É provável que José Janene (PP-PR) seja absolvido da acusação de recebimento de dinheiro do valerioduto. É possível também que não. Vários aspectos particularizam o caso, seja o montante dos recursos, seja o fato de Janene estar, provavelmente encerrando a carreira, seja a fuga incessante do julgamento na Câmara. Mas, mesmo com tudo isso, há uma grande chance do pepista salvar o restinho de mandato e os direitos políticos.
Janene é um caso apenas de um processo que tem significado relevante para entender os meios de comunicação, seus poderes e suas estratégias no jogo político no Brasil. Há um descolamento entre o que fazem os deputados e os ataques da imprensa. É como se fossem mundos alheios.
Da mesma forma, Lula resiste aos ataques e segue, diante da crise político-midiática mais aguda da história da República, na liderança das pesquisas de intenção de votos e com um governo com avaliação muito positiva. A resistência de Lula, que nunca baixou de 30% de intenção de votos, mesmo nos piores momentos, foi a primeira pista: a mídia se descolou da opinião pública, que ela alega representar.
Os advogados da coisa, como diria Adorno, correriam alegar que é assim por que a população é autônoma nas suas decisões, que não é influenciada. Correriam usar o dado como forma de lavar as mãos da imprensa. Alegariam que os meios de comunicação não têm o poder de conduzir a população. Logo, nada do que façam pode ser nocivo, pois a ação final cabe, autonomamente, às pessoas. Esperto, mas falso.
Não é conhecimento secreto, está nos estudos americanos dos anos 60 e nos trabalhos de comunicação política de hoje: os meios de comunicação são mais eficazes em canalizar a atenção da população e predisposições do que em mudar opiniões e comportamentos.
Há sempre idiotas de plantão que não entendem por que as campanhas pelo uso de camisinha não produzem o efeito desejado e tantos ainda transam sem “proteção”. Não faz sentido se é tão razoável e lógico proteger a própria vida. Não falta informação, não há campanha contra o uso de camisinha. Por que, então, não é prática generalizada e leva tanto tempo para as pessoas aderirem?
Exatamente por que os meios têm poder, sim, mas um poder relativo, que se confronta com convicções e comportamentos arraigados, com a desconfiança da população sobre o jornalismo, com a seletividade da recepção, etc. Assim, a imprensa e o povo que ela sempre alega representar dialogam. Os receptores não são uma massa, conduzida pela mídia. Mas também não são os senhores dos meios, que apenas refletem a opinião do povo.
A imprensa no Brasil sempre se deu bem quando conduziu movimentos sociais com a receptividade na população, seja da fatia organizada na sociedade civil, seja da fatia sem relações orgânicas com entidades de representação política.
Assim foi no caso Collor, quando sociedade civil e imprensa caminharam juntos. Além disso, as convicções políticas dos “descamisados” que elegeram Fernando não eram tão sólidas assim, mas o resultado, sobretudo, de uma crença rasa, convicção produzida pelo marketing político.
Bem disse Aécio Neves, no início da crise: Lula não é Collor. Agora, isso está evidente. Os deputados perceberam que os jornais, telejornais e radiojornais não têm o poder de desalojá-los do Congresso. Ou, se têm, é um poder relativo. Eles voltarão na próxima legislatura, beneficiados por uma legislação que personaliza o voto. Se não voltarem, poucos serão os que estarão fora por efeito da campanha midiática. O PT, sim, como partido, será afetado. No PT, cola como ataque a todos do partido as ações de seus integrantes. Em outros partidos, não. São agremiações de indivíduos. A imprensa pode queimar um ou outro deputado. Pode fustigar o Congresso como instituição, mas não pode prejudicar os tantos que vivem na sombra, para quem, vamos e venhamos, pouco importam os apelos dos senhores da mídia para que “votem com consciência”. Lá no rincão onde Janene tem votos, 3 ou 4% da população ainda vota nele, não acredita ou não concorda ou não sabe o que diz a imprensa. Isso basta para que ele seja reeleito e para que a opinião publicada na imprensa não seja tão relevante. Para muitos, é assim.
Janene tem chance. A imprensa cassou Jeferson, assim com cassou Dirceu, contra quem não havia provas, como há contra Janene, mas não tem o mesmo poder sobre o pepista. Além disso, errou na dose, no tom, na avaliação de seu poder. Perdeu o bonde e vai ter que reencontrá-lo para se reinserir no processo eleitoral. Vai ter que recuar, para continuar exercendo seu poder, que é imenso, mas tem seus limites. Vão ter que tirar a máscara de irritação contra o Congresso, cuja parte mais suja sempre apoiou os empresários da área de comunicação. Vão ter que perder o tom afetado quando avaliam que a população é ignorante por não ouvi-la.
Afinal, os otários, no caso, são o público. E o público pode desligar a TV.

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