Se o Estado brasileiro não fosse laico, ele seria, provavelmente, católico, pastor Feliciano. E como acontece em estados religiosos de hoje ou do passado, ele cometeria os arbítrios de sempre, como subordinar o poder político à igreja oficial, subordinar o direito à religião e, o pior para você pastor, tomaria as outras religiões como toleradas ou criminosas.

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Quadro de François Dubois, representando a Noite de São Bartolomeu, massacre de, no mínimo, 2 mil protestantes pelos reis católicos franceses.

Como qualquer Estado religioso, questões de fé seriam motivo para as ações do Estado, muitas vezes violentas, como aconteceu no massacre da noite de São Bartolomeu (click na imagem ao lado ler sobre), nas cruzadas ou na condenação à morte na fogueira de Giordano Bruno. A violência por razões de fé ainda acontece hoje no oriente médio, onde perduram estados religiosos.

Seriam, então, os evangélicos e suas igrejas as vítimas maiores da violência religiosa de Estado no Brasil, pois são, sem dúvida, o maior perigo para fé católica. No limite, seriam considerados criminosos, por praticarem religiões contrárias à religião do Estado. Os católicos fundamentalistas não aceitariam tal diversidade de pensamento. Deus é um só; só poderia haver uma religião e uma leitura da bíblia.

Aqueles que defendessem que a escolha da religião é uma opção individual, não uma questão de Estado, seriam atacados como libertinos religiosos e pecadores. Toda violência contra evangélicos estaria legitimada, aceita. Pregações nas praças e ruas seriam consideradas vergonhosas, ofensivas à fé cristã.

Mas a força política das novas igrejas poderia melhorar as coisas e tornar as novas interpretações do texto sagrado toleráveis. Apenas toleráveis, mas ainda não um direito garantido pelo Estado.

Curiosamente, as igrejas evangélicas estariam hoje lutando por direitos civis, pelo direito à diferença, pela mudança, sim, da lei para que o Estado fosse laico. A laicidade é a garantia de que toda religião neste país é livre, que todos podem escolher o credo que bem entenderem e que ninguém sofrerá violência por isso. Pelo contrário, se sofrerem violência por razões religiosas terão proteção do Estado. No Estado laico, as igrejas podem livremente pregar seus credos. Foi isso que permitiu o crescimento das denominações evangélicas.

Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transgêneros e transexuais não querem pregar seu credo. Querem menos liberdade que as igrejas. Não querem o direito a celebrações ruidosas, como os cultos de certas denominações. Querem ter os mesmos direitos dos heterossexuais, sem ter que defender a normalidade, a justeza ou a legalidade da sua vida. Assim como iriam querer os evangélicos se fossem acusados o tempo todo de praticar uma religião anormal, ilícita, uma interpretação equivocada da bíblia.

Não entendo porque entre os evangélicos prospera tanto preconceito, tanto ódio e tanta intolerância. Vocês não precisam justificar sua fé. A comunidade LGBTT também não quer ter que justificar sua orientação sexual. Não quer sofrer violência, nem do Estado nem sob a proteção dele. Querem o que os evangélicos já têm: proteção do Estado e direitos civis.

Evangélicos vêm me questionar por que defendo os homossexuais. Defendo o direito dos homossexuais de serem homossexuais, tanto quanto defendo o direito dos evangélicos de serem evangélicos. Entender, concordar, achar certo ou errado não vem ao caso nos dois casos.

Pastor Feliciano, você representa o século XVII. O senhor talvez não goste, mas vivemos numa república. A república garante seus direitos religiosos e não te persegue mesmo quando você abusa deles e atenta contra a laicidade do Estado.

Imagine se o senhor vence e, por fim, voltamos para antes da Revolução Francesa e a lei de uma república se subordina, mais uma vez, à religião. À sua religião, é claro. Serão os homossexuais hoje que pagarão. Depois, os católicos. Depois, as outras denominações que não compartilhem a sua interpretação da bíblia. E será o horror religioso.

Os direitos dos homossexuais não são discutíveis, mas o seu de tentar perverter a laicidade do Estado é. O Estado não pode ser católico, nem evangélico, nem budista, nem judeu, nem umbandista, nem de religião alguma. Também não pode ser heterossexual.

Quero tanto um Estado laico quanto quero um estado sem orientação sexual. Quero garantias para a diversidade religiosa e sexual. Não venha julgar, em terra, pastor, como se fosse o Deus encarnado. Pecas contra os mandamentos que dizem que não deves julgar. Deus julgará a todos no juízo final, não é? Só a ele cabe julgar, não é?

Pastor Feliciano, você não é Deus. Não usurpe os poderes divinos. Pense o que quiser e aplique à sua vida. Creia na bíblia, que é seu ofício, e espere o julgamento de Deus. Tente “salvar as almas” dos homossexuais, se você julga isso sua missão, mas saia da política. Este não é teu campo. Neste caminho, só há a barbárie e a violência sob seus passos.

De resto, conte comigo: continuarei defendendo seu direito de professar livremente sua religião. Mas nunca defenderei seu direito de lutar por um estado religioso ou qualquer coisa que lembre isso, como leis feitas sob a sua interpretação da bíblia. Aliás, sob nenhuma interpretação da bíblia.

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