Sei que é verdade: quando cheguei ali não havia cidade alguma. Apenas tigres. Brancos, pretos, laranjas. Sempre os via, caminhando devagar. Nunca corriam, mas também não eram vistos por ninguém, além de mim. Ali, na beira do lago onde os tigres bebiam água, construímos nossa casinha. Trabalhava de sol a sol, com os tigres passeando. Mais de uma vez, jurei que sorriam. E vivemos, dois ou três anos, em paz, nós, os predadores, e os tigres. Vivemos felizes.
Um dia, tudo começou, do nada. Aninha chegou em casa, machucada, com um arranhão. Jurou que tinha caído num arbusto. Desconfiei. Os arranhões eram ferimentos de tigre, tinha certeza. Saí na mesma tarde, para acertar contas. Nenhum felino apareceu. Dormi aquela noite furioso. Vivíamos em paz. Eles não podiam fazer isso.
Acordei cedo. Ana estranhou, mas acordou para me fazer o café. Não disse nada. Não falei também. Só quando peguei a foice ela perguntou onde iria. Nada respondi e saí. Fui caçar tigres. Andei quilômetros, mas nada. Voltei no fim do dia, cansado. Aninha quis saber onde fui. Nada respondi.
Naquele verão, nossos primeiros vizinhos mudaram para perto de nós. Bem que alertei: “cuidado com os tigres”.
– Tigres?
É… Os tigres tinham ferido a Aninha e ido embora, expliquei. Mas podiam voltar. Meus vizinhos não me levaram a sério. Tocaram a vida, plantando e colhendo, de sol a sol.
Passaram-se meses, sem ver nenhum tigre. Foi no inverno quando encontrei o primeiro urso, preto, imenso. Num dia de sol, ele passou calmo, ao longe, e foi beber água no lago. Comecei a me aproximar dele. Até que bebi água a menos de dois metros do urso. Ele então me olhou e, sem nenhum assombro, virou e foi embora, saciada a sede.
Em casa, nada contei. Nos dias seguintes, eles apareciam em bandos: pretos, brancos, marrons e até um preto e branco. Caminhavam devagar, até o lago, bebiam água e partiam. E só. Me acostumei e mantive o segredo. Apenas cuidava para Aninha não se afastar demais da casa.
Um dia, Ana apareceu com um enorme ferimento na perna. Contou sobre o tombo, descuidada. Repliquei que aquilo era uma pataca de urso. Fui até a cidade, comprei uma arma e voltei. O dono da loja estranhou. Disse não haver animais perto do lago para um calibre tão grosso. Pensei em como era ingênuo.
Em casa, Ana tentou me impedir de sair, de noite, sozinho. Em vão. Quase meia-noite, passei pelo vizinho e avisei sobre os ursos. Eles se espantaram, com o era previsível. Talvez comigo; talvez com os ursos. Rodei a noite toda, com uma lamparina, mas nada de ursos. Concluí que eles sabiam, sabiam muito bem que tinham feito algo errado, os urso malditos e os tigres canalhas. Voltei de manhã e dormi, por duas horas.
Quando acordei, Ana tinha partido com Aninha. Os vizinhos não viram nada. Nem Ana, nem Aninha, nem tigres, nem ursos. Não chorei. Apenas botei o pé na estrada. Dois quilômetros depois, vi as malas das duas, com as roupas rasgadas e espalhadas pelo chão.
Temi o pior e me embrenhei no mato. Andei, me arranhei nos arbustos, escorreguei e machuquei a perna. Corri tanto, cansei e, por fim, exausto, caí desmaiado. Era noite quando acordei. Ouvi vozes antes de abrir os olhos. Na penumbra, pude ver vultos humanos. Eram os vizinhos e outros homens da cidade. Com eles, Ana e Aninha. Assustados, ninguém se aproximava. À minha volta, ursos e tigres me protegiam. Do meu lado, o urso preto e branco.
Tentei explicar, mas todo arranhado e com pancadas pelo corpo, não tiveram dúvida: eu era a presa dos animais. Gritaram para que eu atirasse. Não atirei. Quando os ursos e tigres começaram a se retirar, segui com eles, até a beira do lago, onde lavei as feridas e voltei para casa, sob olhares impressionados. Os tigres partiram; os ursos também. Caminhavam devagar.
Desde então, o lugar não parou de crescer. Com a história fantástica de um lago com tigres e ursos dóceis, veio gente de todos os lugares, assustando os animais. Aos poucos, foram sumindo. No verão, foram os ursos brancos, depois o tigres brancos. No outono, foram-se os tigres negros e os ursos marrons. E, no inverno, partiram os tigres amarelos e os ursos pretos. Só o urso preto e branco ficou para a primavera triste que nos restou, escondido no quintal de casa, que dá para o lago. Todo dia, ele brinca com Aninha.
Desde que essa gente veio para cá, todo dia eu olho para a cidade na beira do lago, sinto remorso e choro de saudades dos ursos e dos tigres.

15 de agosto de 2005

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