Por favor, Sr. Tempo, me esqueça. Tem dias que não merecem suas leis, que deveriam alongar-se, infindos. Dias em que a pele sente a temperatura do ar, queimada pelo sol ou fria como a chuva. Dias em que te esqueço, ainda que sempre lembres de mim.
O sorriso das crianças que amo nunca deveria cessar. O abraço da minha mãe não se esgotaria se não fosse tu. As noites respeitam seus números, mas algumas, febris, deveriam resistir, se rebelar. A felicidade tem duração. De onde tirastes esta idéia ridícula?
A vida pulsa. Porém, tu segues, inexorável. Não pensas que nem todo instante é igual, que há horas que nem mereciam existir; outras não deveriam acabar.
Todo tempo é pouco para conhecer o mundo e todos os seus habitantes. Todos os minutos não bastam para correr todas as estradas. Então pare, Sr. Tempo, e me deixe viajar. Não me cobre pressa quando estiver com os meus amigos, não acelere só porque o vinho já me deixou leve, não me force a parar de dançar porque o baile acabou. Não pareça acelerar bem quando quero que esperes.
Sr. Tempo, tome um sorvete num dia de sol. Sem pressa, deixe que o frio derreta. Então responda: tu mesmo não mereces um descanso?
Deixe a água jorrar na sua cabeça, massagear seu ombro, carinhar seus pés. A água corre. Não basta?
Deixe o vento arrastar-te por estradas, pare por acaso num lugar que você nunca havia visto e nem tinha planejado parar e sinta o cheiro da vida que ali habita. Saberias tu viver sem planos de vez em quando?
Tu és perpétuo. Então pare os relógios, porque tu, como ninguém, tem motivos de sobra para não se importar com o tempo. Te temo, mas discordo das tuas leis, carrasco de ti mesmo que és. Ser egoísta, tu sabes o que é a eternidade, mas não daria um único fragmento a ninguém, ainda que não faça nada com ela.
Eu sou finito, mas sinto, como nunca saberás, que a vida é cheia de visão, som e fúria. Viver é bom para quem tenta te esquecer, ainda que tu nunca nos esqueça.

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