Ninguém, absolutamente ninguém com um mínimo de sensibilidade, é a favor do aborto. A jovem pobre, de 15 anos, que engravida sem querer, por inexperiência e falta de informação e aborta em alguma clínica clandestina ou por conta própria é contra o aborto. Ela se martiriza moralmente, se condena e é condenada pelos seus pares, no mínimo pela sua família. O aborto, retirar um feto do ventre, em qualquer estágio, é algo terrível.

Mas a questão não é essa. A questão é se a jovem que praticou o delito deve ser encarcerada por isso, como criminosa comum. Ou se deve, pelo contrário, receber cuidados do Estado, para que sua saúde como mulher não deteriore, levando-a a morte. O SUS faz 200 mil curetagens por ano (dados do Ministério da Saúde, referentes a 2009). Deveria o Estado levar estas 200 mil mulheres aos tribunais.

O cristianismo jamais concordaria com isso. Jesus estendeu as mãos a uma prostituta, mostrando que o perdão é o caminho da reconciliação dos excluídos, dos delituosos, dos pecadores com a sociedade e com Deus. Jesus pregou o amor e o perdão. Este princípio se reflete nas ações das igrejas cristãs das diversas denominações na área de dependência de drogas. Muitas comunidades terapêuticas partem do perdão para atender os viciados que procuram saída. Igrejas em regiões de alta criminalidade atuam da mesma forma, atraindo e incorporando à comunidade marginais e assassinos, crentes na capacidade humana de se recuperar.

Por que deveria ser diferente com a jovem ou adulta que pratica aborto, condenada ao pior dos delitos, maior que daqueles que roubam, traficam e matam e que são perdoados e acolhidos pelas Igrejas? É esta a concepção? Todos merecem perdão, menos as mulheres? Quem defende isso insiste na tese, medieval, de que as mulheres são menores na sociedade, reafirma o preconceito de gênero, que motivou, sob a alegação de bruxaria, que mulheres fossem queimadas na idade média.

As posturas defendidas pelos segmentos progressitas, imbuídos de boa dose de sentimento cristão, refletem este zelo com as mulheres, buscam tomá-las como tão dignas do perdão quanto qualquer um. Iguais em tudo na vida. O aborto passa ser um problema de saúde pública, orientado pelo amor, não pelo ódio vingativo. Somos uma sociedade cristã, guiados pelo amor ao próximo. Perdoar, acolher e recuperar é a nossa prática.

A lei já especifica em que condições o aborto não pode ser considerado crime: em caso de gravidez não desejada resultado de estupro, em caso de risco à vida da mulher e em caso de ausência de cérebro (fetos anencéfalos). Mesmo nestes casos, somos contra o aborto, mas cabe à mulher grávida decidir, sem ter que responder perante a lei por isso. A decisão não é fácil, mas, nestes casos, não cabe ao Estado decidir por elas. Podemos defender uma ou outra posição nestes casos, mas não podemos julgá-las por qualquer decisão que tomem. Não julgais, no caso, é o princípio norteador.

Ao Estado cabe sim um papel fundamental na questão: dar assistência para a futura mãe, em todos os exames e procedimentos necessários para garantir a saúde do bebê, como o acompanhamento pré-natal, combater as doenças sexualmente transmissíveis e implantar políticas contra a gravidez indesejada. Ensinar às mulheres como fazer planejamento familiar, como definir quantos filhos podem e querem ter, de tal forma a prover-lhes condições necessárias para que se desenvolvam fisicamente e intelectualmente é o mais importante. Toda mulher sabe disso, sabe da necessidade de cuidar da sua prole, sem aumentar a pobreza e a miséria. Ninguém quer colocar descendentes miseráveis no mundo. Todas as mães querem ver seus filhos saudáveis e com boas condições de vida, empregados, podendo sonhar, sem que o presente lhes castre o futuro.

Isto é fundamental. Quanto mais o Brasil conseguir implementar esta política, menos terá que conviver com a prática terrível do aborto.

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