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Que poder é o poder das ruas?

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ImageHá uma grande derrotada, desde já, pelos movimentos de protesto que tomam conta do país: a democracia representativa. E todos os seus atores: deputados, vereadores, governadores, prefeitos, presidenta, mas também os sindicatos, movimentos sociais e até a mídia.

E há uma grande vitoriosa, por enquanto: a juventude. Mesmo com a adesão de pessoas de outras faixas etárias, é o ponto de vista e a indignação da juventude, sobretudo urbana e de classe média, que venceram. Saber, porém, quais autores sociais ganharam e quais perderam ainda não significa saber qual causa efetivamente ganhou, exceto a redução do preço das passagens de ônibus, que está longe de ser a motivação para tantos protestos. Além disso, o movimento é muito dinâmico e seus sentidos políticos ainda não estão claros, ainda estão em disputa. Suas motivações também parecem vagas e difusas, amplas, difíceis de diagnosticar.

O movimenta replica uma característica de redes sociais, sobretudo o Facebook, mas também o Twitter, fóruns e blogs: a democracia participativa. As redes deram voz a todos que podem pagar por conexão. E cada um fala o que quer, sem precisar debater, sem precisar formular consenso algum. A regra é a dispersão. Todos participam, sem mover um milímetro da sua posição. Este modelo de democracia venceu. Azar da democracia, por que a democracia participativa veio para ficar, mas sozinha é o caos. Ela pode pressionar e renovar a democracia representativa, estimular a democracia direta, abrir caminho para a democracia deliberativa, mas não pode substituir nenhuma delas, exceto para a supressão da democracia em si, pela substituição da relação mediada por atores envelhecidos (como os legislativos, sindicatos e sociedade civil) pela relação direta entre a massa e o ditador. Assim, ou a democracia (e os velhos atores) assume e direciona a democracia participativa ou ela própria, democracia, está em perigo.

Além dos partidos e políticos, perdeu também, em larga escala, o movimento sindical, muito bem organizado, mas hoje distante das bases, muito institucionalizado, incapaz de diálogo, instrumento de representação mais jurídica que política. E perderam os movimentos sociais, apenas parcialmente eficazes para dar voz amplamente a seus pleitos, algo aparentemente fácil para os novos militantes em rede.

A velha mídia, dos grandes grupos de comunicação e seus veículos, também perdeu, na forma e politicamente, apesar de terem ganho no conteúdo. Na forma, porque a comunicação verticalizada, de massa, de um para muitos, estava tomando tombos da comunicação horizontalizada, menos assimétrica das redes, há um bom tempo, mas nunca tinha sido secundada como está sendo agora. Viciados em fazer política rasteira, os veículos também estão sendo identificados como atores políticos corrompidos do velho modelo e combatidos. Não há imagens de emissoras de TV do meio dos movimentos. Os jornalistas estão sendo colocados para fora, atacados e hostilizados. E a imprensa ainda não entendeu bem o que acontece, não sabe bem como se posicionar, exceto pelos seus velhos esquemas. A velha mídia tenta direcionar os sentidos do movimento, insiste em julgar mais que interpretar ou explicar, é a mesma porcaria de sempre, só que confusa desta vez. Ainda golpista, mas não mais protagonista.

Derrotada na forma e politicamente, a mídia ganhou no conteúdo. De tanto criminalizar a política, ela está por fim criminalizada pelas ruas. De tanto criminalizar os movimentos sociais e sindicais, eles estão agora criminalizados nas ruas. De tanto alimentar a indignação, em manchetes normalmente sem conteúdo, produziu a indignação como valor em si. Não por acaso, quase todos os vlogs indignados, como Felipe Neto e descealetra, estão delirando com o movimento. Todos molecotes de classe média revoltados porque não têm toddynho. Estão longe demais dos principais problemas do Brasil.

O movimento é também a vitória de uma forma de organização da juventude: os coletivos, potencializados pela organização horizontal e sem líderes típica das redes. Neste campo, a velha política precisa de uma música fúnebre. Os coletivos existem e são efetivamente mais democráticos e ágeis. O Intervozes, coletivo de ex-alunos de comunicação, é um exemplo. Além de minimizar os líderes, se configura como um espaço de formulação política com grande capacidade. Há coletivos também no movimento estudantil, alguns sem partidos, como a LS (Luta Socialista) e o Quebrando Muros, outros próximos de partidos, como o Rompendo as Amarras. Parte deles recusa a política institucionalizada, como os anarquistas do Quebrando Muros; outros negam, no discurso, mas atuam fortemente para ganhar sindicatos, como a LS.

Em Curitiba, foram a LS e o Quebrando Muros que se colocaram na origem do movimento, canalizaram a indignação sem pauta específica e impuseram sua lógica de organização do movimento, vivendo um dia por dia. Na ocupação da reitoria da UFPR no ano passado, fizeram a mesma coisa. Primeiro, criam o movimento, sem passar por nenhuma instância deliberativa. Buscam canalizar a insatisfação, acender o rastilho de pólvora, estourar a boiada e depois vão formular pautas, muitas vezes apenas agregando demandas, mesmo contraditórias. A legitimidade é dada pela construção do movimento. A especificação das pautas vem num terceiro momento. Só aí, sabemos o que é o movimento que irrompeu.

Nos protestos de rua, o MPL entrou com uma pauta específica, mas a junção de múltiplos atores deu o mesmo caráter4 ao movimento nacional: estouro de boiada sem pauta específica. Primeiro, ganham as ruas, turbinados pelo aumento da tarifa, pela repressão policial imprevidente até demais da PM de Alckmin, pelo desejo de se manifestar, de não se deixar calar. Nisso, soma-se, posteriormente, a extrema direita, na mesma estratégia de promover o movimento, mesmo sem causa.

Tudo isso marca os protestos. Sem centro, como nas redes; horizontal, como os coletivos; sem pautas específicas ou até com pautas contraditórias (o motivo da ação depois da ação em si); sentimentais, como os movimentos de massa; fomentados pela mesma juventude desiludida que votou em Marina Silva.

A diversidade de pautas vai se afunilar em pautas específicas e, então, poderemos ver o verdadeiro caráter do movimento, mas isto ainda está em disputa. A direita percebeu rápido as possibilidades e tenta hegemonizar o processo desde o início. Se conseguir, as pautas em seguida serão genéricas, como o fim da corrupção, melhoria na saúde e na educação e redução de impostos. A esquerda, mais tardiamente, percebeu o jogo e se põe a jogá-lo. Tenta tirar o Anonymous, movimento de esquerda no mundo, mas de direita no Brasil, e movimentos como o Acorda, Brasil, de direita desde o princípio, do protagonismo do processo. Se conseguir, as pautas serão mais específicas, como a reforma política e os 10% do PIB para a Educação.

Porém, pautas genéricas são mais fáceis de assimilar. As pessoas lutam sem saber exatamente pelo que, guiados por líderes que, pelo contrário, sabem muito bem o que querem. Rumaremos para o golpe, neste caso. Ou então para a derrota, flagrante e violenta, da juventude instrumentalizada.

Os traços do movimento, muito diferentes da Campanha da Diretas e do Fora Collor, vão se materializando hoje na recusa antidemocrática a qualquer ator institucionalizado e vai dando uma cara autoritária ao movimento. Aqueles que estão na rua há muito mais tempo, militantes organizados em partidos ou movimentos sociais e sindicais, vão precisar arrombar a porta.

Os mais exaltados falam em revolução, como na França, que começou por causa do preço do pão. Comparação muito feliz, de fato, pois a massa convertida em turba anuncia o terror. E a restauração.

Diria que, neste momento, a bola está nos pés da extrema esquerda. Se ela reconhecer a esquerda retardatária como parceira, pode fazer avançar sua pauta. Se reconhecer a extrema direita, será engolida por ela. E a marcha poderá invocar a família, Deus e a liberdade.

A massa, bem, a massa nas ruas age, na sua maioria, honestamente, porque todos estão insatisfeitos com algo, porque a educação e a saúde pública são ruins mesmo, porque são jovens acostumados a dar opinião sobre tudo e querem falar, porque acreditam em movimentos sem segundas intenções, como este se mostra ser. A massa, ingênua ou atavicamente conservadora, não imagina as forças que disputam a sua condução.

Nem quem aborta é a favor do aborto

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Ninguém, absolutamente ninguém com um mínimo de sensibilidade, é a favor do aborto. A jovem pobre, de 15 anos, que engravida sem querer, por inexperiência e falta de informação e aborta em alguma clínica clandestina ou por conta própria é contra o aborto. Ela se martiriza moralmente, se condena e é condenada pelos seus pares, no mínimo pela sua família. O aborto, retirar um feto do ventre, em qualquer estágio, é algo terrível.

Mas a questão não é essa. A questão é se a jovem que praticou o delito deve ser encarcerada por isso, como criminosa comum. Ou se deve, pelo contrário, receber cuidados do Estado, para que sua saúde como mulher não deteriore, levando-a a morte. O SUS faz 200 mil curetagens por ano (dados do Ministério da Saúde, referentes a 2009). Deveria o Estado levar estas 200 mil mulheres aos tribunais.

O cristianismo jamais concordaria com isso. Jesus estendeu as mãos a uma prostituta, mostrando que o perdão é o caminho da reconciliação dos excluídos, dos delituosos, dos pecadores com a sociedade e com Deus. Jesus pregou o amor e o perdão. Este princípio se reflete nas ações das igrejas cristãs das diversas denominações na área de dependência de drogas. Muitas comunidades terapêuticas partem do perdão para atender os viciados que procuram saída. Igrejas em regiões de alta criminalidade atuam da mesma forma, atraindo e incorporando à comunidade marginais e assassinos, crentes na capacidade humana de se recuperar.

Por que deveria ser diferente com a jovem ou adulta que pratica aborto, condenada ao pior dos delitos, maior que daqueles que roubam, traficam e matam e que são perdoados e acolhidos pelas Igrejas? É esta a concepção? Todos merecem perdão, menos as mulheres? Quem defende isso insiste na tese, medieval, de que as mulheres são menores na sociedade, reafirma o preconceito de gênero, que motivou, sob a alegação de bruxaria, que mulheres fossem queimadas na idade média.

As posturas defendidas pelos segmentos progressitas, imbuídos de boa dose de sentimento cristão, refletem este zelo com as mulheres, buscam tomá-las como tão dignas do perdão quanto qualquer um. Iguais em tudo na vida. O aborto passa ser um problema de saúde pública, orientado pelo amor, não pelo ódio vingativo. Somos uma sociedade cristã, guiados pelo amor ao próximo. Perdoar, acolher e recuperar é a nossa prática.

A lei já especifica em que condições o aborto não pode ser considerado crime: em caso de gravidez não desejada resultado de estupro, em caso de risco à vida da mulher e em caso de ausência de cérebro (fetos anencéfalos). Mesmo nestes casos, somos contra o aborto, mas cabe à mulher grávida decidir, sem ter que responder perante a lei por isso. A decisão não é fácil, mas, nestes casos, não cabe ao Estado decidir por elas. Podemos defender uma ou outra posição nestes casos, mas não podemos julgá-las por qualquer decisão que tomem. Não julgais, no caso, é o princípio norteador.

Ao Estado cabe sim um papel fundamental na questão: dar assistência para a futura mãe, em todos os exames e procedimentos necessários para garantir a saúde do bebê, como o acompanhamento pré-natal, combater as doenças sexualmente transmissíveis e implantar políticas contra a gravidez indesejada. Ensinar às mulheres como fazer planejamento familiar, como definir quantos filhos podem e querem ter, de tal forma a prover-lhes condições necessárias para que se desenvolvam fisicamente e intelectualmente é o mais importante. Toda mulher sabe disso, sabe da necessidade de cuidar da sua prole, sem aumentar a pobreza e a miséria. Ninguém quer colocar descendentes miseráveis no mundo. Todas as mães querem ver seus filhos saudáveis e com boas condições de vida, empregados, podendo sonhar, sem que o presente lhes castre o futuro.

Isto é fundamental. Quanto mais o Brasil conseguir implementar esta política, menos terá que conviver com a prática terrível do aborto.

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