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Ensinem as meninas

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Há um diálogo impressionante em Closer – Perto demais, em que o personagem de Clive Owen diz que as mulheres não entendem a guerra por que elas são o território. Não por acaso, o texto é acompanhado por imagens de uma boate. Na balada, esta lógica, que as mulheres não entendem, é evidente. Abordar uma garota é um procedimento de guerra, cheio de preparativos até a missão diplomática e a invasão do país alheio.
A conquista da fêmea pelo macho é um jogo de sedução, cheio de protocolos, estratégias e conjunturas. Na adolescência, o jogo, por vezes, tem requintes de crueldade. Há mulheres que se especializam em atrair os homens para poder rejeitá-los, como se o importante fosse ser desejada. E ponto.
O jogo tem mudado, é verdade. As mulheres estão menos passivas. Começam a assumir isso como um direito de fêmea, abordam os homens, dão o primeiro passo no jogo. Não entendem a guerra, mas participam dela. É um avanço no comportamento? Longe disso. As mulheres não questionam o comportamento dos homens, apenas o repetem. A corte (a conquista cortejando as mulheres) é um avanço em relação ao tratamento da mulher como bem de posse, transmitido do pai para o noivo ou, antes disso, como parte dos despojos de conquista. Violentar as mulheres, como nas guerras medievais, tomá-las à força já não é um comportamento aceito. É crime.
Olhamos para o passado como bárbaro, irracional e opressor das mulheres. Não vemos, porém, o tipo de opressão que a corte impõe sobre ambos os sexos, mas, sobretudo, não vemos as armadilhas impostas às mulheres. Os homens, na competição com seus pares, têm a conquista como régua da masculinidade. Eles se gabam entre si das fêmeas que levaram para a cama, fazem contas, placares. Valorizam a variedade e a intensidade da conquista. Em outras palavras, é mais macho quem come mais mulheres.
Por trás deste comportamento reside um machismo indisfarçável, mas poucas vezes percebido. A conquista pressupõe o conquistador (homem) e o território conquistado (mulher); a caça e o caçador. Nenhum país pode ter dois governantes, mas um governante pode ter diversos países. Os homens agem assim. Conquistam, pilham, partem para outro. Valorizam, entre si, a multiplicidade de parceiras, as conquistas, sinal de virilidade. As mulheres são censuradas por se comportarem assim, muitas vezes pelas próprias mulheres. Um caçador pode ter várias presas. As presas não podem ser caçadas por vários caçadores.
Ensinam as meninas a se comportarem assim e a defenderem a monogamia, o amor eterno. Ensinam a elas o que é mais conveniente aos homens. Para eles, a poligamia não é censurada. Pelo contrário, é enaltecida. A revanche vem, como hoje, pela repetição do comportamento. Os homens, agora, são objetos de conquista, mas as mulheres têm muito mais pudores com a variedade. Envergonham-se se agarram mais que um menino numa noite ou se mantêm vários amantes ou são censuradas por isso. Esperam que o homem se aproxime. Isto jamais é visto como machismo, mas é. A passividade na conquista é a passividade na relação.
Mas as mulheres não percebem. Por isso, defendem o modelo de casamento monogâmico atual, não fazem acordos com seus parceiros. Implicitamente, o modelo está dado: ela, romântica, deve preservar-se fiel; ele, nem tanto. É um completo otário se o fizer. As mulheres, no entanto, continuam crentes e defendem este modelo. São ensinadas assim desde pequenas, quando ganham bonequinhas para ficar em casa, enquanto os meninos ganham carrinhos, signo de liberdade de movimento, de autonomia. São educadas para não ver. E não vêem.

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Os tigres na cidade

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Sei que é verdade: quando cheguei ali não havia cidade alguma. Apenas tigres. Brancos, pretos, laranjas. Sempre os via, caminhando devagar. Nunca corriam, mas também não eram vistos por ninguém, além de mim. Ali, na beira do lago onde os tigres bebiam água, construímos nossa casinha. Trabalhava de sol a sol, com os tigres passeando. Mais de uma vez, jurei que sorriam. E vivemos, dois ou três anos, em paz, nós, os predadores, e os tigres. Vivemos felizes.
Um dia, tudo começou, do nada. Aninha chegou em casa, machucada, com um arranhão. Jurou que tinha caído num arbusto. Desconfiei. Os arranhões eram ferimentos de tigre, tinha certeza. Saí na mesma tarde, para acertar contas. Nenhum felino apareceu. Dormi aquela noite furioso. Vivíamos em paz. Eles não podiam fazer isso.
Acordei cedo. Ana estranhou, mas acordou para me fazer o café. Não disse nada. Não falei também. Só quando peguei a foice ela perguntou onde iria. Nada respondi e saí. Fui caçar tigres. Andei quilômetros, mas nada. Voltei no fim do dia, cansado. Aninha quis saber onde fui. Nada respondi.
Naquele verão, nossos primeiros vizinhos mudaram para perto de nós. Bem que alertei: “cuidado com os tigres”.
– Tigres?
É… Os tigres tinham ferido a Aninha e ido embora, expliquei. Mas podiam voltar. Meus vizinhos não me levaram a sério. Tocaram a vida, plantando e colhendo, de sol a sol.
Passaram-se meses, sem ver nenhum tigre. Foi no inverno quando encontrei o primeiro urso, preto, imenso. Num dia de sol, ele passou calmo, ao longe, e foi beber água no lago. Comecei a me aproximar dele. Até que bebi água a menos de dois metros do urso. Ele então me olhou e, sem nenhum assombro, virou e foi embora, saciada a sede.
Em casa, nada contei. Nos dias seguintes, eles apareciam em bandos: pretos, brancos, marrons e até um preto e branco. Caminhavam devagar, até o lago, bebiam água e partiam. E só. Me acostumei e mantive o segredo. Apenas cuidava para Aninha não se afastar demais da casa.
Um dia, Ana apareceu com um enorme ferimento na perna. Contou sobre o tombo, descuidada. Repliquei que aquilo era uma pataca de urso. Fui até a cidade, comprei uma arma e voltei. O dono da loja estranhou. Disse não haver animais perto do lago para um calibre tão grosso. Pensei em como era ingênuo.
Em casa, Ana tentou me impedir de sair, de noite, sozinho. Em vão. Quase meia-noite, passei pelo vizinho e avisei sobre os ursos. Eles se espantaram, com o era previsível. Talvez comigo; talvez com os ursos. Rodei a noite toda, com uma lamparina, mas nada de ursos. Concluí que eles sabiam, sabiam muito bem que tinham feito algo errado, os urso malditos e os tigres canalhas. Voltei de manhã e dormi, por duas horas.
Quando acordei, Ana tinha partido com Aninha. Os vizinhos não viram nada. Nem Ana, nem Aninha, nem tigres, nem ursos. Não chorei. Apenas botei o pé na estrada. Dois quilômetros depois, vi as malas das duas, com as roupas rasgadas e espalhadas pelo chão.
Temi o pior e me embrenhei no mato. Andei, me arranhei nos arbustos, escorreguei e machuquei a perna. Corri tanto, cansei e, por fim, exausto, caí desmaiado. Era noite quando acordei. Ouvi vozes antes de abrir os olhos. Na penumbra, pude ver vultos humanos. Eram os vizinhos e outros homens da cidade. Com eles, Ana e Aninha. Assustados, ninguém se aproximava. À minha volta, ursos e tigres me protegiam. Do meu lado, o urso preto e branco.
Tentei explicar, mas todo arranhado e com pancadas pelo corpo, não tiveram dúvida: eu era a presa dos animais. Gritaram para que eu atirasse. Não atirei. Quando os ursos e tigres começaram a se retirar, segui com eles, até a beira do lago, onde lavei as feridas e voltei para casa, sob olhares impressionados. Os tigres partiram; os ursos também. Caminhavam devagar.
Desde então, o lugar não parou de crescer. Com a história fantástica de um lago com tigres e ursos dóceis, veio gente de todos os lugares, assustando os animais. Aos poucos, foram sumindo. No verão, foram os ursos brancos, depois o tigres brancos. No outono, foram-se os tigres negros e os ursos marrons. E, no inverno, partiram os tigres amarelos e os ursos pretos. Só o urso preto e branco ficou para a primavera triste que nos restou, escondido no quintal de casa, que dá para o lago. Todo dia, ele brinca com Aninha.
Desde que essa gente veio para cá, todo dia eu olho para a cidade na beira do lago, sinto remorso e choro de saudades dos ursos e dos tigres.

15 de agosto de 2005

Pequenos projetos

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Cada um de nós tem lá seus pequenos projetos. Coisinhas miúdas, talvez afazeres do dia-a-dia, pequenos planos que completam, de alguma forma, nossa vida. Temos grandes projetos, mas não vivemos só em função deles.
Regar uma flor para vê-la crescer, desabrochar e morrer (por que temos que amar o ocaso das coisas também). Plantar uma árvore, ganhar um beijo de manhã, ouvir “obrigado” de alguém especial. Arrumar a casa.
E quem vai nos impedir?
Há um amigo meu cheio de grandes projetos: ser pai, terminar a tese de mestrado, manter o casamento dele, ser professor na UFPR. Mas, mesmo deste tanto que se há para fazer e para se preocupar, ele cuida também de sempre levar um livro interessante de presente para um sobrinho que mora em Minas. Um pequeno projeto: produzir um leitor, criar o gosto pela leitura, incentivar o amor pelas palavras.
Um dia eu sonhei milhares de pequenos projetos com você. Te dar presentes no Natal, ler poemas de Camões para você, ler trechos de O pequeno príncipe, viajar contigo, te escrever cartas e mais cartas, te levar para ir me ver jogar futebol, ir te ver jogar handball, andar de bicicleta contigo, ir ao cinema ver Grandes esperanças. Servir seu chá antes de você dormir e arrumar a meia no seu pé, para você não passar frio.
Tudo em vão.
Mas se um dia você estiver por aí, sem ter no que pensar, e lembrar de mim… e se um dia você ficar pensando naquilo que nunca foi, mas poderia ter sido… e se um dia você tiver a curiosidade de saber como eu te via (e vejo)… saiba: você foi, e por não-sei-quanto-tempo ainda será, a origem e a meta dos meus pequenos projetos mais importantes.

(Carta escrita em 28 de junho de 1998)

Ataque falso; defesa verdadeira

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A imprensa está furiosa. Depois de tanto, de “informar” sobre os crimes e delitos dos congressistas e, sobretudo, do PT, as absolvições no plenário da Câmara não cessam. Já são quase treze, número emblemático. Os deputados cederam às pressões da mídia, quando reduziram seus pagamentos e os dias de recesso. Depois, fizeram ouvidos de mercador aos ataques da imprensa, que não cansou de chamar de pizza o resultado das votações dos processos de cassação.
É verdade que há algo de estranho na nossa democracia. Por um lado, os parlamentares não representam seus eleitores, pois o sistema, nominal, de eleição produz votos por amizade, por conhecimento, por várias razões, mas quase nunca por que o sujeito em quem se vota representa posições que o eleitor gostaria de ver representados no Congresso. Efetivamente, nosso parlamento reflete o grau de amadurecimento político do país, mas os parlamentares, neste modelo de financiamento e eleição, representam, quase sempre, quem os financia, não quem os elege, em última instância.
O segundo aspecto canhestro da nossa democracia é a presença de meios de comunicação poderosos, que não se subordinam a nada e que agem sem nenhum freio legal que os responsabilize por seus atos. Aliás, como em qualquer democracia: liberdade de dizer, com responsabilidade pelo que é dito.
Há um sistema corrupto, que envolve congresso e meios de comunicação, propriedade, em grande parte, de poucos conglomerados aliados a bancadas poderosas. Nestas bancadas, estão alguns dos mais canalhas dos congressistas, fiéis representantes dos interesses dos conglomerados de comunicação. Sem tal representação, não seria possível barrar qualquer tentativa de regulamentar a área. Não teria sido possível inventar a TV a cabo elitista que temos no Brasil. Não seria possível deixar a lei da radiodifusão comunitária ser influenciada integralmente pela ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV). Não seria possível matar projetos de menor impacto, como a Lei de Imprensa, a criação do Conselho Federal de Jornalismo e da Ancinav (Agência Nacional de Cinema e Audiovisual).
Quando a imprensa pede à população que vote com consciência, faz um discurso bonito e inócuo. Quando exige punição a tudo e todos, defende uma devassa sem regras, justiça imediata, mesmo que não seja justa. Faz um jogo de fumaça que oculta muito e mostra quase nada. Os meios não querem nenhum poder do povo sobre o parlamento, nenhum poder efetivo. E, no sistema de eleição atual, não podem também influenciar eleições proporcionais da forma como influenciam as majoritárias. Grandes jornais, como Folha e Estadão, com tiragens pífias para um país de 150 milhões de pessoas, enfrentam uma concorrência desigual com as relações muito mais próximas que os parlamentares mantêm com seus eleitores.
Apenas os melhores parlamentares, eleitos pelos eleitores mais críticos, sofrem pesadamente a interferência da imprensa. Ou seja, apenas os melhores pagam o pato e podem não voltar, por conta dos apelos dos senhores da opinião pública. Severino não é afetado. Renunciar é um bom negócio. Os renunciantes sempre voltam, pelas “mãos do povo”, como Jader Barbalho e ACM. Diz a letra de “300 picaretas”, do Paralamas: “Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição”. A mais pura verdade. E, da indignação, esperem e vejam, nascerá um Congresso pior e mais corrupto que o anterior. Mais corrupto e também mais propenso a defender os interesses dos empresários da comunicação.
A imprensa vai sair assim: para a platéia, foi viril e enérgica na defesa da honestidade. Mas sua ação é inócua, exceto contra os parlamentares que tem ligação com a sociedade civil organizada, que escolhe seus representantes de maneira mais autônoma. Ficam com a fama e limpam do Congresso os parlamentares mais comprometidos com a população.
A imprensa só vai afetar, de maneira profunda, a escolha dos deputados quando ela for feita como é na maior parte do mundo: por voto em lista fechada e com regras claras de financiamento. A rejeição a partidos será elemento preponderante. Se os meios quisessem mesmo melhorar o congresso, defenderiam um sistema melhor, mais eficaz, onde os partidos respondam por seus atos e onde as crises abalem mesmo as bancadas. Mas não. Apenas atacam o que acusam de ser as pizzas do Congresso, não distinguindo cassações justas de injustas ou absolvições justas ou injustas. Depois apelam por um voto mais consciente, como se o problema fosse a população ignorante mesmo.
Nada muda; nada precisa mudar. Que fique assim, pois assim tem sido útil. Um Congresso honesto já teria feito algo para regular a área menos regulada do capitalismo brasileiro: os meios de comunicação. O ataque à pizza é cínico e falso. O compromisso da imprensa brasileira não é com a democracia, mas com a credibilidade junto aos receptores, mesmo baseada em mentiras.
A imprensa age como Iago, personagem de Shakespeare: aparenta algo que não é, enquanto trama na surdina. É corrupta. Alimenta e se escorra numa democracia corrupta. Às escuras, como Iago, defende tal sistema, enquanto defende, para a platéia, ações que não mudam nada.

Parafraseando Vico

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Primeiro, te achei divina.
Depois, te achei heróica.
Por fim, te achei humana.
E, agora, nem isso.

Giambattista Vico viveu entre os séculos 17 e 18. Morreu antes da Revolução Francesa, mas foi um dos pensadores que a influenciou. Bem antes de Augusto Comte, propôs que o conhecimento passava por três fases: a primeira, divina, quando as explicações eram atribuídas aos deuses; a segunda, heróica, quando a ação que move os acontecimentos era atribuída a grande líderes, grandes vultos; e a terceira, quando as explicações seriam mais humanas, próximas da realidade.
Escrevi este poema (de ódio) pensando nele e o dediquei a uma humana cujo nome começa com “Ana”. Ela não merecia. Outro ser, cujo nome termina com “ana”, no entanto, merece cada letra do poema.

Contra a opinião do público

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É provável que José Janene (PP-PR) seja absolvido da acusação de recebimento de dinheiro do valerioduto. É possível também que não. Vários aspectos particularizam o caso, seja o montante dos recursos, seja o fato de Janene estar, provavelmente encerrando a carreira, seja a fuga incessante do julgamento na Câmara. Mas, mesmo com tudo isso, há uma grande chance do pepista salvar o restinho de mandato e os direitos políticos.
Janene é um caso apenas de um processo que tem significado relevante para entender os meios de comunicação, seus poderes e suas estratégias no jogo político no Brasil. Há um descolamento entre o que fazem os deputados e os ataques da imprensa. É como se fossem mundos alheios.
Da mesma forma, Lula resiste aos ataques e segue, diante da crise político-midiática mais aguda da história da República, na liderança das pesquisas de intenção de votos e com um governo com avaliação muito positiva. A resistência de Lula, que nunca baixou de 30% de intenção de votos, mesmo nos piores momentos, foi a primeira pista: a mídia se descolou da opinião pública, que ela alega representar.
Os advogados da coisa, como diria Adorno, correriam alegar que é assim por que a população é autônoma nas suas decisões, que não é influenciada. Correriam usar o dado como forma de lavar as mãos da imprensa. Alegariam que os meios de comunicação não têm o poder de conduzir a população. Logo, nada do que façam pode ser nocivo, pois a ação final cabe, autonomamente, às pessoas. Esperto, mas falso.
Não é conhecimento secreto, está nos estudos americanos dos anos 60 e nos trabalhos de comunicação política de hoje: os meios de comunicação são mais eficazes em canalizar a atenção da população e predisposições do que em mudar opiniões e comportamentos.
Há sempre idiotas de plantão que não entendem por que as campanhas pelo uso de camisinha não produzem o efeito desejado e tantos ainda transam sem “proteção”. Não faz sentido se é tão razoável e lógico proteger a própria vida. Não falta informação, não há campanha contra o uso de camisinha. Por que, então, não é prática generalizada e leva tanto tempo para as pessoas aderirem?
Exatamente por que os meios têm poder, sim, mas um poder relativo, que se confronta com convicções e comportamentos arraigados, com a desconfiança da população sobre o jornalismo, com a seletividade da recepção, etc. Assim, a imprensa e o povo que ela sempre alega representar dialogam. Os receptores não são uma massa, conduzida pela mídia. Mas também não são os senhores dos meios, que apenas refletem a opinião do povo.
A imprensa no Brasil sempre se deu bem quando conduziu movimentos sociais com a receptividade na população, seja da fatia organizada na sociedade civil, seja da fatia sem relações orgânicas com entidades de representação política.
Assim foi no caso Collor, quando sociedade civil e imprensa caminharam juntos. Além disso, as convicções políticas dos “descamisados” que elegeram Fernando não eram tão sólidas assim, mas o resultado, sobretudo, de uma crença rasa, convicção produzida pelo marketing político.
Bem disse Aécio Neves, no início da crise: Lula não é Collor. Agora, isso está evidente. Os deputados perceberam que os jornais, telejornais e radiojornais não têm o poder de desalojá-los do Congresso. Ou, se têm, é um poder relativo. Eles voltarão na próxima legislatura, beneficiados por uma legislação que personaliza o voto. Se não voltarem, poucos serão os que estarão fora por efeito da campanha midiática. O PT, sim, como partido, será afetado. No PT, cola como ataque a todos do partido as ações de seus integrantes. Em outros partidos, não. São agremiações de indivíduos. A imprensa pode queimar um ou outro deputado. Pode fustigar o Congresso como instituição, mas não pode prejudicar os tantos que vivem na sombra, para quem, vamos e venhamos, pouco importam os apelos dos senhores da mídia para que “votem com consciência”. Lá no rincão onde Janene tem votos, 3 ou 4% da população ainda vota nele, não acredita ou não concorda ou não sabe o que diz a imprensa. Isso basta para que ele seja reeleito e para que a opinião publicada na imprensa não seja tão relevante. Para muitos, é assim.
Janene tem chance. A imprensa cassou Jeferson, assim com cassou Dirceu, contra quem não havia provas, como há contra Janene, mas não tem o mesmo poder sobre o pepista. Além disso, errou na dose, no tom, na avaliação de seu poder. Perdeu o bonde e vai ter que reencontrá-lo para se reinserir no processo eleitoral. Vai ter que recuar, para continuar exercendo seu poder, que é imenso, mas tem seus limites. Vão ter que tirar a máscara de irritação contra o Congresso, cuja parte mais suja sempre apoiou os empresários da área de comunicação. Vão ter que perder o tom afetado quando avaliam que a população é ignorante por não ouvi-la.
Afinal, os otários, no caso, são o público. E o público pode desligar a TV.

Trago no peito

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Trago no peito
Um coração acanhado,
Arredio,
Desconfiado.

Que de tanta poeira,
Cansou de estrada,
Desvario,
Emboscada.

Coração olha de lado,
Desconfia do perfeito,
Redondo,
Escorreito.

Mas é de tudo ou nada,
Sem medo de ribanceira,
Estrondo,
Fogueira.

Por isso,
Vez ou outra,
Arde.

Dá sumiço,
Não se encontra,
Flutua.

Sem alarde,
Tange a lua.

Já me levou tão longe este coração,
Já trouxe sensação de completude
De viver só por ele, pela sua arritmia,
Pela dessimetria, distorção que ilude.

Agora não tem jeito.
Meu coração não pensa,
Só acha que compensa.

E o sigo, tolo e sábio.
Meu coração é hábil,
Meu dom, meu defeito.

07/06/2006

Na escuridão do casulo nasce a borboleta

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Em homenagem a meu amigo Ivan, que é fã de Ito Ogami, como eu.

Mais de uma vez, repeti, para me convencer ou para convencer minha ex-namorada, que as pessoas não mudam tanto assim. Era o argumento para explicar por que éramos inviáveis. Tive que mudar, profundamente, para deixar de acreditar nisso e acreditar mais no ser humano.
As pessoas mudam. Por vezes, lentamente, ao longo da vida. Por vezes, tentam preservar coerência e petrificam tudo, inclusive os traços negativos de caráter. Por vezes, as pessoas criam estereótipos de si mesmos e se apegam a eles, como quem precisa de uma identidade, qualquer identidade. Apesar disso, as pessoas mudam.
Há duas formas como as pessoas mudam que são as mais comuns. A primeira, em traumas ou emoções fortes. A morte muda as pessoas, seja de seres amados, seja por terem estado perto demais da morte. A paternidade e a maternidade mudam as pessoas, que jamais, antes, praticaram o amor incondicional e, de repente, amam um ser que nem as reconhece, de início. O casamento muda as pessoas, sobretudo os homens. A morte da minha tia, a Lia, me tornou mais afetivo, para o resto de minha vida.
A segunda forma é mais lenta, em jornadas de conhecimento interior e de resolução de contradições internas. São como o casulo para a lagarta. Quem está no casulo, na escuridão cercado de fios de seda, não percebe a luz lá fora. Por vezes, nem percebe que está mudando. São como a borboleta que esquece que foi lagarta. Na escuridão, é normal ficar confuso, pois o processo é lento e cheio de mudanças que a lagarta não entende direito, mas faz força para entender. Eu passei por isso. Meu amigo Ivan passa por isso.
Para ambos, foi o amadurecimento que leva a aceitar e querer viver relacionamentos estáveis, assumir responsabilidades, não fugir dos planos, nem do futuro. Alguns homens passam por isso. Outros casam sem deixar de pensar como solteiros. Normalmente, acabam separados.
A borboleta se transforma no escuro. A borboleta é símbolo de transformação. Mas só quando se vê borboleta, entende o casulo e percebe a escuridão como um processo, não como a condição da vida. Ou seja, só quando, depois de uma longa jornada, nos vemos diferentes do que éramos, percebemos que estávamos trilhando um caminho, aprendendo algo, amadurecendo.
Tateei muito no escuro, mas agora me sinto pronto. Já tive medo do vento e, como a lagarta, me apeguei a uma folha, um caule, um tronco. Agora, quando o vento bater, vou com ele. Hoje, acredito que as pessoas mudam. A borboleta vê muito mais que a lagarta.

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