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Esquecer Adorno

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adornoEu seria mais feliz se pudesse esquecer Theodor Adorno, o contundente crítico frankfurtiano da indústria cultural. A morte da arte, vitimada em última instância pelo desejo de lucro que paira sobre qualquer produção estética nos nossos dias, perventendo a rudeza popular ou a sofisticação da estética de elite, deveria ser, ela sim, uma afirmação morta.

Às vezes, há sinais alentadores de que é possível esquecer Adorno. A sociedade dos públicos, segmentada, parece a contraprova da sociedade de massa, da cultura de massa, da democracia de massa, horrores, no limite, do Estado que gerencia as massas, dando-lhe o conforto de acreditar que escolhe seus rumos.

A segmentação, a organização de grupos em rede, parecem colocar a indústria e o controle das massas em xeque. Parecem, é verdade, colocar o sujeito no seu papel de direito, protagonista, como Adorno nunca o conceberia. Nunca rei; sempre objeto da maquinaria.

A resistência da classe verdadeiramente artística, não daquela que se vende, daquela que vê na arte um caminho não um fim em si mesmo, seria um alento. Artistas de verdade seriam capazez de produzir novidade estética dentro da indústria, de contestar por dentro, seriam pontos de fuga, possibilidade de futuro menos perverso que este. Bob Dylan, filho da indústria, é um caso; artistas independentes, outro.

Artistas com renome, como Chico Buarque, podem exercer uma maior liberdade estética. Outros trilham o caminho do sucesso comercial para reivindicar, depois, o controle do seu próprio trabalho. Daniel parece reivindicar o papel de artista, depois de ter sido produto escrachado da indústria. Sandy tentando fazer música reflexiva parece nos dizer: “cresci, sou dona do meu nariz e da minha arte”. Outros recusam o mainstream, desde o início, como Teatro Mágico. Sinais de que a arte pode resistir ou de que a classe artística tem clareza das coerções que operam sobre ela e que tenta reagir, nem sempre com sucesso. São alentos, sem dúvida, mesmo que nada disso garanta qualidade e autonomia estética.

Além disso, a indústria cultural vocalizou vários movimentos sociais, como a juventude ascendente do pós-guerra, espelhada em produtos claramente industriais, como Elvis Presley e James Jean. Levou caldo para o movimento contestório, para a contracultura.

Mas o pessimismo de Adorno, no limite do desespero ou da desesperança, não permite sorrir otimista sem avaliar efetivamente as potencialidades da nossa sociedade. Nenhum sonho de um mundo distinto será construído sobre uma visão sonhadora das condições reais de existência. Sonhar, sem tirar os pés do chão. Manter o espírito crítico é uma das maiores lições de Frankfurt.

A segmentação em rede não prova nada, exceto que seu efeito de autonomia (falsa de qualquer forma) é eficaz. Os grandes conglomerados definem nossas formas de interação. Se atacamos o capitalismo, o fazemos com as armas que o capitalismo permite. Deixamo-nos conformar pelo aparelho, que nos limita, como ensina Flusser.

Nenhum dos instrumentos criados pela tecnologia (e portanto pela razão) aponta para qualquer perspectivas de questionamento que não esteja delimitada pela sociedade de massa. Investiram, como era de se esperar, contra a lógica de sociedade fechadas, dogmáticas, como na primavera árabe, como um elemento externo, oriundo de outro modelo de Estado. Assim, conformam o diferente do capitalismo ao capitalismo e sua forma particular de liberdade.

E os movimentos sociais construídos em rede não parecem nada além da expressão da lógica do aparelho. Manifestações organizadas pelo Facebook, flash mobs ou petições on line estão nos limites das ferramentas on line, não configuradas para a ação política em si, mas para a organização identitária de grupos. Festas, brigas de torcidas ou manifestações esvaziadas de sentido como dia sem calças mostram que a rede estimula práticas sociais de grupo de todas as naturezas. Se algumas são políticas, isto pode ser visto tanto como a vitória quanto como a submissão da política ao aparelho.

Além disso, a indústria explora mas também atira contra o processo de fragmentação em curso. A distinção cultural é, no limite, um empecilho. Seremos iguais e pacíficos, uma distopia cultural. Agredimos o que difere de nós, o que desconhecemos, atacamos o que não entendemos. Homogêneos culturalmente, em escala mundial, tal desapropriação das identidades locais traria, por consequência, a pacificação dos conflitos entre culturas e sociedade distintas. Quando, por fim, o oriente se ocidentalizar, nossas divergências e guerras serão passado. Horror cultural, promessa de paz pela indistinção. Sacrifiquemo-nos pelo bem maior. Já fazemos isso. Abrimos mão de boa parte da liberdade individual em troca do conforto que a sociedade nos oferece.

Morta a distinção cultural, útil apenas no limite da sua exploração comercial, o que a sociedade de massa potencializou foi a distinção econômica, esta sim valiosa para o sistema. Esta sim, produtora da violência interna de um país ocidental, já que as diferenças culturais estão pacificadas, controladas e exploradas economicamente pelo sistema. Meninos de periferia roubam para poder não se distinguir economicamente. A pirataria de marcas expressa o desejo de possuir o que apenas os mais abastados podem possuir.

Os artistas que lutam por autonomia, já o demonstrou Adorno, apenas dão à indústria este ar de preservação da individualidade, da autonomia, efeito tão falso quanto útil. A lógica é mercantil em qualquer esfera. Chicos e seus públicos; Janis e os comerciais de cigarro. Nada aponta outro caminho senão este. Lutamos por uma indústria menos perversa, mas não contra ela.

E a contracultura, bem… deu no yuppies; as drogas viraram uma praga não libertadora, expressão do dinheiro e da violência; a revolução sexual enfrentou a contrarrevolução ou degenerou num machismo sexista brutal; e o rock foi desalojado de qualquer perigo para embalar a geração contrarrevolucionária, frequentadora pacífica dos shoppings centers, templos de nossa era.

Tenham calma. Abram os ouvidos. Nada os estranhará na próxima onda musical. Ela virá como algo novo e fácil de compreender e consumir, algo que te faz contemporâneo em todos os sentidos, contra os caretas que resistem, modernos da velha cepa. Eles também, vítimas de um saudosismo passadista. O sertanejo-forró vai passar. Vai dar sinais de esgotamento, mas a próxima porta vai se abrir.

E Adorno, mais uma vez, fará sentido. Mais uma vez, ele baterá, sisudo, às nossas portas, lembrando que não podemos esquecê-lo, como não podemos esquecer os horrores do fascismo e do stalinismo.

Então que a indústria venha. Estaremos de pé, espírito crítico, prontos para sermos derrotados de novo.

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Uma pobre história do cristianismo, por Geoffrey Blainey

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Terceiro best seller de Blainey é pobre.

Os managers da indústria editorial fazem chover quando o assunto é inventar um  best seller. Produzir um produto editorial com grande potencial de venda é uma arte. Porém, ser um bom livro não é de fato imprescindível. Por vezes, é até pior.

Uma breve história do cristianismo, de Geoffrey Blainey, é um bom exemplo disso. O livro é pobre, em diversos aspectos, mas na semana de 20 a 28 de agosto figurava ainda em quinto lugar de vendas de livros de não-ficção e décimo quinto no geral no site Publishnews. É o terceiro best seller de Blainey, no Brasil. Antes saíram Uma breve história do mundo e Uma breve história do século XX.

Blainey afirma que seu livro sobre o cristianismo é uma abordagem acadêmica. Diz ele, no prefácio: “Investiguei a história como historiador, não como teólogo”. Se fosse mesmo uma abordagem historiográfica, seria uma versão ruim da história oficial católica do cristianismo. O autor relata, como é sabido, que os evangelhos foram escritos perto do ano 50 d.C. Até ali, a história de Jesus era transmitida oralmente, de geração a geração, por um povo que era ainda pouco alfabetizado. Apesar disso, de relativizar as fontes logo de início, ele não faz cerimônia para usar os evangelhos como fonte quase exclusiva para narrar a vida de Cristo. O autor confronta os evangelhos com interpretações atuais de teólogos da Bíblia, para discutir, por exemplo, o local do nascimento de Cristo. O debate que reconstrói é exclusivamente calcado nos evangelhos e nos estudos deles. Outras fontes, se existem, são ocultadas com estruturas como ”Conta-se que, aos doze anos…” ou “Presume-se que fizesse pequenas peças de madeira…”. Quem conta e quem presume, não sendo o autor, ele também não revela.

Ou então ele refere “Outros historiadores” sem dizer quem são. E isso acontece em todo livro. No final, no capítulo “Fontes selecionadas”, apesar de anunciar que literatura sobre cristianismo é “extensa, quase esmagadora”, Blainey cita apenas oito referências e diz que, na versão original do texto, editada por ele posteriormente, constavam muitas páginas “onde estão listadas as fontes consultadas”.

Sim, citar fontes é prática acadêmica, fazer referências por ano e página do livro é exigência em teses e dissertações. Um livro de vulgarização dispensa tal esforço, certo? Errado. Primeiro, o livro se diz uma obra historiográfica. Por isso, mostrar suas fontes é ato de honestidade intelectual e permite ao leitor checar as informações ou se aprofundar no tema. Fontes são uma estrutura de hiperlink. Mas isso tornaria o livro cansativo, certo? Em parte. Se houvesse uma longa discussão das fontes e reiterados cotejamentos de pontos de vista sim, mas por que referir uma informação a “um historiador” e não dizer, por exemplo, “Tocqueville (1988)”. A maioria das pessoas não liga para estas referências, nem lê as longas páginas de bibliografia. Não é por isso que a informação pode ser sonegada, menos ainda quando não faz nenhuma diferença no texto. Para a maioria, apenas soa como atribuição de autoridade à informação, o que de fato é, mas não apenas.

Segundo ponto porque o livro é ruim. A organização é caótica. Aparentemente, ele segue uma ordem cronológica, que vai da vida de Jesus, passando pela perseguição pelos romanos, a conversão de Constantino, o islamismo, as cruzadas, a reforma ate chegar à conquista do novo mundo e os desafios atuais.  Mas não se engane. A cada capítulo, o tempo vai para frente e para trás. Em poucas páginas, os séculos mudam de forma voraz. Um exemplo: na página 82, Blainey discute o celibato entre os padres. O tema surge do nada no texto. O autor relata que o debate começou em 305 d.C., mas foi no Concílio de Niceia, em 325 d.C., que se tomou alguma decisão sobre o tema, permitindo o casamento apenas aos escalões inferiores do clero. Cinco linhas depois, ele escreve: “Na França, nos cem anos seguintes ao ano de 942, houve três bispos casados, com filho, e até alguns papas tiveram filhos legítimos.” A intenção era mostrar como o celibato demorou a ser efetivamente respeitado, mas o salto no tempo é meramente casual. Serviria também Portugal em 1550 como exemplo. Estes saltos se sucedem, dos séculos 5 ao 12 e de volta ao 4 sem nenhuma reserva.

Organizar um livro de história de forma cronológica não é necessário e, hoje, sequer é a forma mais usual. A organização poderia ser por grandes temáticas: debates teológicos, avanços políticos, organização e disputa do poder eclesiástico. Mas tudo bem organizar cronologicamente. Blainey, porém, não faz nem isso. A sensação final é de voos sem critérios por informações levemente conectadas.

O terceiro ponto fundamental da baixa qualidade do texto é decorrência do segundo. Sem organização clara, os acontecimentos narrados ficam descontextualizados. A tensão e a contradição inerentes à vida estão fora do texto. Assim, muitos episódios são explicados de forma pueril ou ingênua. A conversão do imperador Constantino é um primor de pureza. Depois de relatar que, apesar das perseguições, algumas poderosas famílias romanas simpatizavam com o catolicismo, Blainey escreve: “Constantino, poderoso comandante militar, foi um dos simpatizantes inesperados.  (…) Diz –se que o próprio Constantino, embora não fosse batizado, carregava sempre o oratório, para que pudesse adorar Cristo durante as marchas com seus soldados”. Então, o imperador concede liberdade religiosa aos cristões e, em seguida, torna o cristianismo religião oficial de Roma. Explicação para tal conversão: apenas uma leve insinuação de que uma religião multirracial seria mais conveniente num império tão vasto. E, claro, a justificativa católica de que Constantino teria tido uma visão de Deus. Depois disso, resolveu converter todo um vasto império ao cristianismo. Nenhuma ponderação política ou econômica ou cultural. Nenhum motivo outro. Constantino foi movido exclusivamente por sua fé. Esta á a versão oficial. Por ser oficial, é suspeita.

A falta de tensão se repete, com episódios perdendo relevância. A noite de São Bartolomeu merece 8 linhas, apesar do próprio autor a considerar o “episódio mais dramático” do conflito entre a maioria católica e a minoria protestante. Já a “bíblia do melado”, piada resultante de uma tradução de “bálsamo” como “melado” tem seu próprio título. Muitos capítulos parecem ser resumos das famosas vidas de santos ou hagiografias que circulavam pela idade média. São Francisco, Agostinho, Escolástica, Zuínglio, Vladimir são alguns deles. Outros personagens emergem das suas histórias de fundadores de denominações protestantes: Whitefield, Wesley, Knox, Fox, Bunyan. O livro perfaz assim um mosaico de biografias.

Por vezes, Blainey descamba para a defesa da igreja católica, de forma totalmente desnecessária. Diante das acusações que o clero sofria no começo do século XVI por ostentar luxos demasiados, crítica da qual nem a igreja hoje se esquiva ou nega, o autor questiona: “No entanto, como avaliar com justiça uma instituição que, apesar das visíveis falhas, continuava a cumprir suas obrigações e a inspirar positivamente tantas vidas?”. Assim mesmo, como palavra dele, não de alguma fonte oculta ou um papa ou um bispo. As críticas efetivamente não implicam a desqualificação da igreja como um todo. Desnecessário dizer. Inadequado de ser dito por um autor que se diz historiador. Em outro trecho, o autor endossa a infalibilidade do Papa. “Reconhecidamente, os pronunciamentos do papa sobre a ‘fé e a moral’ sempre estiveram perto da infalibilidade, já que ele era servo de Cristo na Terra e considerado seu porta-voz ‘para todos os cristãos’”, escreve.

Ao fim da leitura, o livro agrega muito pouco conhecimento e, quase sempre, conhecimento fragmentado, descontextualizado, quase inútil. Mas é possível entender, apesar do autor não abordar o tema explicitamente, porque há tantas denominações protestantes e, basicamente, apenas duas igrejas católicas: a do oriente e a do ocidente. Ao narrar cada um dos fundadores das principais denominações protestantes e a sua leitura específica da bíblia, Blainey, sem querer, demonstra como a ausência de um poder central, como o papa no ocidente e o patriarca no oriente, conduz a diversas igrejas. Lutero ao estimular a leitura da bíblia diretamente impulsionou a alfabetização dos países protestante, hoje entre os mais avançados do mundo. Por outro lado, permitiu múltiplas interpretações da bíblia e, assim, múltiplas igrejas. Tal mecanismo continua operando até hoje, nem sempre de forma honesta.

Em suma, o livro pode ser breve, mas não é história. Se a academia americana aceita a obra como historiográfica, lamento pela academia americana. No Brasil, com certeza, o livro é apenas uma vulgarização ruim de informações sobre o cristianismo e sua história.

Mas ele oferece uma pista sobre o que faz um livro vender muito. Anote a dica: dê pouca informação ao leitor e quase nenhuma relevante. Assim, não terão como discordar de você nem terão que reorganizar a visão de mundo que já têm. Cada um interpretará o texto conforme sua própria visão, previamente dada. E jamais aborde o tema criticamente ou exponha suas contradições. Assim, você vai conseguir escrever sobre um tema espinhoso como o cristianismo sem atrair a ira de nenhum cristão, católico ou protestante.

É um feito. Para mim, negativo.

Olhos de cão

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Sabujo, matreiro, vadio o cão e os olhos do cão, cheios de pecados. Os olhos com que ele olhou para ela reprisavam o Cristo sofrido na cruz, resignado. Olhos de cão encurralado, ladrão, sobrevivente pela mentira, pelo engano, e ele nem grunhiu. Queria pena e plantou flores para seduzi-la, induzi-la a erro. Eram lindas, sim, as flores. E mentiam, com a mesma beleza.

Ela perdoou. Viu vazio naqueles olhos. Acreditou, porque precisava acreditar. Via nos cães pureza, desde a infância, seres mágicos, como cavalgadas de amor principesco. Ela aceitou as desculpas e amou o cão.

Ele desconfiou. Ela perdoou rápido demais. Mas, por fim, desfez o medo e lançou sobre ela seus olhos, vitoriosos, senhor de si, de todo território, feliz por não perdê-la. Depois de ter escapado, cão sabujo, certo de seus pecado, nada o tornaria mais seguro que o perdão improvável. Era senhor da casa e latia afugentando todos os que quissessem se aproximar dela. Botava medo com seu dentes ameaçadores e seus débeis olhos de cão.

Ela deixou que ele latisse, que se apoderasse da vida dela, que a cercasse e a protegesse. Então, ele, cão vadio, voltou a vadiar. Atravessava a cerca, fornicava na rua, era visto em cenas impróprias e indignas, mas voltava ronronando, como um gatinho, a tempo. Ela esperava seu cão, laborioso cão.

Então, um dia, ele viu nela menos que na rua. Cansou de protegê-la. Ela não valia isso. Então, atacou as flores do jardim e partiu, olhando para trás, sem dó nem arrependimento, com seu olhos de cão.

É da natureza dos cães.

A quem possa interessar

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Eu, Mário Messagi Júnior, declaro, a quem possa interessar, que, de hoje em diante, manterei meu coração duro como pedra para que desvarios não mais me façam sofrer.

Declaro que nunca mais serei sincero e meticuloso com os meus gestos para que eles não firam alguém. Nunca mais serei responsável com sentimentos que outra pessoa possa nutrir por mim.

Declaro que não mais me dedicarei com afinco a alguém, nem pensarei em pessoa alguma diariamente sempre que minha mente estiver desocupada de afazeres essenciais.

Declaro que nunca mais me vestirei para uma única pessoa. Não mais farei a barba para ver alguém, nem passarei o meu melhor perfume, nem usarei minhas melhores meias e minha melhores cuecas.

Declaro. para os devidos fins. que meus olhos não mais se voltarão para uma única pessoa. Não mais gostarei exclusivamente de alguém que não seja eu. Nunca mais serei altruísta, nem tentarei fazer da minha vida uma existência paralela à existência de alguém.

Declaro que não mais acreditarei que as pessoas podem viver pacificamente e em comunhão por longos anos, tão longos quanto a vida. Nunca mais afagarei sem segundas intenções.

Declaro que não amarei mais.

Declaro meu coração posse somente minha.

E me declaro posse de ninguém.

Declaro deserto, secura, areia…

Declaro o inverno como única estação.

Data, ponto e assinatura.

 

(1993)

Ego desterrado

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Ele vai assinar o papel e, pela lei, vai estar livre de novo. Vai assinar com o peso de 7 anos de casamento, com a mão tremendo. Não é o que ele quer. Mas pensar em si, querê-la a qualquer custo é dar provas de que ela tinha razão. Ele seria egoísta. Ela quer se separar. Ele vai aceitar.

E a dor afetiva vai somatizar e doer, como se fosse física, o tipo de dilaceramento interno que sentem “os que têm fome, os que morrem de vontade, os que secam de desejo, os que ardem”. Os dias seguintes serão terríveis, um sentimento parecido com abismar-se, perder se de si, lançar-se no vazio, como fazemos na paixão, lançados que estamos no abismo que é o outro. E sentimos medo e alegria. Este abismo, no entanto, estará vazio e só trará medo, pânico, desolação e inexorável solidão. Solidão de tudo: mundo, afetos, cheiros e até do vento que se sente na pele.

Tudo isso, como um condenado, ele sentirá por ela. Porque deixá-la partir é respeitar o que ela quer, é pensar nela, e deixá-la, é amá-la no extremo de si, no despojamento extremo de si. É se lançar na solidão por outro. É condenar o próprio ego ao desterro, por amor.

Mas ele quer voltar ao seu próprio país, redimido, perdoado, marido independente de qualquer papel. E ele cometeria o ridículo de assinar de novo a mesma certidão, se casaria com a mesma mulher pela segunda vez. No futuro, na sua própria pátria, ele deseja contar esta história e rir. Nos sonhos dele, ela vê nisto exatamente o que é: amor por ela.

Por que apenas precisar dela é amor por si mesmo. Ele já transcendeu isso.

Sete Vidas e Gran Torino

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Fazia tempo que eu não escrevia sobre filmes. Bem, não tinha motivos. Nunca escrevo sobre grandes filmes, mas sobre filmes que me tocam, de alguma forma, sejam grandes ou não. Nem sempre o melhor é o que mais carrega sentido para nós. Coisas pequenas… sim, minúsculas, podem carregar todo sentido. Escrevo sobre como vi os filmes, não sobre eles mesmos.
Vi Sete Vidas ao lado da Paula, alguém cuja passagem pela minha vida deixará cicatrizes onde havia feridas, tal qual bálsamo. E ela nunca, de fato, passará, mas nada será como antes. E chorei, copiosamente, para usar uma palavra antiga. Minha separação, recente, tinha me colocado diante de um ser focado no seu próprio prazer, incapaz de fazer qualquer coisa por mim e que tinha me desrespeitado, como homem e como marido. Qualquer gesto de generosidade, de altruísmo me capturava, gravemente.
Filmes falam de coisas grandes, às vezes de forma pequena. Os que falam de coisas pequenas não merecem ser incluídos na categoria cinema. Sete Vidas fala de altruísmo, de forma hollywoodiana. Não é, como filme, lá grande coisa. Piegas, por vezes; grandioso em certas cenas. Filme feito para estimular, como ensina Adorno, sentimentos, não para representar sentimentos. Não é, também, dos piores, com certeza. Só não é grande, como Gran Torino.
Entregar-se a si mesmo, em pedaços, como sugere o nome original de Sete Vidas (Seven Pounds) até o limite da vida, apenas para se redimir, é ato extremo, irreal, nobreza a moda de hollywood. Eu sou piegas; andava piegas e emotivo. Todo sentido estava ali, à frente e ao lado.
Gran Torino é mais recente. Minha pieguice aplacada, emoções representadas, personagem forte (Walt Kowalski), direção segura e bom texto. Um grande filme, muito maior que o premiado Quem quer ser um milionário. Kowalski, um veterano da guerra na Coréia, perde a esposa e inicia um caminho de redenção. Conhece Thao, um coreano radicado nos Estados Unidos que tenta roubar seu Gran Torino 1972. Com ele, vai purgar seus pecados cometidos na guerra, vai criar vínculos afetivos com a família coreana do jovem, por quem nutria apenas desprezo, fundado em preconceito. Mas será com aquelas pessoas que ele vai estabelecer vínculos familiares, como nunca conseguiu ter com seus próprios filhos.
Tudo gira, aparentemente, em torno do Gran Torino, mas filmes falam de coisas grandes. O Gran Torino não se enquadra nesta categoria. O filme trata de redenção. Diferente de Sete Vidas, o personagem central não é reto, decidido desde o princípio a fazer o que vai fazer ao longo de todo filme. Ele muda. Kowalski se entrega como o cordeiro de Deus, confesso, pronto para o sacrifício que trará algum prêmio. Mas ele próprio já foi salvo, já foi perdoado. Doente, em vias de morrer, antecipa sua morte para dar algum sentido a ela.
O Gran Torino é legado, em testamento, ao jovem Thao. Mas o carro é apenas um adereço. Ele carrega algo maior: o amor de uma nação pelos automotores e, cheio de sentido, é o ícone do amor de um velho veterano de guerra por um jovem coreano, que o salvou.

Tão ternamente
A história
Nada mais
É o que você vê
Ou o que você fez
Ou o que soubemos
Permanecendo forte
Lidando com tudo
Na sua pele, só imaginando
Gerando na boca carinhosos suspiros
Suspirando pelo meu Gran Torino
Apitando pelo pneu uma canção
Motor ligado e melhores sonhos crescem
Eu trancado dentro do Gran Torino
Ele bate um ritmo solitário a noite toda
Ele bate um ritmo solitário a noite toda

Dói porque estou vivo

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Para ti

Às vezes a dor é lancinante. Minhas rugas se aprofundam. Minhas cãs proliferam. Meu corpo treme, como se tivesse sido cortado fundo. Mas não há corte. Meus olhos latejam, ardem, molham meus gritos. Brotam a mais pura e mais amarga substância, feita só de sofrimento. Então desejo morrer. Ninguém tem piedade. Continuo vivo.
Dura pouco este sentimento. Recobro a consciência e prefiro viver assim, doendo, a não viver. Lembro de Adélia Prado, que queria ficar com a cara mais enrugada que maracujá de gaveta, de tanto sofrer, de tanto amar. Dói porque estou vivo. Agradeço ao universo.
Não importa o quanto me firam. Quando cansar destas dores, estarei morrendo. Então, não blasfemo mais contra a vida. Meu coração é um mundo. Eu invento os monstros que podem assombrá-lo. Do mesmo jeito como os crio e a eles me afeiçôo, posso matá-los. Mas ninguém chegou perto do meu lado que sangra sem minha permissão.
Então, segue em paz, sádica. Você só existe para me lembrar que sofrer é parte da vida. Você só existe porque eu quis.

Ps.: Escrito há muito, muito tempo para alguém cujo nome deixei de mencionar até que esqueci.

As regras da atração

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Por que vi nela uma musa? Não sei. Não compreendo as regras da atração. Um dia, alguém vai escrever um livro de auto-ajuda sobre elas. Mentirá. Ninguém compreende o que faz um corpo tremer diante de outro.
Há indícios. Beleza, simpatia, charme, inteligência, posição social, cobiça coletiva, sensualidade, dinheiro, poder. Mas tudo isso não explica porque duas mulheres igualmente belas, igualmente inteligentes, iguais em tudo, ou quase, me atraem de formas tão diferentes. Por uma, meu corpo suplica. A outra é apenas um troféu. Não o quero. Uma me olha e me leva ao paraíso, satisfeito por pagar no inferno por meus pensamentos. Da outra, nem vejo o olhar.
Não entendo as leis da atração, apenas as respeito, ainda que limitem minhas escolhas e as tornem, por vezes, incompreensíveis. O desejo é rei, caprichoso, cheio de decisões estranhas. Não vasculho seus pensamentos insondáveis. Apenas me curvo à sua força, à sua sedução. Posso até me negar a seguir seus caminhos, mas não posso seguir os caminhos que ele nunca me indicou. Este rei oblitera meus passos. E, sem ver, tento me guiar segundo minha própria consciência. Tateio a razão; tu ofereces cheiros, sensações, sons e imagens. Sou um pobre cego, meu senhor!
Não rezo sem ti, mas temo-te e, por isso, por vezes não digo amém. Provei seu paraíso, mesmo sem entender suas leis. Mas, mesmo fiel a ti, temo me curvar a todos os seus caprichos. Pois que és irmão do desespero, como sempre soube, até quando não pude evitar. A cor da vida brilha nos teus olhos, mas acautelo-me. Nunca sei, de fato, quando vais me entregar a teu fratelo.

Nada passa

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Vão te dizer que tudo passa, que tempo e distância curam tudo, que matam o bom e o mau, como quimioterapia, e os deixam no passado imemorial. É mentira. Nada passa.
Mesmo aquilo de que não lembramos não cessa de nos definir, como trauma, aprendizado ou um tipo de atavismo tardio. As lembranças menos insidiosas nos habitam diante dos nossos olhos. Assim, sabemos o que fazer com elas, mesmo que muitas vezes saber o que fazer esteja muito longe de fazer.
Tudo se acumula. O passado pode deixar de nos ferir, mas sempre estará ali. Podemos não viver no passado, mas o passado nunca deixará de viver em nós.
Então esqueça as soluções fáceis, feche os ouvidos para os conselhos gentis e fantasiosos. A vida cobra muito mais caro.
Vão dizer que você pode exorcizar seus fantasmas, mas você não pode. Acostuma-te a eles e aprende como não assombrar mais a sua vida. Eles estarão sempre ali, para te assustar. Talvez um dia não te assustem mais, mas não espere que eles partam. Eles nunca partirão.

Sedutor de papel

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Viver e morrer por escrito será possível? Senti o cheiro da tinta cedo, menino sem ter o que fazer, me apeguei a ler livros, histórias fantasiosas, como Xisto ou contos de Edgar Alan Poe. Nunca li Edmond Rostand, mas banquei a Roxane e me apaixonei por Cyrano, o narigudo, sem conhecê-lo muito bem.
Desde então, desde muito cedo, me perguntei se era possível conquistar alguém por cartas, por palavras, por belezas que se dizem e se sentem. Me perguntei se era possível viver por escrito. E então me quis fazer de Cyrano, tal era minha paixão, que nele me anulei.
Para que servem cartas afinal, se toda dor de poeta é fingimento, seja dor ou não? Para que servem tantas letras, se escondo meu nariz e minhas feiúras na beleza das palavras? Se confesso meu crime apenas para realizá-lo novamente?
Vivi por escrito, sedutor de papel, de amores literários, mulheres que inventei, apaixonado, a partir de mulheres que existiam fora do meu mundo de papel. Foram minhas correspondentes. Invariavelmente, elas corresponderam pela metade. Se eu tivesse me entregado menos e não acreditado nas minhas mentiras, como elas acreditaram, teria dado certo, talvez. Mas caí em auto-engano.
Por fim, então, conheci Goethe, outro ser de papel, um sedutor profissional, sem necessidade de CEPs ou endereços. E Werther foi meu mestre. Eu, seu inepto aprendiz.
Escrevo epístolas. Todo amor que vivi foi de papel, toda sedução foi ensaio, até que, no mundo real, parei de escrever cartas de lascivo sentimento. Parei de profanar juras de amor e promessas de vingança.
Este é o último refúgio de sedução que ainda alimento, até que esgote o que fui, até que todas as cartas que não mereçam ser queimadas conheçam meu novo universo. Este, onde elas, alienígenas, existam sem papel, retratos do ocaso de um sedutor.

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