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O poder corruptor da verba publicitária

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O poder público tem obrigação legal de divulgar seus atos. Faz parte da transparência com as ações de Estado. Por vezes, esta obrigação é formal, com a publicação de editais de licitação. Em outras, a comunicação se torna ação de Estado em campanhas de esclarecimentos público como no caso das campanhas de vacinação.

Jornais devem cobrir as ações de Estado. Faz parte do seu papel democrático: vigiar o poder. O jornalismo, ao longo do tempo, se legitimou perante a sociedade pelo seu profundo entrelaçamento com a democracia.

Este é um mundo ideal, mas não existe. Na realpolitik ninguém na Prefeitura de Curitiba nos últimos mandatos deixou de usar da verba publicitária para injetar recursos nos jornais com a perspectiva de comprar a sua postura editorial. Em outras palavras, os anúncios visam não apenas realizar uma ação de comunicação, mas também uma ação política diminuindo o ímpeto das redações para fazer denúncias, para descobrir mazelas, para vigiar o poder público. Azar da democracia; azar do cidadão.

A verba publicitária é utilizada como um poder corruptor. E é impossível identificar o ato como desvio de recursos ou como ilegal, posto que investir em compra de espaço nos jornais, em compra de mídia faz parte das atividades usuais da prefeitura. Legal, mas a-ético, imoral. O mercado nunca ofereceu critérios claros para definir quanto valem os anúncios. Por outro lado, a decisão de anunciar em um veículo e não em outro não se baseia, muitas vezes, em busca de eficácia da ação de comunicação. Ou seja, os valores são aleatórios, assim como, muitas vezes, a escolha dos veículos. A falta de critérios técnicos abre a porta para o uso ilegítimo e imoral dos recursos como instrumento para inibir a autonomia editorial dos veículos e dos jornalistas que neles trabalham. Esta estratégia  se repete, vergonhosamente, há anos.

Uma Curitiba que se queira moderna e progressista não pode incidir nestas práticas mais uma vez. O poder público tem o dever de fazer estudos técnicos e adotar critérios claros de alocação da verba publicitária nos jornais, com já acontece no Governo Federal. Ou seja, o Estado tem dever moral de usar mídia técnica para alocar recursos publicitários. E uma vez destinada a verba para um veículo, mediante contrato, o repasse não pode ser suspenso ou diminuído exceto por razões de ordem técnica, como queda acentuada nas tiragens ou audiência.

O Estado tem o dever de divulgar seus atos, mas também de realizar estudos que justifiquem os investimentos. O dinheiro é público. Seu uso justo e adequado é de interesse da população, da mesma forma que a preservação da autonomia dos veículos de comunicação e das redações dos jornais perante o poder público.

(Texto publicado originalmente no blog http://www.curitibaquer.com)

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Sob penumbra

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Um sopro leve me gela o ombro. As asas do anjo, imensas, o entregam. Ele se esgueira na escuridão, poderoso, imenso, mas silencioso, quieto, calmo, quase imóvel mesmo diante das minhas cenas de desespero, que ele nutre, por vaidade.

Uma leve chama bruxuleia. Quase imperceptível, mas eu a sinto. Quando me viro, o movimento já parou. Pela minha coluna, passa sua energia, que me arrepia, ou o vazio de tudo que drena minhas forças.

O anjo só se deixa ver quando está perto, quando suas asas já nos adornam, quando sua túnica já nos berça, tão escura quando a noite, que parece nem existir. Não vejo sua face escura. É uma imagem de foto em contraluz. Eu sei que ele esta ali, vejo seu vulto, mas não distingo os traços do seu rosto.

Se sua presença é inconfundível para mim é porque ele frequenta meu quarto e minha alma há algum tempo e aprendi identificar seus sinais e me preparar para a sua chegada. Não que isso diminua a dor, mas aprendi a conviver com ela e estar lívido, adormecido o máximo que eu puder, mantendo sob controle meus atos extremos.

Ele veio; ele virá de novo. E sempre e sempre enquanto as portas estiveram abertas. Minha vida é uma casa sem trancas. Sempre será.  Não consigo evitar seus passos no escuro, ser noturno que nunca quer ser visto. Já admiro a beleza da sua forma, a calma que antecede as chuvas torrenciais. Ele é belo, imóvel, acho que ri quando choro. Ele deve estar feliz agora.

Eu vejo seus sinais como a fumaça que denuncia o fogo extinto recentemente. Primeiro, a melancolia, o desprazer em tudo, uma sensação de permanente tristeza contra furtivos intervalos de alegria. Depois a sensação de nada que invade o quarto, a sala, a cozinha, o banheiro, debaixo do meu cobertor e por dentro da minha carne. Por fim, o tempo que se dilata, vazio de todas as coisas, e as energias que se dissipam. E eu espero, vendo as horas me corroerem, sem nenhuma reação.

Datas, prazos, projetos, tudo se acumula no futuro assustador quando terei que enfrentar as consequências dos meus atos, quando o amor que sinto por ele não servir mais de justificativa. Sentirei de novo o desejo de isolamento e de fuga, mesmo sem saber do que ou para onde.

E vou desejar, rezar, orar, tomar drogas, falar, pedir ajuda espiritual, qualquer coisa para conjurar sua presença. Pois me vejo muito nu quando ele está aqui, vejo minha própria face sombria e não gosto.

Mas tu, anjo, não vais embora. E escrevo textos para ti, como um gesto de amor e de ódio, para que partas ou para que fiques. Mas respeite meu silêncio, meu jeito de sofrer por dentro, minha angústia sem mover nenhum músculo do rosto.

Apenas calma e tristeza, pois és tão presente em meus dias que talvez eu já não consiga me imaginar sem você, meu anjo obscuro. Me proteja, então, da vida.

Periferia, meu bem!

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Esta é a rua do comércio, na Vila Nossa senhora da Luz. Tomei muito café numa padaria logo ali na entrada. Veja mais fotos da Vila no blog de Rosmil Paiva (http://rosmil-paiva.blogspot.com.br/2010/07/fotos-vila-nossa-senhora-da-luz.html).

Periferia. 22 horas. Já comi ali, várias vezes. O lugar é amistoso. Na frente do Terminal do CIC, o espetinho custa R$1,00. Até recentemente custava R$0,50.

– Subiu?, pergunto. Não faz dois meses paguei R$0,50!

O dono do ponto responde, sem jeito.

– É, tive que subir. Não tava compensando.

Operários de fábrica, funcionários de empregos médios, trabalhadores de diversas atividades e estudantes dos colégios da região Sul sempre passam por ali a este horário. Alguns param para comer. Além de espetinho, há dois pontos de venda de cachorro quente. Morei no bairro por anos. Não vivo mais ali, mas me sinto e me misturo com eles como se fossem meus vizinhos. E são, de certa forma.

– Tem cerveja gelada?

– Acabou. Só tem guaraná agora.

– Serve.

Converso coisas triviais. Pergunto sobre o movimento. O ponto de espetinho está ali há dez anos, ao lado da Vila Nossa Senhora da Luz. Quando pisei no bairro pela primeira vez, a polícia, diziam os rumores que corriam abertamente, não pisava na Vila sem autorização dos traficantes. Hoje, a coisa está bem melhor.

Pego um espetinho e volto para perto do meu carro, ainda sem pagar nada. Nenhum alarde. Ninguém sai sem pagar. O dono sequer conta quantos espetinhos cada um comeu. Os clientes mesmo contam. Me aproximo de um sujeito que está sempre por ali, cuidando dos carros. Explico que estou fazendo uma matéria, que morei no bairro, mas que sou jornalista agora. Explico que vou escrever um texto sem revelar os nomes de ninguém para uma publicação universitária. Pergunto sobre o “Tá limpo”, famoso ponto de vendas de drogas. O “Tá limpo”, conta meu informante desconfiado, não tem o melhor pó. Ele me indica outro lugar. Agradeço e digo que vou antes comer mais espetinhos.

Ali no meio da Vila convivem traficantes e famílias de trabalhadores. Todos sabem quem é quem. Os usuários de drogas que alimentam o tráfico não são, na sua maioria, moradores do bairro. São estrangeiros, fáceis de identificar pelo comportamento excessivamente amistoso e pouco natural. Querem parecer da periferia, para passarem incólumes, mas não conhecem os códigos. São fáceis de perceber, demonstram medo e muito preconceito.

Para quem mora no CIC e não está metido no tráfico, o lugar, hoje, é seguro. Costumava tomar café da manhã numa padaria na Vila, além de levar equipamentos eletrônicos para consertar num técnico próximo da Praça 8. Me sinto, efetivamente, mais em casa aqui do que no centro, onde morei. Há, na periferia, um sentido comunitário, as pessoas se reconhecem, sorriem, têm consigo a honestidade e solidariedade típica das classes operárias. Pessoas simples, querem apenas viver bem, um pouco de diversão no final de semana, filhos trabalhadores e honestos, mas as condições materiais são, muitas vezes, precárias. As coisas nem sempre vão tão bem quanto se deseja.

– Vocês já foram roubados por aqui?, pergunto, enquanto como um espetinho, depois de me identificar como ex-morador e jornalista.

Um homem com menos de quarenta anos responde.

– Não, nunca. Roubaram o som do meu carro duas vezes, no Batel. Em uma, levaram o tampo do porta-malas do Gol com as caixas de som, debaixo do braço.

Outro conta:

– Meu carro, roubaram no centro. Nunca mais achei. Mas aqui nunca me roubaram nada.

– Você acionou a polícia?

– Sim, mas fiquei sabendo bem rápido, por camaradas, que eles não iam fazer nada se eu não oferecesse recompensa, como fazem as empresas de seguro. E que se achassem meu carro inteiro poderiam depená-lo na própria delegacia. Daí, desisti.

Ao contrário do que parece, a periferia é muito pacífica. Aparentemente, há algumas vantagens em viver longe da grana que flui nos bairros mais abastados. A ganância não opera de forma tão evidente, mas opera.

O tráfico ainda é uma mácula e, sobretudo, a estruturação de um poder paralelo, armado, para lhe dar cobertura. Por isso, os pontos de venda acabam sempre nos lugares mais vazios do Estado de Direito, como a Vila. É no tráfico que a ganância, estranha à maior parte da população periférica, faz mais estragos. A questão não é a droga; é o dinheiro que vem com ela.

Saio de carro, de volta para o meu bairro atual. Madrugada vem chegando. No caminho, passo por um ponto de prostituição, bem ao lado da Vila. Paro e duas meninas vêm falar comigo. Não têm mais que 20 anos, mas estão envelhecidas e feias, moram ali perto e se prostituem para comprar drogas. Claro que não me contaram nada disso, mas todos no bairro sabem. Pergunto o preço:

– R$20 o programa. R$10 sexo oral.

– Qualquer uma?

– Pode escolher, meu bem.

Conversamos mais algumas coisas, mas digo que estou com pressa, dou R$10 para cada uma, recuso o programa, e vou embora. No carro, me arrependo de ter dado o dinheiro. Parece que paguei por informação, o que não me agrada nada. Mas, no fundo, sei que elas encerraram a noite de prostituição com este último “cliente” e que meu dinheiro agora vai comprar alguma droga. Idiota, fui ser jornalista e por vias tortas acabei alimentando o tráfico de drogas na periferia.

Sei que elas iriam usar drogas esta noite de qualquer forma, mas me sinto conivente. Mas um pensamento me atordoa mais. Talvez eu esteja mesmo me tornando um burguesinho do centro da cidade que pensa que dinheiro recompensa tudo.

– Não na periferia, penso.

Tenho que me lembrar disso. Tenho muito que me lembrar disso para nunca esquecer que, no fundo, gosto de precisar de pouco, como aprendi na periferia. Tenho que me lembrar que grana não é tudo.

 

P.S.: Crônica escrita para a revista Coré-etuba, Trabalho de Conclusão de Curso da minha ex-orientada Marina Feldman.

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