Prá ser sincero, o dia ainda nem virou. E como são estranhas as horas da madrugada! Em verdade, agora é um outro mundo. Não há ninguém nas ruas, a vida está estacionada. Mesmo quando as pessoas estão acordadas e juntas, não são as mesmas pessoas. A madrugada recria o mundo; o breu mistura-se magicamente aos outros elementos para extrair deles sua segunda face, mais solitária e humana.
A solidão é, aparentemente, um mundo sem dor porque o outro não existe. E toda angústia provém do alheio, aliás como todo o resto. Deveria ser só eu, sem ar, sem sangue, sem dor, mas trago o outro dentro de mim.
Tua voz é a que berra e ecoa em meu peito agora e reproduz-me este fantasma madrugueiro. A falta de sono me afasta da cama; você aniquila de vez qualquer perspectiva de repouso.
Deixa-me dormir. Amanhã, o movimento dos dias ensolarados e ocupados me trará de volta o mundo dos outros. A rotina, a fumaça, as vozes, os carros e as buzinas poderão então abafar sua voz e me permitir seguir como se você fosse nada. Ou quase.
Não posso viver por você o tempo todo, dias, noites e madrugadas. Você não quer que eu viva em tempo algum. Posso tentar te matar, te fazer passado. Ao menos por uma noite, ao menos para poder dormir. Mas não sei se consigo.
Por favor, deixe-me o sono, pois o sonho já é teu.
Boa noite, sereia!

(Carta escrita em 27/11/1995, às 2:40 hs)

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