Um sopro leve me gela o ombro. As asas do anjo, imensas, o entregam. Ele se esgueira na escuridão, poderoso, imenso, mas silencioso, quieto, calmo, quase imóvel mesmo diante das minhas cenas de desespero, que ele nutre, por vaidade.

Uma leve chama bruxuleia. Quase imperceptível, mas eu a sinto. Quando me viro, o movimento já parou. Pela minha coluna, passa sua energia, que me arrepia, ou o vazio de tudo que drena minhas forças.

O anjo só se deixa ver quando está perto, quando suas asas já nos adornam, quando sua túnica já nos berça, tão escura quando a noite, que parece nem existir. Não vejo sua face escura. É uma imagem de foto em contraluz. Eu sei que ele esta ali, vejo seu vulto, mas não distingo os traços do seu rosto.

Se sua presença é inconfundível para mim é porque ele frequenta meu quarto e minha alma há algum tempo e aprendi identificar seus sinais e me preparar para a sua chegada. Não que isso diminua a dor, mas aprendi a conviver com ela e estar lívido, adormecido o máximo que eu puder, mantendo sob controle meus atos extremos.

Ele veio; ele virá de novo. E sempre e sempre enquanto as portas estiveram abertas. Minha vida é uma casa sem trancas. Sempre será.  Não consigo evitar seus passos no escuro, ser noturno que nunca quer ser visto. Já admiro a beleza da sua forma, a calma que antecede as chuvas torrenciais. Ele é belo, imóvel, acho que ri quando choro. Ele deve estar feliz agora.

Eu vejo seus sinais como a fumaça que denuncia o fogo extinto recentemente. Primeiro, a melancolia, o desprazer em tudo, uma sensação de permanente tristeza contra furtivos intervalos de alegria. Depois a sensação de nada que invade o quarto, a sala, a cozinha, o banheiro, debaixo do meu cobertor e por dentro da minha carne. Por fim, o tempo que se dilata, vazio de todas as coisas, e as energias que se dissipam. E eu espero, vendo as horas me corroerem, sem nenhuma reação.

Datas, prazos, projetos, tudo se acumula no futuro assustador quando terei que enfrentar as consequências dos meus atos, quando o amor que sinto por ele não servir mais de justificativa. Sentirei de novo o desejo de isolamento e de fuga, mesmo sem saber do que ou para onde.

E vou desejar, rezar, orar, tomar drogas, falar, pedir ajuda espiritual, qualquer coisa para conjurar sua presença. Pois me vejo muito nu quando ele está aqui, vejo minha própria face sombria e não gosto.

Mas tu, anjo, não vais embora. E escrevo textos para ti, como um gesto de amor e de ódio, para que partas ou para que fiques. Mas respeite meu silêncio, meu jeito de sofrer por dentro, minha angústia sem mover nenhum músculo do rosto.

Apenas calma e tristeza, pois és tão presente em meus dias que talvez eu já não consiga me imaginar sem você, meu anjo obscuro. Me proteja, então, da vida.

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