Vou a ti, vestido de branco. Pureza é o que posso te levar. Meu coração sofre, puro, a mais sincera saudade de ti.
Vou a ti, lembrando das tuas mãos fortes, da cabeça sem fios, do sorriso raro, que ocupam toda a minha memória.
Vou a ti, ver-te pela última vez, depois de ter acreditado que teria tempo, de ter desistido de me preparar para tua morte.
Vou a ti, retrato de mim mesmo, agora que sou a segunda geração, pois tua partida lembra a minha, pois morro um pouco contigo.
Minha alma carrega as marcas dos teus dedos fortes, das tuas mãos gigantes, do teu coração amável. Tua história nunca me abandorá, nunca deixarei de esquecer que sou parte de ti, que sou a história que escrevestes, que sou seu filho em dobro, seu primeiro neto.
Vou a ti, como quem procura um anjo, um norte, um sentido para existir. Tu estás lá, exemplo de vida. Aceito, mas nego tua morte, pois vives comigo, em mim, no que sou. Sou eterno perante ti; em mim, tu se eterniza também.

Ele morreu perante mim, mas eu nunca vou morrer perante ele. Eu sou eterno para meu vô, cujas marcas em minha personalidade são indeléveis como as ranhuras das mãos do artesão no barro que ele transforma em arte. Assim, ele vence a morte de dois jeitos em mim: pelo que carrego dele eternamente e porque ele nunca terá que ver minha morte. Assim, eu o prolongo, eu o eternizo.

PS.: Meu vô morreu em 17 de abril de 2009, menos de uma semana depois da última vez que eu o vi vivo. Ele melhorou na quarta e pediu a camisa que dei para ele, para sair do hospital. Reclamou que tinha uma boa camisa, mas não um bom sapato. Disse que eu dei um “presentão” para ele (a camisa e o pijama). Nunca usou nenhum. Na quinta ele piorou. Sexta viu o único filho de quem não tinha se despedido. Menos de uma hora depois, morreu.

Anúncios