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Noite translúcida

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Cabelos negros,

luz sem cor,

noite translúcida,

cansaço após furor.

Perfume de sândalo,

calor e orquídeas,

sua boca úmida,

bromélia carnívora.

Lasciva Cleópatra,

rainha do Nilo,

te sonhei flor,

me sonhei pistilo.

Sonhei travesseiro branco,

teu perfil,

tuas melenas.

Thea, tua beleza é obscena.

Na noite translúcida,

vaga, diáfana:

corpo trêmulo,

mão errante.

Um relâmpago,

um instante,

afeto depois,

fúria durante.

Mormaço, e você bacante

desfalece, então delirante,

me arranha e dorme,

me poupa e me consome.

Sei, porém, doravante,

na noite translúcida

nada é certo,

nada é constante

E antes, bem antes,

antes de ser tragado por ti,

antes que te tornes gigante,

renego a noite translúcida,

renego porque a quero,

ainda que fosse a última.

P.S.: o nome completo da mais famosa rainha do Egito era Cleópatra Thea Filopator.

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Os ausentes

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A casa se enfeitou. Velha e rústica, carregava passado demais, mas parecia jovem. Os perfumes vinham da rua e da cozinha, do quintal, florido de primavera, e do prato favorito do meu vô: um cozido de carnes, com legumes, preparado abundantemente. Ele enchia o prato uma única vez e comia tudo.

Aquele dia misturava os aromas da cozinha com o ar fresco da manhã entrando pela janela, aquela primeira lufada de vento que invade a casa logo ao acordar. Minha mãe arrumara tudo, como lhe cabia. Primeira filha mulher, a ela restara cuidar-lhe. E foi só por isso, pelo imenso amor de filha e por saudades que ela venceu a tristeza daquele dia e acordou cedo, chacoalhou os meninos, filhos e sobrinhos, arrumou as roupas de cada um, os fez tomar banho, os vestiu e alinhou cada roupinha. Esbravejou com os mais velhos, preguiçosos, para que levantassem da cama. Então, arrumou cada lençol, um a um, abriu as janelas, desfez a desordem da manhã depois da noite em família.

Meu vô já estava acordado, como sempre, como todas as manhãs, como homem trabalhador que era, mesmo com músculos envelhecidos e cansados, com poucas das forças de homem rural, como gostava de ser tratado. Meu vô levantou e foi andar pelo quintal, alimentando as galinhas e os porcos. Olhava, com o olhar de nunca mais, um a um dos descendentes da sua prole, vasta prole, de imigrante, como gostava de ser tratado.

Homem de poucas palavras, meu vô era adepto do silêncio. Não falava muito, nem sofria abertamente. Era imigrante rural, dado a rudezas. A casa era simples, de madeira e alvenaria. Tudo feito com muito custo. Quase tudo pelas suas mãos laboriosas, que trabalharam dia a dia, sem reclamar, sem murmúrio, sem incertezas, uma vida inteira.

Aquela casa imensa e rústica só tinha um uso: ser grande suficiente, para comportar sua maior obra. A família chegava. Cada um, conforme as oportunidades da vida, tinha feito outro lar, criado filhos e até netos, como eu. Cada um, conforme as oportunidades e os parcos recursos permitiram, tinha galgado alguma posição social. Meu tio virou caminhoneiro. Muitos primos eram pequenos burocratas, em bancos ou escritórios. Quase metade dos netos fez curso superior. Meu vô se orgulhava de tudo isso. A casa grande era o símbolo da família. Com as partidas, tinha ficado grande demais e vazia. Mas não naquele dia.

Minha mãe saiu rápida:

– Pai…

Meu vô escuta pouco.

– PAI…

Ele virou, lento, com o olhar miúdo e vago que lhe acometeu desde a morte da segunda esposa.

– Pai, vem para dentro. O Júnior está chegando.

Meu vô não disse nada. Caminhou até a varanda e, sem pressa, cumprimentou o filho mais jovem, abraçou, rindo largo, os netos e a nora. Então sentou numa velha cadeira de recosto longo e, mais uma vez silencioso, se pôs a olhar feliz o vago horizonte.

Assim foram chegando os demais, os que não tinham dormido na casa. Barulhentos, netos e bisnetos em grupos faziam fila para beijar o vô. Depois corriam para dentro, para o barulho da família grande e dos primos. Seis filhos, treze netos, noras e genros e a pequena bisnetinha. Os olhos do meu vô sorriam, marejados de lágrimas de alegria de vê-los todos ali. Era a despedida que queria e, mesmo ausente, ele estava feliz.

Diferente dos anos em que a família vestiu luto com a morte lenta e inexorável da minha vó. Naqueles dias, meu vô, como sempre, falava pouco e chorava menos ainda, escondendo a dor dentro de si. Depois, passou a chorar lágrimas solitárias, brevemente, todos os dias, como se tivesse se habituado à dor crônica do câncer. Por isso, tinha um brilho diferente nos olhos. Era um brilho escuro. A morte veio tão lenta que quando chegou, apenas perguntei:

– Por que demorastes?

Minha vó partira depois de longo definhar perante o câncer. Achava que os velhos sorriam, fechavam os olhos e morriam. Não entendia aquela dor toda da minha vó. Nem meu vó.

A morte da tia Ana foi diferente. Ela partiu jovem, sem que pudéssemos dizer adeus. O acidente, trágico, deixou três mortes. Ela desfigurada no caixão, e eu só pensava se ela podia me ouvir, se sussurros chegariam ao céu, dizendo:

– Eu te amo.

Ela foi sem saber o tanto de amor que carregava no coração por ela. Eu me penitenciei por anos, por ser um falso, um mentiroso incapaz de confessar o amor que sentia por alguém, mesmo amor fraterno, amor de família, amor e admiração pela tia mais jovem. O vô se desesperou. Foi a única vez que o vi chorar, copiosamente.

O Guiga, porém, foi de todas as partidas a mais revoltante, esfaqueado em casa, por um estranho que nunca soubemos quem foi. Meu vô retorceu os músculos do rosto com a máscara da revolta. Não derramou lágrima, mas se envenenou com ódio. A sensação de injustiça e de impotência pairou na família por sombrios dias e dias e dias. Infindáveis dias, meses e anos.

Todos sentíamos estas ausências, exceto os mais jovens que não viram os que se perderam de nós. Porém, o dia era de festa, mesmo que tivesse o gosto estranho da despedida. Meu vô andava ausente, pensando no outro mundo. Sofremos, ele sobretudo, cada partida de modos diferentes. De forma letárgica, constante, lenta, na morte da minha vô, definhando dia a dia. Pelo trauma de uma morte inesperada e violenta, cuja culpada era a tia que eu amava. Pelo inconformismo com a morte do meu primo, cujas razões nunca soubemos. Ele carregou seus segredos, pronunciáveis e impronunciáveis, com ele. Os três partiram no intervalo trágico de dois anos.

A quarta ausência era a do meu vô. Era ausência diferente. Ele estava ali, mas todos já o sentiam como não. E, elo familiar, depois da morte dele, sabíamos que nunca mais a família se reuniria, exceto nos funerais, sem prazer, sem gosto, por obrigação, os jovens; por tristeza, os mais velhos.

Assim, era triste dizer adeus para ele. O vô nos olhava como se não tivesse certeza de que voltaria a nos ver. Via seus olhinhos marejados, iguais apenas à tristeza crônica da morte da minha vó. Cada despedida soava definitiva. A surdez piorava nossos abraços partidos:

  • Tchau, vô. Já tô indo.

E brilhavam os olhos míopes de quase 90 anos, marejados de lágrimas. Eram como pérolas reluzentes quando ele se despedia dos netos, entre eles eu. Como ele ouvia pouco, nas despedidas, isso doía. Doía porque a gente queria falar baixinho nestas horas tristes e não gritar a tristeza. Queria dizer baixinho, vô, no seu ouvido: “tchau”, para que nem eu ouvisse. Não gritar para que o senhor ouvisse e tivesse certeza que não fomos sem dizer adues, o que seria imperdoável.

Tudo naquele dia está claro na minha memória. Ele quis cumprimetar a todos, último beijo em cada um dos seus. Ele sabia. Nós também. Ninguém confessaria, mas a família grande tornava aquela despedida crônica, longa, sem fim e sem cura. Para ele, foi leveza. Tendo deixado claro, sem palavras, como era do seu feitio, o quanto ele amava cada um, o quanto se importava, meu vô morreu dois meses depois, no leito de um hospital. Morreu de cansaço, mas tinha o semblante lívido dos que fizeram seu papel, cumpriram sua missão no mundo.

Minha mãe viveu conosco mais dez anos. Sou grato por isso. Ela herdou a força do pai. Eu herdei do vô a imensa incapacidade de mostrar meus sentimentos, mas desde de a morte da Ana tenho tentado melhorar. Mas hoje não dá. Hoje, o que sinto se vestiria de desespero, de perda de tudo ao mesmo tempo. E eu só sei perder um pouco de cada vez. Não consigo estar feliz como o vêo esteve naquele dia, de sentimentos ambíguos. Para mim, só há tristeza, pontilhada com a doçura breve dos beijos dos que amo. Não estou preparado para a morte.

O almoço de despedida do meu vô aconteceu há 30 anos. Hoje, a família se reúne para comemorar meus 67 anos. Poucos lembram do vô. São menos numerosos. Tive apenas dois filhos. Cabemos todos numa mesa grande, de uma casa pequena. Nisto, invejo o nono. Meus descendentes não convivem com nenhuma ausência, exceto a minha. Então, não sabem o que é isso. Os pequenos não entendem sequer isso de hereditariedade, nem sabem que carrego o mesmo câncer que a minha vó.

Para mim, a casa está cheia de lugares vazios. Para mim, além dos poucos descendentes, há muitos outros ausentes. Na minha memória, refaço a despedida do vó e vou marcando mentalmente, um a um, os ausentes. Eu sinto a presença deles, uma presença vazia, mas constante. Não consigo alongar a despedida como o meu avô. Vejo tanto nesta sala, tantos que viveram comigo, que amei, toda uma grande família que passou ou que passará. Não consigo me despedir de todos porque me dilacera saber que quando eu me for mesmo a ausência deles se dissipará de mim. É o dia mais triste da minha vida. Porém, é o dia mais feliz da minha morte, porque todos vieram.

Todos estão aqui. O único ausente sou eu.

Incondicional

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Ela se chamava Francisca Esperança. O último nome é o meu próprio sobrenome. Estava tudo dito nestas três palavras. Francisca, nome de santo humilde, virou Chica, mais humilde ainda, mais humano, mais próximo. Era o que ela era. Assim, pés no chão, era gente da terra pequena que só existe no interior. Mas olhava o futuro. Imagino ela jovem, com nome de Esperança, olhando aflita para frente, o vestido de casamento, a barriga que crescia, grávida, os filhos que ficavam adultos, os netos… Tudo nela projetava a alegria que haveria de vir. Foi assim que a conheci, já Chica, já com sessenta anos. Ainda assim, no ocaso da vida, cheia de esperança, sempre grávida do futuro, que ela via em nós, seus netos. Por isso, para mim, o mais importante era o nome que ela compartilhava comigo. Todo resto era menor. Ela era minha vó.

Era de dona Chica que a chamavam. Teve dezesseis filhos; perdeu seis, antes que lhe dessem netos. Suportou a vida árdua, no sol escaldante das terras vermelhas onde vivíamos, labutando na cozinha, na lavoura ou na criação de filhos e netos. Construiu sobretudo uma família. E sofreu a distância de todos, pela vida que os levou para longe ou pela morte.

Os anos sessenta foram particularmente duros para a senhora Esperança. A filha Maria morreu de câncer, sem cura. Partiu cedo e linda, como num sonho de contracultura, de viver bem e morrer jovem, mas não tocaram rock. Era diferente. Minha vó perdeu mais de um recém-nascido e sofreu em cada um deles, mas não teve que guardar a voz de um filho na lembrança (e apenas na lembrança) até a morte da Maria. Cenas, gestos, traços de personalidade, palavras, tudo ficaria, então, contra toda promessa de vida, de futuro, apenas na memória. Era um atentado contra tudo que é natural: crescer, reproduzir e morrer, com a promessa do paraíso, como ensinavam os mandamento de Deus. Dois anos depois, o ano de 1962 traria mais tristeza. O primeiro do família a pisar do Brasil, o bisavó João, morreu também, de causas naturais. A morte no seu ritmo normal era menos lancinante. Então, o desfecho, em 1964, daquele começo trágico de década seria morte do marido, meu vô Luiz.

Tudo mudaria então. Os filhos sumiriam no mundo. Ficou um pedaço de família: além da vó Chiquinha, três filhos (meu pai, tio Elídio e tia Madalena), minha prima Cleidinha e minha mãe. Foi assim que eu a conheci, desde o momento em que ela sorria me pegando frágil no colo, mas eu era jovem demais para reconhecer seu sorriso. Isso foi seis anos depois da morte do vô Luiz, quando a família já tinha se separado, migrado quase toda para São Paulo. Depois, veio o tempestuoso 1974, quando meu pai morreu em março, meu tio, em junho, e meu irmão nasceu em setembro. Fomos, assim, os netos próximos, objetos do amor da dona Chica, uma mãe, sobre todas as coisas, cujos filhos estavam distantes. Ela vira muitos partirem. Outros fizeram seu caminho. E muitos caminhos longe dela. Mas não nós, seres que, depois do dilúvio, ela poderia ver crescer.

Crescemos diante dos seus olhos, sob a proteção prestimosa da vó Chiquinha. Cresci criança, sem susto. Apesar dos moleques da escola, eu era feliz, pedaço de gente trepado em árvores: pés de manga, à vontade, jabuticabas e jacas esperando para serem roubadas. A cidade tinha, no auge do ciclo do café, 8 mil habitantes. Depois diminuiu. Era um mundo imenso a explorar. Nunca senti tédio lá. Cada quintal tinha suas árvores e seus sabores. Cada pequena coisa carregava o universo. Deus sabe como amei aquele lugar.

O quintal da vó Chiquinha era uma planeta imenso, cheio de aventuras. Meu irmão no encalço, saíamos para caçar tigres no pequeno cafezal, escondidos de pé em pé. Otto, o cão pastor da vó, vigiava, para que o tigre não nos atacasse de forma traiçoeira. Tigres são muito furtivos, eu lembro. Depois, o Otto virava tigre e eu lutava contra ele, para proteger meu irmão muito pequeno sequer para cavalgar o felino-canino. Eu subia nas costas da fera, abria com força sobrehumana sua mandíbula mortal. O Otto me amava. Era recíproco.

A vó ficava ali, do lado, com o torrador de café, numa fogueirinha no meio do quintal. O cheiro se espalhava por tudo. Assim, comecei a amar café. Já exaustos de caçar tigres e de lutar com o Otto, a vó chamava para o café água-com-batata que ela passava para a gente depois de ter passado o café forte para os adultos. Pão feito em casa, pelas mãos zelosas de uma vó, e nata batida com sal.

Assim, protegido, eu era destemido. Nadava rios de meio até um metro de profundidade; jogava bola no areião vermelho; andava de bicicleta a tarde toda; fazia represas no quintal; construía casas nas árvores.

Era dono do mundo e não temia nada, nem a mais terrível das ameaças. Um dia, fui confrontá-las, com fogo, para forçá-las a fugir, deixando o mel abandonado. O Toninho dizia:

– Mais para o meio.

Num movimento instintivo, furei a colmeia. Então aprendi: tigres são dóceis; abelhas não. Nem vi para onde correu o Toninho. Eu, picado e perseguido, corri sem ver nada, numa velocidade impressionante, para a casa do vó Chiquinha. Mesmo assim, perdi para as bestas voadoras. Cheguei cheio de picadas, para o colo mais seguro do mundo. Ela se compadeceu, sentiu minha dor, cuidou de mim. O Otto olhava, sem entender, o choro mais sofrido do mundo.

Sentado no colo dela, aprendi muitas coisas: as estrelas no céu são furos no manto de Nossa Senhora; o anjo da guarda dorme, às vezes; as pessoas quando morrem vão para o céu. Minha vó sabia tudo, só não sabia ler. E me levava para a missa, para aprender mais ainda e ler o missário para ela. Depois, cansado, dormia ouvindo as canções que a voz mais doce do mundo cantava:

“Mãezinha do céu,
Eu não sei rezar
Eu só sei dizer
Que quero te amar
Azul é teu manto
Branco é teu véu
Mãezinha eu quero
Te ver lá no céu.”

Assim, me fiz coroinha. Quis ser padre, porque ela me ensinou assim. Ela me ensinou o sagrado e também as coisas carnais, como o amor pela mesa farta, como ela amava. E comia, até não aguentar mais. Depois dizia:

– Comi tanto que fiquei até triste.

E nestas horas mais festivas, ela esquecia Deus e cantava coisas mais profanas:

“Mulher não beba pinga
Que eu te compro um vestido.
Vestido tira o sentido, marido.
Pinga pra nóis bebê.
Mulher não beba pinga
Que eu te compro um chinelo.
Chinelo deixa o pé amarelo, marido.
Pinga pra nóis bebê.”

Assim, ela misturava Deus e comida. Me ensinou a gostar de tomar vinho, misturado com coca. “Portaberta”, dizia ela. Fazia coxinhas, as mais gostosas que já provei. Vendia para o Seo Felício, dono do bar da esquina, onde paravam os ônibus que chegavam e saíam da cidade. A cada leva de coxinhas, eu e meu irmão ganhávamos bolinhas redondinha de massa feitas especialmente para nós. Fazia também rosquinhas de pinga, que nós amávamos, tanto quanto polenta com frango ao molho. Tudo vinha dela. A comida e os jogos. Ela nos enganava com bolinhas massa para que a gente não comesse as coxinhas que eram seu ganha-pão, mas, por vezes, ela se deixava enganar.

Meu irmão sussurava:

– Acho que ela não tá vendo.

Então, saíamos do nosso disfarce, nas redes, e íamos, alegres, roubar bombons feitos em casa subindo pelas prateleiras da despensa. Depois, saíamos correndo para comer escondido dentro da rede. Ela sabia, mas fingia que não. Em quase tudo que sou, vejo as mãos dela, como a massa reconhece a mãos que preparam o pão.

Vó Chiquinha Nasceu em ano bissexto, bem no dia que encomprida um ano a cada quatro. Fazia aniversário um ano sim, três anos não, sempre no dia 29 de fevereiro. E brincava com a coincidência.

– A vó não pode casar por que não tem 21 anos ainda, mãe?

E a mãe ria.

Quase “20 anos” já. As rugas fundas. O olhar negro na maioria das vezes perdido em algum lugar dentro dela mesma. Para a cidade, era um monumento, como um ponto turístico. Mas ninguém via as rugas da dona Chica tão fundo quanto nós. O sorriso largo de dentadura, os longos cabelos trançados em coque, o corpo redondinho como uma bolinha de coxinha sempre enfeitado com um vestindinho de chita. Tudo se movia, todos os músculos no rosto quando ela nos via, seus netos favoritos. E as rugas ficavam mais fundas no sorriso.

Era assim, existir feliz existir perto dela. Até o dia em que o amor que sentem por nós no mundo diminuiu bruscamente. Eu já adulto, sem dar por mim o tanto que perdia, esquecido de tudo em mim que provém dela.

E o vestidinho de chita parou de farfalhar.

Hoje, no dia em que faço quarenta anos, minha memória é clara. As lembranças vêm em flashs e sou capaz de jurar que lembro daquele sorriso no hospital, quando ela me pegou no colo pela primeira vez e eu a conheci.

Lembro de tudo que me marcou e tento lembrar das coisas tolas e de outras que compõem a matéria de que sou feito. Lembro que sou teu neto. E parece que sou seu neto mais que qualquer coisa no mundo.

Cantam feliz aniversário. Eu, por dentro, canto:

“Vózinha do céu
Eu não sei rezar…”

Olhos de cão

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Sabujo, matreiro, vadio o cão e os olhos do cão, cheios de pecados. Os olhos com que ele olhou para ela reprisavam o Cristo sofrido na cruz, resignado. Olhos de cão encurralado, ladrão, sobrevivente pela mentira, pelo engano, e ele nem grunhiu. Queria pena e plantou flores para seduzi-la, induzi-la a erro. Eram lindas, sim, as flores. E mentiam, com a mesma beleza.

Ela perdoou. Viu vazio naqueles olhos. Acreditou, porque precisava acreditar. Via nos cães pureza, desde a infância, seres mágicos, como cavalgadas de amor principesco. Ela aceitou as desculpas e amou o cão.

Ele desconfiou. Ela perdoou rápido demais. Mas, por fim, desfez o medo e lançou sobre ela seus olhos, vitoriosos, senhor de si, de todo território, feliz por não perdê-la. Depois de ter escapado, cão sabujo, certo de seus pecado, nada o tornaria mais seguro que o perdão improvável. Era senhor da casa e latia afugentando todos os que quissessem se aproximar dela. Botava medo com seu dentes ameaçadores e seus débeis olhos de cão.

Ela deixou que ele latisse, que se apoderasse da vida dela, que a cercasse e a protegesse. Então, ele, cão vadio, voltou a vadiar. Atravessava a cerca, fornicava na rua, era visto em cenas impróprias e indignas, mas voltava ronronando, como um gatinho, a tempo. Ela esperava seu cão, laborioso cão.

Então, um dia, ele viu nela menos que na rua. Cansou de protegê-la. Ela não valia isso. Então, atacou as flores do jardim e partiu, olhando para trás, sem dó nem arrependimento, com seu olhos de cão.

É da natureza dos cães.

Sem cura II

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Sou sem cura,

Apaixonado,

Vislumbrado

Pelo teu corpo,

Uma silhueta

De estatueta,

Perfeita

E pouca estatura,

Sem cura.

Sou sem cura.

Se eu despencar

Do oitavo andar

E tentar voar,

Feito astronauta,

Vendo meu pan,

Tocando flauta,

É só fissura,

Sem cura.

Sou sem cura,

Desprotegido,

Ao teu lado,

Escondido,

Assustado,

Massacrado

Pela tua força

Quebrando minha estrutura.

Sem cura.

(1990)

Sem cura

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Sou sem cura

…batendo,

…viajando,

…bebendo,

…demente,

…pedindo carona,

…dormindo na estrada.

Sou nada,

Somente secura.

Sem cura.

(1990)

Castigo (poesia anônima)

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Devolve os pobres olhos que perdi

E que te habitam desde o dia em que te vi,

Mas se eles já sofreram tal castigo

E tantos danos, tantos enganos

Tal rigor que a dor os fez inúteis,

Guarda-os contigo.

Devolve o coração que te foi dado

Sem jamais cometer qualquer pecado.

Porém se ele contigo já aprendeu

Como se mata e maltrata

E se tortura uma alma pura,

Guarda também este ex-pedaço meu.

Melhor: devolve olhos e coração

Para que eu possa ver a traição

E possa rir quando chegar a hora

De te ver padecer por alguém

Que tenha o coração tão duro

Quanto o que tens agora.

Tu reinas

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O relógio calou.
Depois, vieram, sem movimento,
Horas de trauma.
O mundo, sem vento,
Estancou.

Cá, dentro de mim,
Dentro do universo onde reinas,
Benevolente e calma,
Sonho que reinas.
Enfim.

Julho/2008

Navalha

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Trabalha, navalha.
minha cara, retalha.
No corte um sorriso entalha,
pois é o que me calha.

Depois, não falha!,
enche meu peito de palha,
meu coração estraçalha.
E o resto… empalha.

Me faz muralha,
como ela, canalha.
Então espalha:
Sou passado, mortalha.

Trabalha, navalha.
Trabalha.

Obs.: Parafraseando Walter Franco, em “Canalha”:

É uma dor canalha
Que te dilacera
É um grito que se espalha
Também pudera
Não tarda nem falha
Apenas te espera
Num campo de batalha
É um grito que se espalha
É uma dor
Canalha.

O bonsai e a pimenteira

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Eles eram lindos: o bonsai e a pimenteira. Um verde, frondoso; outra vermelha, cheia de frutos rubros. Levei-os comigo, para minha casa, para cuidar deles, para trazer vida ao lar, para ensaiar os cuidados com quem em tudo de ti depende.

Porém, por mais zeloso que fosse, por mais que tentasse acertar, o bonsai amarelou e todas as folhas caíram. Ficou um pedaço sem vida de mini-árvore, galhos retorcidos sem verde. A pimenteira também deixou cair seus frutos, feneceu diante dos meus olhos, como cena acelerada do cinema. E o vermelho sumiu.

A casa carregava uma energia pesada, algo estranho presente no ar dali, quase irrespirável. Desesperado, retirei o bonsai e a pimenteira e os levei para o campo, para a casa dos que me amam. Não queria que minhas crianças morressem, mas pareciam cansadas de viver e recusavam a fotossíntese.

Passou o tempo e, então, aconteceu. Um dia, sem motivo aparente, aquela energia se dissipou. Havia caído uma tempestade no dia anterior, mas o céu amanheceu limpo, claro, solar, pronto para produzir vida novamente.

Senti saudades e fui para o campo. Cheguei de noite, na penumbra de um céu limpo e sem lua, pois que a dona redonda se preparava para iniciar um novo ciclo. No céu, vi estrelas cadentes. Várias, como nunca tinha visto. Parei o carro, fiz pedidos, rindo, com a fé que nunca tinha tido.

Foi quando vi, com olhos brilhantes de quem vê um milagre. Ao meu redor, centenas de vagalumes. Sempre amei vagalumes, mas os perseguia em pares, trios, nunca havia sido cercado por centenas deles. Estavam ali, piscando, em torno de mim, num anel de luz.

Há sinais de vida por todo lado. Não sei como não conseguia vê-los. Meu bonsai está verde; minha pimenteira, vermelha; todo dia, vejo vagalumes; e espero, confiante, a realização dos pedidos que as estrelas quiseram me conceder.

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