Eu era feliz. Pés de manga, à vontade; rios de meio até um metro de profundidade; roubar jabuticaba e jaca; jogar bola no areião vermelho; andar de bicicleta a tarde toda; fazer represas no quintal; construir casas nas árvores.

Cresci numa cidade de 5 mil habitantes. Era um mundo imenso a explorar. Nunca senti tédio lá. Cada quintal tinha suas árvores e seus sabores. Cada pequena coisa carregava o universo. Deus sabe como amei aquele lugar.

Depois, jurando voltar, fui embora e amei São Paulo, onde fui um pequeno adolescente andando pelos corredores miúdos dos shopping centers. Jurei nunca abandonar, pela segunda vez. Pela segunda vez, menti.

Outro dia, passei pelos dois mundos extremos em que vivi. Esperava diversão de São Paulo, mas só me diverti quando fiquei em casa. A imensidão da cidade quase me matou de privação. Tudo longe, meu espaço era estreito.

Da minha pequena cidade natal esperava morte de tédio. Foram os dias mais felizes do meu ano. Não quis partir. Tudo era livre; o espaço, largo; os amigos, próximos e ternos. A criança que fui estava certa; o adolescente, errado.

Quero voltar. Há muitas aventuras a viver, muitos mundos para explorar.

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