Por que vi nela uma musa? Não sei. Não compreendo as regras da atração. Um dia, alguém vai escrever um livro de auto-ajuda sobre elas. Mentirá. Ninguém compreende o que faz um corpo tremer diante de outro.
Há indícios. Beleza, simpatia, charme, inteligência, posição social, cobiça coletiva, sensualidade, dinheiro, poder. Mas tudo isso não explica porque duas mulheres igualmente belas, igualmente inteligentes, iguais em tudo, ou quase, me atraem de formas tão diferentes. Por uma, meu corpo suplica. A outra é apenas um troféu. Não o quero. Uma me olha e me leva ao paraíso, satisfeito por pagar no inferno por meus pensamentos. Da outra, nem vejo o olhar.
Não entendo as leis da atração, apenas as respeito, ainda que limitem minhas escolhas e as tornem, por vezes, incompreensíveis. O desejo é rei, caprichoso, cheio de decisões estranhas. Não vasculho seus pensamentos insondáveis. Apenas me curvo à sua força, à sua sedução. Posso até me negar a seguir seus caminhos, mas não posso seguir os caminhos que ele nunca me indicou. Este rei oblitera meus passos. E, sem ver, tento me guiar segundo minha própria consciência. Tateio a razão; tu ofereces cheiros, sensações, sons e imagens. Sou um pobre cego, meu senhor!
Não rezo sem ti, mas temo-te e, por isso, por vezes não digo amém. Provei seu paraíso, mesmo sem entender suas leis. Mas, mesmo fiel a ti, temo me curvar a todos os seus caprichos. Pois que és irmão do desespero, como sempre soube, até quando não pude evitar. A cor da vida brilha nos teus olhos, mas acautelo-me. Nunca sei, de fato, quando vais me entregar a teu fratelo.

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