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Que poder é o poder das ruas?

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ImageHá uma grande derrotada, desde já, pelos movimentos de protesto que tomam conta do país: a democracia representativa. E todos os seus atores: deputados, vereadores, governadores, prefeitos, presidenta, mas também os sindicatos, movimentos sociais e até a mídia.

E há uma grande vitoriosa, por enquanto: a juventude. Mesmo com a adesão de pessoas de outras faixas etárias, é o ponto de vista e a indignação da juventude, sobretudo urbana e de classe média, que venceram. Saber, porém, quais autores sociais ganharam e quais perderam ainda não significa saber qual causa efetivamente ganhou, exceto a redução do preço das passagens de ônibus, que está longe de ser a motivação para tantos protestos. Além disso, o movimento é muito dinâmico e seus sentidos políticos ainda não estão claros, ainda estão em disputa. Suas motivações também parecem vagas e difusas, amplas, difíceis de diagnosticar.

O movimenta replica uma característica de redes sociais, sobretudo o Facebook, mas também o Twitter, fóruns e blogs: a democracia participativa. As redes deram voz a todos que podem pagar por conexão. E cada um fala o que quer, sem precisar debater, sem precisar formular consenso algum. A regra é a dispersão. Todos participam, sem mover um milímetro da sua posição. Este modelo de democracia venceu. Azar da democracia, por que a democracia participativa veio para ficar, mas sozinha é o caos. Ela pode pressionar e renovar a democracia representativa, estimular a democracia direta, abrir caminho para a democracia deliberativa, mas não pode substituir nenhuma delas, exceto para a supressão da democracia em si, pela substituição da relação mediada por atores envelhecidos (como os legislativos, sindicatos e sociedade civil) pela relação direta entre a massa e o ditador. Assim, ou a democracia (e os velhos atores) assume e direciona a democracia participativa ou ela própria, democracia, está em perigo.

Além dos partidos e políticos, perdeu também, em larga escala, o movimento sindical, muito bem organizado, mas hoje distante das bases, muito institucionalizado, incapaz de diálogo, instrumento de representação mais jurídica que política. E perderam os movimentos sociais, apenas parcialmente eficazes para dar voz amplamente a seus pleitos, algo aparentemente fácil para os novos militantes em rede.

A velha mídia, dos grandes grupos de comunicação e seus veículos, também perdeu, na forma e politicamente, apesar de terem ganho no conteúdo. Na forma, porque a comunicação verticalizada, de massa, de um para muitos, estava tomando tombos da comunicação horizontalizada, menos assimétrica das redes, há um bom tempo, mas nunca tinha sido secundada como está sendo agora. Viciados em fazer política rasteira, os veículos também estão sendo identificados como atores políticos corrompidos do velho modelo e combatidos. Não há imagens de emissoras de TV do meio dos movimentos. Os jornalistas estão sendo colocados para fora, atacados e hostilizados. E a imprensa ainda não entendeu bem o que acontece, não sabe bem como se posicionar, exceto pelos seus velhos esquemas. A velha mídia tenta direcionar os sentidos do movimento, insiste em julgar mais que interpretar ou explicar, é a mesma porcaria de sempre, só que confusa desta vez. Ainda golpista, mas não mais protagonista.

Derrotada na forma e politicamente, a mídia ganhou no conteúdo. De tanto criminalizar a política, ela está por fim criminalizada pelas ruas. De tanto criminalizar os movimentos sociais e sindicais, eles estão agora criminalizados nas ruas. De tanto alimentar a indignação, em manchetes normalmente sem conteúdo, produziu a indignação como valor em si. Não por acaso, quase todos os vlogs indignados, como Felipe Neto e descealetra, estão delirando com o movimento. Todos molecotes de classe média revoltados porque não têm toddynho. Estão longe demais dos principais problemas do Brasil.

O movimento é também a vitória de uma forma de organização da juventude: os coletivos, potencializados pela organização horizontal e sem líderes típica das redes. Neste campo, a velha política precisa de uma música fúnebre. Os coletivos existem e são efetivamente mais democráticos e ágeis. O Intervozes, coletivo de ex-alunos de comunicação, é um exemplo. Além de minimizar os líderes, se configura como um espaço de formulação política com grande capacidade. Há coletivos também no movimento estudantil, alguns sem partidos, como a LS (Luta Socialista) e o Quebrando Muros, outros próximos de partidos, como o Rompendo as Amarras. Parte deles recusa a política institucionalizada, como os anarquistas do Quebrando Muros; outros negam, no discurso, mas atuam fortemente para ganhar sindicatos, como a LS.

Em Curitiba, foram a LS e o Quebrando Muros que se colocaram na origem do movimento, canalizaram a indignação sem pauta específica e impuseram sua lógica de organização do movimento, vivendo um dia por dia. Na ocupação da reitoria da UFPR no ano passado, fizeram a mesma coisa. Primeiro, criam o movimento, sem passar por nenhuma instância deliberativa. Buscam canalizar a insatisfação, acender o rastilho de pólvora, estourar a boiada e depois vão formular pautas, muitas vezes apenas agregando demandas, mesmo contraditórias. A legitimidade é dada pela construção do movimento. A especificação das pautas vem num terceiro momento. Só aí, sabemos o que é o movimento que irrompeu.

Nos protestos de rua, o MPL entrou com uma pauta específica, mas a junção de múltiplos atores deu o mesmo caráter4 ao movimento nacional: estouro de boiada sem pauta específica. Primeiro, ganham as ruas, turbinados pelo aumento da tarifa, pela repressão policial imprevidente até demais da PM de Alckmin, pelo desejo de se manifestar, de não se deixar calar. Nisso, soma-se, posteriormente, a extrema direita, na mesma estratégia de promover o movimento, mesmo sem causa.

Tudo isso marca os protestos. Sem centro, como nas redes; horizontal, como os coletivos; sem pautas específicas ou até com pautas contraditórias (o motivo da ação depois da ação em si); sentimentais, como os movimentos de massa; fomentados pela mesma juventude desiludida que votou em Marina Silva.

A diversidade de pautas vai se afunilar em pautas específicas e, então, poderemos ver o verdadeiro caráter do movimento, mas isto ainda está em disputa. A direita percebeu rápido as possibilidades e tenta hegemonizar o processo desde o início. Se conseguir, as pautas em seguida serão genéricas, como o fim da corrupção, melhoria na saúde e na educação e redução de impostos. A esquerda, mais tardiamente, percebeu o jogo e se põe a jogá-lo. Tenta tirar o Anonymous, movimento de esquerda no mundo, mas de direita no Brasil, e movimentos como o Acorda, Brasil, de direita desde o princípio, do protagonismo do processo. Se conseguir, as pautas serão mais específicas, como a reforma política e os 10% do PIB para a Educação.

Porém, pautas genéricas são mais fáceis de assimilar. As pessoas lutam sem saber exatamente pelo que, guiados por líderes que, pelo contrário, sabem muito bem o que querem. Rumaremos para o golpe, neste caso. Ou então para a derrota, flagrante e violenta, da juventude instrumentalizada.

Os traços do movimento, muito diferentes da Campanha da Diretas e do Fora Collor, vão se materializando hoje na recusa antidemocrática a qualquer ator institucionalizado e vai dando uma cara autoritária ao movimento. Aqueles que estão na rua há muito mais tempo, militantes organizados em partidos ou movimentos sociais e sindicais, vão precisar arrombar a porta.

Os mais exaltados falam em revolução, como na França, que começou por causa do preço do pão. Comparação muito feliz, de fato, pois a massa convertida em turba anuncia o terror. E a restauração.

Diria que, neste momento, a bola está nos pés da extrema esquerda. Se ela reconhecer a esquerda retardatária como parceira, pode fazer avançar sua pauta. Se reconhecer a extrema direita, será engolida por ela. E a marcha poderá invocar a família, Deus e a liberdade.

A massa, bem, a massa nas ruas age, na sua maioria, honestamente, porque todos estão insatisfeitos com algo, porque a educação e a saúde pública são ruins mesmo, porque são jovens acostumados a dar opinião sobre tudo e querem falar, porque acreditam em movimentos sem segundas intenções, como este se mostra ser. A massa, ingênua ou atavicamente conservadora, não imagina as forças que disputam a sua condução.

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E se o Estado não fosse laico, pastor Feliciano

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Se o Estado brasileiro não fosse laico, ele seria, provavelmente, católico, pastor Feliciano. E como acontece em estados religiosos de hoje ou do passado, ele cometeria os arbítrios de sempre, como subordinar o poder político à igreja oficial, subordinar o direito à religião e, o pior para você pastor, tomaria as outras religiões como toleradas ou criminosas.

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Quadro de François Dubois, representando a Noite de São Bartolomeu, massacre de, no mínimo, 2 mil protestantes pelos reis católicos franceses.

Como qualquer Estado religioso, questões de fé seriam motivo para as ações do Estado, muitas vezes violentas, como aconteceu no massacre da noite de São Bartolomeu (click na imagem ao lado ler sobre), nas cruzadas ou na condenação à morte na fogueira de Giordano Bruno. A violência por razões de fé ainda acontece hoje no oriente médio, onde perduram estados religiosos.

Seriam, então, os evangélicos e suas igrejas as vítimas maiores da violência religiosa de Estado no Brasil, pois são, sem dúvida, o maior perigo para fé católica. No limite, seriam considerados criminosos, por praticarem religiões contrárias à religião do Estado. Os católicos fundamentalistas não aceitariam tal diversidade de pensamento. Deus é um só; só poderia haver uma religião e uma leitura da bíblia.

Aqueles que defendessem que a escolha da religião é uma opção individual, não uma questão de Estado, seriam atacados como libertinos religiosos e pecadores. Toda violência contra evangélicos estaria legitimada, aceita. Pregações nas praças e ruas seriam consideradas vergonhosas, ofensivas à fé cristã.

Mas a força política das novas igrejas poderia melhorar as coisas e tornar as novas interpretações do texto sagrado toleráveis. Apenas toleráveis, mas ainda não um direito garantido pelo Estado.

Curiosamente, as igrejas evangélicas estariam hoje lutando por direitos civis, pelo direito à diferença, pela mudança, sim, da lei para que o Estado fosse laico. A laicidade é a garantia de que toda religião neste país é livre, que todos podem escolher o credo que bem entenderem e que ninguém sofrerá violência por isso. Pelo contrário, se sofrerem violência por razões religiosas terão proteção do Estado. No Estado laico, as igrejas podem livremente pregar seus credos. Foi isso que permitiu o crescimento das denominações evangélicas.

Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros e transexuais não querem pregar seu credo. Querem menos liberdade que as igrejas. Não querem o direito a celebrações ruidosas, como os cultos de certas denominações. Querem ter os mesmos direitos dos heterossexuais, sem ter que defender a normalidade, a justeza ou a legalidade da sua vida. Assim como iriam querer os evangélicos se fossem acusados o tempo todo de praticar uma religião anormal, ilícita, uma interpretação equivocada da bíblia.

Não entendo porque entre os evangélicos prospera tanto preconceito, tanto ódio e tanta intolerância. Vocês não precisam justificar sua fé. A comunidade LGBTT também não quer ter que justificar sua orientação sexual. Não quer sofrer violência, nem do Estado nem sob a proteção dele. Querem o que os evangélicos já têm: proteção do Estado e direitos civis.

Evangélicos vêm me questionar por que defendo os homossexuais. Defendo o direito dos homossexuais de serem homossexuais, tanto quanto defendo o direito dos evangélicos de serem evangélicos. Entender, concordar, achar certo ou errado não vem ao caso nos dois casos.

Pastor Feliciano, você representa o século XVII. O senhor talvez não goste, mas vivemos numa república. A república garante seus direitos religiosos e não te persegue mesmo quando você abusa deles e atenta contra a laicidade do Estado.

Imagine se o senhor vence e, por fim, voltamos para antes da Revolução Francesa e a lei de uma república se subordina, mais uma vez, à religião. À sua religião, é claro. Serão os homossexuais hoje que pagarão. Depois, os católicos. Depois, as outras denominações que não compartilhem a sua interpretação da bíblia. E será o horror religioso.

Os direitos dos homossexuais não são discutíveis, mas o seu de tentar perverter a laicidade do Estado é. O Estado não pode ser católico, nem evangélico, nem budista, nem judeu, nem umbandista, nem de religião alguma. Também não pode ser heterossexual.

Quero tanto um Estado laico quanto quero um estado sem orientação sexual. Quero garantias para a diversidade religiosa e sexual. Não venha julgar, em terra, pastor, como se fosse o Deus encarnado. Pecas contra os mandamentos que dizem que não deves julgar. Deus julgará a todos no juízo final, não é? Só a ele cabe julgar, não é?

Pastor Feliciano, você não é Deus. Não usurpe os poderes divinos. Pense o que quiser e aplique à sua vida. Creia na bíblia, que é seu ofício, e espere o julgamento de Deus. Tente “salvar as almas” dos homossexuais, se você julga isso sua missão, mas saia da política. Este não é teu campo. Neste caminho, só há a barbárie e a violência sob seus passos.

De resto, conte comigo: continuarei defendendo seu direito de professar livremente sua religião. Mas nunca defenderei seu direito de lutar por um estado religioso ou qualquer coisa que lembre isso, como leis feitas sob a sua interpretação da bíblia. Aliás, sob nenhuma interpretação da bíblia.

Critérios para ampliar a diversidade

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No texto anterior (O poder corruptor da verba publicitária) defendi a adoção de mídia técnica para destinar as verbas publicitárias aos veículos de comunicação como dever moral do Estado, incluindo aí a Prefeitura de Curitiba.

Isto vale para os grandes veículos comerciais, que têm obrigação de fornecer para o Estado informações confiáveis (como o do IVC – Instituto Verificador de Circulação – ou de outros institutos de mensuração de audiência). Mas é claro que tal exigência não se aplica aos pequenos meios de comunicação, como TV e rádios comunitárias ou universitárias, jornais de bairro, sites e portais menores, jornais alternativos , rádioweb,  e mesmo pequenas rádios comerciais.

Estes veículos muitas vezes não têm sequer como comprovar suas tiragens, quantidade de acesso ou audiência. No entanto, são importantes pois promovem a diversidade de opiniões, de pontos de vista e de projetos editoriais. Devem ser apoiados para que sobrevivam e cresçam, pois a democracia é feita de diversidade.

Na impossibilidade de se adotar critérios técnicos e na inadequação de se basear exclusivamente neles para estimular a pluralidade, pequenos veículos devem receber verba publicitária não apenas para realizar a transparência das ações da Prefeitura, mas, também, para promover a democracia.

Isto pode ser feito, inicialmente, com a alocação de um valor fixo, conforme o veículo, por um período determinado, sobretudo para novos projetos. Também é possível adotar critérios que privilegiem a relevância temática, dando maior ênfase a veículos que estejam ligados, por exemplo, a movimentos de defesa de direitos do cidadão. Um site sobre juventude, por exemplo, pode começar pequena, mas seu papel no amplo espectro dos interesses da sociedade é inegável.

O Governo Federal já faz isso com rádios do interior, importantes, mas longe da magnitude dos grandes veículos. A desconcentração do aporte de recursos publicitários normalmente não agrada os grandes veículos, mas promove a democracia. Se veículos como Veja não deixaram de receber dos governos Lula e Dilma parte da verba publicitária, mesmo quando agiram de forma golpista como panfletos políticos do conservadorismo, por outro lado recebem menos hoje do que proporcionalmente nos governos do PSDB. E, claro, não gostam disso. Preferem ter relações privilegiadas e corrompidas com o governo, mesmo que isso implique perda de autonomia editorial. Ao defender seus próprios interesses contra interesses mais amplos da sociedade, atacam a democracia. Nem perseguir, nem privilegiar veículos pela sua postura editorial é dever do Estado.

Por isso, o poder público deve resistir, não ceder as pressões, deixar claro a vantagem, mesmo para os grandes veículos comerciais, de preservar sua autonomia editorial. No caso da Prefeitura, ela deve adotar políticas de estimulo à democracia e elaborar critérios de dispersão da verba publicitária, mesmo que contra os interesses antidemocráticos de veículos que posam de paladinos da sociedade.

Nosso conceito de democracia é mais amplo do quer a mera preservação das liberdades de alguns contra a liberdade de todos. Este princípio é inegociável. Defendê-lo dá trabalho, mas separa os estadistas democratas dos parasitas dos recursos públicas, sejam jornais, sejam governantes.

O poder corruptor da verba publicitária

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O poder público tem obrigação legal de divulgar seus atos. Faz parte da transparência com as ações de Estado. Por vezes, esta obrigação é formal, com a publicação de editais de licitação. Em outras, a comunicação se torna ação de Estado em campanhas de esclarecimentos público como no caso das campanhas de vacinação.

Jornais devem cobrir as ações de Estado. Faz parte do seu papel democrático: vigiar o poder. O jornalismo, ao longo do tempo, se legitimou perante a sociedade pelo seu profundo entrelaçamento com a democracia.

Este é um mundo ideal, mas não existe. Na realpolitik ninguém na Prefeitura de Curitiba nos últimos mandatos deixou de usar da verba publicitária para injetar recursos nos jornais com a perspectiva de comprar a sua postura editorial. Em outras palavras, os anúncios visam não apenas realizar uma ação de comunicação, mas também uma ação política diminuindo o ímpeto das redações para fazer denúncias, para descobrir mazelas, para vigiar o poder público. Azar da democracia; azar do cidadão.

A verba publicitária é utilizada como um poder corruptor. E é impossível identificar o ato como desvio de recursos ou como ilegal, posto que investir em compra de espaço nos jornais, em compra de mídia faz parte das atividades usuais da prefeitura. Legal, mas a-ético, imoral. O mercado nunca ofereceu critérios claros para definir quanto valem os anúncios. Por outro lado, a decisão de anunciar em um veículo e não em outro não se baseia, muitas vezes, em busca de eficácia da ação de comunicação. Ou seja, os valores são aleatórios, assim como, muitas vezes, a escolha dos veículos. A falta de critérios técnicos abre a porta para o uso ilegítimo e imoral dos recursos como instrumento para inibir a autonomia editorial dos veículos e dos jornalistas que neles trabalham. Esta estratégia  se repete, vergonhosamente, há anos.

Uma Curitiba que se queira moderna e progressista não pode incidir nestas práticas mais uma vez. O poder público tem o dever de fazer estudos técnicos e adotar critérios claros de alocação da verba publicitária nos jornais, com já acontece no Governo Federal. Ou seja, o Estado tem dever moral de usar mídia técnica para alocar recursos publicitários. E uma vez destinada a verba para um veículo, mediante contrato, o repasse não pode ser suspenso ou diminuído exceto por razões de ordem técnica, como queda acentuada nas tiragens ou audiência.

O Estado tem o dever de divulgar seus atos, mas também de realizar estudos que justifiquem os investimentos. O dinheiro é público. Seu uso justo e adequado é de interesse da população, da mesma forma que a preservação da autonomia dos veículos de comunicação e das redações dos jornais perante o poder público.

(Texto publicado originalmente no blog http://www.curitibaquer.com)

Resistir e sonhar

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O que aconteceu com a juventude?

Por que não admiram os jovens que lutaram a vida inteira, aqueles que entregaram a vida por uma causa, aqueles que foram para as ruas ou para as prisões em defesa das suas crenças ou que viveram os grandes festivais, que romperam esteticamente, os que apanharam calados na Itália, sem revidar, porque o amor era sua arma, os que seguiram Gandhi, os que entregaram a vida para salvar outras vidas?

Por quê?

Eu não entendo isso. Eu aprendi, criança, a acreditar no regime militar, até começar a desconfiar. Então, não parei mais de questionar. Quando cheguei a uma universidade pública, contra todas as possibilidades, vi que era preciso resistir e sonhar. Foi por sonhar que superei a precariedade do ensino público que o regime militar me ofereceu, não só ruim, mas totalmente conformado.

Mas eu encontraria o regime militar também na universidade. No começo dos anos 90, a abertura política estava muito próxima. No meu curso, muitos professores eram ligados à ditadura (arapongas, interventores, censores, dedo-duros, agressores). Um confessara que esmagou dedos de comunistas. A repressão acabara, mas estava viva ainda. Naqueles dias, ninguém ousaria acreditar que quem foi torturado era o vilão. Nós tínhamos lado.

Em 97, em pleno governo PSDB, passei no teste seletivo de professor substituto. Ganhava cerca de um terço do piso de jornalista. Além de manter os salários baixos, o governo FHC não repunha as vagas de professores efetivos e demorava para liberar as vagas de substitutos. Tínhamos mais da metade das disciplinas dadas por professores substitutos, que eram contratados, invariavelmente, dois meses depois que as aulas tinham começado. Era o caos.

Naqueles tempos, a UFPR tinha incêndio no seu prédio histórico, em um ano, e greve, no outro. Tanto uma coisa quanto outra tinha a ver com um histórico de baixos investimentos da União na educação superior, situação que piorou com FHC. O governo propagava uma dicotomia traiçoeira: o dinheiro era escasso; tinha que investir em educação básica ou em educação superior. Não via o sistema educacional como um todo. Criou o Fundef (Fundo de Desenvolvimento da Educação Fundamental) e asfixiou as universidades públicas, abrindo o mercado para a explosão dos cursos privados, sem fiscalizar a qualidade.

Em 98, passei no concurso de professor efetivo e, naquele ano, numa greve que durou cerca de 5 meses, terminei de escrever minha dissertação de mestrado. Foram três greves, por mais recursos e por melhores salários, em oito anos. Muitos professores optavam por sair ou se aposentar precocemente. Foi grande o êxodo de mestres e doutores.

Mas a gente não cansava de sonhar. As canções da contracultura ainda estavam em nossos corações: “Quem tem consciência para ter coragem?Quem tem a força de saber que existe? E, no centro da própria engrenagem, investe contra a mola, que resiste?Quem não vacila, mesmo derrotado? Quem já perdido, nunca desespera? E, envolto em tempestades, decepado, entre os dentes, segura a primavera?” Nós segurávamos, ao nosso modo, a primavera entre os dentes. Estes sonhos levaram Lula ao poder, depois de muito apanharmos. Em 89, Collor usou a filha de Lula, Lurian, para atacá-lo, sob a alegação de que ele teria pedido para que a mãe abortasse a filha. Covas havia recusado a história, que fora lhe oferecida antes. Collor não. Saudades daquele PSDB do Covas. Em 94 e 98, Lula saiu de favorito para derrotado nas eleições, sob implacável silêncio da imprensa, que fez as eleições correrem como se não existissem. O silêncio poderia ser quebrado com a história do filho bastardo de FHC, mas Lula recusou duas vezes a usar esta arma. Perdeu, sem apelar.

A mesma imprensa que silenciara durante as campanhas, tentou dar um Golpe em Brizola, na eleição em 82, no Rio, manipulou vergonhosamente o último debate entre Lula e Collor, no Jornal Nacional, em 89, colocou camisetas do PT em sequestradores do empresário Abílio Diniz, para demonizar o PT, que surgiu sob este estigma. Ou alguém acha que a ditadura deu o número 13 para o partido por acaso?

Durante o governo, o PT errou e decepcionou muita gente, pessoas que tinham sonhado demais e não queriam abrir mão dos seus sonhos. Ou que se decepcionaram com o pragmatismo político, usando armas e expedientes típicos da direita. Gente que queria a reforma agrária para já, o salário mínimo do Dieese, a auditoria da dívida externa, a reforma urbana, a radicalização da democracia. E queria um PT totalmente fora de esquemas de caixa 2 de campanha.

Mas é inegável que ao fim de oito anos nossos sonhos parecem mais reais. Diminuíram as ações do MST, houve mais investimento em agricultura familiar e mais assentamentos. Menos gente tem vindo para as periferias das grandes cidades. É pouco, mas é muito mais do que tínhamos.

O salário mínimo teve substanciais ganhos reais, provamos que a tese liberal de que salário produzia inflação, dragão que fazia os trabalhadores calarem e aceitarem salários baixos, estava errada.

Pagamos a dívida externa, sem auditá-la, mas não devemos mais. A bandeira do “Fora FMI” se concretizou, por outro caminho.

O mercado imobiliário cresce e podemos ver, no futuro, o dia em que não haverá pessoas sem casas.

As conferências (de Saúde, Juventude, Direitos Humanos, Comunicação, Educação), demonizadas pela mídia, radicalizaram a democracia.

E, mesmo no combate à corrupção, o PT cumpriu um papel fundamental. Nunca a CGU (Controladoria Geral da União) controlou tanto os gastos dos repasses da União; nunca a Polícia Federal fez tantas operações (foram mais de 300, contra cerca de 20 no governo FHC). O combate à corrupção melhorou muito, mas ao levantar a tampa do esgoto o cheiro foi desagradável. Aquilo corria ali há anos, sob os militares, sob Sarney, sob Collor e sob FHC.

Meus sonhos de adolescente eram grandes demais, mas, por Deus, eles não eram pura fumaça. O Brasil não é mais o eterno país do futuro.

Eu, moleque, tinha tudo para errar, mas não errei. Não sabia nada de nada, mas pressentia o perigo. Sabia que onde estivesse a TFP (Tradição Família e Propriedade), eu não estaria. Onde estivessem os neonazistas, em cerraria fileiras do outro lado. Desconfiava da posição política da Globo sempre, pois foi a emissora inventada pelo militares e que nunca abriu mão de interferir nas eleições deste país. Sabia, mesmo tendo formação cristã – tanto católica quanto protestante, que aborto era uma questão de saúde pública, não uma questão moral e religiosa. Sabia que qualquer um que usasse este tema para demonizar seu adversário, levando o debate para o obscurantismo, não merecia crédito.

Sabia que qualquer um que usasse o preconceito como arma de campanha não era um bom candidato. O processo civilizatório tem muito de aceitação dos diferentes. Primeiro foram os negros, que tiveram que lutar por liberdade e depois por direitos civis, para que aceitássemos as diferenças étnicas. Depois, foram as mulheres, que lutaram por direitos iguais, para que aceitássemos as diferenças de gênero. Hoje, são os homossexuais que lutam contra o preconceito, para que aceitemos as diferenças sexuais. A igreja sempre tardou a reconhecer. Os negros não tinham alma, as mulheres deviam ser submissas ao homem como a igreja é submissa a Deus. Eles dizem que está na bíblia, no livro que inaugurou o amor fraterno pelo próximo. Dizem que lá está a semente da diferença, não da igualdade.

O livre-arbítrio significa que eu posso escolher sem ser julgado pelos homens, pois só Deus pode me julgar. De onde pastores e padres usurparam o direito de Deus? Ao cristianismo, cabe acolher, inclusive os diferentes.

Dizia Paulo Francis, um reacionário confesso: “Um jovem que não é de esquerda, não tem coração. Um homem que não é de direita, não tem cérebro.” Eu tento racionalizar meu coração. Mas me impressiona que os jovens tenham tanto cérebro e ele não sirva para sonhar, que seja tão egoísta e, por vezes, capturado pelos sentimentos mais irracionais.

Meus sonhos demoram para envelhecer. Quero morrer ingênuo. Quero resistir ao tempo. Lutar, enquanto tiver forças. Sonhar, enquanto não for velho demais. Quero um coração jovem até que ele pare de bater. Quero continuar acreditando em quem se alimenta dos nossos sonhos e não em quem estimula os nossos ódios e explora os nossos medos.

O que fez, afinal, a juventude envelhecer antes do trinta?

Mostrengo nu

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O sistema de eleição de vereadores e deputados no Brasil é uma invenção única. A eleição é proporcional, em lista aberta, um esquema que, salvo engano, não há democracia estável no mundo que utiliza. Os modelos mais usados são as listas fechadas e as eleições distritais. O sistema do Brasil é uma jabuticaba. Só existe aqui e é tão incompreensível que apenas os muito iniciados em política o entendem.
Explico: o eleitor vota num determinado partido e, dentre os candidatos deste partido, escolhe um. Pode, também, votar apenas no partido, sem indicar nenhum candidato específico. A divisão das vagas é feita proporcionalmente aos votos do partido ou da coligação. Ou seja, se um partido tiver, na soma de todos os seus candidatos e da legenda 25% dos votos, terá também direito a 25% das vagas na casa legislativa em disputa. Os mais votados daquele partido ficam com as vagas, ocupadas por ordem de votação. Assim, com a votação recorde de Clodovil (493.951), o coronel Paes de Lira (6.673 votos) se elegeu deputado federal, pelo PTC, que garantiu duas vagas.
A população não entende como alguém se elege com menos de 7 mil votos e outro não se elege com mais de 50 mil, como aconteceu em São Paulo. A população não entende o sistema como um todo. Perante a lei, a mandato do coronel Paes Lira é plenamente legítimo. E é razoável que 500 mil eleitores, que votaram em Clodovil e Paes Lira, tenham dois representantes.
A declaração do TSE, diante de um pedido dos Demos (ex-PFL), de que o mandato é do partido é a leitura mais clara e simples da lei. A eleição é em lista. As vagas são dos partidos. Mas a decisão expõe uma democracia de fancaria. A população normalmente nem sabe em quem votou, por conta da dispersão de candidatos. Sabe menos ainda em que partido votou. Compreende ainda menos como seu voto, num amigo próximo, possa pertencer a um partido que nem conhece e como pode ter eleito outro sujeito.
O sistema eleitoral é despolitizando. Impede que as eleições proporcionais debatam os legislativos, torna a crítica inútil e pune os desvios vagamente. Um deputado que seja pego em claro ato de corrupção normalmente tem apenas sua imagem manchada e somente após uma campanha vigorosa da imprensa contra ele, nem sempre motivada por razões nobres. Seu partido não paga. Como ele precisa, proporcionalmente, de um número pequeno de votos para se eleger, a rejeição não é o fator mais relevante na sua eleição, senão Maluf não teria a votação recorde que teve.
O sistema em si é horrível. Desmonta os partidos, desvincula o voto da representação parlamentar, impede a fiscalização do eleitor e da imprensa e torna a discussão dos legislativos casuísta e fisiológica.
O fato da população desconhecer o sistema torna a nossa democracia um jogo que o eleitor, em geral, não joga. Se o TSE não fez as leis e cumpre o seu papel ao zelar por elas, isso não o livra da responsabilidade pelo desconhecimento do sistema. A cada eleição, o Tribunal gasta seu tempo de campanha de TV para pedir por um vago voto consciente, pedir que as pessoas votem, incutir no povo que o poder emana dele. Podia explicar como um deputado é eleito. Nunca fez isso.Na marra, por força de um processo jurídico, o TSE agora diz que o mandato é do partido. Deveria ter dito bem antes. Antes do voto, antes das distorções na nossa representação parlamentar. E, sobretudo, antes que espertos, como o Demo, que sempre usaram a ignorância da lei para fazer bancadas, resolvessem usar, espertamente, a lei a seu favor.

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