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Lula calado: os riscos de uma saída autoritária

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Lula perdeu cerca de três pontos percentuais no primeiro turno na pesquisa Datafolha divulgada hoje, 15. A Folha aponta que é efeito da prisão. Parece um péssimo resultado para a esquerda, mas é ruim, de fato, para a direita, por dois motivos:

1) Mesmo preso, com uma cobertura negativa intensa e a mobilização das forças conservadoras comemorando a prisão de Lula, a queda foi pequena, com aumento da percepção de que a prisão foi injusta.

2) No primeiro turno, o eleitor tem muitas opções, mas no segundo a questão é mais categórica. Nestas simulações, Lula perde apenas 1 ponto: tem 48% x 31%, contra Bolsonaro (era 49 a 32, em janeiro), tem 48% x 27%, contra Alckmin (era 49 a 30) e tem 46% x 32%, contra Marina (era 47 a 32). Em suma, Lula perdeu menos que os adversários.

Marina também bate Bolsonaro com folga, por 44% a 31% (em janeiro era 42 x 32). O candidato da extrema-direita só é competitivo contra Alckmin, mas perde ainda: 35 x 33, e Ciro, com quem empata em 35%. E ganha de petistas pouco conhecidos, como Jacques Wagner (39 a 23) e Haddad (37 a 26).

Veja os dados atuais aqui, na matéria do G1, e os de janeiro aqui, na matária do Poder 360.

Os dados apontam, hoje, para seguinte situação: Lula não perde no segundo turno para ninguém, e Bolsonaro não ganha de ninguém. Explico: Haddad perde de 11%, sem um gesto de Lula a favor dele, sem campanha. Aparecendo como o candidato de Lula, bate Bolsonaro fácil. A direita também sabe que o deputado carioca é o adversário mais fácil de bater no segundo turno, tem teto, não será presidente. Por isso, jogaram pesado para tirar Lula do páreo, porque senão Alckmin definitivamente não chega nem no segundo turno.

Sem Lula, precisam brigar com a esquerda para chegar no segundo turno, mas a probabilidade ainda é incerta. Hoje, Ciro ou outro candidato petista são mais competitivos e Bolsonaro ocupa o espaço da direita, diminuindo muito a viabilidade de Alckmin. Por isso, oscilam entre atacar Bolsonaro ou alimentá-lo. Péssimo no primeiro turno, ele é ótimo para a direita no segundo.

A equação para a direita, neste momento, é muito ruim. Por isso, prenderam Lula, para terem alguma chance, mas precisam mais que isso: precisam dele calado, sem fazer campanha, sem apontar para Jacques Wagner, Haddad ou Ciro. Se não conseguirem isso, perdem a Presidência.

A última opção, então, será aprofundar a crise e impedir que haja eleições. Mas aí tem que fazer um arranjo autoritário muito mais amplo, porque há muita gente, à esquerda e à direita, buscando poder seja na Câmara Federal, Senado, governos e assembleias legislativas. Teriam que impedir apenas a eleição presidencial. É uma equação muito difícil e afundaria de vez a economia do país e suas relações comerciais com o mundo.

Podem, com isso, manter o poder a curto prazo, mas arriscam abrir as portas de uma hegemonia política da esquerda por longos anos, em seguida.

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Porque Lula foi condenado sem provas, didaticamente

5 Comentários

  1. Lula não foi julgado pelo Porto de Mariel, nem pelo sítio de Atibaia, nem por empréstimos do BNDES. Você pode pensar o que quiser sobre Lula, não votar nele, fazer campanha contra, mas a questão da justiça ou não da sua prisão gira exclusivamente em torno do triplex de Guarujá.

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    Foto: Ricardo Stuckert

  2. A acusação: a) Lula recebeu, em 2009, o triplex (corrupção passiva), que foi mantido, no entanto, no nome da OAS para ocultar patrimônio (lavagem de dinheiro); b) Lula teria ajudado, como presidente da República, a OAS em três contratos com a Petrobrás (ato de ofício ou omissão de ato de ofício). Por se tratar, assim, de um caso ligado à Lava Jato, deveria ser julgado em Curitiba.
  3. O crime pelo qual Lula foi condenado se caracteriza desta forma: receber algum valor ou bem em troca de praticar ou deixar de praticar ato para beneficiar a empresa que deu a propina.
  4. Sobre o item “a”, não há provas diretas nos autos, nem testemunhais nem documentais. Em 2009, o triplex não estava sequer construído. A propriedade (em papel passado) nunca foi de Lula ou Marisa Letícia. A acusação, então, aponta que a
    moro

    Foto: Geraldo Bubniak

    posse (usufruto) foi de Lula. Ou seja, ele não era legalmente o proprietário, mas o era de fato. Lula nunca dormiu uma noite no imóvel, nem ninguém da sua família. Visitou duas vezes o triplex, o que não pode caracterizar posse. Desfeita a hipótese da posse, a acusação partiu para a tese de que o apartamento foi “atribuído” a Lula, conceito não previsto no Código Penal. Este fato é comprovado pelos chamados indícios.

  5. Quais são estes indícios: a) um documento rasurado onde o número 141 é sobreposto ao número 174. Marisa era dona de uma cota no edifício Solaris no valor de R$209.119,73 e havia um imóvel reservado para ela (o 141), mas ela poderia usar o dinheiro para comprar qualquer unidade disponível, pagando a diferença. O documento rasurado, segundo a acusação, significaria tentativa de ocultar o negócio. b) tabelas apreendidas na OAS indicam que o imóvel estava “reservado”. c) o depoimento do zelador do edifício, que afirma que Marisa “conheceu as áreas comuns, circulando como proprietária, e não como interessada”. d) reportagem do jornal O Globo de 10/03/2010, denunciando que o casal Lula era o real proprietário do triplex, onde consta inclusive uma confirmação da Presidência da República de que “Lula continua proprietário do imóvel”. e) Lula, em conversa com Leo Pinheiro, não teria discutido o preço do imóvel, o que indicaria que não se tratava de uma compra. f) o depoimento de Leo Pinheiro, alegando que reformas foram feitas para atender pedidos de Marisa. Há trocas de e-mails também discutindo reformas.
  6. A narrativa da defesa, ponto a ponto: a) Lula nunca negou que tinha interesse em adquirir o imóvel. Supor que uma rasura é prova de tentativa de ocultação de patrimônio é ir longe, muito longe nas possibilidades interpretativas. b) as planilhas na OAS circulavam livremente e é muito comum, no comércio de imóveis, reservá-los, o que não significa venda. Além disso, Lula nunca negou que teve, de fato, interesse no imóvel em certo momento. c) Marisa andava como se fosse proprietária porque era proprietária, até então, de uma unidade no edifício, ainda que não estivesse definida qual. Áreas comuns são… comuns. d) a reportagem de O Globo afirmava que Lula e Marisa eram “futuros proprietários” porque eram, como confirmado pela Presidência da República, mas ainda neste momento da unidade 141. Mais tarde, Marisa pediu o dinheiro de volta e o casal deixou de ter direito sobre qualquer unidade. f) por que Lula não perguntou a Leo Pinheiro o preço do triplex? Havia uma tabela, que fixava preço em R$900 mil ou ainda não havia negociações de valores. Há várias interpretações, além daquela que diz que isso prova que o triplex seria dado a Lula. f) o depoimento de Leo Pinheiro é o mais relevante indício, pois nele se baseia a sentença de Moro. Colo abaixo o relato, em 25/01/2018, de Luís Nassif sobre este depoimento.
  7. A denúncia de Léo Pinheiro obedeceu à seguinte trajetória: 01/06/2016 – Delação de Léo Pinheiro (LP) trava após inocentar Lula (https://goo.gl/kp3whZ). 23/11/2016– LP recebe sentença de 26 anos de prisão confirmada pelo TRF4 (https://goo.gl/qFEvgB). 12/07/2017 – por ter ajudado no processo contra Lula, Sérgio Moro reduz a pena de LP a 10 anos e 8 meses. 21/09/2017 – Procuradoria Geral da República não aceita a delação de Léo Pinheiro por não ter apresentado nenhum elemento de prova (https://goo.gl/4kn7tF). Mesmo assim, Moro mantém o depoimento de LP e o TRF4 reduz sua pena para três anos e seis meses. Como já cumpriu uma parte, deverá ser solto em breve (https://goo.gl/TaY6kp).
  8. LP teria dito que o dinheiro para pagar o imóvel viria de uma conta na OAS de R$ 50 milhões, destinada ao PT, da qual teriam sido descontados R$3 milhões para o triplex. O acerto teria sido combinado com o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, em reunião onde só estavam os dois. O depoimento é claramente uma troca: acusar Lula para conseguir redução de pena (22,5 anos a menos). Qual prova LP apresenta? Nenhuma, nem gravação, nem documento, nem foto, nem agenda, nada. E João Vaccari confirmou? Não foi nem ouvido.
  9. Conclusão: todos os indícios indicam que havia a intenção de repassar o triplex para Lula e que a OAS o reformou atendendo pedido do casal presidencial. Nada prova que seria como propina. Os indícios, pelo contrário, indicam que havia uma transação comercial em curso. O mesmo depoimento que serve para condenar Lula, na interpretação de Moro, também o inocenta. LP disse à Justiça: “se o presidente não quisesse eu nós íamos ter um belo problema, não sei o que eu ia fazer com o apartamento porque ele é muito personalizado, é um valor excessivamente maior das reformas que foram feitas, da decoração feita, do que valia o apartamento, isso é público e notório, está nos autos, então está muito claro isso.” Dois engenheiros da OAS endossam esta mesma versão, em depoimentos. Igor Pontes afirmou: “O que foi dito foi que ele estava fazendo uma visita para ver se ele ia ficar com a unidade, um potencial comprador era o termo que se utilizava.” Inquirido por que a reforma no apartamento foi feita, Igor respondeu: “A justificativa foi que no apartamento seria feita uma melhoria com o objetivo de facilitar o interesse pela unidade, porque a unidade era muito simples, era uma unidade básica, enfim, e o objetivo era melhorar o apartamento para ver se de repente o ex-presidente se interessava em ficar.” Mariuza Marques, outra engenheira, confirma a tese: “Não, eu não sei lhe informar se ela possuía um proprietário, se dizia que tinha, iria, assim, reformar, melhorar porque tinha, assim, um cliente em potencial para comprar essa unidade, que tinha interesse nessa unidade.”
  10. O que fica claro é que Lula tinha interesse na unidade e direito de adquiri-la. O que tudo indica é que era apenas um potencial comprador. As reformas, caras, poderiam ser dadas como propina ou mesmo toda a diferença entre a unidade 141 e a 174. Mas Lula desistiu do negócio e pediu os R$209 mil de volta. Por quê? Talvez porque não gostou das reformas, talvez porque teve medo da repercussão política, fosse um negócio lícito ou ilícito. De qualquer forma, o crime pelo que foi condenado não aconteceu. Lula foi, como no filme Minority Report, condenado pela intenção de cometer um crime, um pré-crime. E nem esta intenção está claramente comprovada. Pelo contrário, há mais indícios que atestam que se tratava de uma transação comercial do que de que se tratava de corrupção.
  11. O ponto dois da acusação é que ele teria praticado um ato de ofício que beneficiaria a OAS, em três contratos da Petrobrás. Sérgio Moro, na sentença, exclui isso, pois não consegue, nem ele, formar convicção em torno disso. Daí a importância do depoimento de LP mais uma vez, alegando que se tratava de uma conta geral de R$50 milhões, já que não era possível indicar especificamente quais atos o presidente Lula cometeu para favorecer a OAS. Provas disso? Nenhuma. Vaccari, que podia confirmar (também poderia fazer uma delação premiada), não foi nem ouvido. Logo, não há ato de ofício, apenas uma afirmação genérica sem provas. E a lei especifica que delação premiada só vale com provas e, por isso, LP não foi levado a sério em outras instâncias, mas convenceu ou reforçou a convicção prévia de Moro.
  12. Em suma, Lula foi condenado por um pré-crime, no máximo, e sem ter praticado ou deixado de praticar, na Presidência da República, nenhum ato identificável para beneficiar a OAS. Condenação sem provas, portanto, por um crime que não aconteceu. Não há corpo, não há arma do crime; só há o assassino.
  13. O enredo mais provável do que aconteceu é bem mais simples. Lula saiu da Presidência da República com 87% de aprovação popular e como um dos líderes mais respeitados do mundo. Passou seu mandato viajando para outros países, como um mascate, oferecendo produtos de empresas brasileiras e fazendo acordos bilaterais e multilaterais de comércio com outros países. Isso, em tempos de preços altos de commodities, permitiu vários saldos seguidos na balança comercial, possibilitou o pagamento da dívida externa e criou uma imensa reserva cambial para o Brasil de US$288 bilhões (isso mesmo, dólares). Quando saiu do mandato, continuou operando a favor das empresas brasileiras no exterior, sobretudo a construção civil. Isso é moral? Talvez não, mas não é ilegal. Mesmo que a OAS quisesse dar o triplex a Lula, seria mais razoável supor que era pelo papel que ele desempenhava para a empresa naquele momento e não por atos praticados quatro ou cinco anos antes.
  14. Você pode não gostar do que Lula fazia pela OAS depois que saiu da Presidência. Eu também não gosto. Querer que ele seja preso por isso, sendo que a prática não é criminosa, é absurdo. Você pode acreditar que Lula recebia propina da OAS na forma de palestras, pois é um “cachaceiro” que só sabe “fazer metáforas de futebol”. Eu acho que isso é preconceito com um presidente reconhecido como o melhor ou pelo menos um dos melhores da história do Brasil. Tem muita gente que pagaria sim, muito dinheiro, por uma palestra de Lula, como também pagaria por palestras de Deltan Dallagnol. Não há crime em fazer e receber por palestras, mas é muito mais imoral fazê-las ainda no exercício do cargo público. Além disso, Lula não fazia palestras: abria mercados. Quanto isso vale para empresas da construção civil?
  15. Há outros elementos que comprovam que Lula está sendo perseguido pela Justiça e que a sentença, em si, é ilegal, que o resultado era sabido desde o princípio e que o trâmite jurídico serviu apenas para dar um verniz formal a uma arbitrariedade. Ou seja, o processo é legal na forma, mas não no conteúdo.
  16. Primeiro, se Moro admitiu que o dinheiro não veio de contratos específicos com a Petrobrás, Lula não poderia nem ser julgado por ele e nem acusado pela Procuradoria do Paraná, pois deixa de ser um caso relativo à Lava Jato. O processo deveria ser remetido a São Paulo, foro de Lula. Neste momento, com o fim do foro privilegiado de Geraldo Alckmin (deixou de ser governador para concorrer à Presidência da República), seu processo está sendo remetido do STF para a justiça de primeira instância em São Paulo. Era o que Moro deveria ter feito com Lula, remetendo o processo para São Paulo.
  17. Segundo, construíram a imagem de Lula como o chefe de uma quadrilha, mas ele recebe menos propina que o terceiro escalão. Faz sentido?
  18. Terceiro, a Lava Jato está destruindo o instituto da delação premiada, usando prisões como tortura para forçar denúncias contra quem quer que seja. A lei, para evitar isso, exige que delatores apresentem provas. Sem provas, é o mesmo procedimento que, na idade média, levou a inquisição a queimar diversas mulheres sob a acusação de bruxaria. Delação sem prova é medieval e ilegal. Moro aceitou uma prova ilegal, claramente forçada e, mesmo assim, que contradizia sua tese.
  19. Quarto, no país onde a demora do judiciário para julgar espalha o sentimento de impunidade na população e gera insegurança jurídica, Lula foi julgado em duas instâncias em tempo recorde. Moro mandou prendê-lo minutos após receber autorização do TRF4 para isso. Há mais de uma dezena de condenados em segunda instância em liberdade ainda, esperando ordem de Moro.
  20. Quinto, o TRF4 julgou em desacordo com sua própria jurisprudência. Cito aqui o advogado Márcio Paixão (gl/eVhDGM): Em diversos julgados, Sua Excelência, Desembargador Federal João Pedro Gebran Neto, vem consignando as balizas adotadas por aquela Turma para formação do convencimento judicial com base somente em indícios, como nesse caso. São, em suma, esses os critérios: (…)Esta prova indireta deverá ser acima de qualquer dúvida razoável, excluindo-se a possibilidade dos fatos terem ocorrido de modo diverso daquele alegado pela acusação. É dizer, seguindo na lição de Knijnik, os diversos indícios que envolvem o fato probando devem ser analisados em duas etapas, primeiro em relação a cada indício; depois o conjunto deles. Assim, sendo cada indício certo e preciso, pode-se obter a concordância a partir do conjunto (op. cit., p. 51), sendo que um único indício, mesmo que certo e grave, pode acarretar na exclusão de um juízo de certeza quanto aquilo que se pretende provar.” Com base nesta jurisprudência, o advogado aposta (o texto é anterior ao julgamento no TRF4) na absolvição de Lula: “firmo três conclusões: (i) o conjunto indiciário é somente parcialmente consistente com a versão da acusação, segundo a qual Lula seria proprietário do tríplex desde 2009; (ii) o conjunto indiciário é plenamente consistente com a versão da defesa, segundo a qual houve interesse pelo tríplex, mas o casal não o adquiriu e Lula não o recebeu; (iii) o conjunto composto pela totalidade dos elementos de convicção (indícios e provas) é integralmente coerente com a hipótese apresentada pela defesa e apenas parcialmente coerente com a hipótese apresentada pela acusação.”
  21. Eu firmo as minhas convicções, sem nenhuma sombra de dúvida: Lula não cometeu crime, não praticou ato identificável para beneficiar a OAS, não recebeu nem nunca desfrutou do triplex, foi julgado de forma parcial, com uso de delações forjadas sem provas, condenado com base em indícios que mais provam sua inocência que sua culpa, em tempo desproporcional em relação a outros réus e em desacordo com a lei e a jurisprudência. Sofre um processo de exceção, legal na forma, ilegal no conteúdo, e é um prisioneiro político.

OCUPAÇÃO NA REITORIA: entenda como a UFPR abriu as portas para a precarização do trabalho nos Restaurantes Universitários

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foto 1.jpgEstudantes da UFPR ocupam a Divisão de Serviços Gerais da UFPR, responsáveis pelas licitações e contratos da Universidade, desde a manhã de hoje, 10 de abril. Exigem que trabalhadores demitidos pela empresa Blumenauense, que administra os Restaurantes Universitários (RU´s), sejam recontratados e que o trabalho deles não seja precarizado. E a UFPR não pode fazer nada, ainda que tenha publicado em notas oficiais que estava tomando medidas para aumentar o número de trabalhadores nos RU´s. Não pode porque adotou um novo modelo de gestão que abre as portas para a precarização do trabalho. Vamos por partes.

Até 2017, a UFPR contratava trabalhadores terceirizados que se subordinavam à equipe da UFPR: nutricionistas, coordenadores, etc. Os contratos de 2017, o 049/2016 (SR Serviços Terceirizados) e o 067/2017 (Obra Prima S/A Tecnologia e Administração de Serviços), fixam em 196 e 194 os postos de trabalhos contratados, mas 6 e 4, respectivamente, eram para outras unidades. Em ambos os casos, o total de contratados era de 190 trabalhadores (cláusula terceira em ambos os contratos). Todos os documentos citados neste post estão no drive: https://drive.google.com/drive/folders/1waDBBmJDp6kgIni4owxSQIF3Y_6B-0MA?usp=sharing

Em contratos desta natureza, são fixados obrigações para a contratada como: Programa de Controle Médico de Saúdo Ocupacional, Programa de Prevenção de Riscos de Acidentes de Trabalho, Treinamento, Respeito à Convenção Coletiva de Trabalho, etc (cláusulas sexta e sétima, respectivamente).

No novo modelo, não há um número de postos a ser contratado, mas um serviço, especificado em termos de porções, qualidade da comida, cardápio, asseio dos trabalhadores, etc (cláusula quinta do contrato 07/2018). São poucas as menções aos direitos dos trabalhadores, como a obrigação de pagar salários fixados em negociações com o Sindicato específico. O objetivo principal é proteger a UFPR de qualquer responsabilidade jurídica, o que fica bem claro nos itens “d”, “e” e “f”, da cláusula quinta, inciso IV do contrato:

d) Reconhecer que a inadimplência da CONTRATADA com referência aos encargos trabalhistas, fiscais e comerciais, não transfere a CONTRATANTE a responsabilidade por seu pagamento, nem poderá onerar o objeto deste contrato;

e) Manter sempre atualizados os pagamentos referentes à remuneração mensal, benefícios e demais obrigações trabalhistas dos seus funcionários vinculados ao serviço ora contratado, sendo a CONTRATANTE isenta de quaisquer custas;

f) Assumir a defesa contra reclamações Judiciais e Extrajudiciais arguidas contra si, e arcar com os ônus decorrentes dos prejuízos e das ações judiciais que possam ocorrer em consequência da execução dos serviços prestados para a CONTRATANTE.

Menos gente, o mesmo trabalho

Queimadura 1Como consequência deste novo modelo de contrato, o número de trabalhadores alocados nos quatro RU´s de Curitiba caiu de 190 para 127, segundo informação da própria assessoria de comunicação da UFPR. Além disso, o trabalho de limpeza e manutenção, antes destinados a outras empresas terceirizadas, agora cabe aos mesmos 127 trabalhadores. O resultado é acúmulo de atividades e aumento de acidentes de trabalho.

A UFPR, em nota, garantia que o aumento do número de trabalhadores seria feito. O problema é que ela não pode pedir isso para a Blumenauense. Ela lavou as mãos. Tudo o que disser sobre estar negociando o aumento do número de postos é bravata. O contrato não permite isso.

RU´s cedidos em comodato

Neste modelo, o setor de nutrição da UFPR não faz os cardápios; apenas fiscaliza. A UFPR não compra produtos, não cuida da limpeza do espaço e nem da manutenção hidráulica ou elétrica do imóvel. A Blunenauense é responsável até pelo mobiliário, caldeiras e panelas. As únicas exigências que a UFPR pode fazer é sobre a qualidade dos serviços.panelas acumuladas

Economia para a UFPR?

O contrato com a Blumenauense custa para a UFPR R$13.031.970,00, por ano, incluindo o serviço, os insumos, manutenção, caixas, etc. O contrato com a SR custou R$8.329.999,80, por 11 meses, sendo R$8.165.464,22 com os Restaurantes Universitários. Em 2016, foram gastos com os RU´s de Curitiba R$4.894.403,66, em gêneros alimentícios, segundo o documento UFPR em Números da Pró-reitoria de Planejamento. Os dados de 2017 ainda não foram divulgados. O custo com mão de obra e alimentos, estimado (já com projeção de 12 meses para contrato da SR), portanto, é de cerca de R$13,74 milhões. Os valores são muito próximos.

Ou seja, a economia que a UFPR faz com este modelo é pequena, mas o custo para os trabalhadores dos RU´s é grande. Tanto pior que mudem o modelo exatamente no momento em que uma reforma trabalhista fragilizou muito os direitos dos trabalhadores e a proteção contra a precarização do trabalho.

O efeito, além do acúmulo de trabalho, foi a diminuição de alguns salários e a redução do vale-alimentação para pouco mais que a metade. Antes, quem não faltasse nenhuma vez no mês ganhava R$360,00 (bônus assiduidade). Se faltasse, o valor caia para R$320,00. Agora, o vale é de R$190,00 e não é pago se o trabalhador falta, mesmo que apenas um dia no mês. Isso sem contar as demissões dos mais experientes.

Procuradoria recomenda corte de ponto de servidores na UFPR

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Leia a nota 289/2017, da procuradoria jurídica da UFPR, determinando o corte de ponto dos servidores técnicos em greve.

 

NOTA_289_2017_PFUFPR

Romper o isolamento: Sacod 2018-2022

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Estamos divididos. Somos sete cursos de graduação, quatro cursos de pós-graduação e três departamentos espalhados por três campi diferentes. Temos um projeto de construção de uma nova sede, com custo estimado de R$100 milhões. Um belo sonho, que parece tão lindo quanto distante.

indexCriamos um setor para compartilhar estruturas e buscar sinergias, mas estamos separados. Cada um com seus problemas, não compartilhamos, nem colaboramos. Nossas graduações, pós-graduações, projetos de extensão e de pesquisa pouco se conhecem, professores e alunos estão circunscritos aos seus cursos. O que seria uma unidade da UFPR com alto poder criativo, gerado pela integração de Artes, da Comunicação e Design está desintegrada em unidades distantes, deixando de compor um caldeirão cultural fundamental para novas abordagens pedagógicas, novas pesquisas, novas formas integração com a sociedade.

Concebemos um novo setor para ampliar nosso poder político externo, mas nos anulamos nos últimos quatro anos. Não temos parcerias com outros setores, unidades e cursos. Somos uma ilha na universidade, um arquipélago, na verdade, isolados num oceano de conhecimento.

Não temos inserção social, dialogamos pouco com a sociedade, apesar da potencialidade das áreas de Comunicação, Artes e Design.

Por isso precisamos romper o isolamento.

Um lugar, espaços compartilhados, projetos coletivos

A consolidação do Sacod passa pela construção do nosso campus. R$100 milhões aproximadamente nos separam disso. Parece impossível, mas não é.

Primeiro, temos que cobrar um orçamento preciso da Administração Central, não estimativo. Deste valor, precisamos saber claramente quanto diz respeito à construção dos novos estúdios da UFPRTV e Rádio Universitária e quanto é o valor estimado da reforma do prédio central para receber a reserva técnica do MAE, um gasto desnecessário de qualquer forma. Compete ao Sacod e à Administração Central viabilizar recursos para os espaços didáticos e administrativos do Setor. Compete somente à Administração Central viabilizar recursos para as obras da UFPRTV. O MAE pode ser instalado em outros espaços, como na sede de Piraquara.

Com um orçamento mais preciso, é possível buscar alternativas. Caso necessário, a construção pode ser dividida em módulos, como tem sido a orientação do Tribunal de Contas da União.

Temos um patrimônio valioso que pode ser colocado como parte do pagamento e, dependendo dos custos, como pagamento integral: o imóvel no Batel. Precisamos de uma avaliação prévia, mas é possível oferecer a atual sede dos cursos de Artes como pagamento pela construção do prédio, no todo ou em parte, no campus Cabral. A construtora receberá o terreno apenas depois que o prédio for entregue e Artes mudar para o novo campus.

Antes disso, é possível otimizar os espaços físicos, que possam ser compartilhados, como estúdios de rádio e de fotografia, ateliês e oficinas. É preciso aproximar os cursos, permitir maior fluxo de alunos em disciplinas optativas, buscar sinergias em projetos de extensão ou pesquisa. Tudo isso, que já poderia ter sido feito, mesmo com o novo prédio apenas na planta, ainda está por fazer.

O primeiro isolamento a romper é interno, dos cursos e departamentos entre eles.

O Sacod e a UFPR

Estamos separados do resto da UFPR. Temos poucos professores ministrando aulas em outros cursos fora do setor e poucos de fora ministram aulas para os nossos alunos, não temos projetos conjuntos com outras áreas, nem participamos de movimentos para obter emendas parlamentares e recursos no CT-Infra (edital do governo para construção de grandes estruturas de pesquisa) ou Pró-equipamentos. Nossa inserção na política universitária é baixa também. Se a criação do Setor tinha como um dos seus objetivos aumentar o poder da área, até pelas necessidades maiores de infraestrutura, isso não aconteceu.

Por isso, é preciso aumentar o diálogo, buscar parcerias, atuar junto com outras unidades da UFPR. É preciso buscar a expertise de setores como a Exatas (sobretudo a informática) e Educação para criar uma unidade de projetos, com capacidade de prospectar editais, ajudar na elaboração de propostas e na execução posterior. Os Setores de Ciências Agrárias e Sociais Aplicadas podem colaborar na estruturação de uma área mais consistente de pós-graduações lato sensu. Na educação à distância, podemos ser ponta, criar um núcleo de EaD para oferecer conteúdos livres, material de apoio às aulas e cursos on line, em parceria com o Sept e Cipead. E atender outras unidades da UFPR.

A relação com Administração Central tem que ser constante, em função sobretudo da construção da nova sede. Há debates centrais acontecendo, como o Modelo de Alocação de Vagas Docentes e as 30 horas dos técnicos administrativos. Um setor que se pretende protagonista tem que se inserir, dialogar, aparar divergências, construir o futuro da UFPR e do Setor com os diversos atores da instituição.

A cidade e o mundo

O Sacod é parte da UFPR, uma universidade pública com uma grande responsabilidade social. Apoio aos projetos de extensão, integração entre eles, tudo isso é fundamental, mas o caráter extensionista e inovador deve perpassar os cursos do começo ao fim. Arte, Comunicação e Design são áreas onde inovação é fundamental, mais ainda com as perspectivas abertas pela tecnologia.

Uma das formas de falar com sociedade é através da criação de uma associação de ex-alunos, que aproxime egressos e discentes para o desenvolvimento de projetos e incubação de start ups, com capacidade de gestar soluções para problemas sociais, de gerenciar recursos, captar patrocínio através de leis de incentivo e produzir arte e cultura. É preciso ocupar a cidade.

Por outro lado, se relacionar com o mundo é condição necessária para a melhoria da pesquisa e da pós-graduação, ampliando convênios, projetos de pesquisa internacionais, intercâmbio de alunos e professores. Nossos programas de pós-graduação devem mirar na melhoria nos índices de avaliação, na criação de doutorados e em notas 6 e 7, pelas Capes, o que só virá com internacionalização.

Por fim, nossa obrigação social nos impõe mirar sempre em crescimento de oferta de vagas de ensino de graduação, pós-graduação, cursos livres e especializações. O Sacod é pequeno, o 2º menor da UFPR em docentes (ganha apenas do recém-criado Campus Jandaia), o 3º menor em técnicos administrativos, o 4º menor em vagas no vestibular, o 3º menor em alunos matriculados. Apesar do tamanho, somos o 4º que mais recebe alunos de fora e o 5º que mais manda alunos para intercâmbios na graduação. E tivemos uma média de 11,71 candidatos por vaga no último vestibular.

Temos que perseguir a criação de doutorados e buscar condições humanas e orçamentárias para novas propostas de cursos de graduação. Sem contrapartida da Universidade e do Governo, não expandimos vagas, mas devemos ter projetos e estar preparados para isso.

Os próximos quatro anos serão fundamentais. Romper a inércia, planejar, buscar convergências, compartilhar problemas, construir coletivamente soluções: este é o sonho. E tudo começa no pensamento, no diálogo. Uma eleição é sobre isso, sobre sonhar, dialogar e construir o futuro juntos.

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