Jazz. E toca tão profundamente como nunca antes tocou. Ressoa lentamente por dentro, como se eu fosse oco. Não sou. Mas algo foi subtraído de mim e restou um grande vazio. E este espaço… E ninguém vem preenchê-lo. Deus, o que será de mim quando o milênio acabar? Será que esta frouxa existência vai resistir?

Resisto. Resisto como galho de árvore seca, sempre disposto a seguir com o vento em queda, mas não caio. Resisto. Sinto pavor das estradas e fico parado.

Curto é o tempo de imobilismo. Caminharei de novo, eu sei. Sempre sentindo o desejo lento de deitar e dormir na primeira curva, mesmo que seja meio-dia. Não deito. Sigo. Vejo um rio estreito, um pé de manga, gado, animais selvagens, quatis, veados, capivaras, andorinhas. Rio largo, um pé de jaca, cabras, animais selvagens: jaguatirica, tatu, onça, passo-preto. A estrada é sempre diferente, mas sempre deixa a impressão de que está se repetindo de alguma forma. No fim, sempre carniça.

Não se pode chegar. Eu quero. Não se pode vencer. Eu creio. Um grande muro. Eu não posso pular, mas tento. Até a exaustão. Até sangrar de tantos tombos e arranhões. É hora de sarar. Não saro. Deixo sempre para amanhã. E amanhã vou viajar.

(Texto escrito quando eu tinha 20 anos)

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