Sento na cadeira, depois do banho, cabelo molhado e samba-canção de seda, e fico a pensar-te. Nesta hora em que o dia fica calmo, a mente já não se ocupa de afazeres tais que a distraem de ti. E volto, como sempre volto, a pensar em você. Não, assim, como uma imagem de santa, uma epifania. Mas como uma mulher sem matéria, sem cheiro, sem corpo, mas que sei existir. Por isso insisto.
E da tua imaterialidade nestes lugares por onde ando, vou tecendo história, planos, momentos, vida a mim legada e contigo dividida. Vou te imaginando em cada pequeno detalhe. Vou calculando suas reações.
– Será que ela gostaria?
– Será que ela riria?
– Será…
– Será…
E de “serás” vou vivendo ao teu lado.
Tudo isso, pela impossibilidade do beijo. Pois se o beijo fosse possível, então eu teria-te, mulher com corpo, cheiro e matéria. E se o beijo fosse negado, então partiria, assim, como quem parte sem corpo, sem cheiro, sem matéria.
O beijo é um passaporte, uma ponte, uma aliança. É, de certa forma, um consentimento aos exageros do amor. É uma garantia. O beijo é poder dizer, nos teus ouvidos, atrocidades como: “nunca mais te deixarei partir”.
Sem o beijo, ainda não há nada.
Todo o meu cortejo, as estratégias de conquista, as flores, as cartas, as palavras medidas ainda não atingiram o objetivo pensado. Até lá, vivo esta angústia. Até lá, planejo o momento do beijo possível. Cobiço tua boca delicada, tua voz nos meus ouvidos, tua mão na minha.

(carta escrita em 1997)

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