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Jornalistas são bulldogs treinados para morder

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bulldog reading newspaperAcho que nunca vou esquecer o asco que senti quando, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, encontrei o ex-prefeito Rafael Greca, então secretário de Comunicação do Governo Estadual. De terno e respeitoso, adentrei o Palácio Iguaçu para almoçar com o secretário e discutir a situação do comodato da Casa do Jornalistas, onde o Sindicato está instalado.

Greca foi Greca. Pegou um papel, rabiscou projetos do que fazer naquele lugar, demolindo em parte e construindo algo novo, uma nova sede, com espaço para museu, área de convivência. Colocou sua cabeça inventiva para funcionar, muito à vontade. À vontade também, discutiu, na minha frente, com um assessor como resolver um problema de comunicação. A certa altura, disse:

– Vamos colocar esta manchete na Gazeta…

E rabiscou um título qualquer. Não sei se Greca tinha poder assim para colocar os títulos que queria na Gazeta do Povo, mas a falta de cerimônia para fazer isso na minha frente, investido então como presidente do Sindicato dos Jornalistas, não me deixou apenas constrangido, mas também enojado.

Eu sabia que Estado e imprensa mantêm relações corrompidas, por motivos diversos: a verba publicitária pública, as concessões de rádio e TV nas mãos de políticos ou até mesmo relações familiares ou político-partidárias. Mas ver isso acontecendo, diante dos meus olhos, como se fosse a coisa mais natural do mundo me ofendeu de um jeito que eu não poderia imaginar.

Mais sutil foi um diretor de um jornal diário de Curitiba, com quem convivi por conta das discussões sobre regulamentação do estágio em jornalismo, me explicando porque seu jornal, sempre gentil com o poder público municipal, tinha andado batendo na prefeitura. O prefeito tinha atrasado o repasse de verbas publicitárias. Perguntei:

– E vocês pediram para a redação bater?

– Não. Só soltamos as rédeas.

Jornalistas são bulldogs. São treinados moralmente para morder. Aprendem cedo, na faculdade ou com os mitos e histórias que cercam a profissão, que “jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”, como dizia Millôr. Jornalistas incorporam o mito do quarto estado ou quarto poder, como eu incorporei. E tento ensinar a meus alunos, mesmo relativizando.

Não temos controle editorial da nossa profissão, é fato. Os jornais mandam. E o jornalismo brasileiro é seletivo: os jornais denunciam quem interessa denunciar, seja por razões políticas (prejudicar ou não prejudicar deliberadamente um político), seja por razões econômicas (não contrariar ou agradar um grande anunciante, público ou privado), seja por razões mais escroques ainda, como as relações criminosas de Veja com Carlinhos Cachoeira, escambos da mesma natureza ou birra mesmo, como a desconstrução de Alceni Guerra pelo grupo Globo por conta da aproximação que ele fez entre Collor e Brizola, o eterno desafeto. Por isso, desconfio de denúncias. Pior ainda, não raras vezes a exposição seletiva de um escândalo serve para um jornal construir a imagem de independente e credível. Depois, será esta imagem de honestidade que vai encobrir toda sorte de desonestidades. Contraditoriamente, jornalismo seletivo serve para encobrir que o jornal faz jornalismo seletivo.

Este quadro só muda quando os interesses da empresa coincidem com o dos jornalistas. Quando os jornais são apenas capitalistas, buscando credibilidade, leitores e, com isso, mais anunciantes. Para mim, foi o que aconteceu com a Gazeta: razões profissionais e razões empresariais juntas. Pode ser que Greca nunca tenha tido o poder de fazer as manchetes do jornal, mas a história era verossímil, ela colava, pela imagem de chapa-branca que o jornal tinha. Os movimentos que a Gazeta fez para recuperar leitores e para recuperar credibilidade visavam contrariar esta imagem. Por razões empresarias, é claro.

De qualquer forma, ser bulldog treinado, cheio de justificativas morais para morder, nos torna isso: alvos fáceis de jornalismo seletivo. As empresas usam nossas virtudes contra nós. Somos o “perro guardian”, o “watch dog”, mas estamos amarrados pelo pescoço. Eles não precisam fazer nada. Quando querem que os jornalistas mordam, eles mordem. Mas não tiram a coleira.

Isso ainda me ofende. E, se tudo der certo, vai me ofender pelo resto da minha vida.

Que poder é o poder das ruas?

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ImageHá uma grande derrotada, desde já, pelos movimentos de protesto que tomam conta do país: a democracia representativa. E todos os seus atores: deputados, vereadores, governadores, prefeitos, presidenta, mas também os sindicatos, movimentos sociais e até a mídia.

E há uma grande vitoriosa, por enquanto: a juventude. Mesmo com a adesão de pessoas de outras faixas etárias, é o ponto de vista e a indignação da juventude, sobretudo urbana e de classe média, que venceram. Saber, porém, quais autores sociais ganharam e quais perderam ainda não significa saber qual causa efetivamente ganhou, exceto a redução do preço das passagens de ônibus, que está longe de ser a motivação para tantos protestos. Além disso, o movimento é muito dinâmico e seus sentidos políticos ainda não estão claros, ainda estão em disputa. Suas motivações também parecem vagas e difusas, amplas, difíceis de diagnosticar.

O movimenta replica uma característica de redes sociais, sobretudo o Facebook, mas também o Twitter, fóruns e blogs: a democracia participativa. As redes deram voz a todos que podem pagar por conexão. E cada um fala o que quer, sem precisar debater, sem precisar formular consenso algum. A regra é a dispersão. Todos participam, sem mover um milímetro da sua posição. Este modelo de democracia venceu. Azar da democracia, por que a democracia participativa veio para ficar, mas sozinha é o caos. Ela pode pressionar e renovar a democracia representativa, estimular a democracia direta, abrir caminho para a democracia deliberativa, mas não pode substituir nenhuma delas, exceto para a supressão da democracia em si, pela substituição da relação mediada por atores envelhecidos (como os legislativos, sindicatos e sociedade civil) pela relação direta entre a massa e o ditador. Assim, ou a democracia (e os velhos atores) assume e direciona a democracia participativa ou ela própria, democracia, está em perigo.

Além dos partidos e políticos, perdeu também, em larga escala, o movimento sindical, muito bem organizado, mas hoje distante das bases, muito institucionalizado, incapaz de diálogo, instrumento de representação mais jurídica que política. E perderam os movimentos sociais, apenas parcialmente eficazes para dar voz amplamente a seus pleitos, algo aparentemente fácil para os novos militantes em rede.

A velha mídia, dos grandes grupos de comunicação e seus veículos, também perdeu, na forma e politicamente, apesar de terem ganho no conteúdo. Na forma, porque a comunicação verticalizada, de massa, de um para muitos, estava tomando tombos da comunicação horizontalizada, menos assimétrica das redes, há um bom tempo, mas nunca tinha sido secundada como está sendo agora. Viciados em fazer política rasteira, os veículos também estão sendo identificados como atores políticos corrompidos do velho modelo e combatidos. Não há imagens de emissoras de TV do meio dos movimentos. Os jornalistas estão sendo colocados para fora, atacados e hostilizados. E a imprensa ainda não entendeu bem o que acontece, não sabe bem como se posicionar, exceto pelos seus velhos esquemas. A velha mídia tenta direcionar os sentidos do movimento, insiste em julgar mais que interpretar ou explicar, é a mesma porcaria de sempre, só que confusa desta vez. Ainda golpista, mas não mais protagonista.

Derrotada na forma e politicamente, a mídia ganhou no conteúdo. De tanto criminalizar a política, ela está por fim criminalizada pelas ruas. De tanto criminalizar os movimentos sociais e sindicais, eles estão agora criminalizados nas ruas. De tanto alimentar a indignação, em manchetes normalmente sem conteúdo, produziu a indignação como valor em si. Não por acaso, quase todos os vlogs indignados, como Felipe Neto e descealetra, estão delirando com o movimento. Todos molecotes de classe média revoltados porque não têm toddynho. Estão longe demais dos principais problemas do Brasil.

O movimento é também a vitória de uma forma de organização da juventude: os coletivos, potencializados pela organização horizontal e sem líderes típica das redes. Neste campo, a velha política precisa de uma música fúnebre. Os coletivos existem e são efetivamente mais democráticos e ágeis. O Intervozes, coletivo de ex-alunos de comunicação, é um exemplo. Além de minimizar os líderes, se configura como um espaço de formulação política com grande capacidade. Há coletivos também no movimento estudantil, alguns sem partidos, como a LS (Luta Socialista) e o Quebrando Muros, outros próximos de partidos, como o Rompendo as Amarras. Parte deles recusa a política institucionalizada, como os anarquistas do Quebrando Muros; outros negam, no discurso, mas atuam fortemente para ganhar sindicatos, como a LS.

Em Curitiba, foram a LS e o Quebrando Muros que se colocaram na origem do movimento, canalizaram a indignação sem pauta específica e impuseram sua lógica de organização do movimento, vivendo um dia por dia. Na ocupação da reitoria da UFPR no ano passado, fizeram a mesma coisa. Primeiro, criam o movimento, sem passar por nenhuma instância deliberativa. Buscam canalizar a insatisfação, acender o rastilho de pólvora, estourar a boiada e depois vão formular pautas, muitas vezes apenas agregando demandas, mesmo contraditórias. A legitimidade é dada pela construção do movimento. A especificação das pautas vem num terceiro momento. Só aí, sabemos o que é o movimento que irrompeu.

Nos protestos de rua, o MPL entrou com uma pauta específica, mas a junção de múltiplos atores deu o mesmo caráter4 ao movimento nacional: estouro de boiada sem pauta específica. Primeiro, ganham as ruas, turbinados pelo aumento da tarifa, pela repressão policial imprevidente até demais da PM de Alckmin, pelo desejo de se manifestar, de não se deixar calar. Nisso, soma-se, posteriormente, a extrema direita, na mesma estratégia de promover o movimento, mesmo sem causa.

Tudo isso marca os protestos. Sem centro, como nas redes; horizontal, como os coletivos; sem pautas específicas ou até com pautas contraditórias (o motivo da ação depois da ação em si); sentimentais, como os movimentos de massa; fomentados pela mesma juventude desiludida que votou em Marina Silva.

A diversidade de pautas vai se afunilar em pautas específicas e, então, poderemos ver o verdadeiro caráter do movimento, mas isto ainda está em disputa. A direita percebeu rápido as possibilidades e tenta hegemonizar o processo desde o início. Se conseguir, as pautas em seguida serão genéricas, como o fim da corrupção, melhoria na saúde e na educação e redução de impostos. A esquerda, mais tardiamente, percebeu o jogo e se põe a jogá-lo. Tenta tirar o Anonymous, movimento de esquerda no mundo, mas de direita no Brasil, e movimentos como o Acorda, Brasil, de direita desde o princípio, do protagonismo do processo. Se conseguir, as pautas serão mais específicas, como a reforma política e os 10% do PIB para a Educação.

Porém, pautas genéricas são mais fáceis de assimilar. As pessoas lutam sem saber exatamente pelo que, guiados por líderes que, pelo contrário, sabem muito bem o que querem. Rumaremos para o golpe, neste caso. Ou então para a derrota, flagrante e violenta, da juventude instrumentalizada.

Os traços do movimento, muito diferentes da Campanha da Diretas e do Fora Collor, vão se materializando hoje na recusa antidemocrática a qualquer ator institucionalizado e vai dando uma cara autoritária ao movimento. Aqueles que estão na rua há muito mais tempo, militantes organizados em partidos ou movimentos sociais e sindicais, vão precisar arrombar a porta.

Os mais exaltados falam em revolução, como na França, que começou por causa do preço do pão. Comparação muito feliz, de fato, pois a massa convertida em turba anuncia o terror. E a restauração.

Diria que, neste momento, a bola está nos pés da extrema esquerda. Se ela reconhecer a esquerda retardatária como parceira, pode fazer avançar sua pauta. Se reconhecer a extrema direita, será engolida por ela. E a marcha poderá invocar a família, Deus e a liberdade.

A massa, bem, a massa nas ruas age, na sua maioria, honestamente, porque todos estão insatisfeitos com algo, porque a educação e a saúde pública são ruins mesmo, porque são jovens acostumados a dar opinião sobre tudo e querem falar, porque acreditam em movimentos sem segundas intenções, como este se mostra ser. A massa, ingênua ou atavicamente conservadora, não imagina as forças que disputam a sua condução.

O longo caminho de volta do diploma de jornalista

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Mendes

Gilmar Mendes, na presidência do Supremo, atribuiu a si mesmo a relatoria do processo sobre o diploma de jornalista. Foi o único que ele relatou como presidente. Click na imagem para ler um dossiê sobre este senhor.

A defesa da exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão nunca foi unanimidade entre os próprios jornalistas. Posições contrárias invocavam a democratização via comunicação popular, feita pelos próprios militantes de movimentos sociais como evidência de que o diploma não só era desnecessário, como também antidemocrático. Outras posições, de velhos militantes da imprensa, traziam a memória da forma como surgiu a regulamentação, em pleno regime militar, para ler a exigência, no presente, pela memória do passado. Alguns acusavam a baixa qualidade na formação superior, apontando interesses econômicos da “indústria do canudo” na causa. Alguns, pura e simplesmente, acreditavam na velha tese de que jornalismo é talento inato. Ou então simples demais para que se exija qualquer formação específica. Ou, até mesmo, questionavam se havia algum conhecimento específico ou alguma ética específica. Cada uma das posições expostas pode ser firmemente contraditada com argumentos muito sólidos, o que não cabe nem é necessário neste texto.

Não é necessário porque o voto de Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal mudou o rumo do debate. O ministro espinafrou a profissão e a reduziu a quase nada, copiando na íntegra quase todos os argumentos da Promotoria. Deixou claro o seu propósito e a quem beneficiava, numa ação em que a Fenaj atuava de um lado como assistente da defesa, e o Sindicato das Empresas de Radiodifusão de São Paulo atuava do outro, junto com a Promotoria. A discussão tomou outro rumo, dentro da categoria, inclusive. Quem não reviu sua posição silenciou, diante do que significava, de fato, a desregulamentação da profissão.

A redução feita por Gilmar Mendes do jornalismo, seguida depois pela grande maioria dos ministros, chegou a ponto de afirmar que não há nenhuma especificidade ética no jornalismo, nenhuma questão moral que não possa ser discernida pelo cidadão comum, sem formação alguma, assim como não havia nenhuma especificidade ética na arte de cozinhar. Fazer jornalismo e cozinhar arroz e feijão eram, do ponto de vista moral, da mesma complexidade. Por isso, não fazia sentido exigir nenhuma formação.

O Brasil tem, por hábito, regulamentar e estabelecer exigências para diversas atividades. Um exemplo: a lei 12.009/2009 regulamentou a profissão de mototaxista e motoboy e exige que o motoqueiro tenha sido “aprovado em curso especializado, nos termos da regulamentação do Contran” para exercer a atividade. E assim o é em outras profissões e cada vez mais a lei estabelece condições mínimas de formação para o exercício de diversas atividades. Até porque esta é a tendência. Concursos para gari exigem segundo grau completo. É justo e razoável.

Para ser jornalista, hoje, depois do voto de Gilmar Mendes, nenhuma formação é exigida e sequer ser alfabetizado, o que é absurdo numa profissão onde a escrita é central. O horror desta decisão foi entendido rapidamente. A contradição do voto do douto ministro não pode ter a concordância de nenhum profissional, pois é fruto do mais absurdo (e por isso inverossímil) desconhecimento do jornalismo. A tese central que derrubou o diploma era de que a exigência feria a liberdade de expressão, consagrada de forma cabal e clara na Constituição Federal. O jornalismo, para ser inconstitucional, era visto como o exercício da opinião diária nos jornais, coisa que ele não é há várias e várias décadas. Mais que isso, a exigência era tomada como um obstáculo à manifestação da opinião nos jornais, ainda que muitos sejam os colunistas sem formação em jornalismo, contra quem a profissão nunca se bateu. Pelo contrário, o contradito faz parte das obrigações profissionais de um jornalista. O espaço de opinião deve ser preferencialmente ocupado pelos cidadãos e nunca foi restrito aos jornalistas. Pouco importavam as evidências do que é a profissão hoje.

Tampouco importa que a regulamentação da profissão nunca foi relevante nos tempos em que fazer jornalismo era debater publicamente. Expor sua própria posição não exige nenhum compromisso com outro, apenas consigo mesmo. Só faz sentido regulamentar a profissão quando esta atividade se vincula fortemente ao dever de informar o público e de dar espaço ao contraditório na sociedade. Se isto não acontece de forma adequada, tal fato se deve muito menos aos profissionais, seja pela qualidade da sua formação seja pelos seus compromissos éticos, do que à atuação das empresas de comunicação, na sua grande maioria dispostas a atentar sempre que necessário contra a democracia e a sociedade, a favor dos seus interesses.

Estas mesmas empresas estavam do lado da desregulamentação para produzir, incrível!, mais democracia, pois os jornalistas e sua profissão eram obstáculos à livre manifestação do pensamento.

Tudo isso ficou muito claro no voto de Gilmar Mendes. Posições contrárias mudaram ou, simplesmente, calaram diante das evidências do ataque que a profissão estava sofrendo, sobretudo do ponto de vista ético. Ao poder escolher dentre todos os cidadãos quem seria jornalista, ao fragilizar a categoria nas redações com este instrumento, as empresas aumentavam nossa fragilidade moral, nossa capacidade, baixíssima ainda, de lutar contra estupros editoriais.

Reduzido o jornalismo às suas partes, ele se torna apenas um conjunto desconexo de habilidades. Esta visão sustenta o argumento de que basta uma formação mínima para ser jornalista. Fazer um lide conforme os manuais (das empresas) não esgotam todo conhecimento jornalístico. Os manuais são uma simplificação, para efeitos práticos, mas eles não encerram em si o que é o jornalismo. Toda profissão pode ser cindida em partes relativamente simples. Diagnosticar um resfriado não faz de ninguém médico. Escrever um lide não faz de ninguém jornalista. E nem um nem outro está isento de responsabilidades morais.

O jornalismo é um conjunto amplo de conhecimentos técnicos, de apuração e organização de informações e de linguagens, conformados por um feixe de valores éticos, coletivos, formulados historicamente. As questões éticas são específicas e quem não conhece a atividade sequer entende o que os jornalistas discutem. Identificar informações relevantes, saber apurá-las, dominar as diversas linguagens do jornalismo demanda anos de formação. E o compromisso moral do profissional não é pessoal, dele com sua consciência. É dele com sua categoria e, sobretudo, com a sociedade. Ponto.

O jornalismo é uma profissão, precária ainda em muitos aspectos. Mas é, de forma cada vez mais clara, uma profissão, cujo compromisso, em última instância, é com a liberdade de expressão e com o acesso à informação, princípios fundamentais da democracia. Como o compromisso da medicina e outras profissões da área de saúde é com a vida. Como o compromisso do direito, com todas as suas atividades distintas (advogado, juiz, promotor, defensor público, etc) é com o estado de direito.

Por tudo isso, a decisão do Supremo foi monstruosa, mas não produziu os efeitos que as empresas desejavam e que os jornalistas temiam. Os jornais, mesmo aqueles cujos proprietários tinham posição clara contra a regulamentação, não conseguiram contratar não-jornalistas, ao menos em Curitiba. As empresas tiveram que reconhecer que se forma jornalistas na faculdade de jornalismo e não nas redações. A formação no local de trabalho pode funcionar efetivamente, mas está ultrapassada. Foram os próprios empresários que inventaram espaços de formação fora das empresas e indústrias porque isto é mais barato. E profissionais, por mais básicas que sejam suas atividades, demandam formação. Está aí o Senac como prova, dentro do poderoso sistema “S”. Empresários espertos delegam a formação dos seus trabalhadores para instituições externas às suas empresas; empresários burros do setor de comunicação querem retomar a formação nas redações.

Por birra, por uma posição ideologizada ao extremo, empresas de comunicação colocaram lenha nesta causa (assim como, de forma ideologizada, apoiaram a declaração de ilegalidade de toda a lei de imprensa, para depois começar reavaliar). São crianças brincando com seu poder extremo de lançar luzes ou trevas em discussões públicas. Agora, percebem que o que fizeram remonta ao modelo pré-revolução industrial, remonta às corporações de ofício medievais. Colocar pessoas sem formação nas redações para aprender com os mestres da arte do jornalismo é antigo. E caro.

Tomar a formação em jornalismo como um empecilho, não como uma exigência mínima, que não retira das empresas o poder de contratar quem queiram, não é racional. É colocar seus preconceitos à frente dos seus interesses empresariais. Empresários modernos não se importariam em contratar pessoas formadas em áreas de conhecimento específico, administração, economia, engenharia, não tomariam os cursos superiores, por piores que fossem, como um estorvo. Fariam as críticas aos cursos para melhorá-los ou adaptá-los às suas necessidades de formação, mas não para argumentar contra a sua necessidade em si. Apenas amadores querem contratar amadores. Apenas empresários antiquados querem formar sua mão de obra integralmente no âmbito das suas empresas.

Além disso, as grandes empresas devem preservar seu padrão de qualidade e, por isso, precisam contratar pessoas com um mínimo de formação. Já empresas picaretas não têm tanto compromisso e vão tentar competir com as grandes com custos operacionais menores. Mesmo do ponto de vista empresarial, a desregulamentação é ruim para as empresas. Para a sociedade, nem se fala.

Este caminho bizarro, incentivado pelos empresários de comunicação, promovido pelo Ministério Público e endossado pelo Supremo, começa a ser desfeito com a votação em segundo turno no Senado da PEC do Diploma, por 60 votos a favor e 4 contra. Poucos argumentos contra tal exigência sobraram. No dia em que o Brasil optar por um modelo jurídico com poucas regulamentações pelo Estado e mais autorregulamentações de profissões ou do mercado, talvez aí a discussão da desregulamentação do jornalismo faça algum sentido. Desregulamentar para autorregulamentar.

É possível, em outro contexto, discutir até mesmo outras formas de acesso à profissão, como através da pós-graduação, mas não neste momento, em que a categoria está com a espada no pescoço.

Por enquanto, manter a profissão desregulamentada é colocar a cabeça no buraco feito avestruz e não ver o que se tornou o jornalismo hoje. É não ver seu compromisso e sua relevância para a democracia.

 

Mário Messagi Júnior é jornalista. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas do Paraná e atua como professor na UFPR. É doutor em Ciências da Comunicação pela Unisinos.

Esquecer Adorno

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adornoEu seria mais feliz se pudesse esquecer Theodor Adorno, o contundente crítico frankfurtiano da indústria cultural. A morte da arte, vitimada em última instância pelo desejo de lucro que paira sobre qualquer produção estética nos nossos dias, perventendo a rudeza popular ou a sofisticação da estética de elite, deveria ser, ela sim, uma afirmação morta.

Às vezes, há sinais alentadores de que é possível esquecer Adorno. A sociedade dos públicos, segmentada, parece a contraprova da sociedade de massa, da cultura de massa, da democracia de massa, horrores, no limite, do Estado que gerencia as massas, dando-lhe o conforto de acreditar que escolhe seus rumos.

A segmentação, a organização de grupos em rede, parecem colocar a indústria e o controle das massas em xeque. Parecem, é verdade, colocar o sujeito no seu papel de direito, protagonista, como Adorno nunca o conceberia. Nunca rei; sempre objeto da maquinaria.

A resistência da classe verdadeiramente artística, não daquela que se vende, daquela que vê na arte um caminho não um fim em si mesmo, seria um alento. Artistas de verdade seriam capazez de produzir novidade estética dentro da indústria, de contestar por dentro, seriam pontos de fuga, possibilidade de futuro menos perverso que este. Bob Dylan, filho da indústria, é um caso; artistas independentes, outro.

Artistas com renome, como Chico Buarque, podem exercer uma maior liberdade estética. Outros trilham o caminho do sucesso comercial para reivindicar, depois, o controle do seu próprio trabalho. Daniel parece reivindicar o papel de artista, depois de ter sido produto escrachado da indústria. Sandy tentando fazer música reflexiva parece nos dizer: “cresci, sou dona do meu nariz e da minha arte”. Outros recusam o mainstream, desde o início, como Teatro Mágico. Sinais de que a arte pode resistir ou de que a classe artística tem clareza das coerções que operam sobre ela e que tenta reagir, nem sempre com sucesso. São alentos, sem dúvida, mesmo que nada disso garanta qualidade e autonomia estética.

Além disso, a indústria cultural vocalizou vários movimentos sociais, como a juventude ascendente do pós-guerra, espelhada em produtos claramente industriais, como Elvis Presley e James Jean. Levou caldo para o movimento contestório, para a contracultura.

Mas o pessimismo de Adorno, no limite do desespero ou da desesperança, não permite sorrir otimista sem avaliar efetivamente as potencialidades da nossa sociedade. Nenhum sonho de um mundo distinto será construído sobre uma visão sonhadora das condições reais de existência. Sonhar, sem tirar os pés do chão. Manter o espírito crítico é uma das maiores lições de Frankfurt.

A segmentação em rede não prova nada, exceto que seu efeito de autonomia (falsa de qualquer forma) é eficaz. Os grandes conglomerados definem nossas formas de interação. Se atacamos o capitalismo, o fazemos com as armas que o capitalismo permite. Deixamo-nos conformar pelo aparelho, que nos limita, como ensina Flusser.

Nenhum dos instrumentos criados pela tecnologia (e portanto pela razão) aponta para qualquer perspectivas de questionamento que não esteja delimitada pela sociedade de massa. Investiram, como era de se esperar, contra a lógica de sociedade fechadas, dogmáticas, como na primavera árabe, como um elemento externo, oriundo de outro modelo de Estado. Assim, conformam o diferente do capitalismo ao capitalismo e sua forma particular de liberdade.

E os movimentos sociais construídos em rede não parecem nada além da expressão da lógica do aparelho. Manifestações organizadas pelo Facebook, flash mobs ou petições on line estão nos limites das ferramentas on line, não configuradas para a ação política em si, mas para a organização identitária de grupos. Festas, brigas de torcidas ou manifestações esvaziadas de sentido como dia sem calças mostram que a rede estimula práticas sociais de grupo de todas as naturezas. Se algumas são políticas, isto pode ser visto tanto como a vitória quanto como a submissão da política ao aparelho.

Além disso, a indústria explora mas também atira contra o processo de fragmentação em curso. A distinção cultural é, no limite, um empecilho. Seremos iguais e pacíficos, uma distopia cultural. Agredimos o que difere de nós, o que desconhecemos, atacamos o que não entendemos. Homogêneos culturalmente, em escala mundial, tal desapropriação das identidades locais traria, por consequência, a pacificação dos conflitos entre culturas e sociedade distintas. Quando, por fim, o oriente se ocidentalizar, nossas divergências e guerras serão passado. Horror cultural, promessa de paz pela indistinção. Sacrifiquemo-nos pelo bem maior. Já fazemos isso. Abrimos mão de boa parte da liberdade individual em troca do conforto que a sociedade nos oferece.

Morta a distinção cultural, útil apenas no limite da sua exploração comercial, o que a sociedade de massa potencializou foi a distinção econômica, esta sim valiosa para o sistema. Esta sim, produtora da violência interna de um país ocidental, já que as diferenças culturais estão pacificadas, controladas e exploradas economicamente pelo sistema. Meninos de periferia roubam para poder não se distinguir economicamente. A pirataria de marcas expressa o desejo de possuir o que apenas os mais abastados podem possuir.

Os artistas que lutam por autonomia, já o demonstrou Adorno, apenas dão à indústria este ar de preservação da individualidade, da autonomia, efeito tão falso quanto útil. A lógica é mercantil em qualquer esfera. Chicos e seus públicos; Janis e os comerciais de cigarro. Nada aponta outro caminho senão este. Lutamos por uma indústria menos perversa, mas não contra ela.

E a contracultura, bem… deu no yuppies; as drogas viraram uma praga não libertadora, expressão do dinheiro e da violência; a revolução sexual enfrentou a contrarrevolução ou degenerou num machismo sexista brutal; e o rock foi desalojado de qualquer perigo para embalar a geração contrarrevolucionária, frequentadora pacífica dos shoppings centers, templos de nossa era.

Tenham calma. Abram os ouvidos. Nada os estranhará na próxima onda musical. Ela virá como algo novo e fácil de compreender e consumir, algo que te faz contemporâneo em todos os sentidos, contra os caretas que resistem, modernos da velha cepa. Eles também, vítimas de um saudosismo passadista. O sertanejo-forró vai passar. Vai dar sinais de esgotamento, mas a próxima porta vai se abrir.

E Adorno, mais uma vez, fará sentido. Mais uma vez, ele baterá, sisudo, às nossas portas, lembrando que não podemos esquecê-lo, como não podemos esquecer os horrores do fascismo e do stalinismo.

Então que a indústria venha. Estaremos de pé, espírito crítico, prontos para sermos derrotados de novo.

Critérios para ampliar a diversidade

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No texto anterior (O poder corruptor da verba publicitária) defendi a adoção de mídia técnica para destinar as verbas publicitárias aos veículos de comunicação como dever moral do Estado, incluindo aí a Prefeitura de Curitiba.

Isto vale para os grandes veículos comerciais, que têm obrigação de fornecer para o Estado informações confiáveis (como o do IVC – Instituto Verificador de Circulação – ou de outros institutos de mensuração de audiência). Mas é claro que tal exigência não se aplica aos pequenos meios de comunicação, como TV e rádios comunitárias ou universitárias, jornais de bairro, sites e portais menores, jornais alternativos , rádioweb,  e mesmo pequenas rádios comerciais.

Estes veículos muitas vezes não têm sequer como comprovar suas tiragens, quantidade de acesso ou audiência. No entanto, são importantes pois promovem a diversidade de opiniões, de pontos de vista e de projetos editoriais. Devem ser apoiados para que sobrevivam e cresçam, pois a democracia é feita de diversidade.

Na impossibilidade de se adotar critérios técnicos e na inadequação de se basear exclusivamente neles para estimular a pluralidade, pequenos veículos devem receber verba publicitária não apenas para realizar a transparência das ações da Prefeitura, mas, também, para promover a democracia.

Isto pode ser feito, inicialmente, com a alocação de um valor fixo, conforme o veículo, por um período determinado, sobretudo para novos projetos. Também é possível adotar critérios que privilegiem a relevância temática, dando maior ênfase a veículos que estejam ligados, por exemplo, a movimentos de defesa de direitos do cidadão. Um site sobre juventude, por exemplo, pode começar pequena, mas seu papel no amplo espectro dos interesses da sociedade é inegável.

O Governo Federal já faz isso com rádios do interior, importantes, mas longe da magnitude dos grandes veículos. A desconcentração do aporte de recursos publicitários normalmente não agrada os grandes veículos, mas promove a democracia. Se veículos como Veja não deixaram de receber dos governos Lula e Dilma parte da verba publicitária, mesmo quando agiram de forma golpista como panfletos políticos do conservadorismo, por outro lado recebem menos hoje do que proporcionalmente nos governos do PSDB. E, claro, não gostam disso. Preferem ter relações privilegiadas e corrompidas com o governo, mesmo que isso implique perda de autonomia editorial. Ao defender seus próprios interesses contra interesses mais amplos da sociedade, atacam a democracia. Nem perseguir, nem privilegiar veículos pela sua postura editorial é dever do Estado.

Por isso, o poder público deve resistir, não ceder as pressões, deixar claro a vantagem, mesmo para os grandes veículos comerciais, de preservar sua autonomia editorial. No caso da Prefeitura, ela deve adotar políticas de estimulo à democracia e elaborar critérios de dispersão da verba publicitária, mesmo que contra os interesses antidemocráticos de veículos que posam de paladinos da sociedade.

Nosso conceito de democracia é mais amplo do quer a mera preservação das liberdades de alguns contra a liberdade de todos. Este princípio é inegociável. Defendê-lo dá trabalho, mas separa os estadistas democratas dos parasitas dos recursos públicas, sejam jornais, sejam governantes.

O poder corruptor da verba publicitária

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O poder público tem obrigação legal de divulgar seus atos. Faz parte da transparência com as ações de Estado. Por vezes, esta obrigação é formal, com a publicação de editais de licitação. Em outras, a comunicação se torna ação de Estado em campanhas de esclarecimentos público como no caso das campanhas de vacinação.

Jornais devem cobrir as ações de Estado. Faz parte do seu papel democrático: vigiar o poder. O jornalismo, ao longo do tempo, se legitimou perante a sociedade pelo seu profundo entrelaçamento com a democracia.

Este é um mundo ideal, mas não existe. Na realpolitik ninguém na Prefeitura de Curitiba nos últimos mandatos deixou de usar da verba publicitária para injetar recursos nos jornais com a perspectiva de comprar a sua postura editorial. Em outras palavras, os anúncios visam não apenas realizar uma ação de comunicação, mas também uma ação política diminuindo o ímpeto das redações para fazer denúncias, para descobrir mazelas, para vigiar o poder público. Azar da democracia; azar do cidadão.

A verba publicitária é utilizada como um poder corruptor. E é impossível identificar o ato como desvio de recursos ou como ilegal, posto que investir em compra de espaço nos jornais, em compra de mídia faz parte das atividades usuais da prefeitura. Legal, mas a-ético, imoral. O mercado nunca ofereceu critérios claros para definir quanto valem os anúncios. Por outro lado, a decisão de anunciar em um veículo e não em outro não se baseia, muitas vezes, em busca de eficácia da ação de comunicação. Ou seja, os valores são aleatórios, assim como, muitas vezes, a escolha dos veículos. A falta de critérios técnicos abre a porta para o uso ilegítimo e imoral dos recursos como instrumento para inibir a autonomia editorial dos veículos e dos jornalistas que neles trabalham. Esta estratégia  se repete, vergonhosamente, há anos.

Uma Curitiba que se queira moderna e progressista não pode incidir nestas práticas mais uma vez. O poder público tem o dever de fazer estudos técnicos e adotar critérios claros de alocação da verba publicitária nos jornais, com já acontece no Governo Federal. Ou seja, o Estado tem dever moral de usar mídia técnica para alocar recursos publicitários. E uma vez destinada a verba para um veículo, mediante contrato, o repasse não pode ser suspenso ou diminuído exceto por razões de ordem técnica, como queda acentuada nas tiragens ou audiência.

O Estado tem o dever de divulgar seus atos, mas também de realizar estudos que justifiquem os investimentos. O dinheiro é público. Seu uso justo e adequado é de interesse da população, da mesma forma que a preservação da autonomia dos veículos de comunicação e das redações dos jornais perante o poder público.

(Texto publicado originalmente no blog http://www.curitibaquer.com)

A arte de apagar o contraditório (e a democracia)

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Não há democracia plena sem meios de comunicação democráticos. A política se torna cada vez mais midiatizada, mediada por instrumentos técnicos de comunicação, sejam os tradicionais como o jornal, TV e rádio, sejam os novos, como comunidades virtuais, e-mail, blogs e podcasts. E o processo é irreversível. Por isso é necessário tomar os meios de comunicação a sério e reformá-los, para que cumpram o papel democrático que lhes cabe, cada vez mais.

No Brasil, estamos longe disso. Rádios e TV’s, com maior intensidade, mas também os grandes jornais e revistas operam para apagar a diversidade de visões de mundo, para contruir um pensamento unificado, antidemocrático. Comportam-se como entes políticos e são, quase todos, conservadores. Os veículos progressistas foram simplesmente fechados ou inviabilizados pela ditadura militar. Por isso, projetos editoriais que destoem da cantilena conservadora são recentes, com menos de 15 anos. E, ainda assim, são minoritários e com tiragens menores. Não conhecemos um ambiente mais plural, como o da França, onde há grandes jornais de esquerda e grandes jornais de direita. O Brasil é um democracia com muitos partidos e poucas visões de mundo.

Tanto o sistema político quanto o modelo, majoritariamente privado, de comunicação são entraves a uma democracia mais plena. Se os meios atuam de forma a apagar visões contraditórias com o seu ideário nas diversas esferas de ação social, a discussão sobre a reforma dos meios de comunicação é simplesmente apagada, não tem visibilidade midiática. Os empresários de comunicação não se dão, sequer, ao trabalho de expor sua visão de mundo. Simplesmente negam a existência da discussão em si. Toda legislação da área, com raras exceções, foi produzida sob forte influência do segmento empresarial ou feita em gabinete, sem nenhuma participação da sociedade. A comunicação sempre foi uma “ação entre amigos”, em benefício de interesses privados e de grupos políticos. Por mais importante que seja, pois é estruturante da democracia, nunca é discutida em espaço público.

O meios não farão diferente com a I Conferência Nacional de Comunicação. Os empresários do setor tentam esvaziar a Confecom, com ajuda do MiniCom, cujas ligações com o segmento empresarial se aprofundaram na gestão Hélio Costa.

Cabe à sociedade dar uma resposta à altura, reconhecer a importância da liberdade de expressão e buscar radicalizá-la, dando acesso à visibilidade midiática para amplos segmentos da sociedade, historicamente excluídos, através da comunicação comunitária, mas também cobrando que os meios se comportem como prestadores de serviço público, instrumentos da democracia e do contraditório. E é fundamental superar a liberdade de imprensa como valor único. Não basta poder publicar aquilo que bem se entenda, como querem os empresários da área, mas também tornar o acesso à informação um direito de todo cidadão. Logo, informar é um direito, mas, para os grandes veículos, é sobretudo um dever. E informar corretamente, manifestando as posições divergentes.

A Confecom deve afirmar a comunicação como um direito humano, tanto para fazer circular quanto para receber informação e pontos de vista. Os meios devem estar a serviço da sociedade, devem ser submetidos ao interesse público.

O pior da TV

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O pior programa da TV brasileira é o Vídeo Show. Ok… Este títluo honorífico sempre é atribuído à Gugu, João Kléber e Faustão ou a programas policiais. Mas, nestes, por piores que sejam, sobra um resto de mundo, de vida, de sociedade, de gente. Podem estar falsificados, humilhados, estereotipados, mas há algo de real neles. No programa do Ratinho, os barracos são um show na medida para a TV, mas repetem, de forma burlesca, um traço da cultura popular: sua absoluta falta de necessidade de etiqueta, de comportamentos polidos e falsos.
No Vídeo Show, não sobra nada. A TV fala de si, pergunta sobre si, promove se a si mesma. É o reino da irrealidade virtual. No Vídeo Show, o que se exige da audiência é que penetre na televisão, que seja absorvido, como num poltergeist moderno. Entre para este mundo, de atores ruins e lindos, de novelas com diálogos forçados, de culto à personalidade: é isto que o Vídeo Show estimula. O pior da TV é a própria TV. Por isso, quando ela se refere a si mesma, exclusivamente, o desastre é evidente.
O VS surgiu com a proposta de mostrar a TV por dentro, de desmistificá-la, de permitir à população dialogar com a TV. Virou seu contrário. Os fãs do VS são os piores espectadores, são os mais vidrados, os que mais vivem a realidade do vídeo. Nada é mais trágico. Viver dentro da TV é como viver num sonho constante, como viver sob o efeito de drogas, como viver alucinado. É a irrealidade cotidiana.

Adornianas: As dietas mais famosas do mundo

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Programa do Raul Gil. Anunciam, como está na moda, no meio do programa, um troço que faz exercícios abdominais com choques, sem esforço, e que tonifica a barriga. Preço módico. Brinde: um livro com a dietas mais famosas do mundo. Um sujeito abre, lê uma delas e diz: “Muito bacana”.
Que mal há, que dano pode trazer? Para o corpo, pouco. Mas para a mente, muito. Quando a régua que mede se uma dieta deve ser seguida ou não é sua fama, há algo errado. O campo da comunicação assume uma tarefa que cabe ao campo médico. Então, substitui o discurso médico por tolices. Veja bem, não se tratam das dietas mais saudáveis ou eficazes, mas das mais famosas.
Quando um leigo atesta positivamente, achando bacana uma dieta dos signos, a coisa piora. Se a comunicação invadir todos os outros campos, nossa sociedade vai virar pó. Adorno reviraria. É o império da ignorâncioa midiática.

Argumento único

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Em política, repetir o mesmo argumento sempre é muito útil. De tanto repetir algo, tal coisa parece verdade, ainda que pouca relação tenha com qualquer coisa no mundo. Além disso, o argumento único é fácil de entender.
Uma vez, em 1989, pergutaram o que Collor responderia se perguntassem sobre qualquer outro tema que não os marajás. Ele disse que argumentaria qualquer coisa e depois voltaria aos marajás. Collor foi acusado de usar um expediente nazista, mas a crítica nunca alcançou repercussão. Hitler fazia o mesmo. Pouco importa se os problemas do Brasil não se resumissem aos marajás, a eles cabia toda culpa. Pouco importa se a acusação aos judeus lhes impultasse coisas totalmente estranhas a eles, os judeus eram os culpados de tudo.
O argumento único é a morte da razão, é atribuir a um culpado, inimigo maior do Estado, a responsabilidade por todas as mazelas. Evidentemente, a realidade é mais complexa.
FHC e Alckmin, ventríloquos um do outro, repetem, como uma pregação collorida ou nazista, que o mal atávico dos petistas, a desonestidade, é responsável por todas as mazelas do Estado. Repetem que “a patota do PT” faz o Estado ser ineficiente e corrupto. Não há o que comprove tal ineficácia, exceto os problemas que o Estado brasileiro carrega há anos e que ainda precisam ser superados, como, por exemplo, as filas no INSS. A comparação, em termos de gestão, entre FHC e Lula mostra coisa muito distinta. A PF, por exemplo, fez menos de 30 operações contra a corrupção nos oito anos de governo FHC; mais de 180 nos 3,5 de governo Lula. Os exemplos se espalham por todas as áreas do governo. Os caras deixaram o país ter uma crise energética e ainda cobraram a fatura dos consumidores. Falam agora que são eficazes. Os caras fizeram o maior endividamento público do Estado, para obter dividendos eleitorais. Agora falam que são bons gestores e responsáveis.
Na falta de argumentos concretos, exploram preconceitos contra Lula, estimulam o ódio de classes, espalham desinformação e se valem de uma imprensa corrupta no mais alto grau para confundir tudo. Reduzem o Estado a uma discussão moral sobre indivíduos. A corrupção é resultado da má-índole das pessoas. Nem tocam em questões institucionais. É nítido que, ao desfocar a discussão do seu aspecto central, querem restabelecer o momento anterior, quando a corrupção não aparecia aos olhos e, quando aparecia, era resolvida apenas para efeitos de imagem e como questão individual. Prendam os corruptos e a corrupção estará resolvida, é o máximo que defendem. E nem prender eles fizeram.
Alckmin é um retrocesso em todos os aspectos. Mas, para preservar a imagem de estadista, podia ao menos se poupar de usar expedientes nazistas. Quando a campanha começou, o PT achou que ia enfrentar a direita, com cara de social-democrata. Na verdade, enfrenta a extrema-direita, com cara de direita competente. Mas não é nenhuma coisa, nem outra. Nem direita, nem competente.

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