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Noite translúcida

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Cabelos negros,

luz sem cor,

noite translúcida,

cansaço após furor.

Perfume de sândalo,

calor e orquídeas,

sua boca úmida,

bromélia carnívora.

Lasciva Cleópatra,

rainha do Nilo,

te sonhei flor,

me sonhei pistilo.

Sonhei travesseiro branco,

teu perfil,

tuas melenas.

Thea, tua beleza é obscena.

Na noite translúcida,

vaga, diáfana:

corpo trêmulo,

mão errante.

Um relâmpago,

um instante,

afeto depois,

fúria durante.

Mormaço, e você bacante

desfalece, então delirante,

me arranha e dorme,

me poupa e me consome.

Sei, porém, doravante,

na noite translúcida

nada é certo,

nada é constante

E antes, bem antes,

antes de ser tragado por ti,

antes que te tornes gigante,

renego a noite translúcida,

renego porque a quero,

ainda que fosse a última.

P.S.: o nome completo da mais famosa rainha do Egito era Cleópatra Thea Filopator.

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Sem cura II

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Sou sem cura,

Apaixonado,

Vislumbrado

Pelo teu corpo,

Uma silhueta

De estatueta,

Perfeita

E pouca estatura,

Sem cura.

Sou sem cura.

Se eu despencar

Do oitavo andar

E tentar voar,

Feito astronauta,

Vendo meu pan,

Tocando flauta,

É só fissura,

Sem cura.

Sou sem cura,

Desprotegido,

Ao teu lado,

Escondido,

Assustado,

Massacrado

Pela tua força

Quebrando minha estrutura.

Sem cura.

(1990)

Sem cura

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Sou sem cura

…batendo,

…viajando,

…bebendo,

…demente,

…pedindo carona,

…dormindo na estrada.

Sou nada,

Somente secura.

Sem cura.

(1990)

Castigo (poesia anônima)

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Devolve os pobres olhos que perdi

E que te habitam desde o dia em que te vi,

Mas se eles já sofreram tal castigo

E tantos danos, tantos enganos

Tal rigor que a dor os fez inúteis,

Guarda-os contigo.

Devolve o coração que te foi dado

Sem jamais cometer qualquer pecado.

Porém se ele contigo já aprendeu

Como se mata e maltrata

E se tortura uma alma pura,

Guarda também este ex-pedaço meu.

Melhor: devolve olhos e coração

Para que eu possa ver a traição

E possa rir quando chegar a hora

De te ver padecer por alguém

Que tenha o coração tão duro

Quanto o que tens agora.

Tu reinas

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O relógio calou.
Depois, vieram, sem movimento,
Horas de trauma.
O mundo, sem vento,
Estancou.

Cá, dentro de mim,
Dentro do universo onde reinas,
Benevolente e calma,
Sonho que reinas.
Enfim.

Julho/2008

Navalha

5 Comentários

Trabalha, navalha.
minha cara, retalha.
No corte um sorriso entalha,
pois é o que me calha.

Depois, não falha!,
enche meu peito de palha,
meu coração estraçalha.
E o resto… empalha.

Me faz muralha,
como ela, canalha.
Então espalha:
Sou passado, mortalha.

Trabalha, navalha.
Trabalha.

Obs.: Parafraseando Walter Franco, em “Canalha”:

É uma dor canalha
Que te dilacera
É um grito que se espalha
Também pudera
Não tarda nem falha
Apenas te espera
Num campo de batalha
É um grito que se espalha
É uma dor
Canalha.

Tyger, tyger, by Willian Blake

1 Comentário

Tradução de Paulo Azul

Tigre! Tigre! Flamejante brilho
Na floresta da noite
Quão imortal mão ou olho
Poderia eternizar sua temível simetria?

Em que distantes profundezas ou céus
Arde o fogo de seus olhos?
Em que asas ousa acender?
Qual a mão tem a ousadia de roubar o fogo?

E que ombros, e qual arte,
Pode enlaçar os nervos de seu coração?
E quando seu coração começa a bater,
Qual poderosa mão, e qual poderoso pé?

Qual o martelo? Qual a corrente?
Em que forno foi feito seu cérebro?
Qual a bigorna? Qual a mordaça
Seus terrores mortais conteve?

Quando as estrelas abaixaram suas lanças,
E o céu inundou com suas lágrimas,
Ele sorriu quando viu seu trabalho?
Ele fez em cordeiro tornar-se?

Tigre! Tigre! Flamejante brilho
Na floresta da noite
Quão imortal mão ou olho
Poderia eternizar sua temível simetria?

Tradução de Vasco Graça Moura
tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria

tua terrível simetria?

de que abismo ou céu distante
vem tal fogo coruscante?
que asas ousa nesse jogo?

e que mão se atreve ao fogo?

que ombro & arte te armarão
fibra a fibra o coração?
e ao bater ele no que és,
que mão terrível? que pés?

e que martelo? que torno?
e o teu cérebro em que forno?
que bigorna? que tenaz
pro terror mortal que traz?

quando os astros lançam dardos
e seu choro os céus põem pardos,
vendo a obra ele sorri?
fez o anho e fez-te a ti?

tigre, tigre, chama pura
nas brenhas da noite escura,
que olho ou mão imortal cria
tua terrível simetria?

Desejo

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O desejo disse:
– Vá…
Eu não quis.
Ou quis, por que o desejo sabia.
Não fui.
Ele argumentou:
– És livre.
Pois sou mesmo.
Então, não medi.
Caminhei.
O desejo riu,
por que o desejo é o desejo.
Ele não aceita não.
É inofensivo, mas repete
sempre, a mesma frase.
Um dia, você o ouve.
Quando ele fala alto, porém,
todo resto parece mudo.
O desejo é o senhor de um reino sem muros.

Parafraseando Vico

2 Comentários

Primeiro, te achei divina.
Depois, te achei heróica.
Por fim, te achei humana.
E, agora, nem isso.

Giambattista Vico viveu entre os séculos 17 e 18. Morreu antes da Revolução Francesa, mas foi um dos pensadores que a influenciou. Bem antes de Augusto Comte, propôs que o conhecimento passava por três fases: a primeira, divina, quando as explicações eram atribuídas aos deuses; a segunda, heróica, quando a ação que move os acontecimentos era atribuída a grande líderes, grandes vultos; e a terceira, quando as explicações seriam mais humanas, próximas da realidade.
Escrevi este poema (de ódio) pensando nele e o dediquei a uma humana cujo nome começa com “Ana”. Ela não merecia. Outro ser, cujo nome termina com “ana”, no entanto, merece cada letra do poema.

Trago no peito

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Trago no peito
Um coração acanhado,
Arredio,
Desconfiado.

Que de tanta poeira,
Cansou de estrada,
Desvario,
Emboscada.

Coração olha de lado,
Desconfia do perfeito,
Redondo,
Escorreito.

Mas é de tudo ou nada,
Sem medo de ribanceira,
Estrondo,
Fogueira.

Por isso,
Vez ou outra,
Arde.

Dá sumiço,
Não se encontra,
Flutua.

Sem alarde,
Tange a lua.

Já me levou tão longe este coração,
Já trouxe sensação de completude
De viver só por ele, pela sua arritmia,
Pela dessimetria, distorção que ilude.

Agora não tem jeito.
Meu coração não pensa,
Só acha que compensa.

E o sigo, tolo e sábio.
Meu coração é hábil,
Meu dom, meu defeito.

07/06/2006

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