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Ego desterrado

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Ele vai assinar o papel e, pela lei, vai estar livre de novo. Vai assinar com o peso de 7 anos de casamento, com a mão tremendo. Não é o que ele quer. Mas pensar em si, querê-la a qualquer custo é dar provas de que ela tinha razão. Ele seria egoísta. Ela quer se separar. Ele vai aceitar.

E a dor afetiva vai somatizar e doer, como se fosse física, o tipo de dilaceramento interno que sentem “os que têm fome, os que morrem de vontade, os que secam de desejo, os que ardem”. Os dias seguintes serão terríveis, um sentimento parecido com abismar-se, perder se de si, lançar-se no vazio, como fazemos na paixão, lançados que estamos no abismo que é o outro. E sentimos medo e alegria. Este abismo, no entanto, estará vazio e só trará medo, pânico, desolação e inexorável solidão. Solidão de tudo: mundo, afetos, cheiros e até do vento que se sente na pele.

Tudo isso, como um condenado, ele sentirá por ela. Porque deixá-la partir é respeitar o que ela quer, é pensar nela, e deixá-la, é amá-la no extremo de si, no despojamento extremo de si. É se lançar na solidão por outro. É condenar o próprio ego ao desterro, por amor.

Mas ele quer voltar ao seu próprio país, redimido, perdoado, marido independente de qualquer papel. E ele cometeria o ridículo de assinar de novo a mesma certidão, se casaria com a mesma mulher pela segunda vez. No futuro, na sua própria pátria, ele deseja contar esta história e rir. Nos sonhos dele, ela vê nisto exatamente o que é: amor por ela.

Por que apenas precisar dela é amor por si mesmo. Ele já transcendeu isso.

Sem cura II

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Sou sem cura,

Apaixonado,

Vislumbrado

Pelo teu corpo,

Uma silhueta

De estatueta,

Perfeita

E pouca estatura,

Sem cura.

Sou sem cura.

Se eu despencar

Do oitavo andar

E tentar voar,

Feito astronauta,

Vendo meu pan,

Tocando flauta,

É só fissura,

Sem cura.

Sou sem cura,

Desprotegido,

Ao teu lado,

Escondido,

Assustado,

Massacrado

Pela tua força

Quebrando minha estrutura.

Sem cura.

(1990)

Café doce

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Minha mãe mora numa chácara e até hoje adoça o café antes de colocá-lo na garrafa. É um hábito de cidades pequenas, do interior do Paraná. Nunca o perdeu.

Aqui, na cidade grande, o café nunca está adoçado. Cada um pode adoçá-lo como quiser: com açúcar, três ou quinze gotas de adoçante e, às vezes, até com açúcar mascavo ou chocolate. A cidade grande é o lar do individualismo.

Isso é muito bom; isso é muito ruim.

Sem cura

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Sou sem cura

…batendo,

…viajando,

…bebendo,

…demente,

…pedindo carona,

…dormindo na estrada.

Sou nada,

Somente secura.

Sem cura.

(1990)

Amanhã, vou viajar

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Jazz. E toca tão profundamente como nunca antes tocou. Ressoa lentamente por dentro, como se eu fosse oco. Não sou. Mas algo foi subtraído de mim e restou um grande vazio. E este espaço… E ninguém vem preenchê-lo. Deus, o que será de mim quando o milênio acabar? Será que esta frouxa existência vai resistir?

Resisto. Resisto como galho de árvore seca, sempre disposto a seguir com o vento em queda, mas não caio. Resisto. Sinto pavor das estradas e fico parado.

Curto é o tempo de imobilismo. Caminharei de novo, eu sei. Sempre sentindo o desejo lento de deitar e dormir na primeira curva, mesmo que seja meio-dia. Não deito. Sigo. Vejo um rio estreito, um pé de manga, gado, animais selvagens, quatis, veados, capivaras, andorinhas. Rio largo, um pé de jaca, cabras, animais selvagens: jaguatirica, tatu, onça, passo-preto. A estrada é sempre diferente, mas sempre deixa a impressão de que está se repetindo de alguma forma. No fim, sempre carniça.

Não se pode chegar. Eu quero. Não se pode vencer. Eu creio. Um grande muro. Eu não posso pular, mas tento. Até a exaustão. Até sangrar de tantos tombos e arranhões. É hora de sarar. Não saro. Deixo sempre para amanhã. E amanhã vou viajar.

(Texto escrito quando eu tinha 20 anos)

Você, na cama

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Nunca senti isto antes. O desejo de te arrastar para a cama não obedece a volúpia de sexo. Tens preguiça; quero tua respiração profunda de sono, ouvir fragmentos incompreensíveis de palavras que murmuras. Quero sexo com a fuligem dos sonhos e do sono ainda nos dedos, mas só na manhã do dia seguinte, pois que dormir-te é minha primeira meta.

Sussuro em seus ouvidos canções de ninar: rock, MPB ou samba. E tu perdes o juízo, se rende ao meu encanto, perdes o controle de si e dormes.

Passava então os dias a sonhar em te ver de novo, mas sonhava sem dormir. Guardava meu sono para gastar com você, na cama. Recostar-te no meu ombro no meu carro era pouco, era pressa. Quis toda calma.

Porém, de súbito, como se tivesse interrompido o sanambulismo, você despertou da languidez preguiçosa e desistiu.

Castigo (poesia anônima)

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Devolve os pobres olhos que perdi

E que te habitam desde o dia em que te vi,

Mas se eles já sofreram tal castigo

E tantos danos, tantos enganos

Tal rigor que a dor os fez inúteis,

Guarda-os contigo.

Devolve o coração que te foi dado

Sem jamais cometer qualquer pecado.

Porém se ele contigo já aprendeu

Como se mata e maltrata

E se tortura uma alma pura,

Guarda também este ex-pedaço meu.

Melhor: devolve olhos e coração

Para que eu possa ver a traição

E possa rir quando chegar a hora

De te ver padecer por alguém

Que tenha o coração tão duro

Quanto o que tens agora.

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