Minha sobrinha não fala; meu avô não ouve. Mas assim, sem palavras, eles se amam. Ela é vivaz, alegre, tem o sorriso mais lindo que já vi em uma criança. Os cabelos dela são como os meus e o do meu irmão: lisos, escorridos, correndo para o chão. Rindo, ela abre o danoninho, pega uma colher e os leva para o bisavô. Dar o que mais se ama é o supremo gesto de carinho. É o que ela faz.

Ele ri, em frente à TV, num volume ensurdecedor. Vê Maria Fernanda Cândido e telecultos. Nos dias de semana, procura o que fazer. Meu avô parece ter tempo demais e arruma afazeres diários. Carpinteiro, construiu uma família, sem reclamar, de sol a sol, homem de poucos sorrisos, que hoje, décadas depois, beija seus netos no rosto, como nunca fez antes. O tempo amolece as rudezas.

Ouço a serra zunindo no quintal. Meu avô cria coisas e pensa no futuro. Minha sobrinha vive o presente. Feliz, olha o bisavô maravilhada.

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