Quando eu estava no chão, ela riu. Só me levantei para cessar aquele riso. Mas ela continuava lá, com ar superior. Foi só por isso que sorri, com os dentes partidos. Ela olhou para mim:

– Caminha!

Obedeci, porque a ordem era um desafio ou porque me acostumei a me mover pelas palavras dela. Virei as costas, não olhei para trás, mas… como senti vontade! Então fui curar as feridas, não porque quisesse. Por mim, ficava ali, sem nada fazer, entregue. Vi no rosto dela certa felicidade de me ver cheio de hematomas. Ela achou engraçado meu sorriso torto, meu rosto inchado. Mas eu vi como a incomodou que eu risse. Foi só por isso que sorri.
Um dia, refeito, eu a encontrei, na rua, mais humana, mais comum, igual a mim. Ela me viu. Ficou assustada. Eu ali inteiro, eu que tinha apanhado tanto, não haveria de ter esquecido. E não esqueci. Meio sem jeito, ela tentou fingir que não tinha me visto. Cheguei perto, armei meu melhor sorriso.

– Bom dia. Tudo bem com você?

Ela respondeu sem jeito, com entusiasmo forçado:

– Sim… E você?

Esperei tanto para dizer isso, para me vingar. Não tive dó:

– Huuum… Estou muito feliz.

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