Cada um de nós tem lá seus pequenos projetos. Coisinhas miúdas, talvez afazeres do dia-a-dia, pequenos planos que completam, de alguma forma, nossa vida. Temos grandes projetos, mas não vivemos só em função deles.
Regar uma flor para vê-la crescer, desabrochar e morrer (por que temos que amar o ocaso das coisas também). Plantar uma árvore, ganhar um beijo de manhã, ouvir “obrigado” de alguém especial. Arrumar a casa.
E quem vai nos impedir?
Há um amigo meu cheio de grandes projetos: ser pai, terminar a tese de mestrado, manter o casamento dele, ser professor na UFPR. Mas, mesmo deste tanto que se há para fazer e para se preocupar, ele cuida também de sempre levar um livro interessante de presente para um sobrinho que mora em Minas. Um pequeno projeto: produzir um leitor, criar o gosto pela leitura, incentivar o amor pelas palavras.
Um dia eu sonhei milhares de pequenos projetos com você. Te dar presentes no Natal, ler poemas de Camões para você, ler trechos de O pequeno príncipe, viajar contigo, te escrever cartas e mais cartas, te levar para ir me ver jogar futebol, ir te ver jogar handball, andar de bicicleta contigo, ir ao cinema ver Grandes esperanças. Servir seu chá antes de você dormir e arrumar a meia no seu pé, para você não passar frio.
Tudo em vão.
Mas se um dia você estiver por aí, sem ter no que pensar, e lembrar de mim… e se um dia você ficar pensando naquilo que nunca foi, mas poderia ter sido… e se um dia você tiver a curiosidade de saber como eu te via (e vejo)… saiba: você foi, e por não-sei-quanto-tempo ainda será, a origem e a meta dos meus pequenos projetos mais importantes.

(Carta escrita em 28 de junho de 1998)

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