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Romper o isolamento: Sacod 2018-2022

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Estamos divididos. Somos sete cursos de graduação, quatro cursos de pós-graduação e três departamentos espalhados por três campi diferentes. Temos um projeto de construção de uma nova sede, com custo estimado de R$100 milhões. Um belo sonho, que parece tão lindo quanto distante.

indexCriamos um setor para compartilhar estruturas e buscar sinergias, mas estamos separados. Cada um com seus problemas, não compartilhamos, nem colaboramos. Nossas graduações, pós-graduações, projetos de extensão e de pesquisa pouco se conhecem, professores e alunos estão circunscritos aos seus cursos. O que seria uma unidade da UFPR com alto poder criativo, gerado pela integração de Artes, da Comunicação e Design está desintegrada em unidades distantes, deixando de compor um caldeirão cultural fundamental para novas abordagens pedagógicas, novas pesquisas, novas formas integração com a sociedade.

Concebemos um novo setor para ampliar nosso poder político externo, mas nos anulamos nos últimos quatro anos. Não temos parcerias com outros setores, unidades e cursos. Somos uma ilha na universidade, um arquipélago, na verdade, isolados num oceano de conhecimento.

Não temos inserção social, dialogamos pouco com a sociedade, apesar da potencialidade das áreas de Comunicação, Artes e Design.

Por isso precisamos romper o isolamento.

Um lugar, espaços compartilhados, projetos coletivos

A consolidação do Sacod passa pela construção do nosso campus. R$100 milhões aproximadamente nos separam disso. Parece impossível, mas não é.

Primeiro, temos que cobrar um orçamento preciso da Administração Central, não estimativo. Deste valor, precisamos saber claramente quanto diz respeito à construção dos novos estúdios da UFPRTV e Rádio Universitária e quanto é o valor estimado da reforma do prédio central para receber a reserva técnica do MAE, um gasto desnecessário de qualquer forma. Compete ao Sacod e à Administração Central viabilizar recursos para os espaços didáticos e administrativos do Setor. Compete somente à Administração Central viabilizar recursos para as obras da UFPRTV. O MAE pode ser instalado em outros espaços, como na sede de Piraquara.

Com um orçamento mais preciso, é possível buscar alternativas. Caso necessário, a construção pode ser dividida em módulos, como tem sido a orientação do Tribunal de Contas da União.

Temos um patrimônio valioso que pode ser colocado como parte do pagamento e, dependendo dos custos, como pagamento integral: o imóvel no Batel. Precisamos de uma avaliação prévia, mas é possível oferecer a atual sede dos cursos de Artes como pagamento pela construção do prédio, no todo ou em parte, no campus Cabral. A construtora receberá o terreno apenas depois que o prédio for entregue e Artes mudar para o novo campus.

Antes disso, é possível otimizar os espaços físicos, que possam ser compartilhados, como estúdios de rádio e de fotografia, ateliês e oficinas. É preciso aproximar os cursos, permitir maior fluxo de alunos em disciplinas optativas, buscar sinergias em projetos de extensão ou pesquisa. Tudo isso, que já poderia ter sido feito, mesmo com o novo prédio apenas na planta, ainda está por fazer.

O primeiro isolamento a romper é interno, dos cursos e departamentos entre eles.

O Sacod e a UFPR

Estamos separados do resto da UFPR. Temos poucos professores ministrando aulas em outros cursos fora do setor e poucos de fora ministram aulas para os nossos alunos, não temos projetos conjuntos com outras áreas, nem participamos de movimentos para obter emendas parlamentares e recursos no CT-Infra (edital do governo para construção de grandes estruturas de pesquisa) ou Pró-equipamentos. Nossa inserção na política universitária é baixa também. Se a criação do Setor tinha como um dos seus objetivos aumentar o poder da área, até pelas necessidades maiores de infraestrutura, isso não aconteceu.

Por isso, é preciso aumentar o diálogo, buscar parcerias, atuar junto com outras unidades da UFPR. É preciso buscar a expertise de setores como a Exatas (sobretudo a informática) e Educação para criar uma unidade de projetos, com capacidade de prospectar editais, ajudar na elaboração de propostas e na execução posterior. Os Setores de Ciências Agrárias e Sociais Aplicadas podem colaborar na estruturação de uma área mais consistente de pós-graduações lato sensu. Na educação à distância, podemos ser ponta, criar um núcleo de EaD para oferecer conteúdos livres, material de apoio às aulas e cursos on line, em parceria com o Sept e Cipead. E atender outras unidades da UFPR.

A relação com Administração Central tem que ser constante, em função sobretudo da construção da nova sede. Há debates centrais acontecendo, como o Modelo de Alocação de Vagas Docentes e as 30 horas dos técnicos administrativos. Um setor que se pretende protagonista tem que se inserir, dialogar, aparar divergências, construir o futuro da UFPR e do Setor com os diversos atores da instituição.

A cidade e o mundo

O Sacod é parte da UFPR, uma universidade pública com uma grande responsabilidade social. Apoio aos projetos de extensão, integração entre eles, tudo isso é fundamental, mas o caráter extensionista e inovador deve perpassar os cursos do começo ao fim. Arte, Comunicação e Design são áreas onde inovação é fundamental, mais ainda com as perspectivas abertas pela tecnologia.

Uma das formas de falar com sociedade é através da criação de uma associação de ex-alunos, que aproxime egressos e discentes para o desenvolvimento de projetos e incubação de start ups, com capacidade de gestar soluções para problemas sociais, de gerenciar recursos, captar patrocínio através de leis de incentivo e produzir arte e cultura. É preciso ocupar a cidade.

Por outro lado, se relacionar com o mundo é condição necessária para a melhoria da pesquisa e da pós-graduação, ampliando convênios, projetos de pesquisa internacionais, intercâmbio de alunos e professores. Nossos programas de pós-graduação devem mirar na melhoria nos índices de avaliação, na criação de doutorados e em notas 6 e 7, pelas Capes, o que só virá com internacionalização.

Por fim, nossa obrigação social nos impõe mirar sempre em crescimento de oferta de vagas de ensino de graduação, pós-graduação, cursos livres e especializações. O Sacod é pequeno, o 2º menor da UFPR em docentes (ganha apenas do recém-criado Campus Jandaia), o 3º menor em técnicos administrativos, o 4º menor em vagas no vestibular, o 3º menor em alunos matriculados. Apesar do tamanho, somos o 4º que mais recebe alunos de fora e o 5º que mais manda alunos para intercâmbios na graduação. E tivemos uma média de 11,71 candidatos por vaga no último vestibular.

Temos que perseguir a criação de doutorados e buscar condições humanas e orçamentárias para novas propostas de cursos de graduação. Sem contrapartida da Universidade e do Governo, não expandimos vagas, mas devemos ter projetos e estar preparados para isso.

Os próximos quatro anos serão fundamentais. Romper a inércia, planejar, buscar convergências, compartilhar problemas, construir coletivamente soluções: este é o sonho. E tudo começa no pensamento, no diálogo. Uma eleição é sobre isso, sobre sonhar, dialogar e construir o futuro juntos.

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Meu pedaço de impossível

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A Via Láctea, imensa e impossível (por enquanto).

A Via Láctea, imensa e impossível (por enquanto).

Nos mundos em que vivemos, nossos caminhos nunca deveriam se cruzar, nossas vidas não deveriam estar paralelas jamais. Meu mundo; teu mundo: impermeáveis. Olhar-te-ia, pela redoma de vidro que me cerca, cada um dentro do seu próprio cristal. A luz refrata como num prisma e te vejo diferente do que és, disforme, às vezes, cheia de cores, ilusão de arco-íris.

Desejo-te e cruzo a fronteira, proibida, dos nossos mundos e te vejo, como és. Meu sonho anterior se desfaz, mas outro começa. Sua imagem cheia de cores ganha contorno e matizes mais precisos. Então sonho-te, diferente. Minha mente explode desejos, viagens, delírios de prazer e risos. E voltar para casa fica mais triste. Melhor seria nem ter cruzado a fronteira talvez.

Você é meu pedaço de impossível, vida que não posso viver, exceto quando fujo do meu mundo e faço, por um momento, meus dias cruzarem os teus. Você e eu somos vítimas das castas, das expectativas sociais, da cautela e das conveniências. Tantos nos estranhariam juntos que nos estranhamos também.

Nada muda o meu desejo, no entanto. Porque és cor, imagem diáfana, divina beleza, tudo aquilo que não posso tocar, luz e calor, mas toco. O que sou, já sei bem. Vivo minha vida todos os dias. Por isso, estou sempre olhando mundos com minha luneta, estou sempre fitando o impossível.

Tu és, nesta noite, a estrela mais linda.

Jornalistas são bulldogs treinados para morder

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bulldog reading newspaperAcho que nunca vou esquecer o asco que senti quando, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, encontrei o ex-prefeito Rafael Greca, então secretário de Comunicação do Governo Estadual. De terno e respeitoso, adentrei o Palácio Iguaçu para almoçar com o secretário e discutir a situação do comodato da Casa do Jornalistas, onde o Sindicato está instalado.

Greca foi Greca. Pegou um papel, rabiscou projetos do que fazer naquele lugar, demolindo em parte e construindo algo novo, uma nova sede, com espaço para museu, área de convivência. Colocou sua cabeça inventiva para funcionar, muito à vontade. À vontade também, discutiu, na minha frente, com um assessor como resolver um problema de comunicação. A certa altura, disse:

– Vamos colocar esta manchete na Gazeta…

E rabiscou um título qualquer. Não sei se Greca tinha poder assim para colocar os títulos que queria na Gazeta do Povo, mas a falta de cerimônia para fazer isso na minha frente, investido então como presidente do Sindicato dos Jornalistas, não me deixou apenas constrangido, mas também enojado.

Eu sabia que Estado e imprensa mantêm relações corrompidas, por motivos diversos: a verba publicitária pública, as concessões de rádio e TV nas mãos de políticos ou até mesmo relações familiares ou político-partidárias. Mas ver isso acontecendo, diante dos meus olhos, como se fosse a coisa mais natural do mundo me ofendeu de um jeito que eu não poderia imaginar.

Mais sutil foi um diretor de um jornal diário de Curitiba, com quem convivi por conta das discussões sobre regulamentação do estágio em jornalismo, me explicando porque seu jornal, sempre gentil com o poder público municipal, tinha andado batendo na prefeitura. O prefeito tinha atrasado o repasse de verbas publicitárias. Perguntei:

– E vocês pediram para a redação bater?

– Não. Só soltamos as rédeas.

Jornalistas são bulldogs. São treinados moralmente para morder. Aprendem cedo, na faculdade ou com os mitos e histórias que cercam a profissão, que “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”, como dizia Millôr. Jornalistas incorporam o mito do quarto estado ou quarto poder, como eu incorporei. E tento ensinar a meus alunos, mesmo relativizando.

Não temos controle editorial da nossa profissão, é fato. Os jornais mandam. E o jornalismo brasileiro é seletivo: os jornais denunciam quem interessa denunciar, seja por razões políticas (prejudicar ou não prejudicar deliberadamente um político), seja por razões econômicas (não contrariar ou agradar um grande anunciante, público ou privado), seja por razões mais escroques ainda, como as relações criminosas de Veja com Carlinhos Cachoeira, escambos da mesma natureza ou birra mesmo, como a desconstrução de Alceni Guerra pelo grupo Globo por conta da aproximação que ele fez entre Collor e Brizola, o eterno desafeto. Por isso, desconfio de denúncias. Pior ainda, não raras vezes a exposição seletiva de um escândalo serve para um jornal construir a imagem de independente e credível. Depois, será esta imagem de honestidade que vai encobrir toda sorte de desonestidades. Contraditoriamente, jornalismo seletivo serve para encobrir que o jornal faz jornalismo seletivo.

Este quadro só muda quando os interesses da empresa coincidem com o dos jornalistas. Quando os jornais são apenas capitalistas, buscando credibilidade, leitores e, com isso, mais anunciantes. Para mim, foi o que aconteceu com a Gazeta: razões profissionais e razões empresariais juntas. Pode ser que Greca nunca tenha tido o poder de fazer as manchetes do jornal, mas a história era verossímil, ela colava, pela imagem de chapa-branca que o jornal tinha. Os movimentos que a Gazeta fez para recuperar leitores e para recuperar credibilidade visavam contrariar esta imagem. Por razões empresarias, é claro.

De qualquer forma, ser bulldog treinado, cheio de justificativas morais para morder, nos torna isso: alvos fáceis de jornalismo seletivo. As empresas usam nossas virtudes contra nós. Somos o “perro guardian”, o “watch dog”, mas estamos amarrados pelo pescoço. Eles não precisam fazer nada. Quando querem que os jornalistas mordam, eles mordem. Mas não tiram a coleira.

Isso ainda me ofende. E, se tudo der certo, vai me ofender pelo resto da minha vida.

Que poder é o poder das ruas?

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ImageHá uma grande derrotada, desde já, pelos movimentos de protesto que tomam conta do país: a democracia representativa. E todos os seus atores: deputados, vereadores, governadores, prefeitos, presidenta, mas também os sindicatos, movimentos sociais e até a mídia.

E há uma grande vitoriosa, por enquanto: a juventude. Mesmo com a adesão de pessoas de outras faixas etárias, é o ponto de vista e a indignação da juventude, sobretudo urbana e de classe média, que venceram. Saber, porém, quais autores sociais ganharam e quais perderam ainda não significa saber qual causa efetivamente ganhou, exceto a redução do preço das passagens de ônibus, que está longe de ser a motivação para tantos protestos. Além disso, o movimento é muito dinâmico e seus sentidos políticos ainda não estão claros, ainda estão em disputa. Suas motivações também parecem vagas e difusas, amplas, difíceis de diagnosticar.

O movimenta replica uma característica de redes sociais, sobretudo o Facebook, mas também o Twitter, fóruns e blogs: a democracia participativa. As redes deram voz a todos que podem pagar por conexão. E cada um fala o que quer, sem precisar debater, sem precisar formular consenso algum. A regra é a dispersão. Todos participam, sem mover um milímetro da sua posição. Este modelo de democracia venceu. Azar da democracia, por que a democracia participativa veio para ficar, mas sozinha é o caos. Ela pode pressionar e renovar a democracia representativa, estimular a democracia direta, abrir caminho para a democracia deliberativa, mas não pode substituir nenhuma delas, exceto para a supressão da democracia em si, pela substituição da relação mediada por atores envelhecidos (como os legislativos, sindicatos e sociedade civil) pela relação direta entre a massa e o ditador. Assim, ou a democracia (e os velhos atores) assume e direciona a democracia participativa ou ela própria, democracia, está em perigo.

Além dos partidos e políticos, perdeu também, em larga escala, o movimento sindical, muito bem organizado, mas hoje distante das bases, muito institucionalizado, incapaz de diálogo, instrumento de representação mais jurídica que política. E perderam os movimentos sociais, apenas parcialmente eficazes para dar voz amplamente a seus pleitos, algo aparentemente fácil para os novos militantes em rede.

A velha mídia, dos grandes grupos de comunicação e seus veículos, também perdeu, na forma e politicamente, apesar de terem ganho no conteúdo. Na forma, porque a comunicação verticalizada, de massa, de um para muitos, estava tomando tombos da comunicação horizontalizada, menos assimétrica das redes, há um bom tempo, mas nunca tinha sido secundada como está sendo agora. Viciados em fazer política rasteira, os veículos também estão sendo identificados como atores políticos corrompidos do velho modelo e combatidos. Não há imagens de emissoras de TV do meio dos movimentos. Os jornalistas estão sendo colocados para fora, atacados e hostilizados. E a imprensa ainda não entendeu bem o que acontece, não sabe bem como se posicionar, exceto pelos seus velhos esquemas. A velha mídia tenta direcionar os sentidos do movimento, insiste em julgar mais que interpretar ou explicar, é a mesma porcaria de sempre, só que confusa desta vez. Ainda golpista, mas não mais protagonista.

Derrotada na forma e politicamente, a mídia ganhou no conteúdo. De tanto criminalizar a política, ela está por fim criminalizada pelas ruas. De tanto criminalizar os movimentos sociais e sindicais, eles estão agora criminalizados nas ruas. De tanto alimentar a indignação, em manchetes normalmente sem conteúdo, produziu a indignação como valor em si. Não por acaso, quase todos os vlogs indignados, como Felipe Neto e descealetra, estão delirando com o movimento. Todos molecotes de classe média revoltados porque não têm toddynho. Estão longe demais dos principais problemas do Brasil.

O movimento é também a vitória de uma forma de organização da juventude: os coletivos, potencializados pela organização horizontal e sem líderes típica das redes. Neste campo, a velha política precisa de uma música fúnebre. Os coletivos existem e são efetivamente mais democráticos e ágeis. O Intervozes, coletivo de ex-alunos de comunicação, é um exemplo. Além de minimizar os líderes, se configura como um espaço de formulação política com grande capacidade. Há coletivos também no movimento estudantil, alguns sem partidos, como a LS (Luta Socialista) e o Quebrando Muros, outros próximos de partidos, como o Rompendo as Amarras. Parte deles recusa a política institucionalizada, como os anarquistas do Quebrando Muros; outros negam, no discurso, mas atuam fortemente para ganhar sindicatos, como a LS.

Em Curitiba, foram a LS e o Quebrando Muros que se colocaram na origem do movimento, canalizaram a indignação sem pauta específica e impuseram sua lógica de organização do movimento, vivendo um dia por dia. Na ocupação da reitoria da UFPR no ano passado, fizeram a mesma coisa. Primeiro, criam o movimento, sem passar por nenhuma instância deliberativa. Buscam canalizar a insatisfação, acender o rastilho de pólvora, estourar a boiada e depois vão formular pautas, muitas vezes apenas agregando demandas, mesmo contraditórias. A legitimidade é dada pela construção do movimento. A especificação das pautas vem num terceiro momento. Só aí, sabemos o que é o movimento que irrompeu.

Nos protestos de rua, o MPL entrou com uma pauta específica, mas a junção de múltiplos atores deu o mesmo caráter4 ao movimento nacional: estouro de boiada sem pauta específica. Primeiro, ganham as ruas, turbinados pelo aumento da tarifa, pela repressão policial imprevidente até demais da PM de Alckmin, pelo desejo de se manifestar, de não se deixar calar. Nisso, soma-se, posteriormente, a extrema direita, na mesma estratégia de promover o movimento, mesmo sem causa.

Tudo isso marca os protestos. Sem centro, como nas redes; horizontal, como os coletivos; sem pautas específicas ou até com pautas contraditórias (o motivo da ação depois da ação em si); sentimentais, como os movimentos de massa; fomentados pela mesma juventude desiludida que votou em Marina Silva.

A diversidade de pautas vai se afunilar em pautas específicas e, então, poderemos ver o verdadeiro caráter do movimento, mas isto ainda está em disputa. A direita percebeu rápido as possibilidades e tenta hegemonizar o processo desde o início. Se conseguir, as pautas em seguida serão genéricas, como o fim da corrupção, melhoria na saúde e na educação e redução de impostos. A esquerda, mais tardiamente, percebeu o jogo e se põe a jogá-lo. Tenta tirar o Anonymous, movimento de esquerda no mundo, mas de direita no Brasil, e movimentos como o Acorda, Brasil, de direita desde o princípio, do protagonismo do processo. Se conseguir, as pautas serão mais específicas, como a reforma política e os 10% do PIB para a Educação.

Porém, pautas genéricas são mais fáceis de assimilar. As pessoas lutam sem saber exatamente pelo que, guiados por líderes que, pelo contrário, sabem muito bem o que querem. Rumaremos para o golpe, neste caso. Ou então para a derrota, flagrante e violenta, da juventude instrumentalizada.

Os traços do movimento, muito diferentes da Campanha da Diretas e do Fora Collor, vão se materializando hoje na recusa antidemocrática a qualquer ator institucionalizado e vai dando uma cara autoritária ao movimento. Aqueles que estão na rua há muito mais tempo, militantes organizados em partidos ou movimentos sociais e sindicais, vão precisar arrombar a porta.

Os mais exaltados falam em revolução, como na França, que começou por causa do preço do pão. Comparação muito feliz, de fato, pois a massa convertida em turba anuncia o terror. E a restauração.

Diria que, neste momento, a bola está nos pés da extrema esquerda. Se ela reconhecer a esquerda retardatária como parceira, pode fazer avançar sua pauta. Se reconhecer a extrema direita, será engolida por ela. E a marcha poderá invocar a família, Deus e a liberdade.

A massa, bem, a massa nas ruas age, na sua maioria, honestamente, porque todos estão insatisfeitos com algo, porque a educação e a saúde pública são ruins mesmo, porque são jovens acostumados a dar opinião sobre tudo e querem falar, porque acreditam em movimentos sem segundas intenções, como este se mostra ser. A massa, ingênua ou atavicamente conservadora, não imagina as forças que disputam a sua condução.

O longo caminho de volta do diploma de jornalista

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Mendes

Gilmar Mendes, na presidência do Supremo, atribuiu a si mesmo a relatoria do processo sobre o diploma de jornalista. Foi o único que ele relatou como presidente. Click na imagem para ler um dossiê sobre este senhor.

A defesa da exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão nunca foi unanimidade entre os próprios jornalistas. Posições contrárias invocavam a democratização via comunicação popular, feita pelos próprios militantes de movimentos sociais como evidência de que o diploma não só era desnecessário, como também antidemocrático. Outras posições, de velhos militantes da imprensa, traziam a memória da forma como surgiu a regulamentação, em pleno regime militar, para ler a exigência, no presente, pela memória do passado. Alguns acusavam a baixa qualidade na formação superior, apontando interesses econômicos da “indústria do canudo” na causa. Alguns, pura e simplesmente, acreditavam na velha tese de que jornalismo é talento inato. Ou então simples demais para que se exija qualquer formação específica. Ou, até mesmo, questionavam se havia algum conhecimento específico ou alguma ética específica. Cada uma das posições expostas pode ser firmemente contraditada com argumentos muito sólidos, o que não cabe nem é necessário neste texto.

Não é necessário porque o voto de Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal mudou o rumo do debate. O ministro espinafrou a profissão e a reduziu a quase nada, copiando na íntegra quase todos os argumentos da Promotoria. Deixou claro o seu propósito e a quem beneficiava, numa ação em que a Fenaj atuava de um lado como assistente da defesa, e o Sindicato das Empresas de Radiodifusão de São Paulo atuava do outro, junto com a Promotoria. A discussão tomou outro rumo, dentro da categoria, inclusive. Quem não reviu sua posição silenciou, diante do que significava, de fato, a desregulamentação da profissão.

A redução feita por Gilmar Mendes do jornalismo, seguida depois pela grande maioria dos ministros, chegou a ponto de afirmar que não há nenhuma especificidade ética no jornalismo, nenhuma questão moral que não possa ser discernida pelo cidadão comum, sem formação alguma, assim como não havia nenhuma especificidade ética na arte de cozinhar. Fazer jornalismo e cozinhar arroz e feijão eram, do ponto de vista moral, da mesma complexidade. Por isso, não fazia sentido exigir nenhuma formação.

O Brasil tem, por hábito, regulamentar e estabelecer exigências para diversas atividades. Um exemplo: a lei 12.009/2009 regulamentou a profissão de mototaxista e motoboy e exige que o motoqueiro tenha sido “aprovado em curso especializado, nos termos da regulamentação do Contran” para exercer a atividade. E assim o é em outras profissões e cada vez mais a lei estabelece condições mínimas de formação para o exercício de diversas atividades. Até porque esta é a tendência. Concursos para gari exigem segundo grau completo. É justo e razoável.

Para ser jornalista, hoje, depois do voto de Gilmar Mendes, nenhuma formação é exigida e sequer ser alfabetizado, o que é absurdo numa profissão onde a escrita é central. O horror desta decisão foi entendido rapidamente. A contradição do voto do douto ministro não pode ter a concordância de nenhum profissional, pois é fruto do mais absurdo (e por isso inverossímil) desconhecimento do jornalismo. A tese central que derrubou o diploma era de que a exigência feria a liberdade de expressão, consagrada de forma cabal e clara na Constituição Federal. O jornalismo, para ser inconstitucional, era visto como o exercício da opinião diária nos jornais, coisa que ele não é há várias e várias décadas. Mais que isso, a exigência era tomada como um obstáculo à manifestação da opinião nos jornais, ainda que muitos sejam os colunistas sem formação em jornalismo, contra quem a profissão nunca se bateu. Pelo contrário, o contradito faz parte das obrigações profissionais de um jornalista. O espaço de opinião deve ser preferencialmente ocupado pelos cidadãos e nunca foi restrito aos jornalistas. Pouco importavam as evidências do que é a profissão hoje.

Tampouco importa que a regulamentação da profissão nunca foi relevante nos tempos em que fazer jornalismo era debater publicamente. Expor sua própria posição não exige nenhum compromisso com outro, apenas consigo mesmo. Só faz sentido regulamentar a profissão quando esta atividade se vincula fortemente ao dever de informar o público e de dar espaço ao contraditório na sociedade. Se isto não acontece de forma adequada, tal fato se deve muito menos aos profissionais, seja pela qualidade da sua formação seja pelos seus compromissos éticos, do que à atuação das empresas de comunicação, na sua grande maioria dispostas a atentar sempre que necessário contra a democracia e a sociedade, a favor dos seus interesses.

Estas mesmas empresas estavam do lado da desregulamentação para produzir, incrível!, mais democracia, pois os jornalistas e sua profissão eram obstáculos à livre manifestação do pensamento.

Tudo isso ficou muito claro no voto de Gilmar Mendes. Posições contrárias mudaram ou, simplesmente, calaram diante das evidências do ataque que a profissão estava sofrendo, sobretudo do ponto de vista ético. Ao poder escolher dentre todos os cidadãos quem seria jornalista, ao fragilizar a categoria nas redações com este instrumento, as empresas aumentavam nossa fragilidade moral, nossa capacidade, baixíssima ainda, de lutar contra estupros editoriais.

Reduzido o jornalismo às suas partes, ele se torna apenas um conjunto desconexo de habilidades. Esta visão sustenta o argumento de que basta uma formação mínima para ser jornalista. Fazer um lide conforme os manuais (das empresas) não esgotam todo conhecimento jornalístico. Os manuais são uma simplificação, para efeitos práticos, mas eles não encerram em si o que é o jornalismo. Toda profissão pode ser cindida em partes relativamente simples. Diagnosticar um resfriado não faz de ninguém médico. Escrever um lide não faz de ninguém jornalista. E nem um nem outro está isento de responsabilidades morais.

O jornalismo é um conjunto amplo de conhecimentos técnicos, de apuração e organização de informações e de linguagens, conformados por um feixe de valores éticos, coletivos, formulados historicamente. As questões éticas são específicas e quem não conhece a atividade sequer entende o que os jornalistas discutem. Identificar informações relevantes, saber apurá-las, dominar as diversas linguagens do jornalismo demanda anos de formação. E o compromisso moral do profissional não é pessoal, dele com sua consciência. É dele com sua categoria e, sobretudo, com a sociedade. Ponto.

O jornalismo é uma profissão, precária ainda em muitos aspectos. Mas é, de forma cada vez mais clara, uma profissão, cujo compromisso, em última instância, é com a liberdade de expressão e com o acesso à informação, princípios fundamentais da democracia. Como o compromisso da medicina e outras profissões da área de saúde é com a vida. Como o compromisso do direito, com todas as suas atividades distintas (advogado, juiz, promotor, defensor público, etc) é com o estado de direito.

Por tudo isso, a decisão do Supremo foi monstruosa, mas não produziu os efeitos que as empresas desejavam e que os jornalistas temiam. Os jornais, mesmo aqueles cujos proprietários tinham posição clara contra a regulamentação, não conseguiram contratar não-jornalistas, ao menos em Curitiba. As empresas tiveram que reconhecer que se forma jornalistas na faculdade de jornalismo e não nas redações. A formação no local de trabalho pode funcionar efetivamente, mas está ultrapassada. Foram os próprios empresários que inventaram espaços de formação fora das empresas e indústrias porque isto é mais barato. E profissionais, por mais básicas que sejam suas atividades, demandam formação. Está aí o Senac como prova, dentro do poderoso sistema “S”. Empresários espertos delegam a formação dos seus trabalhadores para instituições externas às suas empresas; empresários burros do setor de comunicação querem retomar a formação nas redações.

Por birra, por uma posição ideologizada ao extremo, empresas de comunicação colocaram lenha nesta causa (assim como, de forma ideologizada, apoiaram a declaração de ilegalidade de toda a lei de imprensa, para depois começar reavaliar). São crianças brincando com seu poder extremo de lançar luzes ou trevas em discussões públicas. Agora, percebem que o que fizeram remonta ao modelo pré-revolução industrial, remonta às corporações de ofício medievais. Colocar pessoas sem formação nas redações para aprender com os mestres da arte do jornalismo é antigo. E caro.

Tomar a formação em jornalismo como um empecilho, não como uma exigência mínima, que não retira das empresas o poder de contratar quem queiram, não é racional. É colocar seus preconceitos à frente dos seus interesses empresariais. Empresários modernos não se importariam em contratar pessoas formadas em áreas de conhecimento específico, administração, economia, engenharia, não tomariam os cursos superiores, por piores que fossem, como um estorvo. Fariam as críticas aos cursos para melhorá-los ou adaptá-los às suas necessidades de formação, mas não para argumentar contra a sua necessidade em si. Apenas amadores querem contratar amadores. Apenas empresários antiquados querem formar sua mão de obra integralmente no âmbito das suas empresas.

Além disso, as grandes empresas devem preservar seu padrão de qualidade e, por isso, precisam contratar pessoas com um mínimo de formação. Já empresas picaretas não têm tanto compromisso e vão tentar competir com as grandes com custos operacionais menores. Mesmo do ponto de vista empresarial, a desregulamentação é ruim para as empresas. Para a sociedade, nem se fala.

Este caminho bizarro, incentivado pelos empresários de comunicação, promovido pelo Ministério Público e endossado pelo Supremo, começa a ser desfeito com a votação em segundo turno no Senado da PEC do Diploma, por 60 votos a favor e 4 contra. Poucos argumentos contra tal exigência sobraram. No dia em que o Brasil optar por um modelo jurídico com poucas regulamentações pelo Estado e mais autorregulamentações de profissões ou do mercado, talvez aí a discussão da desregulamentação do jornalismo faça algum sentido. Desregulamentar para autorregulamentar.

É possível, em outro contexto, discutir até mesmo outras formas de acesso à profissão, como através da pós-graduação, mas não neste momento, em que a categoria está com a espada no pescoço.

Por enquanto, manter a profissão desregulamentada é colocar a cabeça no buraco feito avestruz e não ver o que se tornou o jornalismo hoje. É não ver seu compromisso e sua relevância para a democracia.

 

Mário Messagi Júnior é jornalista. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas do Paraná e atua como professor na UFPR. É doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos.

Esquecer Adorno

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adornoEu seria mais feliz se pudesse esquecer Theodor Adorno, o contundente crítico frankfurtiano da indústria cultural. A morte da arte, vitimada em última instância pelo desejo de lucro que paira sobre qualquer produção estética nos nossos dias, perventendo a rudeza popular ou a sofisticação da estética de elite, deveria ser, ela sim, uma afirmação morta.

Às vezes, há sinais alentadores de que é possível esquecer Adorno. A sociedade dos públicos, segmentada, parece a contraprova da sociedade de massa, da cultura de massa, da democracia de massa, horrores, no limite, do Estado que gerencia as massas, dando-lhe o conforto de acreditar que escolhe seus rumos.

A segmentação, a organização de grupos em rede, parecem colocar a indústria e o controle das massas em xeque. Parecem, é verdade, colocar o sujeito no seu papel de direito, protagonista, como Adorno nunca o conceberia. Nunca rei; sempre objeto da maquinaria.

A resistência da classe verdadeiramente artística, não daquela que se vende, daquela que vê na arte um caminho não um fim em si mesmo, seria um alento. Artistas de verdade seriam capazez de produzir novidade estética dentro da indústria, de contestar por dentro, seriam pontos de fuga, possibilidade de futuro menos perverso que este. Bob Dylan, filho da indústria, é um caso; artistas independentes, outro.

Artistas com renome, como Chico Buarque, podem exercer uma maior liberdade estética. Outros trilham o caminho do sucesso comercial para reivindicar, depois, o controle do seu próprio trabalho. Daniel parece reivindicar o papel de artista, depois de ter sido produto escrachado da indústria. Sandy tentando fazer música reflexiva parece nos dizer: “cresci, sou dona do meu nariz e da minha arte”. Outros recusam o mainstream, desde o início, como Teatro Mágico. Sinais de que a arte pode resistir ou de que a classe artística tem clareza das coerções que operam sobre ela e que tenta reagir, nem sempre com sucesso. São alentos, sem dúvida, mesmo que nada disso garanta qualidade e autonomia estética.

Além disso, a indústria cultural vocalizou vários movimentos sociais, como a juventude ascendente do pós-guerra, espelhada em produtos claramente industriais, como Elvis Presley e James Jean. Levou caldo para o movimento contestório, para a contracultura.

Mas o pessimismo de Adorno, no limite do desespero ou da desesperança, não permite sorrir otimista sem avaliar efetivamente as potencialidades da nossa sociedade. Nenhum sonho de um mundo distinto será construído sobre uma visão sonhadora das condições reais de existência. Sonhar, sem tirar os pés do chão. Manter o espírito crítico é uma das maiores lições de Frankfurt.

A segmentação em rede não prova nada, exceto que seu efeito de autonomia (falsa de qualquer forma) é eficaz. Os grandes conglomerados definem nossas formas de interação. Se atacamos o capitalismo, o fazemos com as armas que o capitalismo permite. Deixamo-nos conformar pelo aparelho, que nos limita, como ensina Flusser.

Nenhum dos instrumentos criados pela tecnologia (e portanto pela razão) aponta para qualquer perspectivas de questionamento que não esteja delimitada pela sociedade de massa. Investiram, como era de se esperar, contra a lógica de sociedade fechadas, dogmáticas, como na primavera árabe, como um elemento externo, oriundo de outro modelo de Estado. Assim, conformam o diferente do capitalismo ao capitalismo e sua forma particular de liberdade.

E os movimentos sociais construídos em rede não parecem nada além da expressão da lógica do aparelho. Manifestações organizadas pelo Facebook, flash mobs ou petições on line estão nos limites das ferramentas on line, não configuradas para a ação política em si, mas para a organização identitária de grupos. Festas, brigas de torcidas ou manifestações esvaziadas de sentido como dia sem calças mostram que a rede estimula práticas sociais de grupo de todas as naturezas. Se algumas são políticas, isto pode ser visto tanto como a vitória quanto como a submissão da política ao aparelho.

Além disso, a indústria explora mas também atira contra o processo de fragmentação em curso. A distinção cultural é, no limite, um empecilho. Seremos iguais e pacíficos, uma distopia cultural. Agredimos o que difere de nós, o que desconhecemos, atacamos o que não entendemos. Homogêneos culturalmente, em escala mundial, tal desapropriação das identidades locais traria, por consequência, a pacificação dos conflitos entre culturas e sociedade distintas. Quando, por fim, o oriente se ocidentalizar, nossas divergências e guerras serão passado. Horror cultural, promessa de paz pela indistinção. Sacrifiquemo-nos pelo bem maior. Já fazemos isso. Abrimos mão de boa parte da liberdade individual em troca do conforto que a sociedade nos oferece.

Morta a distinção cultural, útil apenas no limite da sua exploração comercial, o que a sociedade de massa potencializou foi a distinção econômica, esta sim valiosa para o sistema. Esta sim, produtora da violência interna de um país ocidental, já que as diferenças culturais estão pacificadas, controladas e exploradas economicamente pelo sistema. Meninos de periferia roubam para poder não se distinguir economicamente. A pirataria de marcas expressa o desejo de possuir o que apenas os mais abastados podem possuir.

Os artistas que lutam por autonomia, já o demonstrou Adorno, apenas dão à indústria este ar de preservação da individualidade, da autonomia, efeito tão falso quanto útil. A lógica é mercantil em qualquer esfera. Chicos e seus públicos; Janis e os comerciais de cigarro. Nada aponta outro caminho senão este. Lutamos por uma indústria menos perversa, mas não contra ela.

E a contracultura, bem… deu no yuppies; as drogas viraram uma praga não libertadora, expressão do dinheiro e da violência; a revolução sexual enfrentou a contrarrevolução ou degenerou num machismo sexista brutal; e o rock foi desalojado de qualquer perigo para embalar a geração contrarrevolucionária, frequentadora pacífica dos shoppings centers, templos de nossa era.

Tenham calma. Abram os ouvidos. Nada os estranhará na próxima onda musical. Ela virá como algo novo e fácil de compreender e consumir, algo que te faz contemporâneo em todos os sentidos, contra os caretas que resistem, modernos da velha cepa. Eles também, vítimas de um saudosismo passadista. O sertanejo-forró vai passar. Vai dar sinais de esgotamento, mas a próxima porta vai se abrir.

E Adorno, mais uma vez, fará sentido. Mais uma vez, ele baterá, sisudo, às nossas portas, lembrando que não podemos esquecê-lo, como não podemos esquecer os horrores do fascismo e do stalinismo.

Então que a indústria venha. Estaremos de pé, espírito crítico, prontos para sermos derrotados de novo.

Jornalismo menor: como reduzir uma profissão até torná-la desnecessária

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Máquina escrever fotoUma das maiores dificuldades na defesa da regulamentação da profissão de jornalista tem sido a resistência de segmentos da própria categoria. Normalmente, são segmentos minoritários, mas, ao se posicionarem publicamente, transmitem a ideia de uma categoria dividida sobre o tema. Para piorar, muitos jornalistas com maior visibilidade, seja pela carreira longa seja pela posição de chefia que ocupam, fazem parte deste segmento.

Estes jornalistas levantam uma série de argumentos, difíceis de sintetizar, mas é possível enxergar os eixos mais reincidentes

Normalmente, contra a regulamentação baseada em uma formação específica, opõem uma série de reducionismos. Os principais são:

  1. Redução do todo às partes: há muitas atividades desempenhadas por um jornalista, como redação, pauta, edição, fotografia, assessoria. Isso é comum em outras profissões, como a dos médicos (ortopedistas, cirurgiões, anestesistas, dermatologistas) ou dos advogados (criminalista, juiz, promotor, delegado). Não é difícil, em nenhuma destas profissões, dominar partes do conhecimento. No jornalismo, é possível que alguém aprenda a redigir um texto com lide em pouco tempo. Isso serve como argumento para dizer que quem sabe fazer isso é jornalista. O argumento não convenceria nenhum médico ou advogado diante de um sujeito capaz de diagnosticar alguns problemas de pele ou de fazer uma petição na Justiça do Trabalho. Entre os médicos e advogados, a competência parcial não faz um profissional; faz um charlatão. Entre os jornalistas, há quem defenda que a parte é o todo. Aplicada a mesma lógica à medicina, um charlatão bem sucedido junto ao público fazendo diagnósticos de problemas de pele seria um médico em pleno direito de exercer a medicina.

  2. Redução das práticas profissionais a técnicas: o processo de tecnificação do texto, a partir de 1951, no Diário Carioca, e de 1956, no Jornal do Brasil, afastou o jornalismo da literatura e vulgarizou procedimentos do jornalismo estadounidense. A isto, como consequência, sobreveio uma noção de que o texto, tecnificado, é resultado de pura técnica. No entanto, a noção de técnica não explica
  3. , no todo, as práticas jornalísticas. Por esta concepção, o jornalismo deveria ser pensado em termos de eficácia, produtividade e padronização na obtenção e tratamento de informações. Não se trata disso. Checar informações, por exemplo, não é apenas um procedimento técnico, mas uma prática profissional eivada de valores jornalísticos e deveres éticos. Ou seja, a checagem não é apenas um procedimento de obtenção de produtividade. É, antes, um dever profissional, respaldado por uma categoria. Dever ético em duas pontas: a da fonte e a do leitor. Assim, o procedimento não pode ser substituído, pelas empresas, por outro que seja mais eficiente. A prática, não sendo técnica, não pertence à empresa, mas aos jornalistas e ao seu universo de valores. O texto não pode resultar de um mero preenchimento de lacunas, por mais que a cultura e manuais tenha contribuído, e muito, para esta noção.

  4. Redução das competências profissionais ao talento para a escrita e à propensão à leitura: velhas práticas assombram o jornalismo. Se, no final do século XIX até boa parte do XX, jornalismo e literatura caminhavam juntos, sendo homem de imprensa e literato funções intercambiáveis, isto já não é mais válido. Não basta mais saber escrever e ser erudito para ser jornalista. Isto tanto se deve à complexidade que os instrumentos utilizados pelos jornalistas adquiriram, quanto à própria complexidade social e ética e hegemonia que os mídias ganharam no nosso tempo.

  5. Redução do jornalismo como deve ser ao jornalismo como ele é: esta redução é das mais falaciosas. Se nas três anteriores é possível antever uma discussão sobre o que é jornalismo, nesta há apenas um raciocínio falso. A profissão deveria ser algo acessível a qualquer sujeito, com formação ou não, por que qualquer um faz jornalismo com a qualidade que ele é feito hoje. Apliquemos a lógica a outra área para demonstrar seu absurdo. Se os engenheiros, reiteradamente, construíssem casas e prédios que desabassem, por esta lógica construir casas que desabam seria função típica de um engenheiro. Absurdo. Quando se trata do jornalismo, vale. Quem defende isso? Qualquer um que diga que não precisamos de diplomas para exercer o jornalismo por que a qualidade do ensino é muito baixa. Então, se os jornalistas estão sendo mal formados, para que faculdade? Ser mal formado é tornado, portanto, inerente ao jornalismo. A melhoria da qualidade de formação é descartada. Corta-se a cabeça por causa de uma enxaqueca.

  6. Redução do jornalismo à opinião: está também é falaciosa, mas fundamenta a liminar concedida pela juíza Carla Rister e o voto do ministro Gilmar Mendes, no STF. O jornalismo, há muito tempo, não é o exercício diário da opinião. Aliás, emitir opinião não é função

    jornalística. É verdade que alguns jornalistas têm o status de supercidadãos, pelo direito de opinarem, muitas vezes sobre tudo. No entanto, supers ou não, opinam na condição de cidadãos, a quem cabe o direito legítimo de opinar. Jornalista faz análise, explica, busca informações para elucidar algum acontecimento. Quando opina, já não exerce mais função jornalística, o que não significa que não possa opinar. Função jornalística é editar opinião, buscando pessoas respaldadas para falar ou representantes de correntes importantes de pensamentos. Nisto, exerce a função mais importante do jornalismo depois de informar: viabiliza o pluralismo liberal de opiniões.

Se não for reduzido, o jornalismo é, necessariamente, atividade sustentada em formação teórica e ética e exige competências profissionais sólidas. No mundo, esta tendência é evidente, em vários formatos, na maioria deles sem a exigência legal de diploma, é verdade. Onde existe jo

rnalismo, no entanto, é preciso jornalista. O problema é que no Brasil os jornais produzem jornalismo de vez em quando, para justificar o resto do tempo em que estão disputando o poder e suas benesses. Com tão pouco jornalismo ou com tantos simulacros de jornalismo, são necessários poucos jornalistas ou apenas simulacros de jornalistas. Um simulacro de jornalista é alguém sem formação na área e nenhum comprometimento com a profissão que se arroga como jornalista, como Diego Mainardi, ou um jornalista de verdade, cooptado ou coagido pelas empresas.

Neste cenário, a regulamentação da nossa profissão, mesmo que muito precária até hoje, é um empecilho, tanto em um caso quanto em outro. No fundo, é isso que está em disputa: o controle moral do jornalismo no Brasil. Quanto menos força e reconhecimento profissional temos para definir o que é jornalismo, mais força as empresas têm.

E se o Estado não fosse laico, pastor Feliciano

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Se o Estado brasileiro não fosse laico, ele seria, provavelmente, católico, pastor Feliciano. E como acontece em estados religiosos de hoje ou do passado, ele cometeria os arbítrios de sempre, como subordinar o poder político à igreja oficial, subordinar o direito à religião e, o pior para você pastor, tomaria as outras religiões como toleradas ou criminosas.

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Quadro de François Dubois, representando a Noite de São Bartolomeu, massacre de, no mínimo, 2 mil protestantes pelos reis católicos franceses.

Como qualquer Estado religioso, questões de fé seriam motivo para as ações do Estado, muitas vezes violentas, como aconteceu no massacre da noite de São Bartolomeu (click na imagem ao lado ler sobre), nas cruzadas ou na condenação à morte na fogueira de Giordano Bruno. A violência por razões de fé ainda acontece hoje no oriente médio, onde perduram estados religiosos.

Seriam, então, os evangélicos e suas igrejas as vítimas maiores da violência religiosa de Estado no Brasil, pois são, sem dúvida, o maior perigo para fé católica. No limite, seriam considerados criminosos, por praticarem religiões contrárias à religião do Estado. Os católicos fundamentalistas não aceitariam tal diversidade de pensamento. Deus é um só; só poderia haver uma religião e uma leitura da bíblia.

Aqueles que defendessem que a escolha da religião é uma opção individual, não uma questão de Estado, seriam atacados como libertinos religiosos e pecadores. Toda violência contra evangélicos estaria legitimada, aceita. Pregações nas praças e ruas seriam consideradas vergonhosas, ofensivas à fé cristã.

Mas a força política das novas igrejas poderia melhorar as coisas e tornar as novas interpretações do texto sagrado toleráveis. Apenas toleráveis, mas ainda não um direito garantido pelo Estado.

Curiosamente, as igrejas evangélicas estariam hoje lutando por direitos civis, pelo direito à diferença, pela mudança, sim, da lei para que o Estado fosse laico. A laicidade é a garantia de que toda religião neste país é livre, que todos podem escolher o credo que bem entenderem e que ninguém sofrerá violência por isso. Pelo contrário, se sofrerem violência por razões religiosas terão proteção do Estado. No Estado laico, as igrejas podem livremente pregar seus credos. Foi isso que permitiu o crescimento das denominações evangélicas.

Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros e transexuais não querem pregar seu credo. Querem menos liberdade que as igrejas. Não querem o direito a celebrações ruidosas, como os cultos de certas denominações. Querem ter os mesmos direitos dos heterossexuais, sem ter que defender a normalidade, a justeza ou a legalidade da sua vida. Assim como iriam querer os evangélicos se fossem acusados o tempo todo de praticar uma religião anormal, ilícita, uma interpretação equivocada da bíblia.

Não entendo porque entre os evangélicos prospera tanto preconceito, tanto ódio e tanta intolerância. Vocês não precisam justificar sua fé. A comunidade LGBTT também não quer ter que justificar sua orientação sexual. Não quer sofrer violência, nem do Estado nem sob a proteção dele. Querem o que os evangélicos já têm: proteção do Estado e direitos civis.

Evangélicos vêm me questionar por que defendo os homossexuais. Defendo o direito dos homossexuais de serem homossexuais, tanto quanto defendo o direito dos evangélicos de serem evangélicos. Entender, concordar, achar certo ou errado não vem ao caso nos dois casos.

Pastor Feliciano, você representa o século XVII. O senhor talvez não goste, mas vivemos numa república. A república garante seus direitos religiosos e não te persegue mesmo quando você abusa deles e atenta contra a laicidade do Estado.

Imagine se o senhor vence e, por fim, voltamos para antes da Revolução Francesa e a lei de uma república se subordina, mais uma vez, à religião. À sua religião, é claro. Serão os homossexuais hoje que pagarão. Depois, os católicos. Depois, as outras denominações que não compartilhem a sua interpretação da bíblia. E será o horror religioso.

Os direitos dos homossexuais não são discutíveis, mas o seu de tentar perverter a laicidade do Estado é. O Estado não pode ser católico, nem evangélico, nem budista, nem judeu, nem umbandista, nem de religião alguma. Também não pode ser heterossexual.

Quero tanto um Estado laico quanto quero um estado sem orientação sexual. Quero garantias para a diversidade religiosa e sexual. Não venha julgar, em terra, pastor, como se fosse o Deus encarnado. Pecas contra os mandamentos que dizem que não deves julgar. Deus julgará a todos no juízo final, não é? Só a ele cabe julgar, não é?

Pastor Feliciano, você não é Deus. Não usurpe os poderes divinos. Pense o que quiser e aplique à sua vida. Creia na bíblia, que é seu ofício, e espere o julgamento de Deus. Tente “salvar as almas” dos homossexuais, se você julga isso sua missão, mas saia da política. Este não é teu campo. Neste caminho, só há a barbárie e a violência sob seus passos.

De resto, conte comigo: continuarei defendendo seu direito de professar livremente sua religião. Mas nunca defenderei seu direito de lutar por um estado religioso ou qualquer coisa que lembre isso, como leis feitas sob a sua interpretação da bíblia. Aliás, sob nenhuma interpretação da bíblia.

Noite translúcida

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Cabelos negros,

luz sem cor,

noite translúcida,

cansaço após furor.

Perfume de sândalo,

calor e orquídeas,

sua boca úmida,

bromélia carnívora.

Lasciva Cleópatra,

rainha do Nilo,

te sonhei flor,

me sonhei pistilo.

Sonhei travesseiro branco,

teu perfil,

tuas melenas.

Thea, tua beleza é obscena.

Na noite translúcida,

vaga, diáfana:

corpo trêmulo,

mão errante.

Um relâmpago,

um instante,

afeto depois,

fúria durante.

Mormaço, e você bacante

desfalece, então delirante,

me arranha e dorme,

me poupa e me consome.

Sei, porém, doravante,

na noite translúcida

nada é certo,

nada é constante

E antes, bem antes,

antes de ser tragado por ti,

antes que te tornes gigante,

renego a noite translúcida,

renego porque a quero,

ainda que fosse a última.

P.S.: o nome completo da mais famosa rainha do Egito era Cleópatra Thea Filopator.

Critérios para ampliar a diversidade

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No texto anterior (O poder corruptor da verba publicitária) defendi a adoção de mídia técnica para destinar as verbas publicitárias aos veículos de comunicação como dever moral do Estado, incluindo aí a Prefeitura de Curitiba.

Isto vale para os grandes veículos comerciais, que têm obrigação de fornecer para o Estado informações confiáveis (como o do IVC – Instituto Verificador de Circulação – ou de outros institutos de mensuração de audiência). Mas é claro que tal exigência não se aplica aos pequenos meios de comunicação, como TV e rádios comunitárias ou universitárias, jornais de bairro, sites e portais menores, jornais alternativos , rádioweb,  e mesmo pequenas rádios comerciais.

Estes veículos muitas vezes não têm sequer como comprovar suas tiragens, quantidade de acesso ou audiência. No entanto, são importantes pois promovem a diversidade de opiniões, de pontos de vista e de projetos editoriais. Devem ser apoiados para que sobrevivam e cresçam, pois a democracia é feita de diversidade.

Na impossibilidade de se adotar critérios técnicos e na inadequação de se basear exclusivamente neles para estimular a pluralidade, pequenos veículos devem receber verba publicitária não apenas para realizar a transparência das ações da Prefeitura, mas, também, para promover a democracia.

Isto pode ser feito, inicialmente, com a alocação de um valor fixo, conforme o veículo, por um período determinado, sobretudo para novos projetos. Também é possível adotar critérios que privilegiem a relevância temática, dando maior ênfase a veículos que estejam ligados, por exemplo, a movimentos de defesa de direitos do cidadão. Um site sobre juventude, por exemplo, pode começar pequena, mas seu papel no amplo espectro dos interesses da sociedade é inegável.

O Governo Federal já faz isso com rádios do interior, importantes, mas longe da magnitude dos grandes veículos. A desconcentração do aporte de recursos publicitários normalmente não agrada os grandes veículos, mas promove a democracia. Se veículos como Veja não deixaram de receber dos governos Lula e Dilma parte da verba publicitária, mesmo quando agiram de forma golpista como panfletos políticos do conservadorismo, por outro lado recebem menos hoje do que proporcionalmente nos governos do PSDB. E, claro, não gostam disso. Preferem ter relações privilegiadas e corrompidas com o governo, mesmo que isso implique perda de autonomia editorial. Ao defender seus próprios interesses contra interesses mais amplos da sociedade, atacam a democracia. Nem perseguir, nem privilegiar veículos pela sua postura editorial é dever do Estado.

Por isso, o poder público deve resistir, não ceder as pressões, deixar claro a vantagem, mesmo para os grandes veículos comerciais, de preservar sua autonomia editorial. No caso da Prefeitura, ela deve adotar políticas de estimulo à democracia e elaborar critérios de dispersão da verba publicitária, mesmo que contra os interesses antidemocráticos de veículos que posam de paladinos da sociedade.

Nosso conceito de democracia é mais amplo do quer a mera preservação das liberdades de alguns contra a liberdade de todos. Este princípio é inegociável. Defendê-lo dá trabalho, mas separa os estadistas democratas dos parasitas dos recursos públicas, sejam jornais, sejam governantes.

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