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Critérios para ampliar a diversidade

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No texto anterior (O poder corruptor da verba publicitária) defendi a adoção de mídia técnica para destinar as verbas publicitárias aos veículos de comunicação como dever moral do Estado, incluindo aí a Prefeitura de Curitiba.

Isto vale para os grandes veículos comerciais, que têm obrigação de fornecer para o Estado informações confiáveis (como o do IVC – Instituto Verificador de Circulação – ou de outros institutos de mensuração de audiência). Mas é claro que tal exigência não se aplica aos pequenos meios de comunicação, como TV e rádios comunitárias ou universitárias, jornais de bairro, sites e portais menores, jornais alternativos , rádioweb,  e mesmo pequenas rádios comerciais.

Estes veículos muitas vezes não têm sequer como comprovar suas tiragens, quantidade de acesso ou audiência. No entanto, são importantes pois promovem a diversidade de opiniões, de pontos de vista e de projetos editoriais. Devem ser apoiados para que sobrevivam e cresçam, pois a democracia é feita de diversidade.

Na impossibilidade de se adotar critérios técnicos e na inadequação de se basear exclusivamente neles para estimular a pluralidade, pequenos veículos devem receber verba publicitária não apenas para realizar a transparência das ações da Prefeitura, mas, também, para promover a democracia.

Isto pode ser feito, inicialmente, com a alocação de um valor fixo, conforme o veículo, por um período determinado, sobretudo para novos projetos. Também é possível adotar critérios que privilegiem a relevância temática, dando maior ênfase a veículos que estejam ligados, por exemplo, a movimentos de defesa de direitos do cidadão. Um site sobre juventude, por exemplo, pode começar pequena, mas seu papel no amplo espectro dos interesses da sociedade é inegável.

O Governo Federal já faz isso com rádios do interior, importantes, mas longe da magnitude dos grandes veículos. A desconcentração do aporte de recursos publicitários normalmente não agrada os grandes veículos, mas promove a democracia. Se veículos como Veja não deixaram de receber dos governos Lula e Dilma parte da verba publicitária, mesmo quando agiram de forma golpista como panfletos políticos do conservadorismo, por outro lado recebem menos hoje do que proporcionalmente nos governos do PSDB. E, claro, não gostam disso. Preferem ter relações privilegiadas e corrompidas com o governo, mesmo que isso implique perda de autonomia editorial. Ao defender seus próprios interesses contra interesses mais amplos da sociedade, atacam a democracia. Nem perseguir, nem privilegiar veículos pela sua postura editorial é dever do Estado.

Por isso, o poder público deve resistir, não ceder as pressões, deixar claro a vantagem, mesmo para os grandes veículos comerciais, de preservar sua autonomia editorial. No caso da Prefeitura, ela deve adotar políticas de estimulo à democracia e elaborar critérios de dispersão da verba publicitária, mesmo que contra os interesses antidemocráticos de veículos que posam de paladinos da sociedade.

Nosso conceito de democracia é mais amplo do quer a mera preservação das liberdades de alguns contra a liberdade de todos. Este princípio é inegociável. Defendê-lo dá trabalho, mas separa os estadistas democratas dos parasitas dos recursos públicas, sejam jornais, sejam governantes.

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Uma pobre história do cristianismo, por Geoffrey Blainey

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Terceiro best seller de Blainey é pobre.

Os managers da indústria editorial fazem chover quando o assunto é inventar um  best seller. Produzir um produto editorial com grande potencial de venda é uma arte. Porém, ser um bom livro não é de fato imprescindível. Por vezes, é até pior.

Uma breve história do cristianismo, de Geoffrey Blainey, é um bom exemplo disso. O livro é pobre, em diversos aspectos, mas na semana de 20 a 28 de agosto figurava ainda em quinto lugar de vendas de livros de não-ficção e décimo quinto no geral no site Publishnews. É o terceiro best seller de Blainey, no Brasil. Antes saíram Uma breve história do mundo e Uma breve história do século XX.

Blainey afirma que seu livro sobre o cristianismo é uma abordagem acadêmica. Diz ele, no prefácio: “Investiguei a história como historiador, não como teólogo”. Se fosse mesmo uma abordagem historiográfica, seria uma versão ruim da história oficial católica do cristianismo. O autor relata, como é sabido, que os evangelhos foram escritos perto do ano 50 d.C. Até ali, a história de Jesus era transmitida oralmente, de geração a geração, por um povo que era ainda pouco alfabetizado. Apesar disso, de relativizar as fontes logo de início, ele não faz cerimônia para usar os evangelhos como fonte quase exclusiva para narrar a vida de Cristo. O autor confronta os evangelhos com interpretações atuais de teólogos da Bíblia, para discutir, por exemplo, o local do nascimento de Cristo. O debate que reconstrói é exclusivamente calcado nos evangelhos e nos estudos deles. Outras fontes, se existem, são ocultadas com estruturas como ”Conta-se que, aos doze anos…” ou “Presume-se que fizesse pequenas peças de madeira…”. Quem conta e quem presume, não sendo o autor, ele também não revela.

Ou então ele refere “Outros historiadores” sem dizer quem são. E isso acontece em todo livro. No final, no capítulo “Fontes selecionadas”, apesar de anunciar que literatura sobre cristianismo é “extensa, quase esmagadora”, Blainey cita apenas oito referências e diz que, na versão original do texto, editada por ele posteriormente, constavam muitas páginas “onde estão listadas as fontes consultadas”.

Sim, citar fontes é prática acadêmica, fazer referências por ano e página do livro é exigência em teses e dissertações. Um livro de vulgarização dispensa tal esforço, certo? Errado. Primeiro, o livro se diz uma obra historiográfica. Por isso, mostrar suas fontes é ato de honestidade intelectual e permite ao leitor checar as informações ou se aprofundar no tema. Fontes são uma estrutura de hiperlink. Mas isso tornaria o livro cansativo, certo? Em parte. Se houvesse uma longa discussão das fontes e reiterados cotejamentos de pontos de vista sim, mas por que referir uma informação a “um historiador” e não dizer, por exemplo, “Tocqueville (1988)”. A maioria das pessoas não liga para estas referências, nem lê as longas páginas de bibliografia. Não é por isso que a informação pode ser sonegada, menos ainda quando não faz nenhuma diferença no texto. Para a maioria, apenas soa como atribuição de autoridade à informação, o que de fato é, mas não apenas.

Segundo ponto porque o livro é ruim. A organização é caótica. Aparentemente, ele segue uma ordem cronológica, que vai da vida de Jesus, passando pela perseguição pelos romanos, a conversão de Constantino, o islamismo, as cruzadas, a reforma ate chegar à conquista do novo mundo e os desafios atuais.  Mas não se engane. A cada capítulo, o tempo vai para frente e para trás. Em poucas páginas, os séculos mudam de forma voraz. Um exemplo: na página 82, Blainey discute o celibato entre os padres. O tema surge do nada no texto. O autor relata que o debate começou em 305 d.C., mas foi no Concílio de Niceia, em 325 d.C., que se tomou alguma decisão sobre o tema, permitindo o casamento apenas aos escalões inferiores do clero. Cinco linhas depois, ele escreve: “Na França, nos cem anos seguintes ao ano de 942, houve três bispos casados, com filho, e até alguns papas tiveram filhos legítimos.” A intenção era mostrar como o celibato demorou a ser efetivamente respeitado, mas o salto no tempo é meramente casual. Serviria também Portugal em 1550 como exemplo. Estes saltos se sucedem, dos séculos 5 ao 12 e de volta ao 4 sem nenhuma reserva.

Organizar um livro de história de forma cronológica não é necessário e, hoje, sequer é a forma mais usual. A organização poderia ser por grandes temáticas: debates teológicos, avanços políticos, organização e disputa do poder eclesiástico. Mas tudo bem organizar cronologicamente. Blainey, porém, não faz nem isso. A sensação final é de voos sem critérios por informações levemente conectadas.

O terceiro ponto fundamental da baixa qualidade do texto é decorrência do segundo. Sem organização clara, os acontecimentos narrados ficam descontextualizados. A tensão e a contradição inerentes à vida estão fora do texto. Assim, muitos episódios são explicados de forma pueril ou ingênua. A conversão do imperador Constantino é um primor de pureza. Depois de relatar que, apesar das perseguições, algumas poderosas famílias romanas simpatizavam com o catolicismo, Blainey escreve: “Constantino, poderoso comandante militar, foi um dos simpatizantes inesperados.  (…) Diz –se que o próprio Constantino, embora não fosse batizado, carregava sempre o oratório, para que pudesse adorar Cristo durante as marchas com seus soldados”. Então, o imperador concede liberdade religiosa aos cristões e, em seguida, torna o cristianismo religião oficial de Roma. Explicação para tal conversão: apenas uma leve insinuação de que uma religião multirracial seria mais conveniente num império tão vasto. E, claro, a justificativa católica de que Constantino teria tido uma visão de Deus. Depois disso, resolveu converter todo um vasto império ao cristianismo. Nenhuma ponderação política ou econômica ou cultural. Nenhum motivo outro. Constantino foi movido exclusivamente por sua fé. Esta á a versão oficial. Por ser oficial, é suspeita.

A falta de tensão se repete, com episódios perdendo relevância. A noite de São Bartolomeu merece 8 linhas, apesar do próprio autor a considerar o “episódio mais dramático” do conflito entre a maioria católica e a minoria protestante. Já a “bíblia do melado”, piada resultante de uma tradução de “bálsamo” como “melado” tem seu próprio título. Muitos capítulos parecem ser resumos das famosas vidas de santos ou hagiografias que circulavam pela idade média. São Francisco, Agostinho, Escolástica, Zuínglio, Vladimir são alguns deles. Outros personagens emergem das suas histórias de fundadores de denominações protestantes: Whitefield, Wesley, Knox, Fox, Bunyan. O livro perfaz assim um mosaico de biografias.

Por vezes, Blainey descamba para a defesa da igreja católica, de forma totalmente desnecessária. Diante das acusações que o clero sofria no começo do século XVI por ostentar luxos demasiados, crítica da qual nem a igreja hoje se esquiva ou nega, o autor questiona: “No entanto, como avaliar com justiça uma instituição que, apesar das visíveis falhas, continuava a cumprir suas obrigações e a inspirar positivamente tantas vidas?”. Assim mesmo, como palavra dele, não de alguma fonte oculta ou um papa ou um bispo. As críticas efetivamente não implicam a desqualificação da igreja como um todo. Desnecessário dizer. Inadequado de ser dito por um autor que se diz historiador. Em outro trecho, o autor endossa a infalibilidade do Papa. “Reconhecidamente, os pronunciamentos do papa sobre a ‘fé e a moral’ sempre estiveram perto da infalibilidade, já que ele era servo de Cristo na Terra e considerado seu porta-voz ‘para todos os cristãos’”, escreve.

Ao fim da leitura, o livro agrega muito pouco conhecimento e, quase sempre, conhecimento fragmentado, descontextualizado, quase inútil. Mas é possível entender, apesar do autor não abordar o tema explicitamente, porque há tantas denominações protestantes e, basicamente, apenas duas igrejas católicas: a do oriente e a do ocidente. Ao narrar cada um dos fundadores das principais denominações protestantes e a sua leitura específica da bíblia, Blainey, sem querer, demonstra como a ausência de um poder central, como o papa no ocidente e o patriarca no oriente, conduz a diversas igrejas. Lutero ao estimular a leitura da bíblia diretamente impulsionou a alfabetização dos países protestante, hoje entre os mais avançados do mundo. Por outro lado, permitiu múltiplas interpretações da bíblia e, assim, múltiplas igrejas. Tal mecanismo continua operando até hoje, nem sempre de forma honesta.

Em suma, o livro pode ser breve, mas não é história. Se a academia americana aceita a obra como historiográfica, lamento pela academia americana. No Brasil, com certeza, o livro é apenas uma vulgarização ruim de informações sobre o cristianismo e sua história.

Mas ele oferece uma pista sobre o que faz um livro vender muito. Anote a dica: dê pouca informação ao leitor e quase nenhuma relevante. Assim, não terão como discordar de você nem terão que reorganizar a visão de mundo que já têm. Cada um interpretará o texto conforme sua própria visão, previamente dada. E jamais aborde o tema criticamente ou exponha suas contradições. Assim, você vai conseguir escrever sobre um tema espinhoso como o cristianismo sem atrair a ira de nenhum cristão, católico ou protestante.

É um feito. Para mim, negativo.

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