A casa se enfeitou. Velha e rústica, carregava passado demais, mas parecia jovem. Os perfumes vinham da rua e da cozinha, do quintal, florido de primavera, e do prato favorito do meu vô: um cozido de carnes, com legumes, preparado abundantemente. Ele enchia o prato uma única vez e comia tudo.

Aquele dia misturava os aromas da cozinha com o ar fresco da manhã entrando pela janela, aquela primeira lufada de vento que invade a casa logo ao acordar. Minha mãe arrumara tudo, como lhe cabia. Primeira filha mulher, a ela restara cuidar-lhe. E foi só por isso, pelo imenso amor de filha e por saudades que ela venceu a tristeza daquele dia e acordou cedo, chacoalhou os meninos, filhos e sobrinhos, arrumou as roupas de cada um, os fez tomar banho, os vestiu e alinhou cada roupinha. Esbravejou com os mais velhos, preguiçosos, para que levantassem da cama. Então, arrumou cada lençol, um a um, abriu as janelas, desfez a desordem da manhã depois da noite em família.

Meu vô já estava acordado, como sempre, como todas as manhãs, como homem trabalhador que era, mesmo com músculos envelhecidos e cansados, com poucas das forças de homem rural, como gostava de ser tratado. Meu vô levantou e foi andar pelo quintal, alimentando as galinhas e os porcos. Olhava, com o olhar de nunca mais, um a um dos descendentes da sua prole, vasta prole, de imigrante, como gostava de ser tratado.

Homem de poucas palavras, meu vô era adepto do silêncio. Não falava muito, nem sofria abertamente. Era imigrante rural, dado a rudezas. A casa era simples, de madeira e alvenaria. Tudo feito com muito custo. Quase tudo pelas suas mãos laboriosas, que trabalharam dia a dia, sem reclamar, sem murmúrio, sem incertezas, uma vida inteira.

Aquela casa imensa e rústica só tinha um uso: ser grande suficiente, para comportar sua maior obra. A família chegava. Cada um, conforme as oportunidades da vida, tinha feito outro lar, criado filhos e até netos, como eu. Cada um, conforme as oportunidades e os parcos recursos permitiram, tinha galgado alguma posição social. Meu tio virou caminhoneiro. Muitos primos eram pequenos burocratas, em bancos ou escritórios. Quase metade dos netos fez curso superior. Meu vô se orgulhava de tudo isso. A casa grande era o símbolo da família. Com as partidas, tinha ficado grande demais e vazia. Mas não naquele dia.

Minha mãe saiu rápida:

– Pai…

Meu vô escuta pouco.

– PAI…

Ele virou, lento, com o olhar miúdo e vago que lhe acometeu desde a morte da segunda esposa.

– Pai, vem para dentro. O Júnior está chegando.

Meu vô não disse nada. Caminhou até a varanda e, sem pressa, cumprimentou o filho mais jovem, abraçou, rindo largo, os netos e a nora. Então sentou numa velha cadeira de recosto longo e, mais uma vez silencioso, se pôs a olhar feliz o vago horizonte.

Assim foram chegando os demais, os que não tinham dormido na casa. Barulhentos, netos e bisnetos em grupos faziam fila para beijar o vô. Depois corriam para dentro, para o barulho da família grande e dos primos. Seis filhos, treze netos, noras e genros e a pequena bisnetinha. Os olhos do meu vô sorriam, marejados de lágrimas de alegria de vê-los todos ali. Era a despedida que queria e, mesmo ausente, ele estava feliz.

Diferente dos anos em que a família vestiu luto com a morte lenta e inexorável da minha vó. Naqueles dias, meu vô, como sempre, falava pouco e chorava menos ainda, escondendo a dor dentro de si. Depois, passou a chorar lágrimas solitárias, brevemente, todos os dias, como se tivesse se habituado à dor crônica do câncer. Por isso, tinha um brilho diferente nos olhos. Era um brilho escuro. A morte veio tão lenta que quando chegou, apenas perguntei:

– Por que demorastes?

Minha vó partira depois de longo definhar perante o câncer. Achava que os velhos sorriam, fechavam os olhos e morriam. Não entendia aquela dor toda da minha vó. Nem meu vó.

A morte da tia Ana foi diferente. Ela partiu jovem, sem que pudéssemos dizer adeus. O acidente, trágico, deixou três mortes. Ela desfigurada no caixão, e eu só pensava se ela podia me ouvir, se sussurros chegariam ao céu, dizendo:

– Eu te amo.

Ela foi sem saber o tanto de amor que carregava no coração por ela. Eu me penitenciei por anos, por ser um falso, um mentiroso incapaz de confessar o amor que sentia por alguém, mesmo amor fraterno, amor de família, amor e admiração pela tia mais jovem. O vô se desesperou. Foi a única vez que o vi chorar, copiosamente.

O Guiga, porém, foi de todas as partidas a mais revoltante, esfaqueado em casa, por um estranho que nunca soubemos quem foi. Meu vô retorceu os músculos do rosto com a máscara da revolta. Não derramou lágrima, mas se envenenou com ódio. A sensação de injustiça e de impotência pairou na família por sombrios dias e dias e dias. Infindáveis dias, meses e anos.

Todos sentíamos estas ausências, exceto os mais jovens que não viram os que se perderam de nós. Porém, o dia era de festa, mesmo que tivesse o gosto estranho da despedida. Meu vô andava ausente, pensando no outro mundo. Sofremos, ele sobretudo, cada partida de modos diferentes. De forma letárgica, constante, lenta, na morte da minha vô, definhando dia a dia. Pelo trauma de uma morte inesperada e violenta, cuja culpada era a tia que eu amava. Pelo inconformismo com a morte do meu primo, cujas razões nunca soubemos. Ele carregou seus segredos, pronunciáveis e impronunciáveis, com ele. Os três partiram no intervalo trágico de dois anos.

A quarta ausência era a do meu vô. Era ausência diferente. Ele estava ali, mas todos já o sentiam como não. E, elo familiar, depois da morte dele, sabíamos que nunca mais a família se reuniria, exceto nos funerais, sem prazer, sem gosto, por obrigação, os jovens; por tristeza, os mais velhos.

Assim, era triste dizer adeus para ele. O vô nos olhava como se não tivesse certeza de que voltaria a nos ver. Via seus olhinhos marejados, iguais apenas à tristeza crônica da morte da minha vó. Cada despedida soava definitiva. A surdez piorava nossos abraços partidos:

  • Tchau, vô. Já tô indo.

E brilhavam os olhos míopes de quase 90 anos, marejados de lágrimas. Eram como pérolas reluzentes quando ele se despedia dos netos, entre eles eu. Como ele ouvia pouco, nas despedidas, isso doía. Doía porque a gente queria falar baixinho nestas horas tristes e não gritar a tristeza. Queria dizer baixinho, vô, no seu ouvido: “tchau”, para que nem eu ouvisse. Não gritar para que o senhor ouvisse e tivesse certeza que não fomos sem dizer adues, o que seria imperdoável.

Tudo naquele dia está claro na minha memória. Ele quis cumprimetar a todos, último beijo em cada um dos seus. Ele sabia. Nós também. Ninguém confessaria, mas a família grande tornava aquela despedida crônica, longa, sem fim e sem cura. Para ele, foi leveza. Tendo deixado claro, sem palavras, como era do seu feitio, o quanto ele amava cada um, o quanto se importava, meu vô morreu dois meses depois, no leito de um hospital. Morreu de cansaço, mas tinha o semblante lívido dos que fizeram seu papel, cumpriram sua missão no mundo.

Minha mãe viveu conosco mais dez anos. Sou grato por isso. Ela herdou a força do pai. Eu herdei do vô a imensa incapacidade de mostrar meus sentimentos, mas desde de a morte da Ana tenho tentado melhorar. Mas hoje não dá. Hoje, o que sinto se vestiria de desespero, de perda de tudo ao mesmo tempo. E eu só sei perder um pouco de cada vez. Não consigo estar feliz como o vêo esteve naquele dia, de sentimentos ambíguos. Para mim, só há tristeza, pontilhada com a doçura breve dos beijos dos que amo. Não estou preparado para a morte.

O almoço de despedida do meu vô aconteceu há 30 anos. Hoje, a família se reúne para comemorar meus 67 anos. Poucos lembram do vô. São menos numerosos. Tive apenas dois filhos. Cabemos todos numa mesa grande, de uma casa pequena. Nisto, invejo o nono. Meus descendentes não convivem com nenhuma ausência, exceto a minha. Então, não sabem o que é isso. Os pequenos não entendem sequer isso de hereditariedade, nem sabem que carrego o mesmo câncer que a minha vó.

Para mim, a casa está cheia de lugares vazios. Para mim, além dos poucos descendentes, há muitos outros ausentes. Na minha memória, refaço a despedida do vó e vou marcando mentalmente, um a um, os ausentes. Eu sinto a presença deles, uma presença vazia, mas constante. Não consigo alongar a despedida como o meu avô. Vejo tanto nesta sala, tantos que viveram comigo, que amei, toda uma grande família que passou ou que passará. Não consigo me despedir de todos porque me dilacera saber que quando eu me for mesmo a ausência deles se dissipará de mim. É o dia mais triste da minha vida. Porém, é o dia mais feliz da minha morte, porque todos vieram.

Todos estão aqui. O único ausente sou eu.

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