhi, os que entregaram a vida para salvar outras vidas?

Por quê?

Eu não entendo isso. Eu aprendi, criança, a acreditar no regime militar, até começar a desconfiar. Então, não parei mais de questionar. Quando cheguei a uma universidade pública, contra todas as possibilidades, vi que era preciso resistir e sonhar. Foi por sonhar que superei a precariedade do ensino público que o regime militar me ofereceu, não só ruim, mas totalmente conformado.

Mas eu encontraria o regime militar também na universidade. No começo dos anos 90, a abertura política estava muito próxima. No meu curso, muitos professores eram ligados à ditadura (arapongas, interventores, censores, dedo-duros, agressores). Um confessara que esmagou dedos de comunistas. A repressão acabara, mas estava viva ainda. Naqueles dias, ninguém ousaria acreditar que quem foi torturado era o vilão. Nós tínhamos lado.

Em 97, em pleno governo PSDB, passei no teste seletivo de professor substituto. Ganhava cerca de um terço do piso de jornalista. Além de manter os salários baixos, o governo FHC não repunha as vagas de professores efetivos e demorava para liberar as vagas de substitutos. Tínhamos mais da metade das disciplinas dadas por professores substitutos, que eram contratados, invariavelmente, dois meses depois que as aulas tinham começado. Era o caos.

Naqueles tempos, a UFPR tinha incêndio no seu prédio histórico, em um ano, e greve, no outro. Tanto uma coisa quanto outra tinha a ver com um histórico de baixos investimentos da União na educação superior, situação que piorou com FHC. O governo propagava uma dicotomia traiçoeira: o dinheiro era escasso; tinha que investir em educação básica ou em educação superior. Não via o sistema educacional como um todo. Criou o Fundef (Fundo de Desenvolvimento da Educação Fundamental) e asfixiou as universidades públicas, abrindo o mercado para a explosão dos cursos privados, sem fiscalizar a qualidade.

Em 98, passei no concurso de professor efetivo e, naquele ano, numa greve que durou cerca de 5 meses, terminei de escrever minha dissertação de mestrado. Foram três greves, por mais recursos e por melhores salários, em oito anos. Muitos professores optavam por sair ou se aposentar precocemente. Foi grande o êxodo de mestres e doutores.

Mas a gente não cansava de sonhar. As canções da contracultura ainda estavam em nossos corações: “Quem tem consciência para ter coragem?Quem tem a força de saber que existe? E, no centro da própria engrenagem, investe contra a mola, que resiste?Quem não vacila, mesmo derrotado? Quem já perdido, nunca desespera? E, envolto em tempestades, decepado, entre os dentes, segura a primavera?” Nós segurávamos, ao nosso modo, a primavera entre os dentes. Estes sonhos levaram Lula ao poder, depois de muito apanharmos. Em 89, Collor usou a filha de Lula, Lurian, para atacá-lo, sob a alegação de que ele teria pedido para que a mãe abortasse a filha. Covas havia recusado a história, que fora lhe oferecida antes. Collor não. Saudades daquele PSDB do Covas. Em 94 e 98, Lula saiu de favorito para derrotado nas eleições, sob implacável silêncio da imprensa, que fez as eleições correrem como se não existissem. O silêncio poderia ser quebrado com a história do filho bastardo de FHC, mas Lula recusou duas vezes a usar esta arma. Perdeu, sem apelar.

A mesma imprensa que silenciara durante as campanhas, tentou dar um Golpe em Brizola, na eleição em 82, no Rio, manipulou vergonhosamente o último debate entre Lula e Collor, no Jornal Nacional, em 89, colocou camisetas do PT em sequestradores do empresário Abílio Diniz, para demonizar o PT, que surgiu sob este estigma. Ou alguém acha que a ditadura deu o número 13 para o partido por acaso?

Durante o governo, o PT errou e decepcionou muita gente, pessoas que tinham sonhado demais e não queriam abrir mão dos seus sonhos. Ou que se decepcionaram com o pragmatismo político, usando armas e expedientes típicos da direita. Gente que queria a reforma agrária para já, o salário mínimo do Dieese, a auditoria da dívida externa, a reforma urbana, a radicalização da democracia. E queria um PT totalmente fora de esquemas de caixa 2 de campanha.

Mas é inegável que ao fim de oito anos nossos sonhos parecem mais reais. Diminuíram as ações do MST, houve mais investimento em agricultura familiar e mais assentamentos. Menos gente tem vindo para as periferias das grandes cidades. É pouco, mas é muito mais do que tínhamos.

O salário mínimo teve substanciais ganhos reais, provamos que a tese liberal de que salário produzia inflação, dragão que fazia os trabalhadores calarem e aceitarem salários baixos, estava errada.

Pagamos a dívida externa, sem auditá-la, mas não devemos mais. A bandeira do “Fora FMI” se concretizou, por outro caminho.

O mercado imobiliário cresce e podemos ver, no futuro, o dia em que não haverá pessoas sem casas.

As conferências (de Saúde, Juventude, Direitos Humanos, Comunicação, Educação), demonizadas pela mídia, radicalizaram a democracia.

E, mesmo no combate à corrupção, o PT cumpriu um papel fundamental. Nunca a CGU (Controladoria Geral da União) controlou tanto os gastos dos repasses da União; nunca a Polícia Federal fez tantas operações (foram mais de 300, contra cerca de 20 no governo FHC). O combate à corrupção melhorou muito, mas ao levantar a tampa do esgoto o cheiro foi desagradável. Aquilo corria ali há anos, sob os militares, sob Sarney, sob Collor e sob FHC.

Meus sonhos de adolescente eram grandes demais, mas, por Deus, eles não eram pura fumaça. O Brasil não é mais o eterno país do futuro.

Eu, moleque, tinha tudo para errar, mas não errei. Não sabia nada de nada, mas pressentia o perigo. Sabia que onde estivesse a TFP (Tradição Família e Propriedade), eu não estaria. Onde estivessem os neonazistas, em cerraria fileiras do outro lado. Desconfiava da posição política da Globo sempre, pois foi a emissora inventada pelo militares e que nunca abriu mão de interferir nas eleições deste país. Sabia, mesmo tendo formação cristã – tanto católica quanto protestante, que aborto era uma questão de saúde pública, não uma questão moral e religiosa. Sabia que qualquer um que usasse este tema para demonizar seu adversário, levando o debate para o obscurantismo, não merecia crédito.

Sabia que qualquer um que usasse o preconceito como arma de campanha não era um bom candidato. O processo civilizatório tem muito de aceitação dos diferentes. Primeiro foram os negros, que tiveram que lutar por liberdade e depois por direitos civis, para que aceitássemos as diferenças étnicas. Depois, foram as mulheres, que lutaram por direitos iguais, para que aceitássemos as diferenças de gênero. Hoje, são os homossexuais que lutam contra o preconceito, para que aceitemos as diferenças sexuais. A igreja sempre tardou a reconhecer. Os negros não tinham alma, as mulheres deviam ser submissas ao homem como a igreja é submissa a Deus. Eles dizem que está na bíblia, no livro que inaugurou o amor fraterno pelo próximo. Dizem que lá está a semente da diferença, não da igualdade.

O livre-arbítrio significa que eu posso escolher sem ser julgado pelos homens, pois só Deus pode me julgar. De onde pastores e padres usurparam o direito de Deus? Ao cristianismo, cabe acolher, inclusive os diferentes.

Dizia Paulo Francis, um reacionário confesso: “Um jovem que não é de esquerda, não tem coração. Um homem que não é de direita, não tem cérebro.” Eu tento racionalizar meu coração. Mas me impressiona que os jovens tenham tanto cérebro e ele não sirva para sonhar, que seja tão egoísta e, por vezes, capturado pelos sentimentos mais irracionais.

Meus sonhos demoram para envelhecer. Quero morrer ingênuo. Quero resistir ao tempo. Lutar, enquanto tiver forças. Sonhar, enquanto não for velho demais. Quero um coração jovem até que ele pare de bater. Quero continuar acreditando em quem se alimenta dos nossos sonhos e não em quem estimula os nossos ódios e explora os nossos medos.

O que fez, afinal, a juventude envelhecer antes do trinta?

Nem quem aborta é a favor do aborto

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Ninguém, absolutamente ninguém com um mínimo de sensibilidade, é a favor do aborto. A jovem pobre, de 15 anos, que engravida sem querer, por inexperiência e falta de informação e aborta em alguma clínica clandestina ou por conta própria é contra o aborto. Ela se martiriza moralmente, se condena e é condenada pelos seus pares, no mínimo pela sua família. O aborto, retirar um feto do ventre, em qualquer estágio, é algo terrível.

Mas a questão não é essa. A questão é se a jovem que praticou o delito deve ser encarcerada por isso, como criminosa comum. Ou se deve, pelo contrário, receber cuidados do Estado, para que sua saúde como mulher não deteriore, levando-a a morte. O SUS faz 200 mil curetagens por ano (dados do Ministério da Saúde, referentes a 2009). Deveria o Estado levar estas 200 mil mulheres aos tribunais.

O cristianismo jamais concordaria com isso. Jesus estendeu as mãos a uma prostituta, mostrando que o perdão é o caminho da reconciliação dos excluídos, dos delituosos, dos pecadores com a sociedade e com Deus. Jesus pregou o amor e o perdão. Este princípio se reflete nas ações das igrejas cristãs das diversas denominações na área de dependência de drogas. Muitas comunidades terapêuticas partem do perdão para atender os viciados que procuram saída. Igrejas em regiões de alta criminalidade atuam da mesma forma, atraindo e incorporando à comunidade marginais e assassinos, crentes na capacidade humana de se recuperar.

Por que deveria ser diferente com a jovem ou adulta que pratica aborto, condenada ao pior dos delitos, maior que daqueles que roubam, traficam e matam e que são perdoados e acolhidos pelas Igrejas? É esta a concepção? Todos merecem perdão, menos as mulheres? Quem defende isso insiste na tese, medieval, de que as mulheres são menores na sociedade, reafirma o preconceito de gênero, que motivou, sob a alegação de bruxaria, que mulheres fossem queimadas na idade média.

As posturas defendidas pelos segmentos progressitas, imbuídos de boa dose de sentimento cristão, refletem este zelo com as mulheres, buscam tomá-las como tão dignas do perdão quanto qualquer um. Iguais em tudo na vida. O aborto passa ser um problema de saúde pública, orientado pelo amor, não pelo ódio vingativo. Somos uma sociedade cristã, guiados pelo amor ao próximo. Perdoar, acolher e recuperar é a nossa prática.

A lei já especifica em que condições o aborto não pode ser considerado crime: em caso de gravidez não desejada resultado de estupro, em caso de risco à vida da mulher e em caso de ausência de cérebro (fetos anencéfalos). Mesmo nestes casos, somos contra o aborto, mas cabe à mulher grávida decidir, sem ter que responder perante a lei por isso. A decisão não é fácil, mas, nestes casos, não cabe ao Estado decidir por elas. Podemos defender uma ou outra posição nestes casos, mas não podemos julgá-las por qualquer decisão que tomem. Não julgais, no caso, é o princípio norteador.

Ao Estado cabe sim um papel fundamental na questão: dar assistência para a futura mãe, em todos os exames e procedimentos necessários para garantir a saúde do bebê, como o acompanhamento pré-natal, combater as doenças sexualmente transmissíveis e implantar políticas contra a gravidez indesejada. Ensinar às mulheres como fazer planejamento familiar, como definir quantos filhos podem e querem ter, de tal forma a prover-lhes condições necessárias para que se desenvolvam fisicamente e intelectualmente é o mais importante. Toda mulher sabe disso, sabe da necessidade de cuidar da sua prole, sem aumentar a pobreza e a miséria. Ninguém quer colocar descendentes miseráveis no mundo. Todas as mães querem ver seus filhos saudáveis e com boas condições de vida, empregados, podendo sonhar, sem que o presente lhes castre o futuro.

Isto é fundamental. Quanto mais o Brasil conseguir implementar esta política, menos terá que conviver com a prática terrível do aborto.

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