Para Gi

Sabia voar. Claro que sabia voar. Nunca tinha saído do chão, mas quando se lançava no ar, de braços abertos, ficava sem tocar a terra por meio segundo. Nunca mais que isso. O problema era a falta de arranque. Com ele, planaria pelo céu azul.
Não precisava nem de testes, nem de cálculos, nem de métodos. Ela sentia, por dentro, que sabia voar. Sentia-se solta, planando no ar vez em quando. Tinha a estrutura dos pássaros, com ossos leves.
E como sabia bem tudo isso, vivia feliz. De tantos, o destino fizera dela um ser especial, dera a ela o dom de voar. Vivia os dias assim. Para que olhar para o lado, se preocupar com as coisas miúdas, problemas do dia? Para que pensar na casa, que, de tão pouco zelo, ficava cada dia mais desorganizada?
Sabia voar.
Para que pensar em toda gente que falava com ela, se ela nem ouvia, apenas percebia que falavam? Falavam o quê? O que importa?
Sabia voar.
Para que pensar nos amigos antigos que sumiam dia a dia, sem que ela soubesse por quê? Para que se preocupar se os amores, aventureiros, não tinham futuro?
Ela sabia voar.
Qualquer coisa, subia alto numa montanha, pulava e partia, batendo os braços. Os problemas ficariam no chão, pesados. Quem sabe voar não precisa se preocupar com o futuro. O futuro de quem sabe voar é voar. E é o chão que sustenta todos os problemas. O ar não.
Ficava a pensar nisso, pés no chão, mas a cabeça já voando. Ela percebia que estava longe, que via o mundo por cima. Nestas horas, sua certeza aumentava. E aumentou tanto que um dia começou planejar. A colina alta, o caminho íngreme, mas não teve dúvidas.
Num dia de sol, com pouco vento, pôs se a subir, a pé, pois quem voa não carrega pertences. Cansou, parou, tomou água, não quis comer para ficar mais leve, e continuou a subir. Subiu, subiu, subiu… O dia já findava quando atingiu o topo e encontrou o ponto perfeito para seu salto, para ganhar o impulso que faltava lá embaixo. Descansou um pouco, mas não quis perder tempo. O sol baixo já anunciava seu poente. Livrou-se, tal qual Diógenes, o filósofo, da cumbuca que trazia para beber água. Não sentia fome, pois confiava. Pássaros sempre têm o que comer.
Olhou o sol, mirou o lugar do impulso e planejou o que faria quando chegasse ao destino do vôo, mesmo que não soubesse onde era. Então, sem vacilar, correu e pulou, de braços abertos.
A 800 metros do chão, tentou planar, apenas esticando as mãos. Até achou que planava, mas, 100 metros abaixo, já sabia que continuava caindo.
A 700 metros, lembrou que os pássaros sempre batem as asas antes de planar e se pôs a bater os braços. Sentiu que voava, mas 100 metros depois, percebeu que não.
A 600 metros começou a pensar no que podia estar errado, pensou que o vento era pouco, mas não seria obstáculo. Quem já ouviu falar de pássaros que só voam em dias de ventania? Então lembrou das roupas, é claro. Qual alado usa roupas? Começou a se despir.
A 500 metros, tinha tirado a calça e o tênis. Já se sentiu mais leve.
A 400 metros, tirou as roupas de cima e se sentiu bem. Muito bem.
A 300 metros, voltou a bater os braços. Em vão. O cabelo longo lhe atrapalhava e a velocidade era muito alta, mais de 60 quilômetros por hora, pensou. Amarrou o cabelo, pois já não tinha nada com que prendê-lo.
A 200 metros, ainda sem voar, pensou que talvez estivesse errada. Talvez não pudesse voar e tivesse sido prudente trazer um pára-quedas. Mas não se assustou, pois tudo haveria de ter solução.
A 100, depois de pensar rápido, lembrou que o chão nunca tinha lhe feito mal. Convenceu-se que não seria agora, com ela tão leve, tão ela, tão confiante de si. Foi só por isso que a preocupação, leve e ligeira que passara pela sua cabeça, desvaneceu.
Então, sorrindo e nua, abriu os braços para carinhar o chão amigo.

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