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Freitag. A teoria crítica: ontem e hoje.

Freitag, Barbara (1986). A teoria crítica: ontem e hoje. SP, Brasiliense: 1994.

Escola de Frankfurt é o nome que se dá, simultaneamente, a uma teoria social e a um grupo de intelectuais. O termo sugere uma unidade geográfica que nem sempre existiu. Os estudos dos frankfurtianos se orientavam por três eixos básicos:

– a dialética da razão iluminista e a crítica da ciência;

– a dupla face da cultura e a discussão da indústria cultural;

– a questão do Estado e suas formas de legitimação.

Traçado histórico

1922 – semana de estudos marxistas, na Turíngia, organizada por Felix Weil, com participação de Karl Korsch, Georg Lukács, Friedrich Pollock, Karl August Wittfogel. Da semana, surge a idéia de institucionalizar um grupo de trabalho para a documentação e teorização dos movimentos operários na Europa.

3/02/1923 – é fundado o Institut fuer Sozialforschung (Instituto de Pesquisa Social), que passou a ter prédio próprio em 1924 e ficou vinculado à Universidade de Frankfurt. Aglomerou socialistas de cátedra (kathedersozialisten), numa época em que os marxistas rejeitavam o trabalho acadêmico, adeptos da militância operária.

O primeiro diretor foi Carl Gruenberg, historiador e marxólogo. Ele permaneceu no cargo, ativamente, até 1927 e, simbolicamente, até 1930. Max Horkheimer (1885-1973) assume em 1930. Com isto, o instituto ganha feições de um verdadeiro centro de pesquisa, abandonando a sua orientação anterior de descrição histórica. Esta mudança se sente até no nome da revista do instituto. Passa de Archiv fuer die Geschichte des sozialismus und der arbeiterbewegung (Arquivo para a história do socialismo e do movimento operário) para Zeitschrift fuer sozialforschung (Revista de pesquisa social), publicada de 1932 até 1941, ininterruptamente, sob a direção de Horkheimer.

O instituto era financiado por Felix Weil, filho de um produtor de trigo emigrado para a Argentina. Este financiamento garantiu autonomia ao instituto e sua sobrevivência nos turbulentos anos que se seguiram.

Horkheimer aglutinou em torno de si um grupo de intelectuais que incluía Fromm, Pollock, Wittfogel, Gumperz, Adorno, Marcuse, etc. Este grupo tinha preferência pelo ensaio, em contraposição ao tratado. Eram assistêmicos. Voltavam seus olhares para a periferia e destoavam, também nisso, do racionalismo filosófico.

A partir de 31, preocupado com o crescimento do nazismo, Horkheimer começa a fundar filiais do Instituto em Genebra, Londres e Paris, transferindo a redação da revista de Leipzig para Paris.

1933 – o governo nazista decreta o fechamento e confisca o prédio do instituto por suas “atividades hostis ao Estado”. 60 mil livros são confiscados.

Nesta primeira fase, os estudos do Instituto estão marcados pela personalidade de Horkheimer, que tenta unir o marxismo com o freudismo de Reich e Fromm.

A emigração (1933-1950)

1933 – o Instituto é transferido para Genebra, onde passa a ter o nome de Société Internacionale de Recherches Sociales.

1934 – com o apoio de Nicolas Murray, diretor da Universidade de Columbia, em NY, Reinhold Niebuhr e Robert McIver, o Instituto se transfere para Nova Iorque e passa a se chamar Internacional Institute of Social Research, vinculado à Universidade de Columbia. Mantém a autonomia financeira, graças a Weil. Neste período, o instituto concede mais de 50 bolsas para intelectuais e judeus perseguidos pelo nazismo. Benjamin vive em Paris com uma dessas bolsas entre 1933 e 1938, bem como Ernst Bloch. O último emigra a tempo para os EUA. Benjamin e Maurice Halbwach são presos. Com a intervenção de Horkheimer, Benjamin é libertado, mas ao tentar a fuga pela França e Espanha é barrado por um agente na fronteira espanhola. Em 1943, ele se suicida. Halbwachs morre numa câmara de gás nazista em 1945.

1940 – Horkheimer e Adorno se transferem para a Califórnia, onde encontram outros refugiados: Mann e Brecht. Fromm se incompatibilizou com o grupo e Pollock tornou-se conselheiro do Ministério da Justiça americano.

1946 – Horkheimer é convidado pela municipalidade de Frankfurt a voltar para a Alemanha.

1948 – ele viaja à Alemanha para negociar as condições da sua volta.

1950 – o instituto volta a Frankfurt.

Durante a emigração, as publicações do instituto fundaram a teoria crítica. Além disso, surgiram duas obras que se tornaram marcos para a pesquisa e teorização sociológicas: The Authoritarian Personality (1950), pesquisa empírica elaborada por Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson, Sanford, Morrow, etc, e Dialética do Esclarecimento (1947). The Authoritarian Personality traz marcas nítidas do trabalho desenvolvido por Horkheimer e Fromm na Europa Studien ueber autoritaet und familie.

Dialética do esclarecimento: reflete a atitude crítica com que Adorno analisa a evolução da cultura nas sociedades modernas, nas democracias de massa, das quais os Estados Unidos seriam a versão mais acabada. Esta obra leva, segundo Habermas, Adorno a formular seu conceito de dialética negativa. Até então, Adorno e Horkheimer acreditavam na razão crítica, que levaria a humanidade, apesar dos percalços, a realizar sua promessa e potência humanística. A Dialética do esclarecimento é o primeiro ponto de ruptura. Tematiza a morte da razão kantiana, asfixiada pelas relações de produção capitalistas. Tanto Adorno quanto Horkheimer rompem, com esta obra, com os paradigmas marxistas.

A reconstrução do Institut fuer sozialforschung em Frankfurt

1950 – o instituto volta a funcionar na sua velha sede, com a biblioteca reestruturada. Adorno e Horkheimer são nomeados professores catedráticos na Universidade Johenn Wolfgang Goethe e ministram seus cursos regularmente até 1969.

1967 – Adorno assume a direção do instituto, substituindo Horkheimer, que se aposenta.

O grupo se reduzira:

Marcuse: fica no EUA e assume uma cátedra na Universidade de Brandeis, na Califórnia. Morre em 80.

Lowenthal: torna-se diretor da “Voz das Américas”.

Wittfogel e Neumann: assumem cátedras nas universidades de Washington e NY.

Fromm: incompatibilizou-se com o grupo.

Benjamin: suicidou-se em 43.

Bloch: aceitou uma cátedra em Tuebingen.

Restam apenas Adorno e Horkheimer. Juntam-se a eles, na década de 60, jovens filósofos como Alfred Schmidt, Juergen Habermas, Ludwig von Friedeburg (atual diretor do Instituto), Rolf Tiedemann (edita a obra de Benjamin e de Adorno), Helge Pross, Cristoph Oehler, etc.

Habermas e Friedeburg realizam Student und politik (1961).

1966-67 – protestos estudantis contra as estruturas autoritárias. O movimento, encabeçado pelo SDS – Sozialistischer Studentenbund – traz expoentes como Enzensberger, Rudi Dutschke, Conh-Bendit e os irmãos Wolff. Fundamentam seu protesto nas reflexões da escola de Frankfurt. Dutschke, líder do movimento na Alemanha, rejeita o marxismo-leninista e busca nos teóricos frankfurtianos os fundamentos da sua contestação. Transformou a teoria crítica em prática revolucionária.

Os frankfurtianos, no entanto, rejeitam as práticas estudantis, vendo nelas traços nitidamente fascistas, e as combatem.

Adorno chama a polícia quando estudantes ameaçam invadir o instituto. Não havia, para ele, diferença entre os estudantes e os nazistas.

Habermas buscou usar as armas do debate crítico e criou a expressão “fascismo de esquerda”. Sem adesão dos estudantes, retirou-se para o instituto Max Planck, onde trabalhou de 71 a 83.

Friedeburg e Marcuse dialogam com os estudantes, são partidários de reformas profundas no sistema universitário, mas rejeitam as práticas revolucionárias e as técnicas de guerrilha urbana do Baader-Meinhoff e da Rote Armée Fraktion (RAF).

“A incorporação da ‘teoria crítica’ ao movimento estudantil parecia anunciar o seu fim. A desilusão e incompreensão de ambas as partes terminou com a saída de Horkheimer para a Suíça (1967), a morte prematura de Adorno (1969) e a crítica de Marcuse a certas simplificações da New Left”. Alguns estudantes ingressaram em seitas ou em partidos, outros partiram para a luta armada, um pequeno grupo optou pelo debate teórico com o frankfurtianos.

O renascimento e superação da teoria crítica

Dois caminhos: 1) a preservação dos textos com reedições ou novas edições (Tiedemann, Schmidt). Tiedemann junta e edita Passagenwerk; 2) prosseguimento, de modo original, da tradição crítica (Habermas, Wellmer, Buerger).

Três grandes momentos da teoria crítica: 1) até 1950: reflexões mais sociológicas e filosóficas; 2) a reconstrução do instituto. Sob a batuta de Adorno, a cultura e a estética ganham relevância; 3) início da década de 70: Habermas assume a liderança e busca fundamentar uma teoria da ação comunicativa.

Conteúdo programático da Teoria Crítica

A dialética da razão iluminista e a crítica à ciência

Kant: a razão como instrumento de liberação do homem.

Iluminismo: o desencantamento do mundo.

A razão instrumental: a razão domina a natureza, mas este conhecimento vem servir à dominação do homem. A natureza transforma-se em cega objetividade. A razão converte-se em razão alienada.

Teoria crítica (Marx) X teoria tradicional (Descartes)

A ciência não pode resumir sua concepção epistemológica aos juízos de valor e juízos de fato, mas deve incluir os juízos existenciais.

Eclipse da razão e Dialética do esclarecimento (1947)

Crítica à razão instrumental (1968)

Horkheimer, neste primeiro momento, está muito próximo de Marx. Em 70, no seu ensaio A teoria crítica: ontem e hoje, ele faz uma revisão e aponta os grandes equívocos da teoria marxista: 1) a tese da proletarização progressiva é falsa; 2) a tese das crises cíclicas do capitalismo é falsa; 3) a justiça social não se realiza com liberdade. Igualdade econômica traz homogeneização dos indivíduos. “A homogeneização generalizada é o preço que se paga para assegurar o bem estar generalizado.”

O nazismo, na Alemanha, e o socialismo no leste europeu são regimes totalitários, para Horkheimer, e o desiludem. Mas a teoria crítica continua presa a um juízo existencial: libertar a humanidade da repressão, da ignorância e da inconsciência.

Sujeito/objeto: TT-apartados; TC-o teórico é um sujeito histórico e sabe disso. O primeiro se isenta, crê que seu conhecimento é neutro; o segundo procura colaborar, com seu conhecimento, no redirecionamento do processo histórico (Conceito semelhante ao de intelectual orgânico, de Gramsci).

Adorno X Popper (1961-Tuebingen)

Popper: positivismo sofisticado, que não atribui identidade entre as ciências humanas e as ciências naturais. A cientificidade é garantida pelo método, quando são respeitados os princípios básicos da lógica formal cartesiana: princípio da identidade, não-contradição, dedução ou indução, etc. A crítica consiste em demonstrar os erros no percurso de construção do conhecimento.

Lógica formal – lógica situacional

Adorno: não se trata de construir conhecimentos sólidos tão somente, mas de manter “uma atitude de desconfiança face ao conhecimento como tal, cujos objetivos e resultados são permanentemente questionados.”

Em Dialética negativa, Adorno volta ao tema: a dialética não é um método central para a produção de conhecimento, não produz um saber infalível. A DN procura salvar o que não obedece à totalidade. Engloba aquilo quer ainda está em fase de desdobramento, nunca se contenta com o presente, mas tenta superar a realidade rotinizada.

Para Adorno, a razão iluminista tinha as dimensões emancipatória e instrumental, simultaneamente. A sociedade burguesa desenvolveu a razão instrumental, em detrimento da emancipatória.

O positivismo e a razão instrumental não refletem sobre seus pressupostos e se condenam à crítica. Não se percebem como saber interessado e naturalizam o que é histórico.

A TC inclui, no seu arsenal teórico, a prática do cientista. O positivista só vê a prática metodológica como integrante do seu arcabouço teórico.

Habermas X Luhmann (Teoria da sociedade ou tecnologia social-1972)

Habermas questiona que a razão seja meramente a capacidade de manipular corretamente regras formais. Para se aplicar o conceito de razão à prática e à moral, é preciso uma concepção mais abrangente: a razão dialógica ou comunicativa. Com este debate, Habermas começa a se distanciar dos seus mestres e formula uma discussão original.

Luhmann aplica conceitos da cibernética ao estudo da sociedade; em sintonia com a biologia, distingue entre sistema e meio. A sociedade se adapta ao meio ambiente, da mesma forma que um organismo vivo. Porém, a contrário deste, não tem sua existência delimitada biologicamente.

Teoria da ação comunicativa: racionalidade comunicativa: mundo vivido (lebenswelt) + concepção sistêmica. Razão subjetiva (dialógica): a razão para Habermas constitui-se no resultado de um diálogo, em que dois indivíduos, através de argumento, chegam a um acordo (nota pessoal: semelhante a Gadamer, que Habermas leu e criticou. Ele se aproxima, aqui, dos hermeneutas, mantendo a dimensão crítica). A razão não é monológica, mas dialógica. Esta razão não é inata, transcedental; é a intersecção de três mundos: o objetivo, o social e o subjetivo dos afetos.

Teoria evolutiva da modernidade: a teoria da ação comunicativa permite reconstruir a história da sociedade na medida em que consegue abarcar a sua complexidade. A modernidade tem, ao menos, duas vantagens: 1) desenvolveu os meios técnicos para satisfazer todas as necessidades do homem; 2) substituiu as crenças religiosas por sistemas de normas e valores consensualmente elaborados pelo atores do sistema.

A dupla face da cultura e a discussão da indústria cultural

O conceito de indústria cultural aparece pela primeira vez em A dialética do esclarecimento (1947).

Sobre a situação social da música (1932), Adorno.

A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (1936), Benjamin.

O caráter afirmativo da cultura (1937), Marcuse.

Ensaio sobre arte e cultura de massa (1941), Horkheimer.

Indústria cultural, iluminismo como sedução das massas in A dialética do esclarecimento (1941), Horkheimer e Adorno.

Cultura e indústria cultural

Cultura: mundo das idéias e dos sentimentos elevados.

Civilização: mundo da reprodução material.

Marcuse afirma que, com a ascensão da burguesia, se negava as condições materiais de existência, ao mesmo tempo em que, no plano espiritual se promete a liberdade e a felicidade. Assim, se justifica a exploração e a alienação do proletariado. A obra de arte, distante das relações reais de existência do homem, assume uma função alienante, ao mesmo tempo em que, ao mostrar um mundo distinto, critica a realidade existente.

Com o tempo, este modelo vai se tornando insuficiente. O mundo da cultura é absorvido pelo da civilização. Já não basta a dicotomia da escassez material com riqueza espiritual. Obras literárias, sistemas filosóficos, obras de arte deixam de ser bens de luxo para se converterem em bens de consumo de massa.

A reprodutibilidade da arte revoluciona o conceito burguês de arte.

A cultura deixa de ser cultura para ser mercadoria, produzida em série pela “indústria cultural”.

Este bem cultural serve para reproduzir o sistema ad infinitum.

A indústria cultural é a forma como a cultura e a arte se organizam num sistema capitalista. São avaliados pela sua lucratividade e aceitação no mercado e não pelo valor estético, filosófico, literário, etc.

A indústria cultural serve para: 1) evitar a reflexão do trabalhador; 2) criar a ilusão de felicidade; 3) eliminar a dimensão crítica presente na cultura burguesa.

A obra de arte, a “aura” e a perda da aura

História da arte e seu relacionamento com o produtor e com o consumidor desde a idade média.

Categorias de análise: 1) valor de culto; 2) valor de exposição.

No mundo sacralizado, a obra de arte é cultuada. À medida que o mundo se dessacraliza, passa a ser exposta.

Do período feudal ao burguês, a arte se secularizou sem perder sua aura.

Do período burguês ao da cultura de massa, dois fatores contribuem para a perda da aura da obra de arte: 1) a tecnificação do mundo; 2) e a reprodutibilidade técnica.

Perde seu valor de culto e aumenta seu valor de exposição. Para Benjamin, a perda da aura não é negativa. A obra de arte passa a ser acessível e a ter um valor de consumo.

Estetização da política como a forma fascista de utilizar a dimensão artística.

Politização da arte.

A cultura, e a obra de arte em especial, possuem dupla dimensão: 1) representam e perpetuam a realidade; 2) criticam-na como imperfeita e contraditória. A cultura é, a um só tempo, conservadora e emancipatória.

A crítica de Habermas a TC: 1) o conceito de arte é tradicional, pois só se vê nela uma promessa de felicidade; 2) é limitado, pois é um conceito burguês que exclui o jazz, o surrealismo, o cinema, etc; 3) é idealista pois não admite mudança interna da estrutura e função da arte.

Da teoria crítica à teoria estética

Adorno: Minima moralia (1951), Dialética negativa (1966), Teoria estética (1970).

Desencanto com a revolução proletária.

As formas de manipulação das consciências.

Pessimismo adorniano:

– a cultura torna-se indústria cultural;

– a ciência e a filosofia passam a somente afirmar o que existe (positivismo).

Só resta a estética e, em especial, a música.

Mas a música também se torna um produto (nem toda ela).

A teoria estética tenta desvendar o caráter de negação do real contido na obra de arte.

A obra de arte tem ainda um conteúdo utópico.

A dialética negativa é colocada em um impasse por Adorno quando passa a afirmar sua negação.

Habermas: abandona a razão subjetiva em nome da razão comunicativa.

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2 Comentários (+add yours?)

  1. doroteia
    nov 29, 2012 @ 09:19:03

    genial ;percepcao perfeita do texto

    Responder

  2. Daniel MM
    fev 06, 2013 @ 16:17:43

    Ótimo fichamento.

    Responder

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