Matrix é uma fábula sobre a irrealidade cotidiana, um mundo que aparenta uma verdade natural que, no entanto, oculta a concretude da opressão de humanos por máquinas. Matrix não existe. É só cinema, mas é uma fábula e, como tal, fala, a seu modo fabuloso, dos dias, das horas, do cotidiano da vida não-fabulosa. Matrix segue a linha de Descartes e a dúvida hiperbólica e de Marx e a ilusão ideológica.
Nada é mais insidioso e cegante que naturalizar a história. As meninas cegas fazem isso. Concordo plenamente com minha argüidora anônima do texto anterior (Ensinem as meninas) que é difícil fazer uma análise profunda estando na pele de um homem, mas discordo que tenha culpado as mulheres pelo machismo.
Meu ponto de vista, que talvez não tenha ficado claro, é que o processo histórico que produz o machismo em homens e mulheres se naturaliza de formas diferentes em cada um. Para os homens, parece natural ser machista. Há um cinismo biológico que defende a poligamia como conseqüência natural da imensa quantidade de espermas que um homem produz. Milhões de espermas conduzem os homens a, naturalmente, buscar várias parceiras, por que estão aptos a fecundar diversas fêmeas. Já a mulher produz apenas um óvulo por mês. Logo, é feita para apenas um parceiro. É uma justificativa machista para condenar a poliandria. Besteira deslavada, evidentemente, como boa parte das tentativas de biologização da cultura.
Homens são poligâmicos e machistas por que lhes é ensinado, desde pequenos, serem assim. Mulheres são educadas para a monogamia. Os festejos de um e outro antes do casamento indicam isso claramente. A mulher faz chás de panela, prepara-se para a vida a dois. O homem faz despedidas de solteiro, uma saída em grande estilo da vida de caçador. Uma olha o futuro; outro, o passado. Ambos reproduzem um padrão de relacionamento entre homens e mulheres que é machista. A despedida de solteiro é machista, mas a aceitação do papel de rainha do lar também é.
Na mulher, a naturalização de tal machismo se dá pela negação de sua existência. As meninas são educadas, como escrevi antes, para não ver. As reações ao meu texto, exceto a quarta, são sintomas disso. O ataque ao machismo das mulheres é tomado como, ele próprio, machismo, o que pode ser. Mas isso não exclui que a reação seja, também, a confirmação da negação de ver: mulheres são machistas.
Tanto pior quando são o elemento fundamental da educação dos filhos nos primeiros anos de vida e repetem cegamente a formação para um padrão machista de relacionamento. Elas dão bonequinhas e fogõezinhos para suas filhas e carrinhos e bolas para os sues filhos ou aceitam isso como natural.Ninguém tem mais ou menos culpa. Mas uma diferença é fundamental. O machismo dos homens é evidente, está posto, é um inimigo a bater. É um inimigo para mim mesmo, que tento enxergar suas manifestações para combatê-lo dentro de mim, já que fui educado para ser macho, caçador, conquistador. E nem cheguei a ganhar carrinho e bola quando era criança, pois perdi o pai aos 3 anos de idade.
O machismo das mulheres, tanto pior, é um inimigo oculto, que se esconde e, neste momento, é mais perigoso. É verdade que esta prosa é recente. Data dos anos 60, dos movimentos de mulheres que vinham no bojo da contracultura. Mas estes mesmos movimentos sempre tiveram a premência de atuar em duas frentes: ganhar os aliados e combater os inimigos. Ou seja, por um lado convencer as mulheres sobre a seu direito à igualdade; por outro, disputar com os homens os direitos das mulheres. Deste processo, surge, por exemplo, uma legislação que condena e cria mecanismos para combater a violência doméstica contra a mulher.
O machismo das mulheres se manifesta de diversas formas, naturalizadas, evidentemente. Uma delas, é o comportamento de quem espera no jogo da conquista, que era o que queria apontar no outro texto. As meninas cegas acham que é assim, que é natural, que comandam o jogo por que escolhem. Mas não entendem que quando o homem consegue beijos ou sexo da mulher, ele ainda não está conquistado. Ele ainda não a escolheu. Mas, para ela, normalmente a conquista está feita. Muito mais as mulheres que os homens esperam a ligação no dia seguinte. Nem sempre é assim, mas é assim na maior parte dos casos.
Vejo tudo isso para escolher, para viver conforme os princípios nos quais acredito e que, muitas vezes, não são os mesmos que aprendi desde pequeno. Evito as mulheres machistas, da mesma forma como sou totalmente inábil para a conquista noturna de fêmeas estranhas. Sempre senti, desde a adolescência, a pressão para ser macho, o que é uma violência simbólica muitas vezes. Há uma música da Plebe Rude que sintetiza esta pressão na noite. Chama-se Johnny vai à guerra:

Johnny vai à guerra outra vez
diversão que ele conhece bem
Johnny vai à guerra outra vezenquanto que a trégua não vem (não vem…)
Você os ouve? Estão lá fora!
Você os vê? Estão lá fora!
Seus aliados, estão lá fora!
Contra você!
E a trégua quanto tempo que eu espero
E a trégua quanto tempo, não vem (não vem…)
Agora a noite terminououtra batalha foi ganha
Mas ainda restam outras guerras
outros fins de semana
Mas ainda restam outras guerras
outros fins de semana
outros fins de semana, outra batalha,
outros fins de semana,
outros fins de semana
Nunca!

Para mim, seria muito bom viver num mundo menos machista, por que não quero ser medido pelas vitórias neste campo de batalha. Não quero esta guerra. Não acredito nela. Mas faço minha parte ao tentar fazer que as meninas cegas vejam. São as mulheres, sobretudo, que devem entender as questões de gênero. Afinal, são elas que precisam que as coisas mudem, não os homens.
As meninas cegas me vêem como alguém que está do outro lado, mas sou um espião que conta o que os homens dizem quando as mulheres não estão ouvindo. Se me vêem como quem compartilha destas posições, é pena. Machista sou, como sou preconceituoso. Mas sou cada vez menos quanto mais tenho clareza desta condição cultural da qual não escapo. Pena que as meninas cegas só vejam machismo em mim. Só eu estou atado à cultura do meu tempo.

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