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Jornalismo menor: como reduzir uma profissão até torná-la desnecessária

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Máquina escrever fotoUma das maiores dificuldades na defesa da regulamentação da profissão de jornalista tem sido a resistência de segmentos da própria categoria. Normalmente, são segmentos minoritários, mas, ao se posicionarem publicamente, transmitem a ideia de uma categoria dividida sobre o tema. Para piorar, muitos jornalistas com maior visibilidade, seja pela carreira longa seja pela posição de chefia que ocupam, fazem parte deste segmento.

Estes jornalistas levantam uma série de argumentos, difíceis de sintetizar, mas é possível enxergar os eixos mais reincidentes

Normalmente, contra a regulamentação baseada em uma formação específica, opõem uma série de reducionismos. Os principais são:

  1. Redução do todo às partes: há muitas atividades desempenhadas por um jornalista, como redação, pauta, edição, fotografia, assessoria. Isso é comum em outras profissões, como a dos médicos (ortopedistas, cirurgiões, anestesistas, dermatologistas) ou dos advogados (criminalista, juiz, promotor, delegado). Não é difícil, em nenhuma destas profissões, dominar partes do conhecimento. No jornalismo, é possível que alguém aprenda a redigir um texto com lide em pouco tempo. Isso serve como argumento para dizer que quem sabe fazer isso é jornalista. O argumento não convenceria nenhum médico ou advogado diante de um sujeito capaz de diagnosticar alguns problemas de pele ou de fazer uma petição na Justiça do Trabalho. Entre os médicos e advogados, a competência parcial não faz um profissional; faz um charlatão. Entre os jornalistas, há quem defenda que a parte é o todo. Aplicada a mesma lógica à medicina, um charlatão bem sucedido junto ao público fazendo diagnósticos de problemas de pele seria um médico em pleno direito de exercer a medicina.

  2. Redução das práticas profissionais a técnicas: o processo de tecnificação do texto, a partir de 1951, no Diário Carioca, e de 1956, no Jornal do Brasil, afastou o jornalismo da literatura e vulgarizou procedimentos do jornalismo estadounidense. A isto, como consequência, sobreveio uma noção de que o texto, tecnificado, é resultado de pura técnica. No entanto, a noção de técnica não explica
  3. , no todo, as práticas jornalísticas. Por esta concepção, o jornalismo deveria ser pensado em termos de eficácia, produtividade e padronização na obtenção e tratamento de informações. Não se trata disso. Checar informações, por exemplo, não é apenas um procedimento técnico, mas uma prática profissional eivada de valores jornalísticos e deveres éticos. Ou seja, a checagem não é apenas um procedimento de obtenção de produtividade. É, antes, um dever profissional, respaldado por uma categoria. Dever ético em duas pontas: a da fonte e a do leitor. Assim, o procedimento não pode ser substituído, pelas empresas, por outro que seja mais eficiente. A prática, não sendo técnica, não pertence à empresa, mas aos jornalistas e ao seu universo de valores. O texto não pode resultar de um mero preenchimento de lacunas, por mais que a cultura e manuais tenha contribuído, e muito, para esta noção.

  4. Redução das competências profissionais ao talento para a escrita e à propensão à leitura: velhas práticas assombram o jornalismo. Se, no final do século XIX até boa parte do XX, jornalismo e literatura caminhavam juntos, sendo homem de imprensa e literato funções intercambiáveis, isto já não é mais válido. Não basta mais saber escrever e ser erudito para ser jornalista. Isto tanto se deve à complexidade que os instrumentos utilizados pelos jornalistas adquiriram, quanto à própria complexidade social e ética e hegemonia que os mídias ganharam no nosso tempo.

  5. Redução do jornalismo como deve ser ao jornalismo como ele é: esta redução é das mais falaciosas. Se nas três anteriores é possível antever uma discussão sobre o que é jornalismo, nesta há apenas um raciocínio falso. A profissão deveria ser algo acessível a qualquer sujeito, com formação ou não, por que qualquer um faz jornalismo com a qualidade que ele é feito hoje. Apliquemos a lógica a outra área para demonstrar seu absurdo. Se os engenheiros, reiteradamente, construíssem casas e prédios que desabassem, por esta lógica construir casas que desabam seria função típica de um engenheiro. Absurdo. Quando se trata do jornalismo, vale. Quem defende isso? Qualquer um que diga que não precisamos de diplomas para exercer o jornalismo por que a qualidade do ensino é muito baixa. Então, se os jornalistas estão sendo mal formados, para que faculdade? Ser mal formado é tornado, portanto, inerente ao jornalismo. A melhoria da qualidade de formação é descartada. Corta-se a cabeça por causa de uma enxaqueca.

  6. Redução do jornalismo à opinião: está também é falaciosa, mas fundamenta a liminar concedida pela juíza Carla Rister e o voto do ministro Gilmar Mendes, no STF. O jornalismo, há muito tempo, não é o exercício diário da opinião. Aliás, emitir opinião não é função

    jornalística. É verdade que alguns jornalistas têm o status de supercidadãos, pelo direito de opinarem, muitas vezes sobre tudo. No entanto, supers ou não, opinam na condição de cidadãos, a quem cabe o direito legítimo de opinar. Jornalista faz análise, explica, busca informações para elucidar algum acontecimento. Quando opina, já não exerce mais função jornalística, o que não significa que não possa opinar. Função jornalística é editar opinião, buscando pessoas respaldadas para falar ou representantes de correntes importantes de pensamentos. Nisto, exerce a função mais importante do jornalismo depois de informar: viabiliza o pluralismo liberal de opiniões.

Se não for reduzido, o jornalismo é, necessariamente, atividade sustentada em formação teórica e ética e exige competências profissionais sólidas. No mundo, esta tendência é evidente, em vários formatos, na maioria deles sem a exigência legal de diploma, é verdade. Onde existe jo

rnalismo, no entanto, é preciso jornalista. O problema é que no Brasil os jornais produzem jornalismo de vez em quando, para justificar o resto do tempo em que estão disputando o poder e suas benesses. Com tão pouco jornalismo ou com tantos simulacros de jornalismo, são necessários poucos jornalistas ou apenas simulacros de jornalistas. Um simulacro de jornalista é alguém sem formação na área e nenhum comprometimento com a profissão que se arroga como jornalista, como Diego Mainardi, ou um jornalista de verdade, cooptado ou coagido pelas empresas.

Neste cenário, a regulamentação da nossa profissão, mesmo que muito precária até hoje, é um empecilho, tanto em um caso quanto em outro. No fundo, é isso que está em disputa: o controle moral do jornalismo no Brasil. Quanto menos força e reconhecimento profissional temos para definir o que é jornalismo, mais força as empresas têm.

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E se o Estado não fosse laico, pastor Feliciano

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Se o Estado brasileiro não fosse laico, ele seria, provavelmente, católico, pastor Feliciano. E como acontece em estados religiosos de hoje ou do passado, ele cometeria os arbítrios de sempre, como subordinar o poder político à igreja oficial, subordinar o direito à religião e, o pior para você pastor, tomaria as outras religiões como toleradas ou criminosas.

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Quadro de François Dubois, representando a Noite de São Bartolomeu, massacre de, no mínimo, 2 mil protestantes pelos reis católicos franceses.

Como qualquer Estado religioso, questões de fé seriam motivo para as ações do Estado, muitas vezes violentas, como aconteceu no massacre da noite de São Bartolomeu (click na imagem ao lado ler sobre), nas cruzadas ou na condenação à morte na fogueira de Giordano Bruno. A violência por razões de fé ainda acontece hoje no oriente médio, onde perduram estados religiosos.

Seriam, então, os evangélicos e suas igrejas as vítimas maiores da violência religiosa de Estado no Brasil, pois são, sem dúvida, o maior perigo para fé católica. No limite, seriam considerados criminosos, por praticarem religiões contrárias à religião do Estado. Os católicos fundamentalistas não aceitariam tal diversidade de pensamento. Deus é um só; só poderia haver uma religião e uma leitura da bíblia.

Aqueles que defendessem que a escolha da religião é uma opção individual, não uma questão de Estado, seriam atacados como libertinos religiosos e pecadores. Toda violência contra evangélicos estaria legitimada, aceita. Pregações nas praças e ruas seriam consideradas vergonhosas, ofensivas à fé cristã.

Mas a força política das novas igrejas poderia melhorar as coisas e tornar as novas interpretações do texto sagrado toleráveis. Apenas toleráveis, mas ainda não um direito garantido pelo Estado.

Curiosamente, as igrejas evangélicas estariam hoje lutando por direitos civis, pelo direito à diferença, pela mudança, sim, da lei para que o Estado fosse laico. A laicidade é a garantia de que toda religião neste país é livre, que todos podem escolher o credo que bem entenderem e que ninguém sofrerá violência por isso. Pelo contrário, se sofrerem violência por razões religiosas terão proteção do Estado. No Estado laico, as igrejas podem livremente pregar seus credos. Foi isso que permitiu o crescimento das denominações evangélicas.

Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros e transexuais não querem pregar seu credo. Querem menos liberdade que as igrejas. Não querem o direito a celebrações ruidosas, como os cultos de certas denominações. Querem ter os mesmos direitos dos heterossexuais, sem ter que defender a normalidade, a justeza ou a legalidade da sua vida. Assim como iriam querer os evangélicos se fossem acusados o tempo todo de praticar uma religião anormal, ilícita, uma interpretação equivocada da bíblia.

Não entendo porque entre os evangélicos prospera tanto preconceito, tanto ódio e tanta intolerância. Vocês não precisam justificar sua fé. A comunidade LGBTT também não quer ter que justificar sua orientação sexual. Não quer sofrer violência, nem do Estado nem sob a proteção dele. Querem o que os evangélicos já têm: proteção do Estado e direitos civis.

Evangélicos vêm me questionar por que defendo os homossexuais. Defendo o direito dos homossexuais de serem homossexuais, tanto quanto defendo o direito dos evangélicos de serem evangélicos. Entender, concordar, achar certo ou errado não vem ao caso nos dois casos.

Pastor Feliciano, você representa o século XVII. O senhor talvez não goste, mas vivemos numa república. A república garante seus direitos religiosos e não te persegue mesmo quando você abusa deles e atenta contra a laicidade do Estado.

Imagine se o senhor vence e, por fim, voltamos para antes da Revolução Francesa e a lei de uma república se subordina, mais uma vez, à religião. À sua religião, é claro. Serão os homossexuais hoje que pagarão. Depois, os católicos. Depois, as outras denominações que não compartilhem a sua interpretação da bíblia. E será o horror religioso.

Os direitos dos homossexuais não são discutíveis, mas o seu de tentar perverter a laicidade do Estado é. O Estado não pode ser católico, nem evangélico, nem budista, nem judeu, nem umbandista, nem de religião alguma. Também não pode ser heterossexual.

Quero tanto um Estado laico quanto quero um estado sem orientação sexual. Quero garantias para a diversidade religiosa e sexual. Não venha julgar, em terra, pastor, como se fosse o Deus encarnado. Pecas contra os mandamentos que dizem que não deves julgar. Deus julgará a todos no juízo final, não é? Só a ele cabe julgar, não é?

Pastor Feliciano, você não é Deus. Não usurpe os poderes divinos. Pense o que quiser e aplique à sua vida. Creia na bíblia, que é seu ofício, e espere o julgamento de Deus. Tente “salvar as almas” dos homossexuais, se você julga isso sua missão, mas saia da política. Este não é teu campo. Neste caminho, só há a barbárie e a violência sob seus passos.

De resto, conte comigo: continuarei defendendo seu direito de professar livremente sua religião. Mas nunca defenderei seu direito de lutar por um estado religioso ou qualquer coisa que lembre isso, como leis feitas sob a sua interpretação da bíblia. Aliás, sob nenhuma interpretação da bíblia.

Noite translúcida

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Cabelos negros,

luz sem cor,

noite translúcida,

cansaço após furor.

Perfume de sândalo,

calor e orquídeas,

sua boca úmida,

bromélia carnívora.

Lasciva Cleópatra,

rainha do Nilo,

te sonhei flor,

me sonhei pistilo.

Sonhei travesseiro branco,

teu perfil,

tuas melenas.

Thea, tua beleza é obscena.

Na noite translúcida,

vaga, diáfana:

corpo trêmulo,

mão errante.

Um relâmpago,

um instante,

afeto depois,

fúria durante.

Mormaço, e você bacante

desfalece, então delirante,

me arranha e dorme,

me poupa e me consome.

Sei, porém, doravante,

na noite translúcida

nada é certo,

nada é constante

E antes, bem antes,

antes de ser tragado por ti,

antes que te tornes gigante,

renego a noite translúcida,

renego porque a quero,

ainda que fosse a última.

P.S.: o nome completo da mais famosa rainha do Egito era Cleópatra Thea Filopator.

Critérios para ampliar a diversidade

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No texto anterior (O poder corruptor da verba publicitária) defendi a adoção de mídia técnica para destinar as verbas publicitárias aos veículos de comunicação como dever moral do Estado, incluindo aí a Prefeitura de Curitiba.

Isto vale para os grandes veículos comerciais, que têm obrigação de fornecer para o Estado informações confiáveis (como o do IVC – Instituto Verificador de Circulação – ou de outros institutos de mensuração de audiência). Mas é claro que tal exigência não se aplica aos pequenos meios de comunicação, como TV e rádios comunitárias ou universitárias, jornais de bairro, sites e portais menores, jornais alternativos , rádioweb,  e mesmo pequenas rádios comerciais.

Estes veículos muitas vezes não têm sequer como comprovar suas tiragens, quantidade de acesso ou audiência. No entanto, são importantes pois promovem a diversidade de opiniões, de pontos de vista e de projetos editoriais. Devem ser apoiados para que sobrevivam e cresçam, pois a democracia é feita de diversidade.

Na impossibilidade de se adotar critérios técnicos e na inadequação de se basear exclusivamente neles para estimular a pluralidade, pequenos veículos devem receber verba publicitária não apenas para realizar a transparência das ações da Prefeitura, mas, também, para promover a democracia.

Isto pode ser feito, inicialmente, com a alocação de um valor fixo, conforme o veículo, por um período determinado, sobretudo para novos projetos. Também é possível adotar critérios que privilegiem a relevância temática, dando maior ênfase a veículos que estejam ligados, por exemplo, a movimentos de defesa de direitos do cidadão. Um site sobre juventude, por exemplo, pode começar pequena, mas seu papel no amplo espectro dos interesses da sociedade é inegável.

O Governo Federal já faz isso com rádios do interior, importantes, mas longe da magnitude dos grandes veículos. A desconcentração do aporte de recursos publicitários normalmente não agrada os grandes veículos, mas promove a democracia. Se veículos como Veja não deixaram de receber dos governos Lula e Dilma parte da verba publicitária, mesmo quando agiram de forma golpista como panfletos políticos do conservadorismo, por outro lado recebem menos hoje do que proporcionalmente nos governos do PSDB. E, claro, não gostam disso. Preferem ter relações privilegiadas e corrompidas com o governo, mesmo que isso implique perda de autonomia editorial. Ao defender seus próprios interesses contra interesses mais amplos da sociedade, atacam a democracia. Nem perseguir, nem privilegiar veículos pela sua postura editorial é dever do Estado.

Por isso, o poder público deve resistir, não ceder as pressões, deixar claro a vantagem, mesmo para os grandes veículos comerciais, de preservar sua autonomia editorial. No caso da Prefeitura, ela deve adotar políticas de estimulo à democracia e elaborar critérios de dispersão da verba publicitária, mesmo que contra os interesses antidemocráticos de veículos que posam de paladinos da sociedade.

Nosso conceito de democracia é mais amplo do quer a mera preservação das liberdades de alguns contra a liberdade de todos. Este princípio é inegociável. Defendê-lo dá trabalho, mas separa os estadistas democratas dos parasitas dos recursos públicas, sejam jornais, sejam governantes.

Uma pobre história do cristianismo, por Geoffrey Blainey

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Terceiro best seller de Blainey é pobre.

Os managers da indústria editorial fazem chover quando o assunto é inventar um  best seller. Produzir um produto editorial com grande potencial de venda é uma arte. Porém, ser um bom livro não é de fato imprescindível. Por vezes, é até pior.

Uma breve história do cristianismo, de Geoffrey Blainey, é um bom exemplo disso. O livro é pobre, em diversos aspectos, mas na semana de 20 a 28 de agosto figurava ainda em quinto lugar de vendas de livros de não-ficção e décimo quinto no geral no site Publishnews. É o terceiro best seller de Blainey, no Brasil. Antes saíram Uma breve história do mundo e Uma breve história do século XX.

Blainey afirma que seu livro sobre o cristianismo é uma abordagem acadêmica. Diz ele, no prefácio: “Investiguei a história como historiador, não como teólogo”. Se fosse mesmo uma abordagem historiográfica, seria uma versão ruim da história oficial católica do cristianismo. O autor relata, como é sabido, que os evangelhos foram escritos perto do ano 50 d.C. Até ali, a história de Jesus era transmitida oralmente, de geração a geração, por um povo que era ainda pouco alfabetizado. Apesar disso, de relativizar as fontes logo de início, ele não faz cerimônia para usar os evangelhos como fonte quase exclusiva para narrar a vida de Cristo. O autor confronta os evangelhos com interpretações atuais de teólogos da Bíblia, para discutir, por exemplo, o local do nascimento de Cristo. O debate que reconstrói é exclusivamente calcado nos evangelhos e nos estudos deles. Outras fontes, se existem, são ocultadas com estruturas como ”Conta-se que, aos doze anos…” ou “Presume-se que fizesse pequenas peças de madeira…”. Quem conta e quem presume, não sendo o autor, ele também não revela.

Ou então ele refere “Outros historiadores” sem dizer quem são. E isso acontece em todo livro. No final, no capítulo “Fontes selecionadas”, apesar de anunciar que literatura sobre cristianismo é “extensa, quase esmagadora”, Blainey cita apenas oito referências e diz que, na versão original do texto, editada por ele posteriormente, constavam muitas páginas “onde estão listadas as fontes consultadas”.

Sim, citar fontes é prática acadêmica, fazer referências por ano e página do livro é exigência em teses e dissertações. Um livro de vulgarização dispensa tal esforço, certo? Errado. Primeiro, o livro se diz uma obra historiográfica. Por isso, mostrar suas fontes é ato de honestidade intelectual e permite ao leitor checar as informações ou se aprofundar no tema. Fontes são uma estrutura de hiperlink. Mas isso tornaria o livro cansativo, certo? Em parte. Se houvesse uma longa discussão das fontes e reiterados cotejamentos de pontos de vista sim, mas por que referir uma informação a “um historiador” e não dizer, por exemplo, “Tocqueville (1988)”. A maioria das pessoas não liga para estas referências, nem lê as longas páginas de bibliografia. Não é por isso que a informação pode ser sonegada, menos ainda quando não faz nenhuma diferença no texto. Para a maioria, apenas soa como atribuição de autoridade à informação, o que de fato é, mas não apenas.

Segundo ponto porque o livro é ruim. A organização é caótica. Aparentemente, ele segue uma ordem cronológica, que vai da vida de Jesus, passando pela perseguição pelos romanos, a conversão de Constantino, o islamismo, as cruzadas, a reforma ate chegar à conquista do novo mundo e os desafios atuais.  Mas não se engane. A cada capítulo, o tempo vai para frente e para trás. Em poucas páginas, os séculos mudam de forma voraz. Um exemplo: na página 82, Blainey discute o celibato entre os padres. O tema surge do nada no texto. O autor relata que o debate começou em 305 d.C., mas foi no Concílio de Niceia, em 325 d.C., que se tomou alguma decisão sobre o tema, permitindo o casamento apenas aos escalões inferiores do clero. Cinco linhas depois, ele escreve: “Na França, nos cem anos seguintes ao ano de 942, houve três bispos casados, com filho, e até alguns papas tiveram filhos legítimos.” A intenção era mostrar como o celibato demorou a ser efetivamente respeitado, mas o salto no tempo é meramente casual. Serviria também Portugal em 1550 como exemplo. Estes saltos se sucedem, dos séculos 5 ao 12 e de volta ao 4 sem nenhuma reserva.

Organizar um livro de história de forma cronológica não é necessário e, hoje, sequer é a forma mais usual. A organização poderia ser por grandes temáticas: debates teológicos, avanços políticos, organização e disputa do poder eclesiástico. Mas tudo bem organizar cronologicamente. Blainey, porém, não faz nem isso. A sensação final é de voos sem critérios por informações levemente conectadas.

O terceiro ponto fundamental da baixa qualidade do texto é decorrência do segundo. Sem organização clara, os acontecimentos narrados ficam descontextualizados. A tensão e a contradição inerentes à vida estão fora do texto. Assim, muitos episódios são explicados de forma pueril ou ingênua. A conversão do imperador Constantino é um primor de pureza. Depois de relatar que, apesar das perseguições, algumas poderosas famílias romanas simpatizavam com o catolicismo, Blainey escreve: “Constantino, poderoso comandante militar, foi um dos simpatizantes inesperados.  (…) Diz –se que o próprio Constantino, embora não fosse batizado, carregava sempre o oratório, para que pudesse adorar Cristo durante as marchas com seus soldados”. Então, o imperador concede liberdade religiosa aos cristões e, em seguida, torna o cristianismo religião oficial de Roma. Explicação para tal conversão: apenas uma leve insinuação de que uma religião multirracial seria mais conveniente num império tão vasto. E, claro, a justificativa católica de que Constantino teria tido uma visão de Deus. Depois disso, resolveu converter todo um vasto império ao cristianismo. Nenhuma ponderação política ou econômica ou cultural. Nenhum motivo outro. Constantino foi movido exclusivamente por sua fé. Esta á a versão oficial. Por ser oficial, é suspeita.

A falta de tensão se repete, com episódios perdendo relevância. A noite de São Bartolomeu merece 8 linhas, apesar do próprio autor a considerar o “episódio mais dramático” do conflito entre a maioria católica e a minoria protestante. Já a “bíblia do melado”, piada resultante de uma tradução de “bálsamo” como “melado” tem seu próprio título. Muitos capítulos parecem ser resumos das famosas vidas de santos ou hagiografias que circulavam pela idade média. São Francisco, Agostinho, Escolástica, Zuínglio, Vladimir são alguns deles. Outros personagens emergem das suas histórias de fundadores de denominações protestantes: Whitefield, Wesley, Knox, Fox, Bunyan. O livro perfaz assim um mosaico de biografias.

Por vezes, Blainey descamba para a defesa da igreja católica, de forma totalmente desnecessária. Diante das acusações que o clero sofria no começo do século XVI por ostentar luxos demasiados, crítica da qual nem a igreja hoje se esquiva ou nega, o autor questiona: “No entanto, como avaliar com justiça uma instituição que, apesar das visíveis falhas, continuava a cumprir suas obrigações e a inspirar positivamente tantas vidas?”. Assim mesmo, como palavra dele, não de alguma fonte oculta ou um papa ou um bispo. As críticas efetivamente não implicam a desqualificação da igreja como um todo. Desnecessário dizer. Inadequado de ser dito por um autor que se diz historiador. Em outro trecho, o autor endossa a infalibilidade do Papa. “Reconhecidamente, os pronunciamentos do papa sobre a ‘fé e a moral’ sempre estiveram perto da infalibilidade, já que ele era servo de Cristo na Terra e considerado seu porta-voz ‘para todos os cristãos’”, escreve.

Ao fim da leitura, o livro agrega muito pouco conhecimento e, quase sempre, conhecimento fragmentado, descontextualizado, quase inútil. Mas é possível entender, apesar do autor não abordar o tema explicitamente, porque há tantas denominações protestantes e, basicamente, apenas duas igrejas católicas: a do oriente e a do ocidente. Ao narrar cada um dos fundadores das principais denominações protestantes e a sua leitura específica da bíblia, Blainey, sem querer, demonstra como a ausência de um poder central, como o papa no ocidente e o patriarca no oriente, conduz a diversas igrejas. Lutero ao estimular a leitura da bíblia diretamente impulsionou a alfabetização dos países protestante, hoje entre os mais avançados do mundo. Por outro lado, permitiu múltiplas interpretações da bíblia e, assim, múltiplas igrejas. Tal mecanismo continua operando até hoje, nem sempre de forma honesta.

Em suma, o livro pode ser breve, mas não é história. Se a academia americana aceita a obra como historiográfica, lamento pela academia americana. No Brasil, com certeza, o livro é apenas uma vulgarização ruim de informações sobre o cristianismo e sua história.

Mas ele oferece uma pista sobre o que faz um livro vender muito. Anote a dica: dê pouca informação ao leitor e quase nenhuma relevante. Assim, não terão como discordar de você nem terão que reorganizar a visão de mundo que já têm. Cada um interpretará o texto conforme sua própria visão, previamente dada. E jamais aborde o tema criticamente ou exponha suas contradições. Assim, você vai conseguir escrever sobre um tema espinhoso como o cristianismo sem atrair a ira de nenhum cristão, católico ou protestante.

É um feito. Para mim, negativo.

O poder corruptor da verba publicitária

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O poder público tem obrigação legal de divulgar seus atos. Faz parte da transparência com as ações de Estado. Por vezes, esta obrigação é formal, com a publicação de editais de licitação. Em outras, a comunicação se torna ação de Estado em campanhas de esclarecimentos público como no caso das campanhas de vacinação.

Jornais devem cobrir as ações de Estado. Faz parte do seu papel democrático: vigiar o poder. O jornalismo, ao longo do tempo, se legitimou perante a sociedade pelo seu profundo entrelaçamento com a democracia.

Este é um mundo ideal, mas não existe. Na realpolitik ninguém na Prefeitura de Curitiba nos últimos mandatos deixou de usar da verba publicitária para injetar recursos nos jornais com a perspectiva de comprar a sua postura editorial. Em outras palavras, os anúncios visam não apenas realizar uma ação de comunicação, mas também uma ação política diminuindo o ímpeto das redações para fazer denúncias, para descobrir mazelas, para vigiar o poder público. Azar da democracia; azar do cidadão.

A verba publicitária é utilizada como um poder corruptor. E é impossível identificar o ato como desvio de recursos ou como ilegal, posto que investir em compra de espaço nos jornais, em compra de mídia faz parte das atividades usuais da prefeitura. Legal, mas a-ético, imoral. O mercado nunca ofereceu critérios claros para definir quanto valem os anúncios. Por outro lado, a decisão de anunciar em um veículo e não em outro não se baseia, muitas vezes, em busca de eficácia da ação de comunicação. Ou seja, os valores são aleatórios, assim como, muitas vezes, a escolha dos veículos. A falta de critérios técnicos abre a porta para o uso ilegítimo e imoral dos recursos como instrumento para inibir a autonomia editorial dos veículos e dos jornalistas que neles trabalham. Esta estratégia  se repete, vergonhosamente, há anos.

Uma Curitiba que se queira moderna e progressista não pode incidir nestas práticas mais uma vez. O poder público tem o dever de fazer estudos técnicos e adotar critérios claros de alocação da verba publicitária nos jornais, com já acontece no Governo Federal. Ou seja, o Estado tem dever moral de usar mídia técnica para alocar recursos publicitários. E uma vez destinada a verba para um veículo, mediante contrato, o repasse não pode ser suspenso ou diminuído exceto por razões de ordem técnica, como queda acentuada nas tiragens ou audiência.

O Estado tem o dever de divulgar seus atos, mas também de realizar estudos que justifiquem os investimentos. O dinheiro é público. Seu uso justo e adequado é de interesse da população, da mesma forma que a preservação da autonomia dos veículos de comunicação e das redações dos jornais perante o poder público.

(Texto publicado originalmente no blog http://www.curitibaquer.com)

Sob penumbra

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Um sopro leve me gela o ombro. As asas do anjo, imensas, o entregam. Ele se esgueira na escuridão, poderoso, imenso, mas silencioso, quieto, calmo, quase imóvel mesmo diante das minhas cenas de desespero, que ele nutre, por vaidade.

Uma leve chama bruxuleia. Quase imperceptível, mas eu a sinto. Quando me viro, o movimento já parou. Pela minha coluna, passa sua energia, que me arrepia, ou o vazio de tudo que drena minhas forças.

O anjo só se deixa ver quando está perto, quando suas asas já nos adornam, quando sua túnica já nos berça, tão escura quando a noite, que parece nem existir. Não vejo sua face escura. É uma imagem de foto em contraluz. Eu sei que ele esta ali, vejo seu vulto, mas não distingo os traços do seu rosto.

Se sua presença é inconfundível para mim é porque ele frequenta meu quarto e minha alma há algum tempo e aprendi identificar seus sinais e me preparar para a sua chegada. Não que isso diminua a dor, mas aprendi a conviver com ela e estar lívido, adormecido o máximo que eu puder, mantendo sob controle meus atos extremos.

Ele veio; ele virá de novo. E sempre e sempre enquanto as portas estiveram abertas. Minha vida é uma casa sem trancas. Sempre será.  Não consigo evitar seus passos no escuro, ser noturno que nunca quer ser visto. Já admiro a beleza da sua forma, a calma que antecede as chuvas torrenciais. Ele é belo, imóvel, acho que ri quando choro. Ele deve estar feliz agora.

Eu vejo seus sinais como a fumaça que denuncia o fogo extinto recentemente. Primeiro, a melancolia, o desprazer em tudo, uma sensação de permanente tristeza contra furtivos intervalos de alegria. Depois a sensação de nada que invade o quarto, a sala, a cozinha, o banheiro, debaixo do meu cobertor e por dentro da minha carne. Por fim, o tempo que se dilata, vazio de todas as coisas, e as energias que se dissipam. E eu espero, vendo as horas me corroerem, sem nenhuma reação.

Datas, prazos, projetos, tudo se acumula no futuro assustador quando terei que enfrentar as consequências dos meus atos, quando o amor que sinto por ele não servir mais de justificativa. Sentirei de novo o desejo de isolamento e de fuga, mesmo sem saber do que ou para onde.

E vou desejar, rezar, orar, tomar drogas, falar, pedir ajuda espiritual, qualquer coisa para conjurar sua presença. Pois me vejo muito nu quando ele está aqui, vejo minha própria face sombria e não gosto.

Mas tu, anjo, não vais embora. E escrevo textos para ti, como um gesto de amor e de ódio, para que partas ou para que fiques. Mas respeite meu silêncio, meu jeito de sofrer por dentro, minha angústia sem mover nenhum músculo do rosto.

Apenas calma e tristeza, pois és tão presente em meus dias que talvez eu já não consiga me imaginar sem você, meu anjo obscuro. Me proteja, então, da vida.

Periferia, meu bem!

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Esta é a rua do comércio, na Vila Nossa senhora da Luz. Tomei muito café numa padaria logo ali na entrada. Veja mais fotos da Vila no blog de Rosmil Paiva (http://rosmil-paiva.blogspot.com.br/2010/07/fotos-vila-nossa-senhora-da-luz.html).

Periferia. 22 horas. Já comi ali, várias vezes. O lugar é amistoso. Na frente do Terminal do CIC, o espetinho custa R$1,00. Até recentemente custava R$0,50.

– Subiu?, pergunto. Não faz dois meses paguei R$0,50!

O dono do ponto responde, sem jeito.

– É, tive que subir. Não tava compensando.

Operários de fábrica, funcionários de empregos médios, trabalhadores de diversas atividades e estudantes dos colégios da região Sul sempre passam por ali a este horário. Alguns param para comer. Além de espetinho, há dois pontos de venda de cachorro quente. Morei no bairro por anos. Não vivo mais ali, mas me sinto e me misturo com eles como se fossem meus vizinhos. E são, de certa forma.

– Tem cerveja gelada?

– Acabou. Só tem guaraná agora.

– Serve.

Converso coisas triviais. Pergunto sobre o movimento. O ponto de espetinho está ali há dez anos, ao lado da Vila Nossa Senhora da Luz. Quando pisei no bairro pela primeira vez, a polícia, diziam os rumores que corriam abertamente, não pisava na Vila sem autorização dos traficantes. Hoje, a coisa está bem melhor.

Pego um espetinho e volto para perto do meu carro, ainda sem pagar nada. Nenhum alarde. Ninguém sai sem pagar. O dono sequer conta quantos espetinhos cada um comeu. Os clientes mesmo contam. Me aproximo de um sujeito que está sempre por ali, cuidando dos carros. Explico que estou fazendo uma matéria, que morei no bairro, mas que sou jornalista agora. Explico que vou escrever um texto sem revelar os nomes de ninguém para uma publicação universitária. Pergunto sobre o “Tá limpo”, famoso ponto de vendas de drogas. O “Tá limpo”, conta meu informante desconfiado, não tem o melhor pó. Ele me indica outro lugar. Agradeço e digo que vou antes comer mais espetinhos.

Ali no meio da Vila convivem traficantes e famílias de trabalhadores. Todos sabem quem é quem. Os usuários de drogas que alimentam o tráfico não são, na sua maioria, moradores do bairro. São estrangeiros, fáceis de identificar pelo comportamento excessivamente amistoso e pouco natural. Querem parecer da periferia, para passarem incólumes, mas não conhecem os códigos. São fáceis de perceber, demonstram medo e muito preconceito.

Para quem mora no CIC e não está metido no tráfico, o lugar, hoje, é seguro. Costumava tomar café da manhã numa padaria na Vila, além de levar equipamentos eletrônicos para consertar num técnico próximo da Praça 8. Me sinto, efetivamente, mais em casa aqui do que no centro, onde morei. Há, na periferia, um sentido comunitário, as pessoas se reconhecem, sorriem, têm consigo a honestidade e solidariedade típica das classes operárias. Pessoas simples, querem apenas viver bem, um pouco de diversão no final de semana, filhos trabalhadores e honestos, mas as condições materiais são, muitas vezes, precárias. As coisas nem sempre vão tão bem quanto se deseja.

– Vocês já foram roubados por aqui?, pergunto, enquanto como um espetinho, depois de me identificar como ex-morador e jornalista.

Um homem com menos de quarenta anos responde.

– Não, nunca. Roubaram o som do meu carro duas vezes, no Batel. Em uma, levaram o tampo do porta-malas do Gol com as caixas de som, debaixo do braço.

Outro conta:

– Meu carro, roubaram no centro. Nunca mais achei. Mas aqui nunca me roubaram nada.

– Você acionou a polícia?

– Sim, mas fiquei sabendo bem rápido, por camaradas, que eles não iam fazer nada se eu não oferecesse recompensa, como fazem as empresas de seguro. E que se achassem meu carro inteiro poderiam depená-lo na própria delegacia. Daí, desisti.

Ao contrário do que parece, a periferia é muito pacífica. Aparentemente, há algumas vantagens em viver longe da grana que flui nos bairros mais abastados. A ganância não opera de forma tão evidente, mas opera.

O tráfico ainda é uma mácula e, sobretudo, a estruturação de um poder paralelo, armado, para lhe dar cobertura. Por isso, os pontos de venda acabam sempre nos lugares mais vazios do Estado de Direito, como a Vila. É no tráfico que a ganância, estranha à maior parte da população periférica, faz mais estragos. A questão não é a droga; é o dinheiro que vem com ela.

Saio de carro, de volta para o meu bairro atual. Madrugada vem chegando. No caminho, passo por um ponto de prostituição, bem ao lado da Vila. Paro e duas meninas vêm falar comigo. Não têm mais que 20 anos, mas estão envelhecidas e feias, moram ali perto e se prostituem para comprar drogas. Claro que não me contaram nada disso, mas todos no bairro sabem. Pergunto o preço:

– R$20 o programa. R$10 sexo oral.

– Qualquer uma?

– Pode escolher, meu bem.

Conversamos mais algumas coisas, mas digo que estou com pressa, dou R$10 para cada uma, recuso o programa, e vou embora. No carro, me arrependo de ter dado o dinheiro. Parece que paguei por informação, o que não me agrada nada. Mas, no fundo, sei que elas encerraram a noite de prostituição com este último “cliente” e que meu dinheiro agora vai comprar alguma droga. Idiota, fui ser jornalista e por vias tortas acabei alimentando o tráfico de drogas na periferia.

Sei que elas iriam usar drogas esta noite de qualquer forma, mas me sinto conivente. Mas um pensamento me atordoa mais. Talvez eu esteja mesmo me tornando um burguesinho do centro da cidade que pensa que dinheiro recompensa tudo.

– Não na periferia, penso.

Tenho que me lembrar disso. Tenho muito que me lembrar disso para nunca esquecer que, no fundo, gosto de precisar de pouco, como aprendi na periferia. Tenho que me lembrar que grana não é tudo.

 

P.S.: Crônica escrita para a revista Coré-etuba, Trabalho de Conclusão de Curso da minha ex-orientada Marina Feldman.

Os ausentes

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A casa se enfeitou. Velha e rústica, carregava passado demais, mas parecia jovem. Os perfumes vinham da rua e da cozinha, do quintal, florido de primavera, e do prato favorito do meu vô: um cozido de carnes, com legumes, preparado abundantemente. Ele enchia o prato uma única vez e comia tudo.

Aquele dia misturava os aromas da cozinha com o ar fresco da manhã entrando pela janela, aquela primeira lufada de vento que invade a casa logo ao acordar. Minha mãe arrumara tudo, como lhe cabia. Primeira filha mulher, a ela restara cuidar-lhe. E foi só por isso, pelo imenso amor de filha e por saudades que ela venceu a tristeza daquele dia e acordou cedo, chacoalhou os meninos, filhos e sobrinhos, arrumou as roupas de cada um, os fez tomar banho, os vestiu e alinhou cada roupinha. Esbravejou com os mais velhos, preguiçosos, para que levantassem da cama. Então, arrumou cada lençol, um a um, abriu as janelas, desfez a desordem da manhã depois da noite em família.

Meu vô já estava acordado, como sempre, como todas as manhãs, como homem trabalhador que era, mesmo com músculos envelhecidos e cansados, com poucas das forças de homem rural, como gostava de ser tratado. Meu vô levantou e foi andar pelo quintal, alimentando as galinhas e os porcos. Olhava, com o olhar de nunca mais, um a um dos descendentes da sua prole, vasta prole, de imigrante, como gostava de ser tratado.

Homem de poucas palavras, meu vô era adepto do silêncio. Não falava muito, nem sofria abertamente. Era imigrante rural, dado a rudezas. A casa era simples, de madeira e alvenaria. Tudo feito com muito custo. Quase tudo pelas suas mãos laboriosas, que trabalharam dia a dia, sem reclamar, sem murmúrio, sem incertezas, uma vida inteira.

Aquela casa imensa e rústica só tinha um uso: ser grande suficiente, para comportar sua maior obra. A família chegava. Cada um, conforme as oportunidades da vida, tinha feito outro lar, criado filhos e até netos, como eu. Cada um, conforme as oportunidades e os parcos recursos permitiram, tinha galgado alguma posição social. Meu tio virou caminhoneiro. Muitos primos eram pequenos burocratas, em bancos ou escritórios. Quase metade dos netos fez curso superior. Meu vô se orgulhava de tudo isso. A casa grande era o símbolo da família. Com as partidas, tinha ficado grande demais e vazia. Mas não naquele dia.

Minha mãe saiu rápida:

– Pai…

Meu vô escuta pouco.

– PAI…

Ele virou, lento, com o olhar miúdo e vago que lhe acometeu desde a morte da segunda esposa.

– Pai, vem para dentro. O Júnior está chegando.

Meu vô não disse nada. Caminhou até a varanda e, sem pressa, cumprimentou o filho mais jovem, abraçou, rindo largo, os netos e a nora. Então sentou numa velha cadeira de recosto longo e, mais uma vez silencioso, se pôs a olhar feliz o vago horizonte.

Assim foram chegando os demais, os que não tinham dormido na casa. Barulhentos, netos e bisnetos em grupos faziam fila para beijar o vô. Depois corriam para dentro, para o barulho da família grande e dos primos. Seis filhos, treze netos, noras e genros e a pequena bisnetinha. Os olhos do meu vô sorriam, marejados de lágrimas de alegria de vê-los todos ali. Era a despedida que queria e, mesmo ausente, ele estava feliz.

Diferente dos anos em que a família vestiu luto com a morte lenta e inexorável da minha vó. Naqueles dias, meu vô, como sempre, falava pouco e chorava menos ainda, escondendo a dor dentro de si. Depois, passou a chorar lágrimas solitárias, brevemente, todos os dias, como se tivesse se habituado à dor crônica do câncer. Por isso, tinha um brilho diferente nos olhos. Era um brilho escuro. A morte veio tão lenta que quando chegou, apenas perguntei:

– Por que demorastes?

Minha vó partira depois de longo definhar perante o câncer. Achava que os velhos sorriam, fechavam os olhos e morriam. Não entendia aquela dor toda da minha vó. Nem meu vó.

A morte da tia Ana foi diferente. Ela partiu jovem, sem que pudéssemos dizer adeus. O acidente, trágico, deixou três mortes. Ela desfigurada no caixão, e eu só pensava se ela podia me ouvir, se sussurros chegariam ao céu, dizendo:

– Eu te amo.

Ela foi sem saber o tanto de amor que carregava no coração por ela. Eu me penitenciei por anos, por ser um falso, um mentiroso incapaz de confessar o amor que sentia por alguém, mesmo amor fraterno, amor de família, amor e admiração pela tia mais jovem. O vô se desesperou. Foi a única vez que o vi chorar, copiosamente.

O Guiga, porém, foi de todas as partidas a mais revoltante, esfaqueado em casa, por um estranho que nunca soubemos quem foi. Meu vô retorceu os músculos do rosto com a máscara da revolta. Não derramou lágrima, mas se envenenou com ódio. A sensação de injustiça e de impotência pairou na família por sombrios dias e dias e dias. Infindáveis dias, meses e anos.

Todos sentíamos estas ausências, exceto os mais jovens que não viram os que se perderam de nós. Porém, o dia era de festa, mesmo que tivesse o gosto estranho da despedida. Meu vô andava ausente, pensando no outro mundo. Sofremos, ele sobretudo, cada partida de modos diferentes. De forma letárgica, constante, lenta, na morte da minha vô, definhando dia a dia. Pelo trauma de uma morte inesperada e violenta, cuja culpada era a tia que eu amava. Pelo inconformismo com a morte do meu primo, cujas razões nunca soubemos. Ele carregou seus segredos, pronunciáveis e impronunciáveis, com ele. Os três partiram no intervalo trágico de dois anos.

A quarta ausência era a do meu vô. Era ausência diferente. Ele estava ali, mas todos já o sentiam como não. E, elo familiar, depois da morte dele, sabíamos que nunca mais a família se reuniria, exceto nos funerais, sem prazer, sem gosto, por obrigação, os jovens; por tristeza, os mais velhos.

Assim, era triste dizer adeus para ele. O vô nos olhava como se não tivesse certeza de que voltaria a nos ver. Via seus olhinhos marejados, iguais apenas à tristeza crônica da morte da minha vó. Cada despedida soava definitiva. A surdez piorava nossos abraços partidos:

  • Tchau, vô. Já tô indo.

E brilhavam os olhos míopes de quase 90 anos, marejados de lágrimas. Eram como pérolas reluzentes quando ele se despedia dos netos, entre eles eu. Como ele ouvia pouco, nas despedidas, isso doía. Doía porque a gente queria falar baixinho nestas horas tristes e não gritar a tristeza. Queria dizer baixinho, vô, no seu ouvido: “tchau”, para que nem eu ouvisse. Não gritar para que o senhor ouvisse e tivesse certeza que não fomos sem dizer adues, o que seria imperdoável.

Tudo naquele dia está claro na minha memória. Ele quis cumprimetar a todos, último beijo em cada um dos seus. Ele sabia. Nós também. Ninguém confessaria, mas a família grande tornava aquela despedida crônica, longa, sem fim e sem cura. Para ele, foi leveza. Tendo deixado claro, sem palavras, como era do seu feitio, o quanto ele amava cada um, o quanto se importava, meu vô morreu dois meses depois, no leito de um hospital. Morreu de cansaço, mas tinha o semblante lívido dos que fizeram seu papel, cumpriram sua missão no mundo.

Minha mãe viveu conosco mais dez anos. Sou grato por isso. Ela herdou a força do pai. Eu herdei do vô a imensa incapacidade de mostrar meus sentimentos, mas desde de a morte da Ana tenho tentado melhorar. Mas hoje não dá. Hoje, o que sinto se vestiria de desespero, de perda de tudo ao mesmo tempo. E eu só sei perder um pouco de cada vez. Não consigo estar feliz como o vêo esteve naquele dia, de sentimentos ambíguos. Para mim, só há tristeza, pontilhada com a doçura breve dos beijos dos que amo. Não estou preparado para a morte.

O almoço de despedida do meu vô aconteceu há 30 anos. Hoje, a família se reúne para comemorar meus 67 anos. Poucos lembram do vô. São menos numerosos. Tive apenas dois filhos. Cabemos todos numa mesa grande, de uma casa pequena. Nisto, invejo o nono. Meus descendentes não convivem com nenhuma ausência, exceto a minha. Então, não sabem o que é isso. Os pequenos não entendem sequer isso de hereditariedade, nem sabem que carrego o mesmo câncer que a minha vó.

Para mim, a casa está cheia de lugares vazios. Para mim, além dos poucos descendentes, há muitos outros ausentes. Na minha memória, refaço a despedida do vó e vou marcando mentalmente, um a um, os ausentes. Eu sinto a presença deles, uma presença vazia, mas constante. Não consigo alongar a despedida como o meu avô. Vejo tanto nesta sala, tantos que viveram comigo, que amei, toda uma grande família que passou ou que passará. Não consigo me despedir de todos porque me dilacera saber que quando eu me for mesmo a ausência deles se dissipará de mim. É o dia mais triste da minha vida. Porém, é o dia mais feliz da minha morte, porque todos vieram.

Todos estão aqui. O único ausente sou eu.

Resistir e sonhar

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O que aconteceu com a juventude?

Por que não admiram os jovens que lutaram a vida inteira, aqueles que entregaram a vida por uma causa, aqueles que foram para as ruas ou para as prisões em defesa das suas crenças ou que viveram os grandes festivais, que romperam esteticamente, os que apanharam calados na Itália, sem revidar, porque o amor era sua arma, os que seguiram Gandhi, os que entregaram a vida para salvar outras vidas?

Por quê?

Eu não entendo isso. Eu aprendi, criança, a acreditar no regime militar, até começar a desconfiar. Então, não parei mais de questionar. Quando cheguei a uma universidade pública, contra todas as possibilidades, vi que era preciso resistir e sonhar. Foi por sonhar que superei a precariedade do ensino público que o regime militar me ofereceu, não só ruim, mas totalmente conformado.

Mas eu encontraria o regime militar também na universidade. No começo dos anos 90, a abertura política estava muito próxima. No meu curso, muitos professores eram ligados à ditadura (arapongas, interventores, censores, dedo-duros, agressores). Um confessara que esmagou dedos de comunistas. A repressão acabara, mas estava viva ainda. Naqueles dias, ninguém ousaria acreditar que quem foi torturado era o vilão. Nós tínhamos lado.

Em 97, em pleno governo PSDB, passei no teste seletivo de professor substituto. Ganhava cerca de um terço do piso de jornalista. Além de manter os salários baixos, o governo FHC não repunha as vagas de professores efetivos e demorava para liberar as vagas de substitutos. Tínhamos mais da metade das disciplinas dadas por professores substitutos, que eram contratados, invariavelmente, dois meses depois que as aulas tinham começado. Era o caos.

Naqueles tempos, a UFPR tinha incêndio no seu prédio histórico, em um ano, e greve, no outro. Tanto uma coisa quanto outra tinha a ver com um histórico de baixos investimentos da União na educação superior, situação que piorou com FHC. O governo propagava uma dicotomia traiçoeira: o dinheiro era escasso; tinha que investir em educação básica ou em educação superior. Não via o sistema educacional como um todo. Criou o Fundef (Fundo de Desenvolvimento da Educação Fundamental) e asfixiou as universidades públicas, abrindo o mercado para a explosão dos cursos privados, sem fiscalizar a qualidade.

Em 98, passei no concurso de professor efetivo e, naquele ano, numa greve que durou cerca de 5 meses, terminei de escrever minha dissertação de mestrado. Foram três greves, por mais recursos e por melhores salários, em oito anos. Muitos professores optavam por sair ou se aposentar precocemente. Foi grande o êxodo de mestres e doutores.

Mas a gente não cansava de sonhar. As canções da contracultura ainda estavam em nossos corações: “Quem tem consciência para ter coragem?Quem tem a força de saber que existe? E, no centro da própria engrenagem, investe contra a mola, que resiste?Quem não vacila, mesmo derrotado? Quem já perdido, nunca desespera? E, envolto em tempestades, decepado, entre os dentes, segura a primavera?” Nós segurávamos, ao nosso modo, a primavera entre os dentes. Estes sonhos levaram Lula ao poder, depois de muito apanharmos. Em 89, Collor usou a filha de Lula, Lurian, para atacá-lo, sob a alegação de que ele teria pedido para que a mãe abortasse a filha. Covas havia recusado a história, que fora lhe oferecida antes. Collor não. Saudades daquele PSDB do Covas. Em 94 e 98, Lula saiu de favorito para derrotado nas eleições, sob implacável silêncio da imprensa, que fez as eleições correrem como se não existissem. O silêncio poderia ser quebrado com a história do filho bastardo de FHC, mas Lula recusou duas vezes a usar esta arma. Perdeu, sem apelar.

A mesma imprensa que silenciara durante as campanhas, tentou dar um Golpe em Brizola, na eleição em 82, no Rio, manipulou vergonhosamente o último debate entre Lula e Collor, no Jornal Nacional, em 89, colocou camisetas do PT em sequestradores do empresário Abílio Diniz, para demonizar o PT, que surgiu sob este estigma. Ou alguém acha que a ditadura deu o número 13 para o partido por acaso?

Durante o governo, o PT errou e decepcionou muita gente, pessoas que tinham sonhado demais e não queriam abrir mão dos seus sonhos. Ou que se decepcionaram com o pragmatismo político, usando armas e expedientes típicos da direita. Gente que queria a reforma agrária para já, o salário mínimo do Dieese, a auditoria da dívida externa, a reforma urbana, a radicalização da democracia. E queria um PT totalmente fora de esquemas de caixa 2 de campanha.

Mas é inegável que ao fim de oito anos nossos sonhos parecem mais reais. Diminuíram as ações do MST, houve mais investimento em agricultura familiar e mais assentamentos. Menos gente tem vindo para as periferias das grandes cidades. É pouco, mas é muito mais do que tínhamos.

O salário mínimo teve substanciais ganhos reais, provamos que a tese liberal de que salário produzia inflação, dragão que fazia os trabalhadores calarem e aceitarem salários baixos, estava errada.

Pagamos a dívida externa, sem auditá-la, mas não devemos mais. A bandeira do “Fora FMI” se concretizou, por outro caminho.

O mercado imobiliário cresce e podemos ver, no futuro, o dia em que não haverá pessoas sem casas.

As conferências (de Saúde, Juventude, Direitos Humanos, Comunicação, Educação), demonizadas pela mídia, radicalizaram a democracia.

E, mesmo no combate à corrupção, o PT cumpriu um papel fundamental. Nunca a CGU (Controladoria Geral da União) controlou tanto os gastos dos repasses da União; nunca a Polícia Federal fez tantas operações (foram mais de 300, contra cerca de 20 no governo FHC). O combate à corrupção melhorou muito, mas ao levantar a tampa do esgoto o cheiro foi desagradável. Aquilo corria ali há anos, sob os militares, sob Sarney, sob Collor e sob FHC.

Meus sonhos de adolescente eram grandes demais, mas, por Deus, eles não eram pura fumaça. O Brasil não é mais o eterno país do futuro.

Eu, moleque, tinha tudo para errar, mas não errei. Não sabia nada de nada, mas pressentia o perigo. Sabia que onde estivesse a TFP (Tradição Família e Propriedade), eu não estaria. Onde estivessem os neonazistas, em cerraria fileiras do outro lado. Desconfiava da posição política da Globo sempre, pois foi a emissora inventada pelo militares e que nunca abriu mão de interferir nas eleições deste país. Sabia, mesmo tendo formação cristã – tanto católica quanto protestante, que aborto era uma questão de saúde pública, não uma questão moral e religiosa. Sabia que qualquer um que usasse este tema para demonizar seu adversário, levando o debate para o obscurantismo, não merecia crédito.

Sabia que qualquer um que usasse o preconceito como arma de campanha não era um bom candidato. O processo civilizatório tem muito de aceitação dos diferentes. Primeiro foram os negros, que tiveram que lutar por liberdade e depois por direitos civis, para que aceitássemos as diferenças étnicas. Depois, foram as mulheres, que lutaram por direitos iguais, para que aceitássemos as diferenças de gênero. Hoje, são os homossexuais que lutam contra o preconceito, para que aceitemos as diferenças sexuais. A igreja sempre tardou a reconhecer. Os negros não tinham alma, as mulheres deviam ser submissas ao homem como a igreja é submissa a Deus. Eles dizem que está na bíblia, no livro que inaugurou o amor fraterno pelo próximo. Dizem que lá está a semente da diferença, não da igualdade.

O livre-arbítrio significa que eu posso escolher sem ser julgado pelos homens, pois só Deus pode me julgar. De onde pastores e padres usurparam o direito de Deus? Ao cristianismo, cabe acolher, inclusive os diferentes.

Dizia Paulo Francis, um reacionário confesso: “Um jovem que não é de esquerda, não tem coração. Um homem que não é de direita, não tem cérebro.” Eu tento racionalizar meu coração. Mas me impressiona que os jovens tenham tanto cérebro e ele não sirva para sonhar, que seja tão egoísta e, por vezes, capturado pelos sentimentos mais irracionais.

Meus sonhos demoram para envelhecer. Quero morrer ingênuo. Quero resistir ao tempo. Lutar, enquanto tiver forças. Sonhar, enquanto não for velho demais. Quero um coração jovem até que ele pare de bater. Quero continuar acreditando em quem se alimenta dos nossos sonhos e não em quem estimula os nossos ódios e explora os nossos medos.

O que fez, afinal, a juventude envelhecer antes do trinta?

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