O amor, se fosse, seria um jogo estranho em que todos os jogadores perdem se jogam. Por que a conquista, o jogo de sedução, a invasão de um reino desconhecido, o desejo que se desperta no outro a fim de fazê-lo vir até nós, os óleos da cobiça e as fumaças da volúpia, nada disso é ainda amor. A paixão, vontade que se sente por uma projeção, é egoísta demais para ser chamada de amor.
A paixão é o esteio afetivo dos adolescentes, seres só menos egoístas que as crianças, mas já sem a mesma pureza. A febre dos 15 anos parece a erupção mais voraz do amor. Não é. É só a expressão primeira de um sentimento novo e intenso. Intensidade não é necessariamente amor. Intensidade é só um vetorial. Qualquer sentimento, até o nojo, pode ser intenso.
Amor pode ser intenso, mas vive do dia a dia, não das noites de verão, pois sua marca é a constância. Amor enreda planos, constrói respeito mútuo, admiração e desejo. Quando, por acasos ou descuidos, termina, ninguém vence. Todos perdem. Se no jogo da sedução, acabar um relacionamento é vitória, no amor é responsabilidade. A derrota menor acaba sendo de quem não teve que decidir, quem tentou evitar, pois parte sem culpa.
Assim seguem os amantes separados: ambos perdem, como no frescobol. É possível acelerar, aumentar a intensidade, colaborar ou ficar no limite, mas não faz sentido tentar forçar o erro do parceiro.
No amor, ninguém vence ao final do jogo. Vencer é continuar. Desejar, intensamente, as roupas de cama brancas sempre lisas, dia a dia, rotina previsível e indispensável. Apostar uma vida inteira e nunca jogar, nem mentir, nem enganar, nem dissuadir.Pois o amor só é um jogo na cabeça de quem não sabe amar, exceto a si mesmo.

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