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Para Dal, meus paradoxos

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Nunca sabemos quando pequenas coisas na vida serão grandes, quando acontecimentos aparentemente irrelevantes mudarão nossos caminhos tão intensamente. Acontece com todo mundo; aconteceu comigo.

A pessoa que fui carregava arraigados paradoxos (que ainda, menores, estão comigo). Eu amei a contracultura, desde muito jovem. Criado para ser convencional, crescer, casar, ter filhos, tornei-me crítico da monogamia, da família tradicional, das “amarras sociais que nos deixam infelizes”. De repente, já aos 15 anos, eu era um defensor inconteste da liberdade, não apenas da minha, mas a de todos. Tive muitos amores; poucas namoradas. Relacionamentos curtos, nunca me prendi, nem nunca, por coerência, quis prender ninguém. Parecia talhado a ser sempre solteiro, não ter família outra senão aquela que minha mãe criou.

Perdi meu pai muito cedo, aos 3,5 anos, e vi minha mãe, grávida, virar viúva, depois enfrentar a vida, com uma honestidade e firmeza de caráter que me arrepiam ainda hoje. Vi as pessoas que ela fez, seus filhos, e sabia, sempre soube, que era uma obra linda: uma família linda.

E o paradoxo se instalou em mim. Querer ser livre, ser só eu, porque posses me prendem, vínculos me fixam, e querer, ao mesmo tempo, esposa e filhas (sim, filhas, nunca quis meninos), querer uma família, um ninho, amores incondicionais. Fui um pêndulo, fiz pessoas sofrerem por minhas dúvidas entre os dois de mim que me habitavam. Até a Dal chegar.

Conheci a Leiska no Rio de Janeiro, num congresso de jornalistas. Ali, começou nosso namoro, não o primeiro para mim nem para ela e, naquele momento, não pensava que seria o último. Mas eu sabia que amores não esgotam, que amar é um vício irrefreável, que o coração dilata, e dilata, e dilata. E havia o risco-de-amar ali na frente: a Dal e a Tatá.

Naquele congresso, conheci, sem perceber a gravidade do momento, minha esposa, mas minha família eu só conheceria tempos depois, quando fui para Brasília, onde a Leiska morava.

201903251036511000Na casa, quando cheguei, um bilhete: “Bem-vindo! Aqui é a Dalila, estou no Kumon mais já volto.”, com a letra dela. De manhã, a Dal estava no Kumon. Eu fui buscá-la. Cheguei lá já no fim da aula. A menina pequena de sorriso fácil, os dentinhos um pouquinho para frente, pelo hábito eterno de chupar o dedo, de cabelo liso, veio falar comigo, surpresa porque eu fui buscá-la. Naquele fim de semana, fizemos várias coisas, como ir ao parque e ao shopping, mas minha memória retém estes dois momentos: o bilhete e a imagem dela, surpresa, virando para mim numa sala de aula de reforço.

Se eu soubesse o que sei agora, viveria melhor a grandeza dos pequenos momentos, observaria mais os detalhes. A Dal entrou na minha vida, para sempre. Ali, conheci minha família, no Kumon de Águas Claras, no DF. Guardo o bilhete até hoje. Guardo as cenas impressas na memória.

Estamos esperando chegar o novo registro de nascimento, com o novo nome: Dalila Fernandes Figueiras Messagi, com mãe e dois pais e seis avós, exatamente como o da Tarsila. A Dal é minha filha, segundo o amor e a lei. E meus paradoxos ficaram no passado. Eu também tenho uma família linda, exatamente como a primeira.

E meus paradoxos, mesmo que ainda existam, não me incomodam mais, nem me pendem, insistente, entre um lado e outro. Foi exatamente naquele dia que o pêndulo balançou pela última vez para o lado onde estou agora.

E aqui ficarei, Dal.

 

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Cronograma do curso “Análise de Conjuntura – Brasil”

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As aulas (exceto a primeira) serão sempre às 19:00 (até as 20:30), no auditório do Decom (rua Bom Jesus, 650 – Juvevê). Veja um breve currículo dos ministrantes aqui.

08 de março – o que é análise de conjuntura. Apresentação da disciplina. Ministrantes: Emerson Cervi e Mário Messagi Júnior

12 de março – Estado democrático de direito: os poderes da república, seus papeis e o ativismo do judiciário. Ministrante: Paulo Opuszka. Esquerda e direita: como definir. Ministrante: Paulo Vieira.

19 de março – Liberalismo econômico: de Smith a Friedman e Lucas. Ministrante: Fernando Motta

26 de março – Desenvolvimentismo econômico: de Marx a Keynes. Ministrante: Fabiano Dalto

2 de abril – O golpe de 1964 e a ditadura civil-militar. Ministrante: Luís Ribeiro

9 de abril – Da abertura ao impeachment de Collor. Ministrante: Adriano Codato

16 de abril – Os governos FHC. Ministrante: Carlos Lima

23 de abril – Os governos Lula e Dilma: periodização, indicadores e desempenho. Sérgio Braga

7 de maio – As regras do jogo: evolução das legislações eleitorais e do financiamento de campanha pós 1989. Ministrantes: Eneida Salgado e Emerson Cervi

14 de maio – Mídia e política pós-ditadura no Brasil. Ministrante: Mário Messagi Jr.

21 de maio – Papel junho de 2013 e a ascensão das redes. Ministrantes: Rafael Sampaio e Fabiano Silva

28 de maio – Panorama político latino-americano e migrações. Ministrantes: Dimas Floriani e Tatiana Friedrich

4 de junho – crime organizado, drogas e sistema prisional. Ministrante: Pedro Bodê

11 de junho – o fenômeno neopentecostal no Brasil. Ministrante: Etiane Caloy

18 de junho – geopolítica do petróleo. Ministrante: Tiago Appel

Lula calado: os riscos de uma saída autoritária

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Lula perdeu cerca de três pontos percentuais no primeiro turno na pesquisa Datafolha divulgada hoje, 15. A Folha aponta que é efeito da prisão. Parece um péssimo resultado para a esquerda, mas é ruim, de fato, para a direita, por dois motivos:

1) Mesmo preso, com uma cobertura negativa intensa e a mobilização das forças conservadoras comemorando a prisão de Lula, a queda foi pequena, com aumento da percepção de que a prisão foi injusta.

2) No primeiro turno, o eleitor tem muitas opções, mas no segundo a questão é mais categórica. Nestas simulações, Lula perde apenas 1 ponto: tem 48% x 31%, contra Bolsonaro (era 49 a 32, em janeiro), tem 48% x 27%, contra Alckmin (era 49 a 30) e tem 46% x 32%, contra Marina (era 47 a 32). Em suma, Lula perdeu menos que os adversários.

Marina também bate Bolsonaro com folga, por 44% a 31% (em janeiro era 42 x 32). O candidato da extrema-direita só é competitivo contra Alckmin, mas perde ainda: 35 x 33, e Ciro, com quem empata em 35%. E ganha de petistas pouco conhecidos, como Jacques Wagner (39 a 23) e Haddad (37 a 26).

Veja os dados atuais aqui, na matéria do G1, e os de janeiro aqui, na matária do Poder 360.

Os dados apontam, hoje, para seguinte situação: Lula não perde no segundo turno para ninguém, e Bolsonaro não ganha de ninguém. Explico: Haddad perde de 11%, sem um gesto de Lula a favor dele, sem campanha. Aparecendo como o candidato de Lula, bate Bolsonaro fácil. A direita também sabe que o deputado carioca é o adversário mais fácil de bater no segundo turno, tem teto, não será presidente. Por isso, jogaram pesado para tirar Lula do páreo, porque senão Alckmin definitivamente não chega nem no segundo turno.

Sem Lula, precisam brigar com a esquerda para chegar no segundo turno, mas a probabilidade ainda é incerta. Hoje, Ciro ou outro candidato petista são mais competitivos e Bolsonaro ocupa o espaço da direita, diminuindo muito a viabilidade de Alckmin. Por isso, oscilam entre atacar Bolsonaro ou alimentá-lo. Péssimo no primeiro turno, ele é ótimo para a direita no segundo.

A equação para a direita, neste momento, é muito ruim. Por isso, prenderam Lula, para terem alguma chance, mas precisam mais que isso: precisam dele calado, sem fazer campanha, sem apontar para Jacques Wagner, Haddad ou Ciro. Se não conseguirem isso, perdem a Presidência.

A última opção, então, será aprofundar a crise e impedir que haja eleições. Mas aí tem que fazer um arranjo autoritário muito mais amplo, porque há muita gente, à esquerda e à direita, buscando poder seja na Câmara Federal, Senado, governos e assembleias legislativas. Teriam que impedir apenas a eleição presidencial. É uma equação muito difícil e afundaria de vez a economia do país e suas relações comerciais com o mundo.

Podem, com isso, manter o poder a curto prazo, mas arriscam abrir as portas de uma hegemonia política da esquerda por longos anos, em seguida.

Porque Lula foi condenado sem provas, didaticamente

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  1. Lula não foi julgado pelo Porto de Mariel, nem pelo sítio de Atibaia, nem por empréstimos do BNDES. Você pode pensar o que quiser sobre Lula, não votar nele, fazer campanha contra, mas a questão da justiça ou não da sua prisão gira exclusivamente em torno do triplex de Guarujá.

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    Foto: Ricardo Stuckert

  2. A acusação: a) Lula recebeu, em 2009, o triplex (corrupção passiva), que foi mantido, no entanto, no nome da OAS para ocultar patrimônio (lavagem de dinheiro); b) Lula teria ajudado, como presidente da República, a OAS em três contratos com a Petrobrás (ato de ofício ou omissão de ato de ofício). Por se tratar, assim, de um caso ligado à Lava Jato, deveria ser julgado em Curitiba.
  3. O crime pelo qual Lula foi condenado se caracteriza desta forma: receber algum valor ou bem em troca de praticar ou deixar de praticar ato para beneficiar a empresa que deu a propina.
  4. Sobre o item “a”, não há provas diretas nos autos, nem testemunhais nem documentais. Em 2009, o triplex não estava sequer construído. A propriedade (em papel passado) nunca foi de Lula ou Marisa Letícia. A acusação, então, aponta que a
    moro

    Foto: Geraldo Bubniak

    posse (usufruto) foi de Lula. Ou seja, ele não era legalmente o proprietário, mas o era de fato. Lula nunca dormiu uma noite no imóvel, nem ninguém da sua família. Visitou duas vezes o triplex, o que não pode caracterizar posse. Desfeita a hipótese da posse, a acusação partiu para a tese de que o apartamento foi “atribuído” a Lula, conceito não previsto no Código Penal. Este fato é comprovado pelos chamados indícios.

  5. Quais são estes indícios: a) um documento rasurado onde o número 141 é sobreposto ao número 174. Marisa era dona de uma cota no edifício Solaris no valor de R$209.119,73 e havia um imóvel reservado para ela (o 141), mas ela poderia usar o dinheiro para comprar qualquer unidade disponível, pagando a diferença. O documento rasurado, segundo a acusação, significaria tentativa de ocultar o negócio. b) tabelas apreendidas na OAS indicam que o imóvel estava “reservado”. c) o depoimento do zelador do edifício, que afirma que Marisa “conheceu as áreas comuns, circulando como proprietária, e não como interessada”. d) reportagem do jornal O Globo de 10/03/2010, denunciando que o casal Lula era o real proprietário do triplex, onde consta inclusive uma confirmação da Presidência da República de que “Lula continua proprietário do imóvel”. e) Lula, em conversa com Leo Pinheiro, não teria discutido o preço do imóvel, o que indicaria que não se tratava de uma compra. f) o depoimento de Leo Pinheiro, alegando que reformas foram feitas para atender pedidos de Marisa. Há trocas de e-mails também discutindo reformas.
  6. A narrativa da defesa, ponto a ponto: a) Lula nunca negou que tinha interesse em adquirir o imóvel. Supor que uma rasura é prova de tentativa de ocultação de patrimônio é ir longe, muito longe nas possibilidades interpretativas. b) as planilhas na OAS circulavam livremente e é muito comum, no comércio de imóveis, reservá-los, o que não significa venda. Além disso, Lula nunca negou que teve, de fato, interesse no imóvel em certo momento. c) Marisa andava como se fosse proprietária porque era proprietária, até então, de uma unidade no edifício, ainda que não estivesse definida qual. Áreas comuns são… comuns. d) a reportagem de O Globo afirmava que Lula e Marisa eram “futuros proprietários” porque eram, como confirmado pela Presidência da República, mas ainda neste momento da unidade 141. Mais tarde, Marisa pediu o dinheiro de volta e o casal deixou de ter direito sobre qualquer unidade. f) por que Lula não perguntou a Leo Pinheiro o preço do triplex? Havia uma tabela, que fixava preço em R$900 mil ou ainda não havia negociações de valores. Há várias interpretações, além daquela que diz que isso prova que o triplex seria dado a Lula. f) o depoimento de Leo Pinheiro é o mais relevante indício, pois nele se baseia a sentença de Moro. Colo abaixo o relato, em 25/01/2018, de Luís Nassif sobre este depoimento.
  7. A denúncia de Léo Pinheiro obedeceu à seguinte trajetória: 01/06/2016 – Delação de Léo Pinheiro (LP) trava após inocentar Lula (https://goo.gl/kp3whZ). 23/11/2016– LP recebe sentença de 26 anos de prisão confirmada pelo TRF4 (https://goo.gl/qFEvgB). 12/07/2017 – por ter ajudado no processo contra Lula, Sérgio Moro reduz a pena de LP a 10 anos e 8 meses. 21/09/2017 – Procuradoria Geral da República não aceita a delação de Léo Pinheiro por não ter apresentado nenhum elemento de prova (https://goo.gl/4kn7tF). Mesmo assim, Moro mantém o depoimento de LP e o TRF4 reduz sua pena para três anos e seis meses. Como já cumpriu uma parte, deverá ser solto em breve (https://goo.gl/TaY6kp).
  8. LP teria dito que o dinheiro para pagar o imóvel viria de uma conta na OAS de R$ 50 milhões, destinada ao PT, da qual teriam sido descontados R$3 milhões para o triplex. O acerto teria sido combinado com o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, em reunião onde só estavam os dois. O depoimento é claramente uma troca: acusar Lula para conseguir redução de pena (22,5 anos a menos). Qual prova LP apresenta? Nenhuma, nem gravação, nem documento, nem foto, nem agenda, nada. E João Vaccari confirmou? Não foi nem ouvido.
  9. Conclusão: todos os indícios indicam que havia a intenção de repassar o triplex para Lula e que a OAS o reformou atendendo pedido do casal presidencial. Nada prova que seria como propina. Os indícios, pelo contrário, indicam que havia uma transação comercial em curso. O mesmo depoimento que serve para condenar Lula, na interpretação de Moro, também o inocenta. LP disse à Justiça: “se o presidente não quisesse eu nós íamos ter um belo problema, não sei o que eu ia fazer com o apartamento porque ele é muito personalizado, é um valor excessivamente maior das reformas que foram feitas, da decoração feita, do que valia o apartamento, isso é público e notório, está nos autos, então está muito claro isso.” Dois engenheiros da OAS endossam esta mesma versão, em depoimentos. Igor Pontes afirmou: “O que foi dito foi que ele estava fazendo uma visita para ver se ele ia ficar com a unidade, um potencial comprador era o termo que se utilizava.” Inquirido por que a reforma no apartamento foi feita, Igor respondeu: “A justificativa foi que no apartamento seria feita uma melhoria com o objetivo de facilitar o interesse pela unidade, porque a unidade era muito simples, era uma unidade básica, enfim, e o objetivo era melhorar o apartamento para ver se de repente o ex-presidente se interessava em ficar.” Mariuza Marques, outra engenheira, confirma a tese: “Não, eu não sei lhe informar se ela possuía um proprietário, se dizia que tinha, iria, assim, reformar, melhorar porque tinha, assim, um cliente em potencial para comprar essa unidade, que tinha interesse nessa unidade.”
  10. O que fica claro é que Lula tinha interesse na unidade e direito de adquiri-la. O que tudo indica é que era apenas um potencial comprador. As reformas, caras, poderiam ser dadas como propina ou mesmo toda a diferença entre a unidade 141 e a 174. Mas Lula desistiu do negócio e pediu os R$209 mil de volta. Por quê? Talvez porque não gostou das reformas, talvez porque teve medo da repercussão política, fosse um negócio lícito ou ilícito. De qualquer forma, o crime pelo que foi condenado não aconteceu. Lula foi, como no filme Minority Report, condenado pela intenção de cometer um crime, um pré-crime. E nem esta intenção está claramente comprovada. Pelo contrário, há mais indícios que atestam que se tratava de uma transação comercial do que de que se tratava de corrupção.
  11. O ponto dois da acusação é que ele teria praticado um ato de ofício que beneficiaria a OAS, em três contratos da Petrobrás. Sérgio Moro, na sentença, exclui isso, pois não consegue, nem ele, formar convicção em torno disso. Daí a importância do depoimento de LP mais uma vez, alegando que se tratava de uma conta geral de R$50 milhões, já que não era possível indicar especificamente quais atos o presidente Lula cometeu para favorecer a OAS. Provas disso? Nenhuma. Vaccari, que podia confirmar (também poderia fazer uma delação premiada), não foi nem ouvido. Logo, não há ato de ofício, apenas uma afirmação genérica sem provas. E a lei especifica que delação premiada só vale com provas e, por isso, LP não foi levado a sério em outras instâncias, mas convenceu ou reforçou a convicção prévia de Moro.
  12. Em suma, Lula foi condenado por um pré-crime, no máximo, e sem ter praticado ou deixado de praticar, na Presidência da República, nenhum ato identificável para beneficiar a OAS. Condenação sem provas, portanto, por um crime que não aconteceu. Não há corpo, não há arma do crime; só há o assassino.
  13. O enredo mais provável do que aconteceu é bem mais simples. Lula saiu da Presidência da República com 87% de aprovação popular e como um dos líderes mais respeitados do mundo. Passou seu mandato viajando para outros países, como um mascate, oferecendo produtos de empresas brasileiras e fazendo acordos bilaterais e multilaterais de comércio com outros países. Isso, em tempos de preços altos de commodities, permitiu vários saldos seguidos na balança comercial, possibilitou o pagamento da dívida externa e criou uma imensa reserva cambial para o Brasil de US$288 bilhões (isso mesmo, dólares). Quando saiu do mandato, continuou operando a favor das empresas brasileiras no exterior, sobretudo a construção civil. Isso é moral? Talvez não, mas não é ilegal. Mesmo que a OAS quisesse dar o triplex a Lula, seria mais razoável supor que era pelo papel que ele desempenhava para a empresa naquele momento e não por atos praticados quatro ou cinco anos antes.
  14. Você pode não gostar do que Lula fazia pela OAS depois que saiu da Presidência. Eu também não gosto. Querer que ele seja preso por isso, sendo que a prática não é criminosa, é absurdo. Você pode acreditar que Lula recebia propina da OAS na forma de palestras, pois é um “cachaceiro” que só sabe “fazer metáforas de futebol”. Eu acho que isso é preconceito com um presidente reconhecido como o melhor ou pelo menos um dos melhores da história do Brasil. Tem muita gente que pagaria sim, muito dinheiro, por uma palestra de Lula, como também pagaria por palestras de Deltan Dallagnol. Não há crime em fazer e receber por palestras, mas é muito mais imoral fazê-las ainda no exercício do cargo público. Além disso, Lula não fazia palestras: abria mercados. Quanto isso vale para empresas da construção civil?
  15. Há outros elementos que comprovam que Lula está sendo perseguido pela Justiça e que a sentença, em si, é ilegal, que o resultado era sabido desde o princípio e que o trâmite jurídico serviu apenas para dar um verniz formal a uma arbitrariedade. Ou seja, o processo é legal na forma, mas não no conteúdo.
  16. Primeiro, se Moro admitiu que o dinheiro não veio de contratos específicos com a Petrobrás, Lula não poderia nem ser julgado por ele e nem acusado pela Procuradoria do Paraná, pois deixa de ser um caso relativo à Lava Jato. O processo deveria ser remetido a São Paulo, foro de Lula. Neste momento, com o fim do foro privilegiado de Geraldo Alckmin (deixou de ser governador para concorrer à Presidência da República), seu processo está sendo remetido do STF para a justiça de primeira instância em São Paulo. Era o que Moro deveria ter feito com Lula, remetendo o processo para São Paulo.
  17. Segundo, construíram a imagem de Lula como o chefe de uma quadrilha, mas ele recebe menos propina que o terceiro escalão. Faz sentido?
  18. Terceiro, a Lava Jato está destruindo o instituto da delação premiada, usando prisões como tortura para forçar denúncias contra quem quer que seja. A lei, para evitar isso, exige que delatores apresentem provas. Sem provas, é o mesmo procedimento que, na idade média, levou a inquisição a queimar diversas mulheres sob a acusação de bruxaria. Delação sem prova é medieval e ilegal. Moro aceitou uma prova ilegal, claramente forçada e, mesmo assim, que contradizia sua tese.
  19. Quarto, no país onde a demora do judiciário para julgar espalha o sentimento de impunidade na população e gera insegurança jurídica, Lula foi julgado em duas instâncias em tempo recorde. Moro mandou prendê-lo minutos após receber autorização do TRF4 para isso. Há mais de uma dezena de condenados em segunda instância em liberdade ainda, esperando ordem de Moro.
  20. Quinto, o TRF4 julgou em desacordo com sua própria jurisprudência. Cito aqui o advogado Márcio Paixão (gl/eVhDGM): Em diversos julgados, Sua Excelência, Desembargador Federal João Pedro Gebran Neto, vem consignando as balizas adotadas por aquela Turma para formação do convencimento judicial com base somente em indícios, como nesse caso. São, em suma, esses os critérios: (…)Esta prova indireta deverá ser acima de qualquer dúvida razoável, excluindo-se a possibilidade dos fatos terem ocorrido de modo diverso daquele alegado pela acusação. É dizer, seguindo na lição de Knijnik, os diversos indícios que envolvem o fato probando devem ser analisados em duas etapas, primeiro em relação a cada indício; depois o conjunto deles. Assim, sendo cada indício certo e preciso, pode-se obter a concordância a partir do conjunto (op. cit., p. 51), sendo que um único indício, mesmo que certo e grave, pode acarretar na exclusão de um juízo de certeza quanto aquilo que se pretende provar.” Com base nesta jurisprudência, o advogado aposta (o texto é anterior ao julgamento no TRF4) na absolvição de Lula: “firmo três conclusões: (i) o conjunto indiciário é somente parcialmente consistente com a versão da acusação, segundo a qual Lula seria proprietário do tríplex desde 2009; (ii) o conjunto indiciário é plenamente consistente com a versão da defesa, segundo a qual houve interesse pelo tríplex, mas o casal não o adquiriu e Lula não o recebeu; (iii) o conjunto composto pela totalidade dos elementos de convicção (indícios e provas) é integralmente coerente com a hipótese apresentada pela defesa e apenas parcialmente coerente com a hipótese apresentada pela acusação.”
  21. Eu firmo as minhas convicções, sem nenhuma sombra de dúvida: Lula não cometeu crime, não praticou ato identificável para beneficiar a OAS, não recebeu nem nunca desfrutou do triplex, foi julgado de forma parcial, com uso de delações forjadas sem provas, condenado com base em indícios que mais provam sua inocência que sua culpa, em tempo desproporcional em relação a outros réus e em desacordo com a lei e a jurisprudência. Sofre um processo de exceção, legal na forma, ilegal no conteúdo, e é um prisioneiro político.

OCUPAÇÃO NA REITORIA: entenda como a UFPR abriu as portas para a precarização do trabalho nos Restaurantes Universitários

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foto 1.jpgEstudantes da UFPR ocupam a Divisão de Serviços Gerais da UFPR, responsáveis pelas licitações e contratos da Universidade, desde a manhã de hoje, 10 de abril. Exigem que trabalhadores demitidos pela empresa Blumenauense, que administra os Restaurantes Universitários (RU´s), sejam recontratados e que o trabalho deles não seja precarizado. E a UFPR não pode fazer nada, ainda que tenha publicado em notas oficiais que estava tomando medidas para aumentar o número de trabalhadores nos RU´s. Não pode porque adotou um novo modelo de gestão que abre as portas para a precarização do trabalho. Vamos por partes.

Até 2017, a UFPR contratava trabalhadores terceirizados que se subordinavam à equipe da UFPR: nutricionistas, coordenadores, etc. Os contratos de 2017, o 049/2016 (SR Serviços Terceirizados) e o 067/2017 (Obra Prima S/A Tecnologia e Administração de Serviços), fixam em 196 e 194 os postos de trabalhos contratados, mas 6 e 4, respectivamente, eram para outras unidades. Em ambos os casos, o total de contratados era de 190 trabalhadores (cláusula terceira em ambos os contratos). Todos os documentos citados neste post estão no drive: https://drive.google.com/drive/folders/1waDBBmJDp6kgIni4owxSQIF3Y_6B-0MA?usp=sharing

Em contratos desta natureza, são fixados obrigações para a contratada como: Programa de Controle Médico de Saúdo Ocupacional, Programa de Prevenção de Riscos de Acidentes de Trabalho, Treinamento, Respeito à Convenção Coletiva de Trabalho, etc (cláusulas sexta e sétima, respectivamente).

No novo modelo, não há um número de postos a ser contratado, mas um serviço, especificado em termos de porções, qualidade da comida, cardápio, asseio dos trabalhadores, etc (cláusula quinta do contrato 07/2018). São poucas as menções aos direitos dos trabalhadores, como a obrigação de pagar salários fixados em negociações com o Sindicato específico. O objetivo principal é proteger a UFPR de qualquer responsabilidade jurídica, o que fica bem claro nos itens “d”, “e” e “f”, da cláusula quinta, inciso IV do contrato:

d) Reconhecer que a inadimplência da CONTRATADA com referência aos encargos trabalhistas, fiscais e comerciais, não transfere a CONTRATANTE a responsabilidade por seu pagamento, nem poderá onerar o objeto deste contrato;

e) Manter sempre atualizados os pagamentos referentes à remuneração mensal, benefícios e demais obrigações trabalhistas dos seus funcionários vinculados ao serviço ora contratado, sendo a CONTRATANTE isenta de quaisquer custas;

f) Assumir a defesa contra reclamações Judiciais e Extrajudiciais arguidas contra si, e arcar com os ônus decorrentes dos prejuízos e das ações judiciais que possam ocorrer em consequência da execução dos serviços prestados para a CONTRATANTE.

Menos gente, o mesmo trabalho

Queimadura 1Como consequência deste novo modelo de contrato, o número de trabalhadores alocados nos quatro RU´s de Curitiba caiu de 190 para 127, segundo informação da própria assessoria de comunicação da UFPR. Além disso, o trabalho de limpeza e manutenção, antes destinados a outras empresas terceirizadas, agora cabe aos mesmos 127 trabalhadores. O resultado é acúmulo de atividades e aumento de acidentes de trabalho.

A UFPR, em nota, garantia que o aumento do número de trabalhadores seria feito. O problema é que ela não pode pedir isso para a Blumenauense. Ela lavou as mãos. Tudo o que disser sobre estar negociando o aumento do número de postos é bravata. O contrato não permite isso.

RU´s cedidos em comodato

Neste modelo, o setor de nutrição da UFPR não faz os cardápios; apenas fiscaliza. A UFPR não compra produtos, não cuida da limpeza do espaço e nem da manutenção hidráulica ou elétrica do imóvel. A Blunenauense é responsável até pelo mobiliário, caldeiras e panelas. As únicas exigências que a UFPR pode fazer é sobre a qualidade dos serviços.panelas acumuladas

Economia para a UFPR?

O contrato com a Blumenauense custa para a UFPR R$13.031.970,00, por ano, incluindo o serviço, os insumos, manutenção, caixas, etc. O contrato com a SR custou R$8.329.999,80, por 11 meses, sendo R$8.165.464,22 com os Restaurantes Universitários. Em 2016, foram gastos com os RU´s de Curitiba R$4.894.403,66, em gêneros alimentícios, segundo o documento UFPR em Números da Pró-reitoria de Planejamento. Os dados de 2017 ainda não foram divulgados. O custo com mão de obra e alimentos, estimado (já com projeção de 12 meses para contrato da SR), portanto, é de cerca de R$13,74 milhões. Os valores são muito próximos.

Ou seja, a economia que a UFPR faz com este modelo é pequena, mas o custo para os trabalhadores dos RU´s é grande. Tanto pior que mudem o modelo exatamente no momento em que uma reforma trabalhista fragilizou muito os direitos dos trabalhadores e a proteção contra a precarização do trabalho.

O efeito, além do acúmulo de trabalho, foi a diminuição de alguns salários e a redução do vale-alimentação para pouco mais que a metade. Antes, quem não faltasse nenhuma vez no mês ganhava R$360,00 (bônus assiduidade). Se faltasse, o valor caia para R$320,00. Agora, o vale é de R$190,00 e não é pago se o trabalhador falta, mesmo que apenas um dia no mês. Isso sem contar as demissões dos mais experientes.

Procuradoria recomenda corte de ponto de servidores na UFPR

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Leia a nota 289/2017, da procuradoria jurídica da UFPR, determinando o corte de ponto dos servidores técnicos em greve.

 

NOTA_289_2017_PFUFPR

Romper o isolamento: Sacod 2018-2022

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Estamos divididos. Somos sete cursos de graduação, quatro cursos de pós-graduação e três departamentos espalhados por três campi diferentes. Temos um projeto de construção de uma nova sede, com custo estimado de R$100 milhões. Um belo sonho, que parece tão lindo quanto distante.

indexCriamos um setor para compartilhar estruturas e buscar sinergias, mas estamos separados. Cada um com seus problemas, não compartilhamos, nem colaboramos. Nossas graduações, pós-graduações, projetos de extensão e de pesquisa pouco se conhecem, professores e alunos estão circunscritos aos seus cursos. O que seria uma unidade da UFPR com alto poder criativo, gerado pela integração de Artes, da Comunicação e Design está desintegrada em unidades distantes, deixando de compor um caldeirão cultural fundamental para novas abordagens pedagógicas, novas pesquisas, novas formas integração com a sociedade.

Concebemos um novo setor para ampliar nosso poder político externo, mas nos anulamos nos últimos quatro anos. Não temos parcerias com outros setores, unidades e cursos. Somos uma ilha na universidade, um arquipélago, na verdade, isolados num oceano de conhecimento.

Não temos inserção social, dialogamos pouco com a sociedade, apesar da potencialidade das áreas de Comunicação, Artes e Design.

Por isso precisamos romper o isolamento.

Um lugar, espaços compartilhados, projetos coletivos

A consolidação do Sacod passa pela construção do nosso campus. R$100 milhões aproximadamente nos separam disso. Parece impossível, mas não é.

Primeiro, temos que cobrar um orçamento preciso da Administração Central, não estimativo. Deste valor, precisamos saber claramente quanto diz respeito à construção dos novos estúdios da UFPRTV e Rádio Universitária e quanto é o valor estimado da reforma do prédio central para receber a reserva técnica do MAE, um gasto desnecessário de qualquer forma. Compete ao Sacod e à Administração Central viabilizar recursos para os espaços didáticos e administrativos do Setor. Compete somente à Administração Central viabilizar recursos para as obras da UFPRTV. O MAE pode ser instalado em outros espaços, como na sede de Piraquara.

Com um orçamento mais preciso, é possível buscar alternativas. Caso necessário, a construção pode ser dividida em módulos, como tem sido a orientação do Tribunal de Contas da União.

Temos um patrimônio valioso que pode ser colocado como parte do pagamento e, dependendo dos custos, como pagamento integral: o imóvel no Batel. Precisamos de uma avaliação prévia, mas é possível oferecer a atual sede dos cursos de Artes como pagamento pela construção do prédio, no todo ou em parte, no campus Cabral. A construtora receberá o terreno apenas depois que o prédio for entregue e Artes mudar para o novo campus.

Antes disso, é possível otimizar os espaços físicos, que possam ser compartilhados, como estúdios de rádio e de fotografia, ateliês e oficinas. É preciso aproximar os cursos, permitir maior fluxo de alunos em disciplinas optativas, buscar sinergias em projetos de extensão ou pesquisa. Tudo isso, que já poderia ter sido feito, mesmo com o novo prédio apenas na planta, ainda está por fazer.

O primeiro isolamento a romper é interno, dos cursos e departamentos entre eles.

O Sacod e a UFPR

Estamos separados do resto da UFPR. Temos poucos professores ministrando aulas em outros cursos fora do setor e poucos de fora ministram aulas para os nossos alunos, não temos projetos conjuntos com outras áreas, nem participamos de movimentos para obter emendas parlamentares e recursos no CT-Infra (edital do governo para construção de grandes estruturas de pesquisa) ou Pró-equipamentos. Nossa inserção na política universitária é baixa também. Se a criação do Setor tinha como um dos seus objetivos aumentar o poder da área, até pelas necessidades maiores de infraestrutura, isso não aconteceu.

Por isso, é preciso aumentar o diálogo, buscar parcerias, atuar junto com outras unidades da UFPR. É preciso buscar a expertise de setores como a Exatas (sobretudo a informática) e Educação para criar uma unidade de projetos, com capacidade de prospectar editais, ajudar na elaboração de propostas e na execução posterior. Os Setores de Ciências Agrárias e Sociais Aplicadas podem colaborar na estruturação de uma área mais consistente de pós-graduações lato sensu. Na educação à distância, podemos ser ponta, criar um núcleo de EaD para oferecer conteúdos livres, material de apoio às aulas e cursos on line, em parceria com o Sept e Cipead. E atender outras unidades da UFPR.

A relação com Administração Central tem que ser constante, em função sobretudo da construção da nova sede. Há debates centrais acontecendo, como o Modelo de Alocação de Vagas Docentes e as 30 horas dos técnicos administrativos. Um setor que se pretende protagonista tem que se inserir, dialogar, aparar divergências, construir o futuro da UFPR e do Setor com os diversos atores da instituição.

A cidade e o mundo

O Sacod é parte da UFPR, uma universidade pública com uma grande responsabilidade social. Apoio aos projetos de extensão, integração entre eles, tudo isso é fundamental, mas o caráter extensionista e inovador deve perpassar os cursos do começo ao fim. Arte, Comunicação e Design são áreas onde inovação é fundamental, mais ainda com as perspectivas abertas pela tecnologia.

Uma das formas de falar com sociedade é através da criação de uma associação de ex-alunos, que aproxime egressos e discentes para o desenvolvimento de projetos e incubação de start ups, com capacidade de gestar soluções para problemas sociais, de gerenciar recursos, captar patrocínio através de leis de incentivo e produzir arte e cultura. É preciso ocupar a cidade.

Por outro lado, se relacionar com o mundo é condição necessária para a melhoria da pesquisa e da pós-graduação, ampliando convênios, projetos de pesquisa internacionais, intercâmbio de alunos e professores. Nossos programas de pós-graduação devem mirar na melhoria nos índices de avaliação, na criação de doutorados e em notas 6 e 7, pelas Capes, o que só virá com internacionalização.

Por fim, nossa obrigação social nos impõe mirar sempre em crescimento de oferta de vagas de ensino de graduação, pós-graduação, cursos livres e especializações. O Sacod é pequeno, o 2º menor da UFPR em docentes (ganha apenas do recém-criado Campus Jandaia), o 3º menor em técnicos administrativos, o 4º menor em vagas no vestibular, o 3º menor em alunos matriculados. Apesar do tamanho, somos o 4º que mais recebe alunos de fora e o 5º que mais manda alunos para intercâmbios na graduação. E tivemos uma média de 11,71 candidatos por vaga no último vestibular.

Temos que perseguir a criação de doutorados e buscar condições humanas e orçamentárias para novas propostas de cursos de graduação. Sem contrapartida da Universidade e do Governo, não expandimos vagas, mas devemos ter projetos e estar preparados para isso.

Os próximos quatro anos serão fundamentais. Romper a inércia, planejar, buscar convergências, compartilhar problemas, construir coletivamente soluções: este é o sonho. E tudo começa no pensamento, no diálogo. Uma eleição é sobre isso, sobre sonhar, dialogar e construir o futuro juntos.

Meu pedaço de impossível

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A Via Láctea, imensa e impossível (por enquanto).

A Via Láctea, imensa e impossível (por enquanto).

Nos mundos em que vivemos, nossos caminhos nunca deveriam se cruzar, nossas vidas não deveriam estar paralelas jamais. Meu mundo; teu mundo: impermeáveis. Olhar-te-ia, pela redoma de vidro que me cerca, cada um dentro do seu próprio cristal. A luz refrata como num prisma e te vejo diferente do que és, disforme, às vezes, cheia de cores, ilusão de arco-íris.

Desejo-te e cruzo a fronteira, proibida, dos nossos mundos e te vejo, como és. Meu sonho anterior se desfaz, mas outro começa. Sua imagem cheia de cores ganha contorno e matizes mais precisos. Então sonho-te, diferente. Minha mente explode desejos, viagens, delírios de prazer e risos. E voltar para casa fica mais triste. Melhor seria nem ter cruzado a fronteira talvez.

Você é meu pedaço de impossível, vida que não posso viver, exceto quando fujo do meu mundo e faço, por um momento, meus dias cruzarem os teus. Você e eu somos vítimas das castas, das expectativas sociais, da cautela e das conveniências. Tantos nos estranhariam juntos que nos estranhamos também.

Nada muda o meu desejo, no entanto. Porque és cor, imagem diáfana, divina beleza, tudo aquilo que não posso tocar, luz e calor, mas toco. O que sou, já sei bem. Vivo minha vida todos os dias. Por isso, estou sempre olhando mundos com minha luneta, estou sempre fitando o impossível.

Tu és, nesta noite, a estrela mais linda.

Jornalistas são bulldogs treinados para morder

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bulldog reading newspaperAcho que nunca vou esquecer o asco que senti quando, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, encontrei o ex-prefeito Rafael Greca, então secretário de Comunicação do Governo Estadual. De terno e respeitoso, adentrei o Palácio Iguaçu para almoçar com o secretário e discutir a situação do comodato da Casa do Jornalistas, onde o Sindicato está instalado.

Greca foi Greca. Pegou um papel, rabiscou projetos do que fazer naquele lugar, demolindo em parte e construindo algo novo, uma nova sede, com espaço para museu, área de convivência. Colocou sua cabeça inventiva para funcionar, muito à vontade. À vontade também, discutiu, na minha frente, com um assessor como resolver um problema de comunicação. A certa altura, disse:

– Vamos colocar esta manchete na Gazeta…

E rabiscou um título qualquer. Não sei se Greca tinha poder assim para colocar os títulos que queria na Gazeta do Povo, mas a falta de cerimônia para fazer isso na minha frente, investido então como presidente do Sindicato dos Jornalistas, não me deixou apenas constrangido, mas também enojado.

Eu sabia que Estado e imprensa mantêm relações corrompidas, por motivos diversos: a verba publicitária pública, as concessões de rádio e TV nas mãos de políticos ou até mesmo relações familiares ou político-partidárias. Mas ver isso acontecendo, diante dos meus olhos, como se fosse a coisa mais natural do mundo me ofendeu de um jeito que eu não poderia imaginar.

Mais sutil foi um diretor de um jornal diário de Curitiba, com quem convivi por conta das discussões sobre regulamentação do estágio em jornalismo, me explicando porque seu jornal, sempre gentil com o poder público municipal, tinha andado batendo na prefeitura. O prefeito tinha atrasado o repasse de verbas publicitárias. Perguntei:

– E vocês pediram para a redação bater?

– Não. Só soltamos as rédeas.

Jornalistas são bulldogs. São treinados moralmente para morder. Aprendem cedo, na faculdade ou com os mitos e histórias que cercam a profissão, que “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”, como dizia Millôr. Jornalistas incorporam o mito do quarto estado ou quarto poder, como eu incorporei. E tento ensinar a meus alunos, mesmo relativizando.

Não temos controle editorial da nossa profissão, é fato. Os jornais mandam. E o jornalismo brasileiro é seletivo: os jornais denunciam quem interessa denunciar, seja por razões políticas (prejudicar ou não prejudicar deliberadamente um político), seja por razões econômicas (não contrariar ou agradar um grande anunciante, público ou privado), seja por razões mais escroques ainda, como as relações criminosas de Veja com Carlinhos Cachoeira, escambos da mesma natureza ou birra mesmo, como a desconstrução de Alceni Guerra pelo grupo Globo por conta da aproximação que ele fez entre Collor e Brizola, o eterno desafeto. Por isso, desconfio de denúncias. Pior ainda, não raras vezes a exposição seletiva de um escândalo serve para um jornal construir a imagem de independente e credível. Depois, será esta imagem de honestidade que vai encobrir toda sorte de desonestidades. Contraditoriamente, jornalismo seletivo serve para encobrir que o jornal faz jornalismo seletivo.

Este quadro só muda quando os interesses da empresa coincidem com o dos jornalistas. Quando os jornais são apenas capitalistas, buscando credibilidade, leitores e, com isso, mais anunciantes. Para mim, foi o que aconteceu com a Gazeta: razões profissionais e razões empresariais juntas. Pode ser que Greca nunca tenha tido o poder de fazer as manchetes do jornal, mas a história era verossímil, ela colava, pela imagem de chapa-branca que o jornal tinha. Os movimentos que a Gazeta fez para recuperar leitores e para recuperar credibilidade visavam contrariar esta imagem. Por razões empresarias, é claro.

De qualquer forma, ser bulldog treinado, cheio de justificativas morais para morder, nos torna isso: alvos fáceis de jornalismo seletivo. As empresas usam nossas virtudes contra nós. Somos o “perro guardian”, o “watch dog”, mas estamos amarrados pelo pescoço. Eles não precisam fazer nada. Quando querem que os jornalistas mordam, eles mordem. Mas não tiram a coleira.

Isso ainda me ofende. E, se tudo der certo, vai me ofender pelo resto da minha vida.

Que poder é o poder das ruas?

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ImageHá uma grande derrotada, desde já, pelos movimentos de protesto que tomam conta do país: a democracia representativa. E todos os seus atores: deputados, vereadores, governadores, prefeitos, presidenta, mas também os sindicatos, movimentos sociais e até a mídia.

E há uma grande vitoriosa, por enquanto: a juventude. Mesmo com a adesão de pessoas de outras faixas etárias, é o ponto de vista e a indignação da juventude, sobretudo urbana e de classe média, que venceram. Saber, porém, quais autores sociais ganharam e quais perderam ainda não significa saber qual causa efetivamente ganhou, exceto a redução do preço das passagens de ônibus, que está longe de ser a motivação para tantos protestos. Além disso, o movimento é muito dinâmico e seus sentidos políticos ainda não estão claros, ainda estão em disputa. Suas motivações também parecem vagas e difusas, amplas, difíceis de diagnosticar.

O movimenta replica uma característica de redes sociais, sobretudo o Facebook, mas também o Twitter, fóruns e blogs: a democracia participativa. As redes deram voz a todos que podem pagar por conexão. E cada um fala o que quer, sem precisar debater, sem precisar formular consenso algum. A regra é a dispersão. Todos participam, sem mover um milímetro da sua posição. Este modelo de democracia venceu. Azar da democracia, por que a democracia participativa veio para ficar, mas sozinha é o caos. Ela pode pressionar e renovar a democracia representativa, estimular a democracia direta, abrir caminho para a democracia deliberativa, mas não pode substituir nenhuma delas, exceto para a supressão da democracia em si, pela substituição da relação mediada por atores envelhecidos (como os legislativos, sindicatos e sociedade civil) pela relação direta entre a massa e o ditador. Assim, ou a democracia (e os velhos atores) assume e direciona a democracia participativa ou ela própria, democracia, está em perigo.

Além dos partidos e políticos, perdeu também, em larga escala, o movimento sindical, muito bem organizado, mas hoje distante das bases, muito institucionalizado, incapaz de diálogo, instrumento de representação mais jurídica que política. E perderam os movimentos sociais, apenas parcialmente eficazes para dar voz amplamente a seus pleitos, algo aparentemente fácil para os novos militantes em rede.

A velha mídia, dos grandes grupos de comunicação e seus veículos, também perdeu, na forma e politicamente, apesar de terem ganho no conteúdo. Na forma, porque a comunicação verticalizada, de massa, de um para muitos, estava tomando tombos da comunicação horizontalizada, menos assimétrica das redes, há um bom tempo, mas nunca tinha sido secundada como está sendo agora. Viciados em fazer política rasteira, os veículos também estão sendo identificados como atores políticos corrompidos do velho modelo e combatidos. Não há imagens de emissoras de TV do meio dos movimentos. Os jornalistas estão sendo colocados para fora, atacados e hostilizados. E a imprensa ainda não entendeu bem o que acontece, não sabe bem como se posicionar, exceto pelos seus velhos esquemas. A velha mídia tenta direcionar os sentidos do movimento, insiste em julgar mais que interpretar ou explicar, é a mesma porcaria de sempre, só que confusa desta vez. Ainda golpista, mas não mais protagonista.

Derrotada na forma e politicamente, a mídia ganhou no conteúdo. De tanto criminalizar a política, ela está por fim criminalizada pelas ruas. De tanto criminalizar os movimentos sociais e sindicais, eles estão agora criminalizados nas ruas. De tanto alimentar a indignação, em manchetes normalmente sem conteúdo, produziu a indignação como valor em si. Não por acaso, quase todos os vlogs indignados, como Felipe Neto e descealetra, estão delirando com o movimento. Todos molecotes de classe média revoltados porque não têm toddynho. Estão longe demais dos principais problemas do Brasil.

O movimento é também a vitória de uma forma de organização da juventude: os coletivos, potencializados pela organização horizontal e sem líderes típica das redes. Neste campo, a velha política precisa de uma música fúnebre. Os coletivos existem e são efetivamente mais democráticos e ágeis. O Intervozes, coletivo de ex-alunos de comunicação, é um exemplo. Além de minimizar os líderes, se configura como um espaço de formulação política com grande capacidade. Há coletivos também no movimento estudantil, alguns sem partidos, como a LS (Luta Socialista) e o Quebrando Muros, outros próximos de partidos, como o Rompendo as Amarras. Parte deles recusa a política institucionalizada, como os anarquistas do Quebrando Muros; outros negam, no discurso, mas atuam fortemente para ganhar sindicatos, como a LS.

Em Curitiba, foram a LS e o Quebrando Muros que se colocaram na origem do movimento, canalizaram a indignação sem pauta específica e impuseram sua lógica de organização do movimento, vivendo um dia por dia. Na ocupação da reitoria da UFPR no ano passado, fizeram a mesma coisa. Primeiro, criam o movimento, sem passar por nenhuma instância deliberativa. Buscam canalizar a insatisfação, acender o rastilho de pólvora, estourar a boiada e depois vão formular pautas, muitas vezes apenas agregando demandas, mesmo contraditórias. A legitimidade é dada pela construção do movimento. A especificação das pautas vem num terceiro momento. Só aí, sabemos o que é o movimento que irrompeu.

Nos protestos de rua, o MPL entrou com uma pauta específica, mas a junção de múltiplos atores deu o mesmo caráter4 ao movimento nacional: estouro de boiada sem pauta específica. Primeiro, ganham as ruas, turbinados pelo aumento da tarifa, pela repressão policial imprevidente até demais da PM de Alckmin, pelo desejo de se manifestar, de não se deixar calar. Nisso, soma-se, posteriormente, a extrema direita, na mesma estratégia de promover o movimento, mesmo sem causa.

Tudo isso marca os protestos. Sem centro, como nas redes; horizontal, como os coletivos; sem pautas específicas ou até com pautas contraditórias (o motivo da ação depois da ação em si); sentimentais, como os movimentos de massa; fomentados pela mesma juventude desiludida que votou em Marina Silva.

A diversidade de pautas vai se afunilar em pautas específicas e, então, poderemos ver o verdadeiro caráter do movimento, mas isto ainda está em disputa. A direita percebeu rápido as possibilidades e tenta hegemonizar o processo desde o início. Se conseguir, as pautas em seguida serão genéricas, como o fim da corrupção, melhoria na saúde e na educação e redução de impostos. A esquerda, mais tardiamente, percebeu o jogo e se põe a jogá-lo. Tenta tirar o Anonymous, movimento de esquerda no mundo, mas de direita no Brasil, e movimentos como o Acorda, Brasil, de direita desde o princípio, do protagonismo do processo. Se conseguir, as pautas serão mais específicas, como a reforma política e os 10% do PIB para a Educação.

Porém, pautas genéricas são mais fáceis de assimilar. As pessoas lutam sem saber exatamente pelo que, guiados por líderes que, pelo contrário, sabem muito bem o que querem. Rumaremos para o golpe, neste caso. Ou então para a derrota, flagrante e violenta, da juventude instrumentalizada.

Os traços do movimento, muito diferentes da Campanha da Diretas e do Fora Collor, vão se materializando hoje na recusa antidemocrática a qualquer ator institucionalizado e vai dando uma cara autoritária ao movimento. Aqueles que estão na rua há muito mais tempo, militantes organizados em partidos ou movimentos sociais e sindicais, vão precisar arrombar a porta.

Os mais exaltados falam em revolução, como na França, que começou por causa do preço do pão. Comparação muito feliz, de fato, pois a massa convertida em turba anuncia o terror. E a restauração.

Diria que, neste momento, a bola está nos pés da extrema esquerda. Se ela reconhecer a esquerda retardatária como parceira, pode fazer avançar sua pauta. Se reconhecer a extrema direita, será engolida por ela. E a marcha poderá invocar a família, Deus e a liberdade.

A massa, bem, a massa nas ruas age, na sua maioria, honestamente, porque todos estão insatisfeitos com algo, porque a educação e a saúde pública são ruins mesmo, porque são jovens acostumados a dar opinião sobre tudo e querem falar, porque acreditam em movimentos sem segundas intenções, como este se mostra ser. A massa, ingênua ou atavicamente conservadora, não imagina as forças que disputam a sua condução.

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