Sabujo, matreiro, vadio o cão e os olhos do cão, cheios de pecados. Os olhos com que ele olhou para ela reprisavam o Cristo sofrido na cruz, resignado. Olhos de cão encurralado, ladrão, sobrevivente pela mentira, pelo engano, e ele nem grunhiu. Queria pena e plantou flores para seduzi-la, induzi-la a erro. Eram lindas, sim, as flores. E mentiam, com a mesma beleza.

Ela perdoou. Viu vazio naqueles olhos. Acreditou, porque precisava acreditar. Via nos cães pureza, desde a infância, seres mágicos, como cavalgadas de amor principesco. Ela aceitou as desculpas e amou o cão.

Ele desconfiou. Ela perdoou rápido demais. Mas, por fim, desfez o medo e lançou sobre ela seus olhos, vitoriosos, senhor de si, de todo território, feliz por não perdê-la. Depois de ter escapado, cão sabujo, certo de seus pecado, nada o tornaria mais seguro que o perdão improvável. Era senhor da casa e latia afugentando todos os que quissessem se aproximar dela. Botava medo com seu dentes ameaçadores e seus débeis olhos de cão.

Ela deixou que ele latisse, que se apoderasse da vida dela, que a cercasse e a protegesse. Então, ele, cão vadio, voltou a vadiar. Atravessava a cerca, fornicava na rua, era visto em cenas impróprias e indignas, mas voltava ronronando, como um gatinho, a tempo. Ela esperava seu cão, laborioso cão.

Então, um dia, ele viu nela menos que na rua. Cansou de protegê-la. Ela não valia isso. Então, atacou as flores do jardim e partiu, olhando para trás, sem dó nem arrependimento, com seu olhos de cão.

É da natureza dos cães.

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