A essa hora, você já deve ter recebido os botões de rosa. E eles talvez já tenham, silenciosos, começado a abrir. Mire-os e não verá movimento. Mas o movimento existe, imperceptível e surdo. Eu o calculei. Estas flores desabrocham em meu nome, por ti.
Um passo após o outro, tenho tentado ser meticuloso, sem cometer erros. Tento usar minha sensibilidade do mundo feminino para trazer-te a mim. Tento dizer o que é indizível. Que, se quero crer que meu destino é te amar como homem, me entrego da forma como as mulheres se entregam ao amor. Tenho muito medo do medo.
E já me vejo enredado nestes laços, nestes planos, nesta vida futura que só vislumbro. Me encontro com saudades dos dias santos. E todo dia será santificado se eu estiver do teu lado. Mas, sabe, tenho medo quando as coisas caminham assim, tão calmamente, como se não tivessem outro rumo a seguir. Tudo bem, por enquanto. Tudo calmo, como se a calmaria antevisse um maremoto.
Minha vida afetiva tem sido atribulada. Não quero errar de novo. Por isso, tenho medo, mas não desisto. Uma flor tem sido meu projeto mais acalentado nestes dias em que vivo sob pressão.

(carta escrita em 1997, após enviar botões de rosa em vias de desabrochar)

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