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Olhos de cão

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Sabujo, matreiro, vadio o cão e os olhos do cão, cheios de pecados. Os olhos com que ele olhou para ela reprisavam o Cristo sofrido na cruz, resignado. Olhos de cão encurralado, ladrão, sobrevivente pela mentira, pelo engano, e ele nem grunhiu. Queria pena e plantou flores para seduzi-la, induzi-la a erro. Eram lindas, sim, as flores. E mentiam, com a mesma beleza.

Ela perdoou. Viu vazio naqueles olhos. Acreditou, porque precisava acreditar. Via nos cães pureza, desde a infância, seres mágicos, como cavalgadas de amor principesco. Ela aceitou as desculpas e amou o cão.

Ele desconfiou. Ela perdoou rápido demais. Mas, por fim, desfez o medo e lançou sobre ela seus olhos, vitoriosos, senhor de si, de todo território, feliz por não perdê-la. Depois de ter escapado, cão sabujo, certo de seus pecado, nada o tornaria mais seguro que o perdão improvável. Era senhor da casa e latia afugentando todos os que quissessem se aproximar dela. Botava medo com seu dentes ameaçadores e seus débeis olhos de cão.

Ela deixou que ele latisse, que se apoderasse da vida dela, que a cercasse e a protegesse. Então, ele, cão vadio, voltou a vadiar. Atravessava a cerca, fornicava na rua, era visto em cenas impróprias e indignas, mas voltava ronronando, como um gatinho, a tempo. Ela esperava seu cão, laborioso cão.

Então, um dia, ele viu nela menos que na rua. Cansou de protegê-la. Ela não valia isso. Então, atacou as flores do jardim e partiu, olhando para trás, sem dó nem arrependimento, com seu olhos de cão.

É da natureza dos cães.

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A quem possa interessar

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Eu, Mário Messagi Júnior, declaro, a quem possa interessar, que, de hoje em diante, manterei meu coração duro como pedra para que desvarios não mais me façam sofrer.

Declaro que nunca mais serei sincero e meticuloso com os meus gestos para que eles não firam alguém. Nunca mais serei responsável com sentimentos que outra pessoa possa nutrir por mim.

Declaro que não mais me dedicarei com afinco a alguém, nem pensarei em pessoa alguma diariamente sempre que minha mente estiver desocupada de afazeres essenciais.

Declaro que nunca mais me vestirei para uma única pessoa. Não mais farei a barba para ver alguém, nem passarei o meu melhor perfume, nem usarei minhas melhores meias e minha melhores cuecas.

Declaro. para os devidos fins. que meus olhos não mais se voltarão para uma única pessoa. Não mais gostarei exclusivamente de alguém que não seja eu. Nunca mais serei altruísta, nem tentarei fazer da minha vida uma existência paralela à existência de alguém.

Declaro que não mais acreditarei que as pessoas podem viver pacificamente e em comunhão por longos anos, tão longos quanto a vida. Nunca mais afagarei sem segundas intenções.

Declaro que não amarei mais.

Declaro meu coração posse somente minha.

E me declaro posse de ninguém.

Declaro deserto, secura, areia…

Declaro o inverno como única estação.

Data, ponto e assinatura.

 

(1993)

Meu mundinho imenso

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Eu era feliz. Pés de manga, à vontade; rios de meio até um metro de profundidade; roubar jabuticaba e jaca; jogar bola no areião vermelho; andar de bicicleta a tarde toda; fazer represas no quintal; construir casas nas árvores.

Cresci numa cidade de 5 mil habitantes. Era um mundo imenso a explorar. Nunca senti tédio lá. Cada quintal tinha suas árvores e seus sabores. Cada pequena coisa carregava o universo. Deus sabe como amei aquele lugar.

Depois, jurando voltar, fui embora e amei São Paulo, onde fui um pequeno adolescente andando pelos corredores miúdos dos shopping centers. Jurei nunca abandonar, pela segunda vez. Pela segunda vez, menti.

Outro dia, passei pelos dois mundos extremos em que vivi. Esperava diversão de São Paulo, mas só me diverti quando fiquei em casa. A imensidão da cidade quase me matou de privação. Tudo longe, meu espaço era estreito.

Da minha pequena cidade natal esperava morte de tédio. Foram os dias mais felizes do meu ano. Não quis partir. Tudo era livre; o espaço, largo; os amigos, próximos e ternos. A criança que fui estava certa; o adolescente, errado.

Quero voltar. Há muitas aventuras a viver, muitos mundos para explorar.

Lia

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Uma vez, eu amei alguém com muita força e esqueci de dizer a ela. Eu tinha 15, e ela, 23 anos.

Um acidente de carro tirou a vida daquela que era, sem paixão, a mulher que eu mais amava e eu jamais me perdoei por ela não saber do meu amor. Então jurei que sempre diria a quem amo que a amo.

Sou fiel à jura.

(1988)

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