A imprensa está furiosa. Depois de tanto, de “informar” sobre os crimes e delitos dos congressistas e, sobretudo, do PT, as absolvições no plenário da Câmara não cessam. Já são quase treze, número emblemático. Os deputados cederam às pressões da mídia, quando reduziram seus pagamentos e os dias de recesso. Depois, fizeram ouvidos de mercador aos ataques da imprensa, que não cansou de chamar de pizza o resultado das votações dos processos de cassação.
É verdade que há algo de estranho na nossa democracia. Por um lado, os parlamentares não representam seus eleitores, pois o sistema, nominal, de eleição produz votos por amizade, por conhecimento, por várias razões, mas quase nunca por que o sujeito em quem se vota representa posições que o eleitor gostaria de ver representados no Congresso. Efetivamente, nosso parlamento reflete o grau de amadurecimento político do país, mas os parlamentares, neste modelo de financiamento e eleição, representam, quase sempre, quem os financia, não quem os elege, em última instância.
O segundo aspecto canhestro da nossa democracia é a presença de meios de comunicação poderosos, que não se subordinam a nada e que agem sem nenhum freio legal que os responsabilize por seus atos. Aliás, como em qualquer democracia: liberdade de dizer, com responsabilidade pelo que é dito.
Há um sistema corrupto, que envolve congresso e meios de comunicação, propriedade, em grande parte, de poucos conglomerados aliados a bancadas poderosas. Nestas bancadas, estão alguns dos mais canalhas dos congressistas, fiéis representantes dos interesses dos conglomerados de comunicação. Sem tal representação, não seria possível barrar qualquer tentativa de regulamentar a área. Não teria sido possível inventar a TV a cabo elitista que temos no Brasil. Não seria possível deixar a lei da radiodifusão comunitária ser influenciada integralmente pela ABERT (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV). Não seria possível matar projetos de menor impacto, como a Lei de Imprensa, a criação do Conselho Federal de Jornalismo e da Ancinav (Agência Nacional de Cinema e Audiovisual).
Quando a imprensa pede à população que vote com consciência, faz um discurso bonito e inócuo. Quando exige punição a tudo e todos, defende uma devassa sem regras, justiça imediata, mesmo que não seja justa. Faz um jogo de fumaça que oculta muito e mostra quase nada. Os meios não querem nenhum poder do povo sobre o parlamento, nenhum poder efetivo. E, no sistema de eleição atual, não podem também influenciar eleições proporcionais da forma como influenciam as majoritárias. Grandes jornais, como Folha e Estadão, com tiragens pífias para um país de 150 milhões de pessoas, enfrentam uma concorrência desigual com as relações muito mais próximas que os parlamentares mantêm com seus eleitores.
Apenas os melhores parlamentares, eleitos pelos eleitores mais críticos, sofrem pesadamente a interferência da imprensa. Ou seja, apenas os melhores pagam o pato e podem não voltar, por conta dos apelos dos senhores da opinião pública. Severino não é afetado. Renunciar é um bom negócio. Os renunciantes sempre voltam, pelas “mãos do povo”, como Jader Barbalho e ACM. Diz a letra de “300 picaretas”, do Paralamas: “Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição”. A mais pura verdade. E, da indignação, esperem e vejam, nascerá um Congresso pior e mais corrupto que o anterior. Mais corrupto e também mais propenso a defender os interesses dos empresários da comunicação.
A imprensa vai sair assim: para a platéia, foi viril e enérgica na defesa da honestidade. Mas sua ação é inócua, exceto contra os parlamentares que tem ligação com a sociedade civil organizada, que escolhe seus representantes de maneira mais autônoma. Ficam com a fama e limpam do Congresso os parlamentares mais comprometidos com a população.
A imprensa só vai afetar, de maneira profunda, a escolha dos deputados quando ela for feita como é na maior parte do mundo: por voto em lista fechada e com regras claras de financiamento. A rejeição a partidos será elemento preponderante. Se os meios quisessem mesmo melhorar o congresso, defenderiam um sistema melhor, mais eficaz, onde os partidos respondam por seus atos e onde as crises abalem mesmo as bancadas. Mas não. Apenas atacam o que acusam de ser as pizzas do Congresso, não distinguindo cassações justas de injustas ou absolvições justas ou injustas. Depois apelam por um voto mais consciente, como se o problema fosse a população ignorante mesmo.
Nada muda; nada precisa mudar. Que fique assim, pois assim tem sido útil. Um Congresso honesto já teria feito algo para regular a área menos regulada do capitalismo brasileiro: os meios de comunicação. O ataque à pizza é cínico e falso. O compromisso da imprensa brasileira não é com a democracia, mas com a credibilidade junto aos receptores, mesmo baseada em mentiras.
A imprensa age como Iago, personagem de Shakespeare: aparenta algo que não é, enquanto trama na surdina. É corrupta. Alimenta e se escorra numa democracia corrupta. Às escuras, como Iago, defende tal sistema, enquanto defende, para a platéia, ações que não mudam nada.

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