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Os ausentes

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A casa se enfeitou. Velha e rústica, carregava passado demais, mas parecia jovem. Os perfumes vinham da rua e da cozinha, do quintal, florido de primavera, e do prato favorito do meu vô: um cozido de carnes, com legumes, preparado abundantemente. Ele enchia o prato uma única vez e comia tudo.

Aquele dia misturava os aromas da cozinha com o ar fresco da manhã entrando pela janela, aquela primeira lufada de vento que invade a casa logo ao acordar. Minha mãe arrumara tudo, como lhe cabia. Primeira filha mulher, a ela restara cuidar-lhe. E foi só por isso, pelo imenso amor de filha e por saudades que ela venceu a tristeza daquele dia e acordou cedo, chacoalhou os meninos, filhos e sobrinhos, arrumou as roupas de cada um, os fez tomar banho, os vestiu e alinhou cada roupinha. Esbravejou com os mais velhos, preguiçosos, para que levantassem da cama. Então, arrumou cada lençol, um a um, abriu as janelas, desfez a desordem da manhã depois da noite em família.

Meu vô já estava acordado, como sempre, como todas as manhãs, como homem trabalhador que era, mesmo com músculos envelhecidos e cansados, com poucas das forças de homem rural, como gostava de ser tratado. Meu vô levantou e foi andar pelo quintal, alimentando as galinhas e os porcos. Olhava, com o olhar de nunca mais, um a um dos descendentes da sua prole, vasta prole, de imigrante, como gostava de ser tratado.

Homem de poucas palavras, meu vô era adepto do silêncio. Não falava muito, nem sofria abertamente. Era imigrante rural, dado a rudezas. A casa era simples, de madeira e alvenaria. Tudo feito com muito custo. Quase tudo pelas suas mãos laboriosas, que trabalharam dia a dia, sem reclamar, sem murmúrio, sem incertezas, uma vida inteira.

Aquela casa imensa e rústica só tinha um uso: ser grande suficiente, para comportar sua maior obra. A família chegava. Cada um, conforme as oportunidades da vida, tinha feito outro lar, criado filhos e até netos, como eu. Cada um, conforme as oportunidades e os parcos recursos permitiram, tinha galgado alguma posição social. Meu tio virou caminhoneiro. Muitos primos eram pequenos burocratas, em bancos ou escritórios. Quase metade dos netos fez curso superior. Meu vô se orgulhava de tudo isso. A casa grande era o símbolo da família. Com as partidas, tinha ficado grande demais e vazia. Mas não naquele dia.

Minha mãe saiu rápida:

– Pai…

Meu vô escuta pouco.

– PAI…

Ele virou, lento, com o olhar miúdo e vago que lhe acometeu desde a morte da segunda esposa.

– Pai, vem para dentro. O Júnior está chegando.

Meu vô não disse nada. Caminhou até a varanda e, sem pressa, cumprimentou o filho mais jovem, abraçou, rindo largo, os netos e a nora. Então sentou numa velha cadeira de recosto longo e, mais uma vez silencioso, se pôs a olhar feliz o vago horizonte.

Assim foram chegando os demais, os que não tinham dormido na casa. Barulhentos, netos e bisnetos em grupos faziam fila para beijar o vô. Depois corriam para dentro, para o barulho da família grande e dos primos. Seis filhos, treze netos, noras e genros e a pequena bisnetinha. Os olhos do meu vô sorriam, marejados de lágrimas de alegria de vê-los todos ali. Era a despedida que queria e, mesmo ausente, ele estava feliz.

Diferente dos anos em que a família vestiu luto com a morte lenta e inexorável da minha vó. Naqueles dias, meu vô, como sempre, falava pouco e chorava menos ainda, escondendo a dor dentro de si. Depois, passou a chorar lágrimas solitárias, brevemente, todos os dias, como se tivesse se habituado à dor crônica do câncer. Por isso, tinha um brilho diferente nos olhos. Era um brilho escuro. A morte veio tão lenta que quando chegou, apenas perguntei:

– Por que demorastes?

Minha vó partira depois de longo definhar perante o câncer. Achava que os velhos sorriam, fechavam os olhos e morriam. Não entendia aquela dor toda da minha vó. Nem meu vó.

A morte da tia Ana foi diferente. Ela partiu jovem, sem que pudéssemos dizer adeus. O acidente, trágico, deixou três mortes. Ela desfigurada no caixão, e eu só pensava se ela podia me ouvir, se sussurros chegariam ao céu, dizendo:

– Eu te amo.

Ela foi sem saber o tanto de amor que carregava no coração por ela. Eu me penitenciei por anos, por ser um falso, um mentiroso incapaz de confessar o amor que sentia por alguém, mesmo amor fraterno, amor de família, amor e admiração pela tia mais jovem. O vô se desesperou. Foi a única vez que o vi chorar, copiosamente.

O Guiga, porém, foi de todas as partidas a mais revoltante, esfaqueado em casa, por um estranho que nunca soubemos quem foi. Meu vô retorceu os músculos do rosto com a máscara da revolta. Não derramou lágrima, mas se envenenou com ódio. A sensação de injustiça e de impotência pairou na família por sombrios dias e dias e dias. Infindáveis dias, meses e anos.

Todos sentíamos estas ausências, exceto os mais jovens que não viram os que se perderam de nós. Porém, o dia era de festa, mesmo que tivesse o gosto estranho da despedida. Meu vô andava ausente, pensando no outro mundo. Sofremos, ele sobretudo, cada partida de modos diferentes. De forma letárgica, constante, lenta, na morte da minha vô, definhando dia a dia. Pelo trauma de uma morte inesperada e violenta, cuja culpada era a tia que eu amava. Pelo inconformismo com a morte do meu primo, cujas razões nunca soubemos. Ele carregou seus segredos, pronunciáveis e impronunciáveis, com ele. Os três partiram no intervalo trágico de dois anos.

A quarta ausência era a do meu vô. Era ausência diferente. Ele estava ali, mas todos já o sentiam como não. E, elo familiar, depois da morte dele, sabíamos que nunca mais a família se reuniria, exceto nos funerais, sem prazer, sem gosto, por obrigação, os jovens; por tristeza, os mais velhos.

Assim, era triste dizer adeus para ele. O vô nos olhava como se não tivesse certeza de que voltaria a nos ver. Via seus olhinhos marejados, iguais apenas à tristeza crônica da morte da minha vó. Cada despedida soava definitiva. A surdez piorava nossos abraços partidos:

  • Tchau, vô. Já tô indo.

E brilhavam os olhos míopes de quase 90 anos, marejados de lágrimas. Eram como pérolas reluzentes quando ele se despedia dos netos, entre eles eu. Como ele ouvia pouco, nas despedidas, isso doía. Doía porque a gente queria falar baixinho nestas horas tristes e não gritar a tristeza. Queria dizer baixinho, vô, no seu ouvido: “tchau”, para que nem eu ouvisse. Não gritar para que o senhor ouvisse e tivesse certeza que não fomos sem dizer adues, o que seria imperdoável.

Tudo naquele dia está claro na minha memória. Ele quis cumprimetar a todos, último beijo em cada um dos seus. Ele sabia. Nós também. Ninguém confessaria, mas a família grande tornava aquela despedida crônica, longa, sem fim e sem cura. Para ele, foi leveza. Tendo deixado claro, sem palavras, como era do seu feitio, o quanto ele amava cada um, o quanto se importava, meu vô morreu dois meses depois, no leito de um hospital. Morreu de cansaço, mas tinha o semblante lívido dos que fizeram seu papel, cumpriram sua missão no mundo.

Minha mãe viveu conosco mais dez anos. Sou grato por isso. Ela herdou a força do pai. Eu herdei do vô a imensa incapacidade de mostrar meus sentimentos, mas desde de a morte da Ana tenho tentado melhorar. Mas hoje não dá. Hoje, o que sinto se vestiria de desespero, de perda de tudo ao mesmo tempo. E eu só sei perder um pouco de cada vez. Não consigo estar feliz como o vêo esteve naquele dia, de sentimentos ambíguos. Para mim, só há tristeza, pontilhada com a doçura breve dos beijos dos que amo. Não estou preparado para a morte.

O almoço de despedida do meu vô aconteceu há 30 anos. Hoje, a família se reúne para comemorar meus 67 anos. Poucos lembram do vô. São menos numerosos. Tive apenas dois filhos. Cabemos todos numa mesa grande, de uma casa pequena. Nisto, invejo o nono. Meus descendentes não convivem com nenhuma ausência, exceto a minha. Então, não sabem o que é isso. Os pequenos não entendem sequer isso de hereditariedade, nem sabem que carrego o mesmo câncer que a minha vó.

Para mim, a casa está cheia de lugares vazios. Para mim, além dos poucos descendentes, há muitos outros ausentes. Na minha memória, refaço a despedida do vó e vou marcando mentalmente, um a um, os ausentes. Eu sinto a presença deles, uma presença vazia, mas constante. Não consigo alongar a despedida como o meu avô. Vejo tanto nesta sala, tantos que viveram comigo, que amei, toda uma grande família que passou ou que passará. Não consigo me despedir de todos porque me dilacera saber que quando eu me for mesmo a ausência deles se dissipará de mim. É o dia mais triste da minha vida. Porém, é o dia mais feliz da minha morte, porque todos vieram.

Todos estão aqui. O único ausente sou eu.

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Incondicional

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Ela se chamava Francisca Esperança. O último nome é o meu próprio sobrenome. Estava tudo dito nestas três palavras. Francisca, nome de santo humilde, virou Chica, mais humilde ainda, mais humano, mais próximo. Era o que ela era. Assim, pés no chão, era gente da terra pequena que só existe no interior. Mas olhava o futuro. Imagino ela jovem, com nome de Esperança, olhando aflita para frente, o vestido de casamento, a barriga que crescia, grávida, os filhos que ficavam adultos, os netos… Tudo nela projetava a alegria que haveria de vir. Foi assim que a conheci, já Chica, já com sessenta anos. Ainda assim, no ocaso da vida, cheia de esperança, sempre grávida do futuro, que ela via em nós, seus netos. Por isso, para mim, o mais importante era o nome que ela compartilhava comigo. Todo resto era menor. Ela era minha vó.

Era de dona Chica que a chamavam. Teve dezesseis filhos; perdeu seis, antes que lhe dessem netos. Suportou a vida árdua, no sol escaldante das terras vermelhas onde vivíamos, labutando na cozinha, na lavoura ou na criação de filhos e netos. Construiu sobretudo uma família. E sofreu a distância de todos, pela vida que os levou para longe ou pela morte.

Os anos sessenta foram particularmente duros para a senhora Esperança. A filha Maria morreu de câncer, sem cura. Partiu cedo e linda, como num sonho de contracultura, de viver bem e morrer jovem, mas não tocaram rock. Era diferente. Minha vó perdeu mais de um recém-nascido e sofreu em cada um deles, mas não teve que guardar a voz de um filho na lembrança (e apenas na lembrança) até a morte da Maria. Cenas, gestos, traços de personalidade, palavras, tudo ficaria, então, contra toda promessa de vida, de futuro, apenas na memória. Era um atentado contra tudo que é natural: crescer, reproduzir e morrer, com a promessa do paraíso, como ensinavam os mandamento de Deus. Dois anos depois, o ano de 1962 traria mais tristeza. O primeiro do família a pisar do Brasil, o bisavó João, morreu também, de causas naturais. A morte no seu ritmo normal era menos lancinante. Então, o desfecho, em 1964, daquele começo trágico de década seria morte do marido, meu vô Luiz.

Tudo mudaria então. Os filhos sumiriam no mundo. Ficou um pedaço de família: além da vó Chiquinha, três filhos (meu pai, tio Elídio e tia Madalena), minha prima Cleidinha e minha mãe. Foi assim que eu a conheci, desde o momento em que ela sorria me pegando frágil no colo, mas eu era jovem demais para reconhecer seu sorriso. Isso foi seis anos depois da morte do vô Luiz, quando a família já tinha se separado, migrado quase toda para São Paulo. Depois, veio o tempestuoso 1974, quando meu pai morreu em março, meu tio, em junho, e meu irmão nasceu em setembro. Fomos, assim, os netos próximos, objetos do amor da dona Chica, uma mãe, sobre todas as coisas, cujos filhos estavam distantes. Ela vira muitos partirem. Outros fizeram seu caminho. E muitos caminhos longe dela. Mas não nós, seres que, depois do dilúvio, ela poderia ver crescer.

Crescemos diante dos seus olhos, sob a proteção prestimosa da vó Chiquinha. Cresci criança, sem susto. Apesar dos moleques da escola, eu era feliz, pedaço de gente trepado em árvores: pés de manga, à vontade, jabuticabas e jacas esperando para serem roubadas. A cidade tinha, no auge do ciclo do café, 8 mil habitantes. Depois diminuiu. Era um mundo imenso a explorar. Nunca senti tédio lá. Cada quintal tinha suas árvores e seus sabores. Cada pequena coisa carregava o universo. Deus sabe como amei aquele lugar.

O quintal da vó Chiquinha era uma planeta imenso, cheio de aventuras. Meu irmão no encalço, saíamos para caçar tigres no pequeno cafezal, escondidos de pé em pé. Otto, o cão pastor da vó, vigiava, para que o tigre não nos atacasse de forma traiçoeira. Tigres são muito furtivos, eu lembro. Depois, o Otto virava tigre e eu lutava contra ele, para proteger meu irmão muito pequeno sequer para cavalgar o felino-canino. Eu subia nas costas da fera, abria com força sobrehumana sua mandíbula mortal. O Otto me amava. Era recíproco.

A vó ficava ali, do lado, com o torrador de café, numa fogueirinha no meio do quintal. O cheiro se espalhava por tudo. Assim, comecei a amar café. Já exaustos de caçar tigres e de lutar com o Otto, a vó chamava para o café água-com-batata que ela passava para a gente depois de ter passado o café forte para os adultos. Pão feito em casa, pelas mãos zelosas de uma vó, e nata batida com sal.

Assim, protegido, eu era destemido. Nadava rios de meio até um metro de profundidade; jogava bola no areião vermelho; andava de bicicleta a tarde toda; fazia represas no quintal; construía casas nas árvores.

Era dono do mundo e não temia nada, nem a mais terrível das ameaças. Um dia, fui confrontá-las, com fogo, para forçá-las a fugir, deixando o mel abandonado. O Toninho dizia:

– Mais para o meio.

Num movimento instintivo, furei a colmeia. Então aprendi: tigres são dóceis; abelhas não. Nem vi para onde correu o Toninho. Eu, picado e perseguido, corri sem ver nada, numa velocidade impressionante, para a casa do vó Chiquinha. Mesmo assim, perdi para as bestas voadoras. Cheguei cheio de picadas, para o colo mais seguro do mundo. Ela se compadeceu, sentiu minha dor, cuidou de mim. O Otto olhava, sem entender, o choro mais sofrido do mundo.

Sentado no colo dela, aprendi muitas coisas: as estrelas no céu são furos no manto de Nossa Senhora; o anjo da guarda dorme, às vezes; as pessoas quando morrem vão para o céu. Minha vó sabia tudo, só não sabia ler. E me levava para a missa, para aprender mais ainda e ler o missário para ela. Depois, cansado, dormia ouvindo as canções que a voz mais doce do mundo cantava:

“Mãezinha do céu,
Eu não sei rezar
Eu só sei dizer
Que quero te amar
Azul é teu manto
Branco é teu véu
Mãezinha eu quero
Te ver lá no céu.”

Assim, me fiz coroinha. Quis ser padre, porque ela me ensinou assim. Ela me ensinou o sagrado e também as coisas carnais, como o amor pela mesa farta, como ela amava. E comia, até não aguentar mais. Depois dizia:

– Comi tanto que fiquei até triste.

E nestas horas mais festivas, ela esquecia Deus e cantava coisas mais profanas:

“Mulher não beba pinga
Que eu te compro um vestido.
Vestido tira o sentido, marido.
Pinga pra nóis bebê.
Mulher não beba pinga
Que eu te compro um chinelo.
Chinelo deixa o pé amarelo, marido.
Pinga pra nóis bebê.”

Assim, ela misturava Deus e comida. Me ensinou a gostar de tomar vinho, misturado com coca. “Portaberta”, dizia ela. Fazia coxinhas, as mais gostosas que já provei. Vendia para o Seo Felício, dono do bar da esquina, onde paravam os ônibus que chegavam e saíam da cidade. A cada leva de coxinhas, eu e meu irmão ganhávamos bolinhas redondinha de massa feitas especialmente para nós. Fazia também rosquinhas de pinga, que nós amávamos, tanto quanto polenta com frango ao molho. Tudo vinha dela. A comida e os jogos. Ela nos enganava com bolinhas massa para que a gente não comesse as coxinhas que eram seu ganha-pão, mas, por vezes, ela se deixava enganar.

Meu irmão sussurava:

– Acho que ela não tá vendo.

Então, saíamos do nosso disfarce, nas redes, e íamos, alegres, roubar bombons feitos em casa subindo pelas prateleiras da despensa. Depois, saíamos correndo para comer escondido dentro da rede. Ela sabia, mas fingia que não. Em quase tudo que sou, vejo as mãos dela, como a massa reconhece a mãos que preparam o pão.

Vó Chiquinha Nasceu em ano bissexto, bem no dia que encomprida um ano a cada quatro. Fazia aniversário um ano sim, três anos não, sempre no dia 29 de fevereiro. E brincava com a coincidência.

– A vó não pode casar por que não tem 21 anos ainda, mãe?

E a mãe ria.

Quase “20 anos” já. As rugas fundas. O olhar negro na maioria das vezes perdido em algum lugar dentro dela mesma. Para a cidade, era um monumento, como um ponto turístico. Mas ninguém via as rugas da dona Chica tão fundo quanto nós. O sorriso largo de dentadura, os longos cabelos trançados em coque, o corpo redondinho como uma bolinha de coxinha sempre enfeitado com um vestindinho de chita. Tudo se movia, todos os músculos no rosto quando ela nos via, seus netos favoritos. E as rugas ficavam mais fundas no sorriso.

Era assim, existir feliz existir perto dela. Até o dia em que o amor que sentem por nós no mundo diminuiu bruscamente. Eu já adulto, sem dar por mim o tanto que perdia, esquecido de tudo em mim que provém dela.

E o vestidinho de chita parou de farfalhar.

Hoje, no dia em que faço quarenta anos, minha memória é clara. As lembranças vêm em flashs e sou capaz de jurar que lembro daquele sorriso no hospital, quando ela me pegou no colo pela primeira vez e eu a conheci.

Lembro de tudo que me marcou e tento lembrar das coisas tolas e de outras que compõem a matéria de que sou feito. Lembro que sou teu neto. E parece que sou seu neto mais que qualquer coisa no mundo.

Cantam feliz aniversário. Eu, por dentro, canto:

“Vózinha do céu
Eu não sei rezar…”

Olhos de cão

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Sabujo, matreiro, vadio o cão e os olhos do cão, cheios de pecados. Os olhos com que ele olhou para ela reprisavam o Cristo sofrido na cruz, resignado. Olhos de cão encurralado, ladrão, sobrevivente pela mentira, pelo engano, e ele nem grunhiu. Queria pena e plantou flores para seduzi-la, induzi-la a erro. Eram lindas, sim, as flores. E mentiam, com a mesma beleza.

Ela perdoou. Viu vazio naqueles olhos. Acreditou, porque precisava acreditar. Via nos cães pureza, desde a infância, seres mágicos, como cavalgadas de amor principesco. Ela aceitou as desculpas e amou o cão.

Ele desconfiou. Ela perdoou rápido demais. Mas, por fim, desfez o medo e lançou sobre ela seus olhos, vitoriosos, senhor de si, de todo território, feliz por não perdê-la. Depois de ter escapado, cão sabujo, certo de seus pecado, nada o tornaria mais seguro que o perdão improvável. Era senhor da casa e latia afugentando todos os que quissessem se aproximar dela. Botava medo com seu dentes ameaçadores e seus débeis olhos de cão.

Ela deixou que ele latisse, que se apoderasse da vida dela, que a cercasse e a protegesse. Então, ele, cão vadio, voltou a vadiar. Atravessava a cerca, fornicava na rua, era visto em cenas impróprias e indignas, mas voltava ronronando, como um gatinho, a tempo. Ela esperava seu cão, laborioso cão.

Então, um dia, ele viu nela menos que na rua. Cansou de protegê-la. Ela não valia isso. Então, atacou as flores do jardim e partiu, olhando para trás, sem dó nem arrependimento, com seu olhos de cão.

É da natureza dos cães.

O bonsai e a pimenteira

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Eles eram lindos: o bonsai e a pimenteira. Um verde, frondoso; outra vermelha, cheia de frutos rubros. Levei-os comigo, para minha casa, para cuidar deles, para trazer vida ao lar, para ensaiar os cuidados com quem em tudo de ti depende.

Porém, por mais zeloso que fosse, por mais que tentasse acertar, o bonsai amarelou e todas as folhas caíram. Ficou um pedaço sem vida de mini-árvore, galhos retorcidos sem verde. A pimenteira também deixou cair seus frutos, feneceu diante dos meus olhos, como cena acelerada do cinema. E o vermelho sumiu.

A casa carregava uma energia pesada, algo estranho presente no ar dali, quase irrespirável. Desesperado, retirei o bonsai e a pimenteira e os levei para o campo, para a casa dos que me amam. Não queria que minhas crianças morressem, mas pareciam cansadas de viver e recusavam a fotossíntese.

Passou o tempo e, então, aconteceu. Um dia, sem motivo aparente, aquela energia se dissipou. Havia caído uma tempestade no dia anterior, mas o céu amanheceu limpo, claro, solar, pronto para produzir vida novamente.

Senti saudades e fui para o campo. Cheguei de noite, na penumbra de um céu limpo e sem lua, pois que a dona redonda se preparava para iniciar um novo ciclo. No céu, vi estrelas cadentes. Várias, como nunca tinha visto. Parei o carro, fiz pedidos, rindo, com a fé que nunca tinha tido.

Foi quando vi, com olhos brilhantes de quem vê um milagre. Ao meu redor, centenas de vagalumes. Sempre amei vagalumes, mas os perseguia em pares, trios, nunca havia sido cercado por centenas deles. Estavam ali, piscando, em torno de mim, num anel de luz.

Há sinais de vida por todo lado. Não sei como não conseguia vê-los. Meu bonsai está verde; minha pimenteira, vermelha; todo dia, vejo vagalumes; e espero, confiante, a realização dos pedidos que as estrelas quiseram me conceder.

Tigre onírico

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O vento entra pelo meu quarto, atravessa o corredor e sai pelo quarto da minha filha. Só temos duas janelas, dois olhos imensos para fora. Nada mais. Vivemos aqui: eu, a pequena e o tigre. Cheguei antes, no quarto grande, com cama de casal, um imenso guarda-roupa, cômoda, espelho e outras coisas que nunca soube para que serviam. Depois que ela foi embora, não me interessei mais pela utilidade dos móveis. Durmo apenas de um dos lados do colchão, uso uma metade do guarda-roupa e deixo sempre duas ou três gavetas vazias.
Depois veio a pequena e entendi por que tínhamos dois quartos e usávamos só um. Voz fina, candura doce, minha filha tem seis anos, segundo ela. Ela também tem uma cama com gradinhas, para não cair durante o sono, e um pequeno guarda-roupa, com roupas pequenas e outras coisas, que nunca soube para que serviam. Há prateleiras, cheias de brinquedos largados. A pequena cresce e cansou das traquitanas. Entediada, se apaixonou pelo filhote de tigre. Assim ele chegou. Mas a casa tem só dois quartos. E a cama de casal é ocupada por mim e pelo vazio.
No primeiro dia, o tigre só ronronou, tomou leite e dormiu na cozinha, feliz como um gatinho mal-crescido. Brincamos tanto, eu, o tigre e a garotinha que anda pela casa. E dormimos cansados. O tigre acordou disposto, do tamanho de um gato. Então a casa começou diminuir. Já não quis dormir na cozinha. Preferiu o sofá da sala. Brincamos, nós três: eu, o tigre… As unhas afiadas arranharam meu rosto e a mão da garotinha. Fechamos a porta, fiz um pequeno curativo e fomos dormir.
O tigre nos acordou, com um barulho estranho, mais grave que um ronronar, mais suave que um rugido. Tinha o tamanho de um cão vira-lata e ficou preguiçoso. Não quis brincar, mas aceitava carinho. Afagamos, nós três: eu, a garotinha no espaço vazio da minha cama. O tigre andava por toda casa, arranhou os guarda-roupas e espalhou minhas camisas pelo chão, estraçalhando algumas, enquanto corria pela casa. A pequena está apaixonada pelo felino. Sinto ciúmes.
Não sei onde o tigre dormiu. Não aceita mais nossas ordens. De manhã, ouvi um barulho. O tigre já tem o tamanho do Oto, o cão da mamãe. Arranhava o sofá. Fiquei olhando. Por fim, destruiu o móvel e isso foi bom, por que a casa já não comportava mais objeto tão grande. Não quis carinho e recusou o leite. A pequena brinca com ele, mas, de mim, não aceita nem um afago. Rolam pela casa, em perseguição. Derrubam objetos. Então me preocupei. Um tigre, pela casa, não sei se foi boa idéia. Ainda mais com a casa pequena e diminuindo. Talvez um peixe fosse melhor. Mas a pequena amou o tigre, tanto que começou a dormir com ele, no quarto. Ela deita na barriga peluda e dorme.
O tigre acordou cedo. A pequena sonha. Na cozinha, o felino olha estranho para mim, não bebe o leite pronto no prato e não come nada. Tem o tamanho de um pastor alemão. Ruge para mim. Fico longe. Mas a pequena entra na cozinha, o tigre se acalma e corre para ela. Sente ciúmes de mim. E fome. Sinto-me um intruso, volto ao quarto e durmo, o resto do dia.
De manhã, o tigre está adulto, lindo, exuberante. Não brinca mais com a pequena, para não machucá-la. Protege-a de mim e não a deixa ver TV. Quer atenção total. Não discuto com o tigre. Eles sabem o que fazem. Deixo-os sós e volto para o quarto, para ler sobre tigres, nos velhos livros que guardo sempre no lado vazio da cama. Fico o dia todo trancado. A sala ficou pequena demais para nós três. Leio até adormecer. Sonho que acordo, de súbito. É meia-noite. Caio no sono de novo.
Sonho com um tigre, nosso tigre, do tamanho impressionante de um pôney. Ele acorda de madrugada e se esgueira, silencioso, pelo corredor. Não me vê, por que é meu sonho. Ele empurra a porta e acorda a garotinha, minha filha. Ela fala com ele, mas pouco. Silenciosamente, ele a devora. Ela grita, no começo, mas depois, apaixonada pelo tigre, deixa. Tento fazer algo, mas, no sonho, não consigo me mover.
Acordo assustado. Preocupado com a minha filha, saio da cama de solteiro, por fim, e vejo o sofá arranhado. Corro pelo corredor. Abro a porta do quarto menor. Minha filha sumiu. O tigre também. O quarto está totalmente vazio. Os móveis e brinquedos foram com o vento. Não há marcas de móveis pelo chão. Apenas pêlos de tigre espalhados no carpete. (12 de agosto de 2005)

Trilogia dos tigres
Senhor Devaneio
Os tigres na cidade

Ícaro, de Will Eisner

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Para Gi

Sabia voar. Claro que sabia voar. Nunca tinha saído do chão, mas quando se lançava no ar, de braços abertos, ficava sem tocar a terra por meio segundo. Nunca mais que isso. O problema era a falta de arranque. Com ele, planaria pelo céu azul.
Não precisava nem de testes, nem de cálculos, nem de métodos. Ela sentia, por dentro, que sabia voar. Sentia-se solta, planando no ar vez em quando. Tinha a estrutura dos pássaros, com ossos leves.
E como sabia bem tudo isso, vivia feliz. De tantos, o destino fizera dela um ser especial, dera a ela o dom de voar. Vivia os dias assim. Para que olhar para o lado, se preocupar com as coisas miúdas, problemas do dia? Para que pensar na casa, que, de tão pouco zelo, ficava cada dia mais desorganizada?
Sabia voar.
Para que pensar em toda gente que falava com ela, se ela nem ouvia, apenas percebia que falavam? Falavam o quê? O que importa?
Sabia voar.
Para que pensar nos amigos antigos que sumiam dia a dia, sem que ela soubesse por quê? Para que se preocupar se os amores, aventureiros, não tinham futuro?
Ela sabia voar.
Qualquer coisa, subia alto numa montanha, pulava e partia, batendo os braços. Os problemas ficariam no chão, pesados. Quem sabe voar não precisa se preocupar com o futuro. O futuro de quem sabe voar é voar. E é o chão que sustenta todos os problemas. O ar não.
Ficava a pensar nisso, pés no chão, mas a cabeça já voando. Ela percebia que estava longe, que via o mundo por cima. Nestas horas, sua certeza aumentava. E aumentou tanto que um dia começou planejar. A colina alta, o caminho íngreme, mas não teve dúvidas.
Num dia de sol, com pouco vento, pôs se a subir, a pé, pois quem voa não carrega pertences. Cansou, parou, tomou água, não quis comer para ficar mais leve, e continuou a subir. Subiu, subiu, subiu… O dia já findava quando atingiu o topo e encontrou o ponto perfeito para seu salto, para ganhar o impulso que faltava lá embaixo. Descansou um pouco, mas não quis perder tempo. O sol baixo já anunciava seu poente. Livrou-se, tal qual Diógenes, o filósofo, da cumbuca que trazia para beber água. Não sentia fome, pois confiava. Pássaros sempre têm o que comer.
Olhou o sol, mirou o lugar do impulso e planejou o que faria quando chegasse ao destino do vôo, mesmo que não soubesse onde era. Então, sem vacilar, correu e pulou, de braços abertos.
A 800 metros do chão, tentou planar, apenas esticando as mãos. Até achou que planava, mas, 100 metros abaixo, já sabia que continuava caindo.
A 700 metros, lembrou que os pássaros sempre batem as asas antes de planar e se pôs a bater os braços. Sentiu que voava, mas 100 metros depois, percebeu que não.
A 600 metros começou a pensar no que podia estar errado, pensou que o vento era pouco, mas não seria obstáculo. Quem já ouviu falar de pássaros que só voam em dias de ventania? Então lembrou das roupas, é claro. Qual alado usa roupas? Começou a se despir.
A 500 metros, tinha tirado a calça e o tênis. Já se sentiu mais leve.
A 400 metros, tirou as roupas de cima e se sentiu bem. Muito bem.
A 300 metros, voltou a bater os braços. Em vão. O cabelo longo lhe atrapalhava e a velocidade era muito alta, mais de 60 quilômetros por hora, pensou. Amarrou o cabelo, pois já não tinha nada com que prendê-lo.
A 200 metros, ainda sem voar, pensou que talvez estivesse errada. Talvez não pudesse voar e tivesse sido prudente trazer um pára-quedas. Mas não se assustou, pois tudo haveria de ter solução.
A 100, depois de pensar rápido, lembrou que o chão nunca tinha lhe feito mal. Convenceu-se que não seria agora, com ela tão leve, tão ela, tão confiante de si. Foi só por isso que a preocupação, leve e ligeira que passara pela sua cabeça, desvaneceu.
Então, sorrindo e nua, abriu os braços para carinhar o chão amigo.

Minha alegria para te ferir

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Quando eu estava no chão, ela riu. Só me levantei para cessar aquele riso. Mas ela continuava lá, com ar superior. Foi só por isso que sorri, com os dentes partidos. Ela olhou para mim:

– Caminha!

Obedeci, porque a ordem era um desafio ou porque me acostumei a me mover pelas palavras dela. Virei as costas, não olhei para trás, mas… como senti vontade! Então fui curar as feridas, não porque quisesse. Por mim, ficava ali, sem nada fazer, entregue. Vi no rosto dela certa felicidade de me ver cheio de hematomas. Ela achou engraçado meu sorriso torto, meu rosto inchado. Mas eu vi como a incomodou que eu risse. Foi só por isso que sorri.
Um dia, refeito, eu a encontrei, na rua, mais humana, mais comum, igual a mim. Ela me viu. Ficou assustada. Eu ali inteiro, eu que tinha apanhado tanto, não haveria de ter esquecido. E não esqueci. Meio sem jeito, ela tentou fingir que não tinha me visto. Cheguei perto, armei meu melhor sorriso.

– Bom dia. Tudo bem com você?

Ela respondeu sem jeito, com entusiasmo forçado:

– Sim… E você?

Esperei tanto para dizer isso, para me vingar. Não tive dó:

– Huuum… Estou muito feliz.

Silêncio

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Quedou silente. Depois, nunca mais ouviram uma palavra da boca dela. Chamaram médicos; depois, padres; depois, macumbeiras, feiticeiras, ciganas. Acenderam velas, depois xingaram. Deus continuava mudo; ela também.

Com o tempo, a irmã, desesperada, pôs-se a conversar com ela, todos os dias. Esperava resposta. Mas, depois, se acostumou com o silêncio. Falava sozinha, contava o dia, e respondia por ela:

– Ah, você também acha?

Ou:

– Não. Você não entendeu.

Passava os dias assim, falando com ela, muda, e dialogando com o silêncio. Depois, começou ler livros para a irmã, ainda que ela nada dissesse. Silenciosa, ela ouvia. Silenciosa permanecia.
Em silêncio, saía de casa, pegava o trem e ia para o centro da cidade. Depois voltava, lendo um livro que comprara numa banca da rua central. Não dava informações, não falava com ninguém, mas, no trem, quase ninguém percebia.

Em casa, a mãe achava que ela tinha enlouquecido. “Nada errado, tudo funciona. E essa menina não fala”. Achava que a outra filha tinha ficado doida também de falar a esmo para alguém que não respondia, ainda que parecesse entender. Alguém que não fazia um gesto sequer. Por fim, a mãe se pôs a freqüentar uma igreja, todos os dias. Depois um bar, onde bebia no meio dos homens e falava sem travas na língua, sobre qualquer bobagem. Então, fez sua rotina só chegar em casa depois que todos tinham dormido. E a casa estava quieta.

O marido não gostou. Homem simples, se viu entre três mulheres estranhas. Não entendeu e saiu da casa. Pôs-se no mundo, saiu sem direção, sem destino, pois que os homens não entendem e, quando se perdem, se entregam sem freios ao descaminho.

Mesmo assim, ela não falou. Mas parecia aflita. Quando a mãe deu para beber, chorou. Quando o pai saiu de casa, se trancafiou no quarto por uma semana e, por sete dias, não foi ao centro. Depois saiu e, triste, retomou a rotina. Por fim, acostumou-se a não ver nem pai, longe de casa, nem mãe, sempre rezando e bebendo. A irmã fingiu de novo. Ignorava que a mãe bebia. Perguntava sempre:

– Onde foi a mãe hoje?

Como se a mãe, por coincidência, tivesse sumido naquele dia, mas fosse aparecer no próximo. Daí ela perguntava de novo:

– Onde foi a mãe hoje? Preciso dela, mas pode ser amanhã também.

Parece que nem deu pela falta do pai. Um vizinho batia, ela respondia:

– Volta mais tarde. O pai não está agora.

E levava a vida, sem ninguém com quem falar. Ouvia música, via TV, varria a sala, lia para a irmã, deitava de noite e gritava:

– Boa noite, pai…

– Boa noite, mãe…

– Durma bem, irmãzinha.

Assim passaram meses. Os vizinhos estranharam, falavam pelas ruas, nas bancas de jornal, nas padarias de manhã. Mas ninguém ousou entrar lá e perguntar o que acontecia. Parecia sagrada a casinha de esquina, onde viviam três mulheres doidas. Pensaram em ligar para a polícia, para denunciar o sumiço do pai. Sabe lá Deus o que podem fazer três mulheres doidas. Depois, tempo vai tempo vem, esqueceram e deixaram a casa em paz.

A moça na janela sorria, mas não falava. Ficava ali, por vezes, o dia inteiro, olhando. A vizinhança criou o hábito de cumprimentá-la com um gesto, mas sem palavras. Ela parecia responder. A vida parecia, assim, normal.

Um dia, desavisado, ele passou por ali e, constrangido, disse, sem saber que a casa era sagrada:

– Bom dia Silene. Ainda zangada comigo? Eu voltei, viu…

A moça riu, olhou terna para ele:

– Bom dia, João. Brava não… Tenho algo para te dizer. E só para você.

Os tigres na cidade

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Sei que é verdade: quando cheguei ali não havia cidade alguma. Apenas tigres. Brancos, pretos, laranjas. Sempre os via, caminhando devagar. Nunca corriam, mas também não eram vistos por ninguém, além de mim. Ali, na beira do lago onde os tigres bebiam água, construímos nossa casinha. Trabalhava de sol a sol, com os tigres passeando. Mais de uma vez, jurei que sorriam. E vivemos, dois ou três anos, em paz, nós, os predadores, e os tigres. Vivemos felizes.
Um dia, tudo começou, do nada. Aninha chegou em casa, machucada, com um arranhão. Jurou que tinha caído num arbusto. Desconfiei. Os arranhões eram ferimentos de tigre, tinha certeza. Saí na mesma tarde, para acertar contas. Nenhum felino apareceu. Dormi aquela noite furioso. Vivíamos em paz. Eles não podiam fazer isso.
Acordei cedo. Ana estranhou, mas acordou para me fazer o café. Não disse nada. Não falei também. Só quando peguei a foice ela perguntou onde iria. Nada respondi e saí. Fui caçar tigres. Andei quilômetros, mas nada. Voltei no fim do dia, cansado. Aninha quis saber onde fui. Nada respondi.
Naquele verão, nossos primeiros vizinhos mudaram para perto de nós. Bem que alertei: “cuidado com os tigres”.
– Tigres?
É… Os tigres tinham ferido a Aninha e ido embora, expliquei. Mas podiam voltar. Meus vizinhos não me levaram a sério. Tocaram a vida, plantando e colhendo, de sol a sol.
Passaram-se meses, sem ver nenhum tigre. Foi no inverno quando encontrei o primeiro urso, preto, imenso. Num dia de sol, ele passou calmo, ao longe, e foi beber água no lago. Comecei a me aproximar dele. Até que bebi água a menos de dois metros do urso. Ele então me olhou e, sem nenhum assombro, virou e foi embora, saciada a sede.
Em casa, nada contei. Nos dias seguintes, eles apareciam em bandos: pretos, brancos, marrons e até um preto e branco. Caminhavam devagar, até o lago, bebiam água e partiam. E só. Me acostumei e mantive o segredo. Apenas cuidava para Aninha não se afastar demais da casa.
Um dia, Ana apareceu com um enorme ferimento na perna. Contou sobre o tombo, descuidada. Repliquei que aquilo era uma pataca de urso. Fui até a cidade, comprei uma arma e voltei. O dono da loja estranhou. Disse não haver animais perto do lago para um calibre tão grosso. Pensei em como era ingênuo.
Em casa, Ana tentou me impedir de sair, de noite, sozinho. Em vão. Quase meia-noite, passei pelo vizinho e avisei sobre os ursos. Eles se espantaram, com o era previsível. Talvez comigo; talvez com os ursos. Rodei a noite toda, com uma lamparina, mas nada de ursos. Concluí que eles sabiam, sabiam muito bem que tinham feito algo errado, os urso malditos e os tigres canalhas. Voltei de manhã e dormi, por duas horas.
Quando acordei, Ana tinha partido com Aninha. Os vizinhos não viram nada. Nem Ana, nem Aninha, nem tigres, nem ursos. Não chorei. Apenas botei o pé na estrada. Dois quilômetros depois, vi as malas das duas, com as roupas rasgadas e espalhadas pelo chão.
Temi o pior e me embrenhei no mato. Andei, me arranhei nos arbustos, escorreguei e machuquei a perna. Corri tanto, cansei e, por fim, exausto, caí desmaiado. Era noite quando acordei. Ouvi vozes antes de abrir os olhos. Na penumbra, pude ver vultos humanos. Eram os vizinhos e outros homens da cidade. Com eles, Ana e Aninha. Assustados, ninguém se aproximava. À minha volta, ursos e tigres me protegiam. Do meu lado, o urso preto e branco.
Tentei explicar, mas todo arranhado e com pancadas pelo corpo, não tiveram dúvida: eu era a presa dos animais. Gritaram para que eu atirasse. Não atirei. Quando os ursos e tigres começaram a se retirar, segui com eles, até a beira do lago, onde lavei as feridas e voltei para casa, sob olhares impressionados. Os tigres partiram; os ursos também. Caminhavam devagar.
Desde então, o lugar não parou de crescer. Com a história fantástica de um lago com tigres e ursos dóceis, veio gente de todos os lugares, assustando os animais. Aos poucos, foram sumindo. No verão, foram os ursos brancos, depois o tigres brancos. No outono, foram-se os tigres negros e os ursos marrons. E, no inverno, partiram os tigres amarelos e os ursos pretos. Só o urso preto e branco ficou para a primavera triste que nos restou, escondido no quintal de casa, que dá para o lago. Todo dia, ele brinca com Aninha.
Desde que essa gente veio para cá, todo dia eu olho para a cidade na beira do lago, sinto remorso e choro de saudades dos ursos e dos tigres.

15 de agosto de 2005

Senhor Devaneio

1 Comentário

Este é o primeiro conto que escrevi com um personagem tigre. Nem lembro, hoje, por que fiz isso. Mas gostei da idéia.

Depois perdi a data precisa e tudo ficou enevoado. Mas a sensação da sua chegada não esqueço. Bateu leve seu toc, toquear. Duas vezes. Abri sem pressa. Polido:
– Pois não?
Ele nada respondeu, nem sequer disse seu nome. Não sei como quase desde sempre eu soube como o chamar. Me olhou com seus olhos profundos de tigre e unhas afiadas e dentes pontiadudos. Aconchegou-se em todos os recôncavos da casa, pelas almofadas da sala, nas brechas entre o fogão e a pia, no vão que separa a cama da parede, onde se escondem os monstros na infância. Ocupou, por fim, todos os espaços, cada interstício da minha vida. Não havia lugar para onde olhar sem o ver, com os vidrinhos que trouxe com uns líquidos coloridos. Comecei a ter a sensação de que não olhava mais seus olhos, mas, não raras vezes, através deles.
Eu o chamava de Senhor Devaneio. Tentei perguntas. Nunca me deu respostas. Não lembro nem mesmo de ter dirigido a voz para mim. Silente, fazia matéria de cada palavra que eu dizia, de cada pensamento ou desejo. Tudo misturava, na cozinha, com os líquidos coloridos que trouxe dentro de uns vidrinhos.
E foi estraçalhando, um a um, todos os móveis da casa. Pintou as paredes com cores mutantes. Entrelaçou hoje e amanhã. Levou-me, mas eu não sei bem para onde. Um dia, bem nos primeiros dias, olhei as paredes coloridas e murmurei teu nome:
– Drieli!
Acho que ele ouviu. Jogou a mesinha da sala pela janela. Revirou minhas gavetas e todas as minhas cartas, até as dos envelopes especiais. Cortou minhas reproduções de Van Gogh e Picasso. Quebrou a cama e pôs o colchão na sala. Enrolou o tapete de lã de carneiro. Me encharcou de perfume, de vinhos… Trocou as caixinhas dos meus CD’s. Alterou a ordem dos meus livros. Desmarcou os compromissos da minha agenda.
Zanguei, olhei dentro dos seus olhos com meus olhos de tigre. Senhor Devaneio fingiu que estava tudo bem e me sentou na minha poltrona de leitura, toda arranhada, virada para a parede. Desde que ele ouviu seu nome, por algum motivo, passou a destruir toda a materialidade da minha vida e a descolorir o preto e o branco. Eu também não liguei mais para a casa. Sempre fugia pelas janelas e voltava, amedrontado, pela porta. Ele sempre demorava a abrir.
Um dia, por fim, a porta estava aberta. Pelo vão, vi a casa em ordem (como eu gostava antes de esquecer). Todos os móveis no lugar. Na cozinha, só um resto de passado transbordado.
Senhor Devaneio tinha ido embora. Desde então, não consigo lembrar seu nome, Drieli.

8/02/99

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