Viver e morrer por escrito será possível? Senti o cheiro da tinta cedo, menino sem ter o que fazer, me apeguei a ler livros, histórias fantasiosas, como Xisto ou contos de Edgar Alan Poe. Nunca li Edmond Rostand, mas banquei a Roxane e me apaixonei por Cyrano, o narigudo, sem conhecê-lo muito bem.
Desde então, desde muito cedo, me perguntei se era possível conquistar alguém por cartas, por palavras, por belezas que se dizem e se sentem. Me perguntei se era possível viver por escrito. E então me quis fazer de Cyrano, tal era minha paixão, que nele me anulei.
Para que servem cartas afinal, se toda dor de poeta é fingimento, seja dor ou não? Para que servem tantas letras, se escondo meu nariz e minhas feiúras na beleza das palavras? Se confesso meu crime apenas para realizá-lo novamente?
Vivi por escrito, sedutor de papel, de amores literários, mulheres que inventei, apaixonado, a partir de mulheres que existiam fora do meu mundo de papel. Foram minhas correspondentes. Invariavelmente, elas corresponderam pela metade. Se eu tivesse me entregado menos e não acreditado nas minhas mentiras, como elas acreditaram, teria dado certo, talvez. Mas caí em auto-engano.
Por fim, então, conheci Goethe, outro ser de papel, um sedutor profissional, sem necessidade de CEPs ou endereços. E Werther foi meu mestre. Eu, seu inepto aprendiz.
Escrevo epístolas. Todo amor que vivi foi de papel, toda sedução foi ensaio, até que, no mundo real, parei de escrever cartas de lascivo sentimento. Parei de profanar juras de amor e promessas de vingança.
Este é o último refúgio de sedução que ainda alimento, até que esgote o que fui, até que todas as cartas que não mereçam ser queimadas conheçam meu novo universo. Este, onde elas, alienígenas, existam sem papel, retratos do ocaso de um sedutor.

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