Ele vai assinar o papel e, pela lei, vai estar livre de novo. Vai assinar com o peso de 7 anos de casamento, com a mão tremendo. Não é o que ele quer. Mas pensar em si, querê-la a qualquer custo é dar provas de que ela tinha razão. Ele seria egoísta. Ela quer se separar. Ele vai aceitar.

E a dor afetiva vai somatizar e doer, como se fosse física, o tipo de dilaceramento interno que sentem “os que têm fome, os que morrem de vontade, os que secam de desejo, os que ardem”. Os dias seguintes serão terríveis, um sentimento parecido com abismar-se, perder se de si, lançar-se no vazio, como fazemos na paixão, lançados que estamos no abismo que é o outro. E sentimos medo e alegria. Este abismo, no entanto, estará vazio e só trará medo, pânico, desolação e inexorável solidão. Solidão de tudo: mundo, afetos, cheiros e até do vento que se sente na pele.

Tudo isso, como um condenado, ele sentirá por ela. Porque deixá-la partir é respeitar o que ela quer, é pensar nela, e deixá-la, é amá-la no extremo de si, no despojamento extremo de si. É se lançar na solidão por outro. É condenar o próprio ego ao desterro, por amor.

Mas ele quer voltar ao seu próprio país, redimido, perdoado, marido independente de qualquer papel. E ele cometeria o ridículo de assinar de novo a mesma certidão, se casaria com a mesma mulher pela segunda vez. No futuro, na sua própria pátria, ele deseja contar esta história e rir. Nos sonhos dele, ela vê nisto exatamente o que é: amor por ela.

Por que apenas precisar dela é amor por si mesmo. Ele já transcendeu isso.

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