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Perdoar é um ato moral

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Perdoar não é esquecer. Perdoar, ao contrário do que dizem, não é um benefício para si mesmo, para não carregar mágoas, como se fosse necessário perdoar para não odiar. Perdoar é um ato moral, é o resultado de um julgamento. Por isso, perdoamos atos que nunca vamos esquecer e nunca vão deixar de nos magoar. Perdoamos quem se arrepende, quem mostra que não repetirá o erro, quem julgamos merecer nosso perdão. Esquecer e não sofrer mais é outra coisa.
Perdoar é um passo para esquecer; e esquecer é um passo para perdoar, mas não são a mesma coisa. Muitas vezes, pelo contrário, o ser que não se arrepende se mostra pequeno e digno de nosso esquecimento. Estão, esquecemos. E seguimos leves, sem perdoar.
Aconteceu comigo, sim, de carregar uma mágoa que perdoei, mas nunca esqueci. Ela tinha se arrependido e parecia que nunca mais faria a mesma coisa. Perdão dado, nunca mais toquei no assunto nem o comentei com ninguém, mas o fantasma sempre esteve lá. Quando voltou, me feriu na mesma ferida. Ela não se arrependeu mais. Não tem importância agora. Ela merece meu desprezo, ainda que seja difícil esquecer a mágoa. E preciso muito esquecer.
Mas perdoar não preciso. Nem quero.

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Amor perfeito

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Quero tuas imperfeições, amor, por que amar suas virtudes é fácil. Amar-te à distância, sem nunca te ver, manteria meu amor eterno, Romeu sem nunca conhecer Julieta. Morto, antes da paixão apagar suas brumas.
Não viver o amor é a melhor forma de nunca maculá-lo com as imperfeições de cada um de nós. O platonismo é a forma mais febril de amor. A mais intensa é aquela que ama o que conhece, o ser que está perto, o humano cheio de defeitos e virtudes, pesado na balança, amado apesar dos defeitos. Ou amado com seus defeitos.
Meus amores mais perfeitos nunca se concretizaram. Imaturo, achava-os a forma mais elevada. Hoje, vejo que amar exige, a cada dia, ver no cotidiano toda beleza que o amor pode ter quando a paixão febril apagou sua chama.
Este amor de febre que não vê nem conhece o que ama projeta imagens de nós mesmos sobre outros. Parece amor, mas não. É apenas uma forma de amar sem sair de nós mesmos. É uma forma de egoísmo. E só.

Carta ao Senhor Tempo

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Por favor, Sr. Tempo, me esqueça. Tem dias que não merecem suas leis, que deveriam alongar-se, infindos. Dias em que a pele sente a temperatura do ar, queimada pelo sol ou fria como a chuva. Dias em que te esqueço, ainda que sempre lembres de mim.
O sorriso das crianças que amo nunca deveria cessar. O abraço da minha mãe não se esgotaria se não fosse tu. As noites respeitam seus números, mas algumas, febris, deveriam resistir, se rebelar. A felicidade tem duração. De onde tirastes esta idéia ridícula?
A vida pulsa. Porém, tu segues, inexorável. Não pensas que nem todo instante é igual, que há horas que nem mereciam existir; outras não deveriam acabar.
Todo tempo é pouco para conhecer o mundo e todos os seus habitantes. Todos os minutos não bastam para correr todas as estradas. Então pare, Sr. Tempo, e me deixe viajar. Não me cobre pressa quando estiver com os meus amigos, não acelere só porque o vinho já me deixou leve, não me force a parar de dançar porque o baile acabou. Não pareça acelerar bem quando quero que esperes.
Sr. Tempo, tome um sorvete num dia de sol. Sem pressa, deixe que o frio derreta. Então responda: tu mesmo não mereces um descanso?
Deixe a água jorrar na sua cabeça, massagear seu ombro, carinhar seus pés. A água corre. Não basta?
Deixe o vento arrastar-te por estradas, pare por acaso num lugar que você nunca havia visto e nem tinha planejado parar e sinta o cheiro da vida que ali habita. Saberias tu viver sem planos de vez em quando?
Tu és perpétuo. Então pare os relógios, porque tu, como ninguém, tem motivos de sobra para não se importar com o tempo. Te temo, mas discordo das tuas leis, carrasco de ti mesmo que és. Ser egoísta, tu sabes o que é a eternidade, mas não daria um único fragmento a ninguém, ainda que não faça nada com ela.
Eu sou finito, mas sinto, como nunca saberás, que a vida é cheia de visão, som e fúria. Viver é bom para quem tenta te esquecer, ainda que tu nunca nos esqueça.

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