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Meu pedaço de impossível

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A Via Láctea, imensa e impossível (por enquanto).

A Via Láctea, imensa e impossível (por enquanto).

Nos mundos em que vivemos, nossos caminhos nunca deveriam se cruzar, nossas vidas não deveriam estar paralelas jamais. Meu mundo; teu mundo: impermeáveis. Olhar-te-ia, pela redoma de vidro que me cerca, cada um dentro do seu próprio cristal. A luz refrata como num prisma e te vejo diferente do que és, disforme, às vezes, cheia de cores, ilusão de arco-íris.

Desejo-te e cruzo a fronteira, proibida, dos nossos mundos e te vejo, como és. Meu sonho anterior se desfaz, mas outro começa. Sua imagem cheia de cores ganha contorno e matizes mais precisos. Então sonho-te, diferente. Minha mente explode desejos, viagens, delírios de prazer e risos. E voltar para casa fica mais triste. Melhor seria nem ter cruzado a fronteira talvez.

Você é meu pedaço de impossível, vida que não posso viver, exceto quando fujo do meu mundo e faço, por um momento, meus dias cruzarem os teus. Você e eu somos vítimas das castas, das expectativas sociais, da cautela e das conveniências. Tantos nos estranhariam juntos que nos estranhamos também.

Nada muda o meu desejo, no entanto. Porque és cor, imagem diáfana, divina beleza, tudo aquilo que não posso tocar, luz e calor, mas toco. O que sou, já sei bem. Vivo minha vida todos os dias. Por isso, estou sempre olhando mundos com minha luneta, estou sempre fitando o impossível.

Tu és, nesta noite, a estrela mais linda.

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Sob penumbra

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Um sopro leve me gela o ombro. As asas do anjo, imensas, o entregam. Ele se esgueira na escuridão, poderoso, imenso, mas silencioso, quieto, calmo, quase imóvel mesmo diante das minhas cenas de desespero, que ele nutre, por vaidade.

Uma leve chama bruxuleia. Quase imperceptível, mas eu a sinto. Quando me viro, o movimento já parou. Pela minha coluna, passa sua energia, que me arrepia, ou o vazio de tudo que drena minhas forças.

O anjo só se deixa ver quando está perto, quando suas asas já nos adornam, quando sua túnica já nos berça, tão escura quando a noite, que parece nem existir. Não vejo sua face escura. É uma imagem de foto em contraluz. Eu sei que ele esta ali, vejo seu vulto, mas não distingo os traços do seu rosto.

Se sua presença é inconfundível para mim é porque ele frequenta meu quarto e minha alma há algum tempo e aprendi identificar seus sinais e me preparar para a sua chegada. Não que isso diminua a dor, mas aprendi a conviver com ela e estar lívido, adormecido o máximo que eu puder, mantendo sob controle meus atos extremos.

Ele veio; ele virá de novo. E sempre e sempre enquanto as portas estiveram abertas. Minha vida é uma casa sem trancas. Sempre será.  Não consigo evitar seus passos no escuro, ser noturno que nunca quer ser visto. Já admiro a beleza da sua forma, a calma que antecede as chuvas torrenciais. Ele é belo, imóvel, acho que ri quando choro. Ele deve estar feliz agora.

Eu vejo seus sinais como a fumaça que denuncia o fogo extinto recentemente. Primeiro, a melancolia, o desprazer em tudo, uma sensação de permanente tristeza contra furtivos intervalos de alegria. Depois a sensação de nada que invade o quarto, a sala, a cozinha, o banheiro, debaixo do meu cobertor e por dentro da minha carne. Por fim, o tempo que se dilata, vazio de todas as coisas, e as energias que se dissipam. E eu espero, vendo as horas me corroerem, sem nenhuma reação.

Datas, prazos, projetos, tudo se acumula no futuro assustador quando terei que enfrentar as consequências dos meus atos, quando o amor que sinto por ele não servir mais de justificativa. Sentirei de novo o desejo de isolamento e de fuga, mesmo sem saber do que ou para onde.

E vou desejar, rezar, orar, tomar drogas, falar, pedir ajuda espiritual, qualquer coisa para conjurar sua presença. Pois me vejo muito nu quando ele está aqui, vejo minha própria face sombria e não gosto.

Mas tu, anjo, não vais embora. E escrevo textos para ti, como um gesto de amor e de ódio, para que partas ou para que fiques. Mas respeite meu silêncio, meu jeito de sofrer por dentro, minha angústia sem mover nenhum músculo do rosto.

Apenas calma e tristeza, pois és tão presente em meus dias que talvez eu já não consiga me imaginar sem você, meu anjo obscuro. Me proteja, então, da vida.

Os ausentes

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A casa se enfeitou. Velha e rústica, carregava passado demais, mas parecia jovem. Os perfumes vinham da rua e da cozinha, do quintal, florido de primavera, e do prato favorito do meu vô: um cozido de carnes, com legumes, preparado abundantemente. Ele enchia o prato uma única vez e comia tudo.

Aquele dia misturava os aromas da cozinha com o ar fresco da manhã entrando pela janela, aquela primeira lufada de vento que invade a casa logo ao acordar. Minha mãe arrumara tudo, como lhe cabia. Primeira filha mulher, a ela restara cuidar-lhe. E foi só por isso, pelo imenso amor de filha e por saudades que ela venceu a tristeza daquele dia e acordou cedo, chacoalhou os meninos, filhos e sobrinhos, arrumou as roupas de cada um, os fez tomar banho, os vestiu e alinhou cada roupinha. Esbravejou com os mais velhos, preguiçosos, para que levantassem da cama. Então, arrumou cada lençol, um a um, abriu as janelas, desfez a desordem da manhã depois da noite em família.

Meu vô já estava acordado, como sempre, como todas as manhãs, como homem trabalhador que era, mesmo com músculos envelhecidos e cansados, com poucas das forças de homem rural, como gostava de ser tratado. Meu vô levantou e foi andar pelo quintal, alimentando as galinhas e os porcos. Olhava, com o olhar de nunca mais, um a um dos descendentes da sua prole, vasta prole, de imigrante, como gostava de ser tratado.

Homem de poucas palavras, meu vô era adepto do silêncio. Não falava muito, nem sofria abertamente. Era imigrante rural, dado a rudezas. A casa era simples, de madeira e alvenaria. Tudo feito com muito custo. Quase tudo pelas suas mãos laboriosas, que trabalharam dia a dia, sem reclamar, sem murmúrio, sem incertezas, uma vida inteira.

Aquela casa imensa e rústica só tinha um uso: ser grande suficiente, para comportar sua maior obra. A família chegava. Cada um, conforme as oportunidades da vida, tinha feito outro lar, criado filhos e até netos, como eu. Cada um, conforme as oportunidades e os parcos recursos permitiram, tinha galgado alguma posição social. Meu tio virou caminhoneiro. Muitos primos eram pequenos burocratas, em bancos ou escritórios. Quase metade dos netos fez curso superior. Meu vô se orgulhava de tudo isso. A casa grande era o símbolo da família. Com as partidas, tinha ficado grande demais e vazia. Mas não naquele dia.

Minha mãe saiu rápida:

– Pai…

Meu vô escuta pouco.

– PAI…

Ele virou, lento, com o olhar miúdo e vago que lhe acometeu desde a morte da segunda esposa.

– Pai, vem para dentro. O Júnior está chegando.

Meu vô não disse nada. Caminhou até a varanda e, sem pressa, cumprimentou o filho mais jovem, abraçou, rindo largo, os netos e a nora. Então sentou numa velha cadeira de recosto longo e, mais uma vez silencioso, se pôs a olhar feliz o vago horizonte.

Assim foram chegando os demais, os que não tinham dormido na casa. Barulhentos, netos e bisnetos em grupos faziam fila para beijar o vô. Depois corriam para dentro, para o barulho da família grande e dos primos. Seis filhos, treze netos, noras e genros e a pequena bisnetinha. Os olhos do meu vô sorriam, marejados de lágrimas de alegria de vê-los todos ali. Era a despedida que queria e, mesmo ausente, ele estava feliz.

Diferente dos anos em que a família vestiu luto com a morte lenta e inexorável da minha vó. Naqueles dias, meu vô, como sempre, falava pouco e chorava menos ainda, escondendo a dor dentro de si. Depois, passou a chorar lágrimas solitárias, brevemente, todos os dias, como se tivesse se habituado à dor crônica do câncer. Por isso, tinha um brilho diferente nos olhos. Era um brilho escuro. A morte veio tão lenta que quando chegou, apenas perguntei:

– Por que demorastes?

Minha vó partira depois de longo definhar perante o câncer. Achava que os velhos sorriam, fechavam os olhos e morriam. Não entendia aquela dor toda da minha vó. Nem meu vó.

A morte da tia Ana foi diferente. Ela partiu jovem, sem que pudéssemos dizer adeus. O acidente, trágico, deixou três mortes. Ela desfigurada no caixão, e eu só pensava se ela podia me ouvir, se sussurros chegariam ao céu, dizendo:

– Eu te amo.

Ela foi sem saber o tanto de amor que carregava no coração por ela. Eu me penitenciei por anos, por ser um falso, um mentiroso incapaz de confessar o amor que sentia por alguém, mesmo amor fraterno, amor de família, amor e admiração pela tia mais jovem. O vô se desesperou. Foi a única vez que o vi chorar, copiosamente.

O Guiga, porém, foi de todas as partidas a mais revoltante, esfaqueado em casa, por um estranho que nunca soubemos quem foi. Meu vô retorceu os músculos do rosto com a máscara da revolta. Não derramou lágrima, mas se envenenou com ódio. A sensação de injustiça e de impotência pairou na família por sombrios dias e dias e dias. Infindáveis dias, meses e anos.

Todos sentíamos estas ausências, exceto os mais jovens que não viram os que se perderam de nós. Porém, o dia era de festa, mesmo que tivesse o gosto estranho da despedida. Meu vô andava ausente, pensando no outro mundo. Sofremos, ele sobretudo, cada partida de modos diferentes. De forma letárgica, constante, lenta, na morte da minha vô, definhando dia a dia. Pelo trauma de uma morte inesperada e violenta, cuja culpada era a tia que eu amava. Pelo inconformismo com a morte do meu primo, cujas razões nunca soubemos. Ele carregou seus segredos, pronunciáveis e impronunciáveis, com ele. Os três partiram no intervalo trágico de dois anos.

A quarta ausência era a do meu vô. Era ausência diferente. Ele estava ali, mas todos já o sentiam como não. E, elo familiar, depois da morte dele, sabíamos que nunca mais a família se reuniria, exceto nos funerais, sem prazer, sem gosto, por obrigação, os jovens; por tristeza, os mais velhos.

Assim, era triste dizer adeus para ele. O vô nos olhava como se não tivesse certeza de que voltaria a nos ver. Via seus olhinhos marejados, iguais apenas à tristeza crônica da morte da minha vó. Cada despedida soava definitiva. A surdez piorava nossos abraços partidos:

  • Tchau, vô. Já tô indo.

E brilhavam os olhos míopes de quase 90 anos, marejados de lágrimas. Eram como pérolas reluzentes quando ele se despedia dos netos, entre eles eu. Como ele ouvia pouco, nas despedidas, isso doía. Doía porque a gente queria falar baixinho nestas horas tristes e não gritar a tristeza. Queria dizer baixinho, vô, no seu ouvido: “tchau”, para que nem eu ouvisse. Não gritar para que o senhor ouvisse e tivesse certeza que não fomos sem dizer adues, o que seria imperdoável.

Tudo naquele dia está claro na minha memória. Ele quis cumprimetar a todos, último beijo em cada um dos seus. Ele sabia. Nós também. Ninguém confessaria, mas a família grande tornava aquela despedida crônica, longa, sem fim e sem cura. Para ele, foi leveza. Tendo deixado claro, sem palavras, como era do seu feitio, o quanto ele amava cada um, o quanto se importava, meu vô morreu dois meses depois, no leito de um hospital. Morreu de cansaço, mas tinha o semblante lívido dos que fizeram seu papel, cumpriram sua missão no mundo.

Minha mãe viveu conosco mais dez anos. Sou grato por isso. Ela herdou a força do pai. Eu herdei do vô a imensa incapacidade de mostrar meus sentimentos, mas desde de a morte da Ana tenho tentado melhorar. Mas hoje não dá. Hoje, o que sinto se vestiria de desespero, de perda de tudo ao mesmo tempo. E eu só sei perder um pouco de cada vez. Não consigo estar feliz como o vêo esteve naquele dia, de sentimentos ambíguos. Para mim, só há tristeza, pontilhada com a doçura breve dos beijos dos que amo. Não estou preparado para a morte.

O almoço de despedida do meu vô aconteceu há 30 anos. Hoje, a família se reúne para comemorar meus 67 anos. Poucos lembram do vô. São menos numerosos. Tive apenas dois filhos. Cabemos todos numa mesa grande, de uma casa pequena. Nisto, invejo o nono. Meus descendentes não convivem com nenhuma ausência, exceto a minha. Então, não sabem o que é isso. Os pequenos não entendem sequer isso de hereditariedade, nem sabem que carrego o mesmo câncer que a minha vó.

Para mim, a casa está cheia de lugares vazios. Para mim, além dos poucos descendentes, há muitos outros ausentes. Na minha memória, refaço a despedida do vó e vou marcando mentalmente, um a um, os ausentes. Eu sinto a presença deles, uma presença vazia, mas constante. Não consigo alongar a despedida como o meu avô. Vejo tanto nesta sala, tantos que viveram comigo, que amei, toda uma grande família que passou ou que passará. Não consigo me despedir de todos porque me dilacera saber que quando eu me for mesmo a ausência deles se dissipará de mim. É o dia mais triste da minha vida. Porém, é o dia mais feliz da minha morte, porque todos vieram.

Todos estão aqui. O único ausente sou eu.

Incondicional

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Ela se chamava Francisca Esperança. O último nome é o meu próprio sobrenome. Estava tudo dito nestas três palavras. Francisca, nome de santo humilde, virou Chica, mais humilde ainda, mais humano, mais próximo. Era o que ela era. Assim, pés no chão, era gente da terra pequena que só existe no interior. Mas olhava o futuro. Imagino ela jovem, com nome de Esperança, olhando aflita para frente, o vestido de casamento, a barriga que crescia, grávida, os filhos que ficavam adultos, os netos… Tudo nela projetava a alegria que haveria de vir. Foi assim que a conheci, já Chica, já com sessenta anos. Ainda assim, no ocaso da vida, cheia de esperança, sempre grávida do futuro, que ela via em nós, seus netos. Por isso, para mim, o mais importante era o nome que ela compartilhava comigo. Todo resto era menor. Ela era minha vó.

Era de dona Chica que a chamavam. Teve dezesseis filhos; perdeu seis, antes que lhe dessem netos. Suportou a vida árdua, no sol escaldante das terras vermelhas onde vivíamos, labutando na cozinha, na lavoura ou na criação de filhos e netos. Construiu sobretudo uma família. E sofreu a distância de todos, pela vida que os levou para longe ou pela morte.

Os anos sessenta foram particularmente duros para a senhora Esperança. A filha Maria morreu de câncer, sem cura. Partiu cedo e linda, como num sonho de contracultura, de viver bem e morrer jovem, mas não tocaram rock. Era diferente. Minha vó perdeu mais de um recém-nascido e sofreu em cada um deles, mas não teve que guardar a voz de um filho na lembrança (e apenas na lembrança) até a morte da Maria. Cenas, gestos, traços de personalidade, palavras, tudo ficaria, então, contra toda promessa de vida, de futuro, apenas na memória. Era um atentado contra tudo que é natural: crescer, reproduzir e morrer, com a promessa do paraíso, como ensinavam os mandamento de Deus. Dois anos depois, o ano de 1962 traria mais tristeza. O primeiro do família a pisar do Brasil, o bisavó João, morreu também, de causas naturais. A morte no seu ritmo normal era menos lancinante. Então, o desfecho, em 1964, daquele começo trágico de década seria morte do marido, meu vô Luiz.

Tudo mudaria então. Os filhos sumiriam no mundo. Ficou um pedaço de família: além da vó Chiquinha, três filhos (meu pai, tio Elídio e tia Madalena), minha prima Cleidinha e minha mãe. Foi assim que eu a conheci, desde o momento em que ela sorria me pegando frágil no colo, mas eu era jovem demais para reconhecer seu sorriso. Isso foi seis anos depois da morte do vô Luiz, quando a família já tinha se separado, migrado quase toda para São Paulo. Depois, veio o tempestuoso 1974, quando meu pai morreu em março, meu tio, em junho, e meu irmão nasceu em setembro. Fomos, assim, os netos próximos, objetos do amor da dona Chica, uma mãe, sobre todas as coisas, cujos filhos estavam distantes. Ela vira muitos partirem. Outros fizeram seu caminho. E muitos caminhos longe dela. Mas não nós, seres que, depois do dilúvio, ela poderia ver crescer.

Crescemos diante dos seus olhos, sob a proteção prestimosa da vó Chiquinha. Cresci criança, sem susto. Apesar dos moleques da escola, eu era feliz, pedaço de gente trepado em árvores: pés de manga, à vontade, jabuticabas e jacas esperando para serem roubadas. A cidade tinha, no auge do ciclo do café, 8 mil habitantes. Depois diminuiu. Era um mundo imenso a explorar. Nunca senti tédio lá. Cada quintal tinha suas árvores e seus sabores. Cada pequena coisa carregava o universo. Deus sabe como amei aquele lugar.

O quintal da vó Chiquinha era uma planeta imenso, cheio de aventuras. Meu irmão no encalço, saíamos para caçar tigres no pequeno cafezal, escondidos de pé em pé. Otto, o cão pastor da vó, vigiava, para que o tigre não nos atacasse de forma traiçoeira. Tigres são muito furtivos, eu lembro. Depois, o Otto virava tigre e eu lutava contra ele, para proteger meu irmão muito pequeno sequer para cavalgar o felino-canino. Eu subia nas costas da fera, abria com força sobrehumana sua mandíbula mortal. O Otto me amava. Era recíproco.

A vó ficava ali, do lado, com o torrador de café, numa fogueirinha no meio do quintal. O cheiro se espalhava por tudo. Assim, comecei a amar café. Já exaustos de caçar tigres e de lutar com o Otto, a vó chamava para o café água-com-batata que ela passava para a gente depois de ter passado o café forte para os adultos. Pão feito em casa, pelas mãos zelosas de uma vó, e nata batida com sal.

Assim, protegido, eu era destemido. Nadava rios de meio até um metro de profundidade; jogava bola no areião vermelho; andava de bicicleta a tarde toda; fazia represas no quintal; construía casas nas árvores.

Era dono do mundo e não temia nada, nem a mais terrível das ameaças. Um dia, fui confrontá-las, com fogo, para forçá-las a fugir, deixando o mel abandonado. O Toninho dizia:

– Mais para o meio.

Num movimento instintivo, furei a colmeia. Então aprendi: tigres são dóceis; abelhas não. Nem vi para onde correu o Toninho. Eu, picado e perseguido, corri sem ver nada, numa velocidade impressionante, para a casa do vó Chiquinha. Mesmo assim, perdi para as bestas voadoras. Cheguei cheio de picadas, para o colo mais seguro do mundo. Ela se compadeceu, sentiu minha dor, cuidou de mim. O Otto olhava, sem entender, o choro mais sofrido do mundo.

Sentado no colo dela, aprendi muitas coisas: as estrelas no céu são furos no manto de Nossa Senhora; o anjo da guarda dorme, às vezes; as pessoas quando morrem vão para o céu. Minha vó sabia tudo, só não sabia ler. E me levava para a missa, para aprender mais ainda e ler o missário para ela. Depois, cansado, dormia ouvindo as canções que a voz mais doce do mundo cantava:

“Mãezinha do céu,
Eu não sei rezar
Eu só sei dizer
Que quero te amar
Azul é teu manto
Branco é teu véu
Mãezinha eu quero
Te ver lá no céu.”

Assim, me fiz coroinha. Quis ser padre, porque ela me ensinou assim. Ela me ensinou o sagrado e também as coisas carnais, como o amor pela mesa farta, como ela amava. E comia, até não aguentar mais. Depois dizia:

– Comi tanto que fiquei até triste.

E nestas horas mais festivas, ela esquecia Deus e cantava coisas mais profanas:

“Mulher não beba pinga
Que eu te compro um vestido.
Vestido tira o sentido, marido.
Pinga pra nóis bebê.
Mulher não beba pinga
Que eu te compro um chinelo.
Chinelo deixa o pé amarelo, marido.
Pinga pra nóis bebê.”

Assim, ela misturava Deus e comida. Me ensinou a gostar de tomar vinho, misturado com coca. “Portaberta”, dizia ela. Fazia coxinhas, as mais gostosas que já provei. Vendia para o Seo Felício, dono do bar da esquina, onde paravam os ônibus que chegavam e saíam da cidade. A cada leva de coxinhas, eu e meu irmão ganhávamos bolinhas redondinha de massa feitas especialmente para nós. Fazia também rosquinhas de pinga, que nós amávamos, tanto quanto polenta com frango ao molho. Tudo vinha dela. A comida e os jogos. Ela nos enganava com bolinhas massa para que a gente não comesse as coxinhas que eram seu ganha-pão, mas, por vezes, ela se deixava enganar.

Meu irmão sussurava:

– Acho que ela não tá vendo.

Então, saíamos do nosso disfarce, nas redes, e íamos, alegres, roubar bombons feitos em casa subindo pelas prateleiras da despensa. Depois, saíamos correndo para comer escondido dentro da rede. Ela sabia, mas fingia que não. Em quase tudo que sou, vejo as mãos dela, como a massa reconhece a mãos que preparam o pão.

Vó Chiquinha Nasceu em ano bissexto, bem no dia que encomprida um ano a cada quatro. Fazia aniversário um ano sim, três anos não, sempre no dia 29 de fevereiro. E brincava com a coincidência.

– A vó não pode casar por que não tem 21 anos ainda, mãe?

E a mãe ria.

Quase “20 anos” já. As rugas fundas. O olhar negro na maioria das vezes perdido em algum lugar dentro dela mesma. Para a cidade, era um monumento, como um ponto turístico. Mas ninguém via as rugas da dona Chica tão fundo quanto nós. O sorriso largo de dentadura, os longos cabelos trançados em coque, o corpo redondinho como uma bolinha de coxinha sempre enfeitado com um vestindinho de chita. Tudo se movia, todos os músculos no rosto quando ela nos via, seus netos favoritos. E as rugas ficavam mais fundas no sorriso.

Era assim, existir feliz existir perto dela. Até o dia em que o amor que sentem por nós no mundo diminuiu bruscamente. Eu já adulto, sem dar por mim o tanto que perdia, esquecido de tudo em mim que provém dela.

E o vestidinho de chita parou de farfalhar.

Hoje, no dia em que faço quarenta anos, minha memória é clara. As lembranças vêm em flashs e sou capaz de jurar que lembro daquele sorriso no hospital, quando ela me pegou no colo pela primeira vez e eu a conheci.

Lembro de tudo que me marcou e tento lembrar das coisas tolas e de outras que compõem a matéria de que sou feito. Lembro que sou teu neto. E parece que sou seu neto mais que qualquer coisa no mundo.

Cantam feliz aniversário. Eu, por dentro, canto:

“Vózinha do céu
Eu não sei rezar…”

A quem possa interessar

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Eu, Mário Messagi Júnior, declaro, a quem possa interessar, que, de hoje em diante, manterei meu coração duro como pedra para que desvarios não mais me façam sofrer.

Declaro que nunca mais serei sincero e meticuloso com os meus gestos para que eles não firam alguém. Nunca mais serei responsável com sentimentos que outra pessoa possa nutrir por mim.

Declaro que não mais me dedicarei com afinco a alguém, nem pensarei em pessoa alguma diariamente sempre que minha mente estiver desocupada de afazeres essenciais.

Declaro que nunca mais me vestirei para uma única pessoa. Não mais farei a barba para ver alguém, nem passarei o meu melhor perfume, nem usarei minhas melhores meias e minha melhores cuecas.

Declaro. para os devidos fins. que meus olhos não mais se voltarão para uma única pessoa. Não mais gostarei exclusivamente de alguém que não seja eu. Nunca mais serei altruísta, nem tentarei fazer da minha vida uma existência paralela à existência de alguém.

Declaro que não mais acreditarei que as pessoas podem viver pacificamente e em comunhão por longos anos, tão longos quanto a vida. Nunca mais afagarei sem segundas intenções.

Declaro que não amarei mais.

Declaro meu coração posse somente minha.

E me declaro posse de ninguém.

Declaro deserto, secura, areia…

Declaro o inverno como única estação.

Data, ponto e assinatura.

 

(1993)

Meu mundinho imenso

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Eu era feliz. Pés de manga, à vontade; rios de meio até um metro de profundidade; roubar jabuticaba e jaca; jogar bola no areião vermelho; andar de bicicleta a tarde toda; fazer represas no quintal; construir casas nas árvores.

Cresci numa cidade de 5 mil habitantes. Era um mundo imenso a explorar. Nunca senti tédio lá. Cada quintal tinha suas árvores e seus sabores. Cada pequena coisa carregava o universo. Deus sabe como amei aquele lugar.

Depois, jurando voltar, fui embora e amei São Paulo, onde fui um pequeno adolescente andando pelos corredores miúdos dos shopping centers. Jurei nunca abandonar, pela segunda vez. Pela segunda vez, menti.

Outro dia, passei pelos dois mundos extremos em que vivi. Esperava diversão de São Paulo, mas só me diverti quando fiquei em casa. A imensidão da cidade quase me matou de privação. Tudo longe, meu espaço era estreito.

Da minha pequena cidade natal esperava morte de tédio. Foram os dias mais felizes do meu ano. Não quis partir. Tudo era livre; o espaço, largo; os amigos, próximos e ternos. A criança que fui estava certa; o adolescente, errado.

Quero voltar. Há muitas aventuras a viver, muitos mundos para explorar.

Lia

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Uma vez, eu amei alguém com muita força e esqueci de dizer a ela. Eu tinha 15, e ela, 23 anos.

Um acidente de carro tirou a vida daquela que era, sem paixão, a mulher que eu mais amava e eu jamais me perdoei por ela não saber do meu amor. Então jurei que sempre diria a quem amo que a amo.

Sou fiel à jura.

(1988)

Ego desterrado

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Ele vai assinar o papel e, pela lei, vai estar livre de novo. Vai assinar com o peso de 7 anos de casamento, com a mão tremendo. Não é o que ele quer. Mas pensar em si, querê-la a qualquer custo é dar provas de que ela tinha razão. Ele seria egoísta. Ela quer se separar. Ele vai aceitar.

E a dor afetiva vai somatizar e doer, como se fosse física, o tipo de dilaceramento interno que sentem “os que têm fome, os que morrem de vontade, os que secam de desejo, os que ardem”. Os dias seguintes serão terríveis, um sentimento parecido com abismar-se, perder se de si, lançar-se no vazio, como fazemos na paixão, lançados que estamos no abismo que é o outro. E sentimos medo e alegria. Este abismo, no entanto, estará vazio e só trará medo, pânico, desolação e inexorável solidão. Solidão de tudo: mundo, afetos, cheiros e até do vento que se sente na pele.

Tudo isso, como um condenado, ele sentirá por ela. Porque deixá-la partir é respeitar o que ela quer, é pensar nela, e deixá-la, é amá-la no extremo de si, no despojamento extremo de si. É se lançar na solidão por outro. É condenar o próprio ego ao desterro, por amor.

Mas ele quer voltar ao seu próprio país, redimido, perdoado, marido independente de qualquer papel. E ele cometeria o ridículo de assinar de novo a mesma certidão, se casaria com a mesma mulher pela segunda vez. No futuro, na sua própria pátria, ele deseja contar esta história e rir. Nos sonhos dele, ela vê nisto exatamente o que é: amor por ela.

Por que apenas precisar dela é amor por si mesmo. Ele já transcendeu isso.

Café doce

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Minha mãe mora numa chácara e até hoje adoça o café antes de colocá-lo na garrafa. É um hábito de cidades pequenas, do interior do Paraná. Nunca o perdeu.

Aqui, na cidade grande, o café nunca está adoçado. Cada um pode adoçá-lo como quiser: com açúcar, três ou quinze gotas de adoçante e, às vezes, até com açúcar mascavo ou chocolate. A cidade grande é o lar do individualismo.

Isso é muito bom; isso é muito ruim.

Você, na cama

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Nunca senti isto antes. O desejo de te arrastar para a cama não obedece a volúpia de sexo. Tens preguiça; quero tua respiração profunda de sono, ouvir fragmentos incompreensíveis de palavras que murmuras. Quero sexo com a fuligem dos sonhos e do sono ainda nos dedos, mas só na manhã do dia seguinte, pois que dormir-te é minha primeira meta.

Sussuro em seus ouvidos canções de ninar: rock, MPB ou samba. E tu perdes o juízo, se rende ao meu encanto, perdes o controle de si e dormes.

Passava então os dias a sonhar em te ver de novo, mas sonhava sem dormir. Guardava meu sono para gastar com você, na cama. Recostar-te no meu ombro no meu carro era pouco, era pressa. Quis toda calma.

Porém, de súbito, como se tivesse interrompido o sanambulismo, você despertou da languidez preguiçosa e desistiu.

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