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Poesia marxista

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O sol invade. É dia de trabalho. Meu vô compra dobradiças e gasta R$20, muito para quem ganha salário mínimo da Previdência. Mas a pequena bisneta, a mais jovem da prole, merece um guarda-roupas novo.
Os braços doem; as pernas sucumbem. Meu vô não tem forças. Então desiste.
– Tanta madeira boa, e não posso trabalhar, diz.
As ferramentas são os instrumentos de existir no mundo. Não consegue mais manipulá-las. Então se desfaz delas, a preço vil.
Meu vô enterrou três filhos e duas esposas. Seu choro, que não vi, sempre foi contido. Suportou tudo, trabalhou uma vida inteira, regido pelo sol. Meu vô superou cada obstáculo, mas é insuportável não poder trabalhar.
Há um nome que o identifica: Laércio. Eu o reconheço como tal; ele se reconhece no trabalho. Não pode viver sem ele.
Seo Laércio foi internado há uma semana. Alucinava e foi amarrado na cama de um hospital, não distinguia os filhos e netos e chamava os médicos de assassinos. Mas ele não é isso. É, sim, as coisas que fez no mundo e que carregam seu nome: casas, objetos, cadeiras, guarda-roupas, cabos de enxada, uma família e eu mesmo, seu neto. Sou resultado concreto do trabalho do meu vô. Desta forma, eu o humanizo, objetivamente no mundo.
Meu vô nunca leu Marx. Mesmo assim, não gosta dele. Apesar disso, é pura poesia marxista. Pode se despojar de tudo, menos de si mesmo, menos de ser trabalho não alienado, de poder se realizar como homem pela força das próprias mãos. Não poder transformar seu meio o brutaliza.
Olho em volta e vejo as marcas das mãos fortes do meu vô em tudo. Indeléveis, os sinais impedem que as coisas que ele fez sejam fetichizadas. Em mim, que continuo sua obra, os sinais começam fora e se estendem até minha alma, triste neste momento porque há um pedaço de mim que sofre num leito de hospital.
Ele me vê e os olhos enchem de lágrimas. Já está bem melhor. Me cobra uma camisa que não lembro ter prometido. Não importa. Ontem, fui vê-lo mais uma vez, com um pijama novo e uma camisa bonita, listrada, moderna, que ele próprio jamais compraria.
– É para o senhor usar quando sair do hospital, vô.

As regras da atração

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Por que vi nela uma musa? Não sei. Não compreendo as regras da atração. Um dia, alguém vai escrever um livro de auto-ajuda sobre elas. Mentirá. Ninguém compreende o que faz um corpo tremer diante de outro.
Há indícios. Beleza, simpatia, charme, inteligência, posição social, cobiça coletiva, sensualidade, dinheiro, poder. Mas tudo isso não explica porque duas mulheres igualmente belas, igualmente inteligentes, iguais em tudo, ou quase, me atraem de formas tão diferentes. Por uma, meu corpo suplica. A outra é apenas um troféu. Não o quero. Uma me olha e me leva ao paraíso, satisfeito por pagar no inferno por meus pensamentos. Da outra, nem vejo o olhar.
Não entendo as leis da atração, apenas as respeito, ainda que limitem minhas escolhas e as tornem, por vezes, incompreensíveis. O desejo é rei, caprichoso, cheio de decisões estranhas. Não vasculho seus pensamentos insondáveis. Apenas me curvo à sua força, à sua sedução. Posso até me negar a seguir seus caminhos, mas não posso seguir os caminhos que ele nunca me indicou. Este rei oblitera meus passos. E, sem ver, tento me guiar segundo minha própria consciência. Tateio a razão; tu ofereces cheiros, sensações, sons e imagens. Sou um pobre cego, meu senhor!
Não rezo sem ti, mas temo-te e, por isso, por vezes não digo amém. Provei seu paraíso, mesmo sem entender suas leis. Mas, mesmo fiel a ti, temo me curvar a todos os seus caprichos. Pois que és irmão do desespero, como sempre soube, até quando não pude evitar. A cor da vida brilha nos teus olhos, mas acautelo-me. Nunca sei, de fato, quando vais me entregar a teu fratelo.

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