Início

Esquecer Adorno

1 Comentário

adornoEu seria mais feliz se pudesse esquecer Theodor Adorno, o contundente crítico frankfurtiano da indústria cultural. A morte da arte, vitimada em última instância pelo desejo de lucro que paira sobre qualquer produção estética nos nossos dias, perventendo a rudeza popular ou a sofisticação da estética de elite, deveria ser, ela sim, uma afirmação morta.

Às vezes, há sinais alentadores de que é possível esquecer Adorno. A sociedade dos públicos, segmentada, parece a contraprova da sociedade de massa, da cultura de massa, da democracia de massa, horrores, no limite, do Estado que gerencia as massas, dando-lhe o conforto de acreditar que escolhe seus rumos.

A segmentação, a organização de grupos em rede, parecem colocar a indústria e o controle das massas em xeque. Parecem, é verdade, colocar o sujeito no seu papel de direito, protagonista, como Adorno nunca o conceberia. Nunca rei; sempre objeto da maquinaria.

A resistência da classe verdadeiramente artística, não daquela que se vende, daquela que vê na arte um caminho não um fim em si mesmo, seria um alento. Artistas de verdade seriam capazez de produzir novidade estética dentro da indústria, de contestar por dentro, seriam pontos de fuga, possibilidade de futuro menos perverso que este. Bob Dylan, filho da indústria, é um caso; artistas independentes, outro.

Artistas com renome, como Chico Buarque, podem exercer uma maior liberdade estética. Outros trilham o caminho do sucesso comercial para reivindicar, depois, o controle do seu próprio trabalho. Daniel parece reivindicar o papel de artista, depois de ter sido produto escrachado da indústria. Sandy tentando fazer música reflexiva parece nos dizer: “cresci, sou dona do meu nariz e da minha arte”. Outros recusam o mainstream, desde o início, como Teatro Mágico. Sinais de que a arte pode resistir ou de que a classe artística tem clareza das coerções que operam sobre ela e que tenta reagir, nem sempre com sucesso. São alentos, sem dúvida, mesmo que nada disso garanta qualidade e autonomia estética.

Além disso, a indústria cultural vocalizou vários movimentos sociais, como a juventude ascendente do pós-guerra, espelhada em produtos claramente industriais, como Elvis Presley e James Jean. Levou caldo para o movimento contestório, para a contracultura.

Mas o pessimismo de Adorno, no limite do desespero ou da desesperança, não permite sorrir otimista sem avaliar efetivamente as potencialidades da nossa sociedade. Nenhum sonho de um mundo distinto será construído sobre uma visão sonhadora das condições reais de existência. Sonhar, sem tirar os pés do chão. Manter o espírito crítico é uma das maiores lições de Frankfurt.

A segmentação em rede não prova nada, exceto que seu efeito de autonomia (falsa de qualquer forma) é eficaz. Os grandes conglomerados definem nossas formas de interação. Se atacamos o capitalismo, o fazemos com as armas que o capitalismo permite. Deixamo-nos conformar pelo aparelho, que nos limita, como ensina Flusser.

Nenhum dos instrumentos criados pela tecnologia (e portanto pela razão) aponta para qualquer perspectivas de questionamento que não esteja delimitada pela sociedade de massa. Investiram, como era de se esperar, contra a lógica de sociedade fechadas, dogmáticas, como na primavera árabe, como um elemento externo, oriundo de outro modelo de Estado. Assim, conformam o diferente do capitalismo ao capitalismo e sua forma particular de liberdade.

E os movimentos sociais construídos em rede não parecem nada além da expressão da lógica do aparelho. Manifestações organizadas pelo Facebook, flash mobs ou petições on line estão nos limites das ferramentas on line, não configuradas para a ação política em si, mas para a organização identitária de grupos. Festas, brigas de torcidas ou manifestações esvaziadas de sentido como dia sem calças mostram que a rede estimula práticas sociais de grupo de todas as naturezas. Se algumas são políticas, isto pode ser visto tanto como a vitória quanto como a submissão da política ao aparelho.

Além disso, a indústria explora mas também atira contra o processo de fragmentação em curso. A distinção cultural é, no limite, um empecilho. Seremos iguais e pacíficos, uma distopia cultural. Agredimos o que difere de nós, o que desconhecemos, atacamos o que não entendemos. Homogêneos culturalmente, em escala mundial, tal desapropriação das identidades locais traria, por consequência, a pacificação dos conflitos entre culturas e sociedade distintas. Quando, por fim, o oriente se ocidentalizar, nossas divergências e guerras serão passado. Horror cultural, promessa de paz pela indistinção. Sacrifiquemo-nos pelo bem maior. Já fazemos isso. Abrimos mão de boa parte da liberdade individual em troca do conforto que a sociedade nos oferece.

Morta a distinção cultural, útil apenas no limite da sua exploração comercial, o que a sociedade de massa potencializou foi a distinção econômica, esta sim valiosa para o sistema. Esta sim, produtora da violência interna de um país ocidental, já que as diferenças culturais estão pacificadas, controladas e exploradas economicamente pelo sistema. Meninos de periferia roubam para poder não se distinguir economicamente. A pirataria de marcas expressa o desejo de possuir o que apenas os mais abastados podem possuir.

Os artistas que lutam por autonomia, já o demonstrou Adorno, apenas dão à indústria este ar de preservação da individualidade, da autonomia, efeito tão falso quanto útil. A lógica é mercantil em qualquer esfera. Chicos e seus públicos; Janis e os comerciais de cigarro. Nada aponta outro caminho senão este. Lutamos por uma indústria menos perversa, mas não contra ela.

E a contracultura, bem… deu no yuppies; as drogas viraram uma praga não libertadora, expressão do dinheiro e da violência; a revolução sexual enfrentou a contrarrevolução ou degenerou num machismo sexista brutal; e o rock foi desalojado de qualquer perigo para embalar a geração contrarrevolucionária, frequentadora pacífica dos shoppings centers, templos de nossa era.

Tenham calma. Abram os ouvidos. Nada os estranhará na próxima onda musical. Ela virá como algo novo e fácil de compreender e consumir, algo que te faz contemporâneo em todos os sentidos, contra os caretas que resistem, modernos da velha cepa. Eles também, vítimas de um saudosismo passadista. O sertanejo-forró vai passar. Vai dar sinais de esgotamento, mas a próxima porta vai se abrir.

E Adorno, mais uma vez, fará sentido. Mais uma vez, ele baterá, sisudo, às nossas portas, lembrando que não podemos esquecê-lo, como não podemos esquecer os horrores do fascismo e do stalinismo.

Então que a indústria venha. Estaremos de pé, espírito crítico, prontos para sermos derrotados de novo.

Anúncios

Olhos de cão

4 Comentários

Sabujo, matreiro, vadio o cão e os olhos do cão, cheios de pecados. Os olhos com que ele olhou para ela reprisavam o Cristo sofrido na cruz, resignado. Olhos de cão encurralado, ladrão, sobrevivente pela mentira, pelo engano, e ele nem grunhiu. Queria pena e plantou flores para seduzi-la, induzi-la a erro. Eram lindas, sim, as flores. E mentiam, com a mesma beleza.

Ela perdoou. Viu vazio naqueles olhos. Acreditou, porque precisava acreditar. Via nos cães pureza, desde a infância, seres mágicos, como cavalgadas de amor principesco. Ela aceitou as desculpas e amou o cão.

Ele desconfiou. Ela perdoou rápido demais. Mas, por fim, desfez o medo e lançou sobre ela seus olhos, vitoriosos, senhor de si, de todo território, feliz por não perdê-la. Depois de ter escapado, cão sabujo, certo de seus pecado, nada o tornaria mais seguro que o perdão improvável. Era senhor da casa e latia afugentando todos os que quissessem se aproximar dela. Botava medo com seu dentes ameaçadores e seus débeis olhos de cão.

Ela deixou que ele latisse, que se apoderasse da vida dela, que a cercasse e a protegesse. Então, ele, cão vadio, voltou a vadiar. Atravessava a cerca, fornicava na rua, era visto em cenas impróprias e indignas, mas voltava ronronando, como um gatinho, a tempo. Ela esperava seu cão, laborioso cão.

Então, um dia, ele viu nela menos que na rua. Cansou de protegê-la. Ela não valia isso. Então, atacou as flores do jardim e partiu, olhando para trás, sem dó nem arrependimento, com seu olhos de cão.

É da natureza dos cães.

A quem possa interessar

3 Comentários

Eu, Mário Messagi Júnior, declaro, a quem possa interessar, que, de hoje em diante, manterei meu coração duro como pedra para que desvarios não mais me façam sofrer.

Declaro que nunca mais serei sincero e meticuloso com os meus gestos para que eles não firam alguém. Nunca mais serei responsável com sentimentos que outra pessoa possa nutrir por mim.

Declaro que não mais me dedicarei com afinco a alguém, nem pensarei em pessoa alguma diariamente sempre que minha mente estiver desocupada de afazeres essenciais.

Declaro que nunca mais me vestirei para uma única pessoa. Não mais farei a barba para ver alguém, nem passarei o meu melhor perfume, nem usarei minhas melhores meias e minha melhores cuecas.

Declaro. para os devidos fins. que meus olhos não mais se voltarão para uma única pessoa. Não mais gostarei exclusivamente de alguém que não seja eu. Nunca mais serei altruísta, nem tentarei fazer da minha vida uma existência paralela à existência de alguém.

Declaro que não mais acreditarei que as pessoas podem viver pacificamente e em comunhão por longos anos, tão longos quanto a vida. Nunca mais afagarei sem segundas intenções.

Declaro que não amarei mais.

Declaro meu coração posse somente minha.

E me declaro posse de ninguém.

Declaro deserto, secura, areia…

Declaro o inverno como única estação.

Data, ponto e assinatura.

 

(1993)

Ego desterrado

3 Comentários

Ele vai assinar o papel e, pela lei, vai estar livre de novo. Vai assinar com o peso de 7 anos de casamento, com a mão tremendo. Não é o que ele quer. Mas pensar em si, querê-la a qualquer custo é dar provas de que ela tinha razão. Ele seria egoísta. Ela quer se separar. Ele vai aceitar.

E a dor afetiva vai somatizar e doer, como se fosse física, o tipo de dilaceramento interno que sentem “os que têm fome, os que morrem de vontade, os que secam de desejo, os que ardem”. Os dias seguintes serão terríveis, um sentimento parecido com abismar-se, perder se de si, lançar-se no vazio, como fazemos na paixão, lançados que estamos no abismo que é o outro. E sentimos medo e alegria. Este abismo, no entanto, estará vazio e só trará medo, pânico, desolação e inexorável solidão. Solidão de tudo: mundo, afetos, cheiros e até do vento que se sente na pele.

Tudo isso, como um condenado, ele sentirá por ela. Porque deixá-la partir é respeitar o que ela quer, é pensar nela, e deixá-la, é amá-la no extremo de si, no despojamento extremo de si. É se lançar na solidão por outro. É condenar o próprio ego ao desterro, por amor.

Mas ele quer voltar ao seu próprio país, redimido, perdoado, marido independente de qualquer papel. E ele cometeria o ridículo de assinar de novo a mesma certidão, se casaria com a mesma mulher pela segunda vez. No futuro, na sua própria pátria, ele deseja contar esta história e rir. Nos sonhos dele, ela vê nisto exatamente o que é: amor por ela.

Por que apenas precisar dela é amor por si mesmo. Ele já transcendeu isso.

Dói porque estou vivo

1 Comentário

Para ti

Às vezes a dor é lancinante. Minhas rugas se aprofundam. Minhas cãs proliferam. Meu corpo treme, como se tivesse sido cortado fundo. Mas não há corte. Meus olhos latejam, ardem, molham meus gritos. Brotam a mais pura e mais amarga substância, feita só de sofrimento. Então desejo morrer. Ninguém tem piedade. Continuo vivo.
Dura pouco este sentimento. Recobro a consciência e prefiro viver assim, doendo, a não viver. Lembro de Adélia Prado, que queria ficar com a cara mais enrugada que maracujá de gaveta, de tanto sofrer, de tanto amar. Dói porque estou vivo. Agradeço ao universo.
Não importa o quanto me firam. Quando cansar destas dores, estarei morrendo. Então, não blasfemo mais contra a vida. Meu coração é um mundo. Eu invento os monstros que podem assombrá-lo. Do mesmo jeito como os crio e a eles me afeiçôo, posso matá-los. Mas ninguém chegou perto do meu lado que sangra sem minha permissão.
Então, segue em paz, sádica. Você só existe para me lembrar que sofrer é parte da vida. Você só existe porque eu quis.

Ps.: Escrito há muito, muito tempo para alguém cujo nome deixei de mencionar até que esqueci.

As regras da atração

3 Comentários

Por que vi nela uma musa? Não sei. Não compreendo as regras da atração. Um dia, alguém vai escrever um livro de auto-ajuda sobre elas. Mentirá. Ninguém compreende o que faz um corpo tremer diante de outro.
Há indícios. Beleza, simpatia, charme, inteligência, posição social, cobiça coletiva, sensualidade, dinheiro, poder. Mas tudo isso não explica porque duas mulheres igualmente belas, igualmente inteligentes, iguais em tudo, ou quase, me atraem de formas tão diferentes. Por uma, meu corpo suplica. A outra é apenas um troféu. Não o quero. Uma me olha e me leva ao paraíso, satisfeito por pagar no inferno por meus pensamentos. Da outra, nem vejo o olhar.
Não entendo as leis da atração, apenas as respeito, ainda que limitem minhas escolhas e as tornem, por vezes, incompreensíveis. O desejo é rei, caprichoso, cheio de decisões estranhas. Não vasculho seus pensamentos insondáveis. Apenas me curvo à sua força, à sua sedução. Posso até me negar a seguir seus caminhos, mas não posso seguir os caminhos que ele nunca me indicou. Este rei oblitera meus passos. E, sem ver, tento me guiar segundo minha própria consciência. Tateio a razão; tu ofereces cheiros, sensações, sons e imagens. Sou um pobre cego, meu senhor!
Não rezo sem ti, mas temo-te e, por isso, por vezes não digo amém. Provei seu paraíso, mesmo sem entender suas leis. Mas, mesmo fiel a ti, temo me curvar a todos os seus caprichos. Pois que és irmão do desespero, como sempre soube, até quando não pude evitar. A cor da vida brilha nos teus olhos, mas acautelo-me. Nunca sei, de fato, quando vais me entregar a teu fratelo.

Nada passa

7 Comentários

Vão te dizer que tudo passa, que tempo e distância curam tudo, que matam o bom e o mau, como quimioterapia, e os deixam no passado imemorial. É mentira. Nada passa.
Mesmo aquilo de que não lembramos não cessa de nos definir, como trauma, aprendizado ou um tipo de atavismo tardio. As lembranças menos insidiosas nos habitam diante dos nossos olhos. Assim, sabemos o que fazer com elas, mesmo que muitas vezes saber o que fazer esteja muito longe de fazer.
Tudo se acumula. O passado pode deixar de nos ferir, mas sempre estará ali. Podemos não viver no passado, mas o passado nunca deixará de viver em nós.
Então esqueça as soluções fáceis, feche os ouvidos para os conselhos gentis e fantasiosos. A vida cobra muito mais caro.
Vão dizer que você pode exorcizar seus fantasmas, mas você não pode. Acostuma-te a eles e aprende como não assombrar mais a sua vida. Eles estarão sempre ali, para te assustar. Talvez um dia não te assustem mais, mas não espere que eles partam. Eles nunca partirão.

Sedutor de papel

5 Comentários

Viver e morrer por escrito será possível? Senti o cheiro da tinta cedo, menino sem ter o que fazer, me apeguei a ler livros, histórias fantasiosas, como Xisto ou contos de Edgar Alan Poe. Nunca li Edmond Rostand, mas banquei a Roxane e me apaixonei por Cyrano, o narigudo, sem conhecê-lo muito bem.
Desde então, desde muito cedo, me perguntei se era possível conquistar alguém por cartas, por palavras, por belezas que se dizem e se sentem. Me perguntei se era possível viver por escrito. E então me quis fazer de Cyrano, tal era minha paixão, que nele me anulei.
Para que servem cartas afinal, se toda dor de poeta é fingimento, seja dor ou não? Para que servem tantas letras, se escondo meu nariz e minhas feiúras na beleza das palavras? Se confesso meu crime apenas para realizá-lo novamente?
Vivi por escrito, sedutor de papel, de amores literários, mulheres que inventei, apaixonado, a partir de mulheres que existiam fora do meu mundo de papel. Foram minhas correspondentes. Invariavelmente, elas corresponderam pela metade. Se eu tivesse me entregado menos e não acreditado nas minhas mentiras, como elas acreditaram, teria dado certo, talvez. Mas caí em auto-engano.
Por fim, então, conheci Goethe, outro ser de papel, um sedutor profissional, sem necessidade de CEPs ou endereços. E Werther foi meu mestre. Eu, seu inepto aprendiz.
Escrevo epístolas. Todo amor que vivi foi de papel, toda sedução foi ensaio, até que, no mundo real, parei de escrever cartas de lascivo sentimento. Parei de profanar juras de amor e promessas de vingança.
Este é o último refúgio de sedução que ainda alimento, até que esgote o que fui, até que todas as cartas que não mereçam ser queimadas conheçam meu novo universo. Este, onde elas, alienígenas, existam sem papel, retratos do ocaso de um sedutor.

Perdoar é um ato moral

1 Comentário

Perdoar não é esquecer. Perdoar, ao contrário do que dizem, não é um benefício para si mesmo, para não carregar mágoas, como se fosse necessário perdoar para não odiar. Perdoar é um ato moral, é o resultado de um julgamento. Por isso, perdoamos atos que nunca vamos esquecer e nunca vão deixar de nos magoar. Perdoamos quem se arrepende, quem mostra que não repetirá o erro, quem julgamos merecer nosso perdão. Esquecer e não sofrer mais é outra coisa.
Perdoar é um passo para esquecer; e esquecer é um passo para perdoar, mas não são a mesma coisa. Muitas vezes, pelo contrário, o ser que não se arrepende se mostra pequeno e digno de nosso esquecimento. Estão, esquecemos. E seguimos leves, sem perdoar.
Aconteceu comigo, sim, de carregar uma mágoa que perdoei, mas nunca esqueci. Ela tinha se arrependido e parecia que nunca mais faria a mesma coisa. Perdão dado, nunca mais toquei no assunto nem o comentei com ninguém, mas o fantasma sempre esteve lá. Quando voltou, me feriu na mesma ferida. Ela não se arrependeu mais. Não tem importância agora. Ela merece meu desprezo, ainda que seja difícil esquecer a mágoa. E preciso muito esquecer.
Mas perdoar não preciso. Nem quero.

Amor perfeito

2 Comentários

Quero tuas imperfeições, amor, por que amar suas virtudes é fácil. Amar-te à distância, sem nunca te ver, manteria meu amor eterno, Romeu sem nunca conhecer Julieta. Morto, antes da paixão apagar suas brumas.
Não viver o amor é a melhor forma de nunca maculá-lo com as imperfeições de cada um de nós. O platonismo é a forma mais febril de amor. A mais intensa é aquela que ama o que conhece, o ser que está perto, o humano cheio de defeitos e virtudes, pesado na balança, amado apesar dos defeitos. Ou amado com seus defeitos.
Meus amores mais perfeitos nunca se concretizaram. Imaturo, achava-os a forma mais elevada. Hoje, vejo que amar exige, a cada dia, ver no cotidiano toda beleza que o amor pode ter quando a paixão febril apagou sua chama.
Este amor de febre que não vê nem conhece o que ama projeta imagens de nós mesmos sobre outros. Parece amor, mas não. É apenas uma forma de amar sem sair de nós mesmos. É uma forma de egoísmo. E só.

Older Entries

%d blogueiros gostam disto: