Perdoar não é esquecer. Perdoar, ao contrário do que dizem, não é um benefício para si mesmo, para não carregar mágoas, como se fosse necessário perdoar para não odiar. Perdoar é um ato moral, é o resultado de um julgamento. Por isso, perdoamos atos que nunca vamos esquecer e nunca vão deixar de nos magoar. Perdoamos quem se arrepende, quem mostra que não repetirá o erro, quem julgamos merecer nosso perdão. Esquecer e não sofrer mais é outra coisa.
Perdoar é um passo para esquecer; e esquecer é um passo para perdoar, mas não são a mesma coisa. Muitas vezes, pelo contrário, o ser que não se arrepende se mostra pequeno e digno de nosso esquecimento. Estão, esquecemos. E seguimos leves, sem perdoar.
Aconteceu comigo, sim, de carregar uma mágoa que perdoei, mas nunca esqueci. Ela tinha se arrependido e parecia que nunca mais faria a mesma coisa. Perdão dado, nunca mais toquei no assunto nem o comentei com ninguém, mas o fantasma sempre esteve lá. Quando voltou, me feriu na mesma ferida. Ela não se arrependeu mais. Não tem importância agora. Ela merece meu desprezo, ainda que seja difícil esquecer a mágoa. E preciso muito esquecer.
Mas perdoar não preciso. Nem quero.

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