Em política, repetir o mesmo argumento sempre é muito útil. De tanto repetir algo, tal coisa parece verdade, ainda que pouca relação tenha com qualquer coisa no mundo. Além disso, o argumento único é fácil de entender.
Uma vez, em 1989, pergutaram o que Collor responderia se perguntassem sobre qualquer outro tema que não os marajás. Ele disse que argumentaria qualquer coisa e depois voltaria aos marajás. Collor foi acusado de usar um expediente nazista, mas a crítica nunca alcançou repercussão. Hitler fazia o mesmo. Pouco importa se os problemas do Brasil não se resumissem aos marajás, a eles cabia toda culpa. Pouco importa se a acusação aos judeus lhes impultasse coisas totalmente estranhas a eles, os judeus eram os culpados de tudo.
O argumento único é a morte da razão, é atribuir a um culpado, inimigo maior do Estado, a responsabilidade por todas as mazelas. Evidentemente, a realidade é mais complexa.
FHC e Alckmin, ventríloquos um do outro, repetem, como uma pregação collorida ou nazista, que o mal atávico dos petistas, a desonestidade, é responsável por todas as mazelas do Estado. Repetem que “a patota do PT” faz o Estado ser ineficiente e corrupto. Não há o que comprove tal ineficácia, exceto os problemas que o Estado brasileiro carrega há anos e que ainda precisam ser superados, como, por exemplo, as filas no INSS. A comparação, em termos de gestão, entre FHC e Lula mostra coisa muito distinta. A PF, por exemplo, fez menos de 30 operações contra a corrupção nos oito anos de governo FHC; mais de 180 nos 3,5 de governo Lula. Os exemplos se espalham por todas as áreas do governo. Os caras deixaram o país ter uma crise energética e ainda cobraram a fatura dos consumidores. Falam agora que são eficazes. Os caras fizeram o maior endividamento público do Estado, para obter dividendos eleitorais. Agora falam que são bons gestores e responsáveis.
Na falta de argumentos concretos, exploram preconceitos contra Lula, estimulam o ódio de classes, espalham desinformação e se valem de uma imprensa corrupta no mais alto grau para confundir tudo. Reduzem o Estado a uma discussão moral sobre indivíduos. A corrupção é resultado da má-índole das pessoas. Nem tocam em questões institucionais. É nítido que, ao desfocar a discussão do seu aspecto central, querem restabelecer o momento anterior, quando a corrupção não aparecia aos olhos e, quando aparecia, era resolvida apenas para efeitos de imagem e como questão individual. Prendam os corruptos e a corrupção estará resolvida, é o máximo que defendem. E nem prender eles fizeram.
Alckmin é um retrocesso em todos os aspectos. Mas, para preservar a imagem de estadista, podia ao menos se poupar de usar expedientes nazistas. Quando a campanha começou, o PT achou que ia enfrentar a direita, com cara de social-democrata. Na verdade, enfrenta a extrema-direita, com cara de direita competente. Mas não é nenhuma coisa, nem outra. Nem direita, nem competente.

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